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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
Propomos, neste artigo, uma definição da arquitetura vernacular a partir da exposição de algumas de suas características essenciais. De certa forma polêmico, o termo “vernacular” demanda ponderações e delimitações quando aplicado à arquitetura.

english
We propose, with this article, a definition of vernacular architecture based on the exposition of some of its essential characteristics. Being somehow polemic, the term “vernacular” demands judiciousness and delimitations when applied to architecture.

español
Proponemos, en este artículo, una definición de la arquitectura vernácula a partir de la exposición de algunas de sus características esenciales. Polémica, la expresión vernáculo demanda consideraciones y limitaciones cuando se aplica a la arquitectura.


how to quote

TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. Arquitetura vernacular. Em busca de uma definição. Arquitextos, São Paulo, ano 17, n. 201.01, Vitruvius, fev. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.201/6431>.

Casario colonial, Brasil
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Neste artigo, discorremos sobre o significado do termo “arquitetura vernácula” ou “vernacular”, com o intuito de propor uma definição, focando especialmente num tipo de arquitetura, a habitacional, uma vez que ela é particularmente adequada para essa discussão. Assunto de certa forma polêmico, podemos, no entanto, esboçar algumas de suas características essenciais, mais ou menos conhecidas e aceitas, para tentarmos defini-la. Esperamos, assim, trazer alguma contribuição ao debate que, ao que parece, ainda não está fechado. Embora haja quem discorde do uso do termo “vernáculo” ou “vernacular” na língua portuguesa para esse tipo de arquitetura, propondo em seu lugar o vocábulo “popular” (1) – o que, aliás, representa mais um elemento da polêmica em torno do assunto – o “vernacular” é um termo consagrado, por isso será mantido na presente discussão.

Inicialmente, queremos tomar emprestado a distinção teórica entre arquitetura primitiva e arquitetura vernacular, estabelecida por Amos Rapoport, em seu clássico e celebrado livro House form and culture (2). Essa distinção foi resumida por Marcia Sant’anna nos seguintes termos:

“O autor distingue dois tipos de arquitetura produzidos pelas sociedades em causa: a primitiva e a vernacular, esta última englobando uma vertente “pré-industrial” e uma “moderna”. A primitiva se refere à arquitetura das sociedades “tecnológica e economicamente pouco desenvolvidas”, mas correspondendo ao “uso da inteligência, da habilidade e dos recursos desses povos em toda sua extensão”. São sociedades sem grande grau de especialização e orientadas pela tradição, onde impera a relação próxima entre forma e cultura e a longa persistência dessas formas. O conhecimento necessário à construção de moradias nesse contexto é comum a todos os membros do grupo. As edificações vernaculares pré-industriais se distinguiriam das primitivas pela existência da figura do “construtor”. Neste contexto, a “forma aceita”, ou modelo, permanece e o processo de construção é baseado em ajustes ou variações, havendo, portanto, mais variabilidade individual. As sociedades que produzem esta arquitetura seriam “voltadas para a tradição” e as mudanças ocorreriam no marco de uma herança comum e de uma hierarquia de valores que se reflete nos tipos construídos” (3).

Mucambo, Brasil
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Embora haja superposições entre o “primitivo” e o “vernáculo”, a distinção nos parece suficientemente clara e, portanto, útil, ainda que haja certa dificuldade de estabelecermos limites muito precisos entre as duas. Seja como for, a superposição entre a chamada arquitetura primitiva e a arquitetura vernacular é apenas uma das dificuldades na definição desta última. Paul Oliver reconhece que o termo “arquitetura vernacular” é mais fácil exemplificar do que definir. Por isso, após fornecer vários exemplos em diferentes partes do mundo sobre tipos e variedades da arquitetura vernacular, ele faz a seguinte ponderação na busca de uma definição:

“O erro pode estar em tomar a visão formal, material ou estrutural das formas construídas de várias sociedades e classificá-las de acordo com o seu grau de permanência, tecnologia e forma. É melhor, acredito, considerar esses aspectos da arquitetura das culturas no contexto de seu meio e, essencialmente, em relação com sua capacidade de atender aos valores e necessidades das sociedades que as construíram” (4).

Seja como for, passamos agora a discutir as características essenciais da chamada arquitetura vernácula ou vernacular, para, no final, esboçarmos uma definição. Começamos com um dos seus principais atributos, isto é, a sua permanência no tempo, a sua tradição. Tema vasto e objeto de outras áreas de conhecimento como a antropologia (5), a tradição é discutida aqui especificamente no âmbito da arquitetura, foco central deste artigo. Assim, João Stroeter define a tradição em arquitetura como "um conjunto de precedentes conhecidos e de uso consagrado, parcialmente repetidos, parcialmente modificados, dos quais o arquiteto se utiliza quando projeta um edifício” (6). A definição de Stroeter sobre o que é a tradição, em arquitetura, só não se aplica de forma integral à arquitetura vernacular pela existência formal do arquiteto, como veremos adiante.

Hassan Fathy também discorreu sobre o papel da tradição na arquitetura:

“A arquitetura ainda é uma das artes mais tradicionais. Um trabalho de arquitetura é feito para ser utilizado, sua forma é em grande parte determinada pelos seus antecedentes [...] o arquiteto deveria respeitar a obra de seus antecessores e a sensibilidade das pessoas não usando sua arquitetura como um meio de propaganda pessoal. Na verdade, nenhum arquiteto pode deixar de utilizar o trabalho dos arquitetos que o precederam; por mais que ele se esforce para ser original, a maior parte de seu trabalho existe em alguma tradição [...] os homens levaram um tempo enorme para chegarem, por exemplo, ao tamanho certo de uma janela dentro de várias tradições arquitetônicas” (7).

Casa em Arkansas, Estados Unidos
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

As afirmações de João Stroeter e Hassan Fathy apontam para o fato de que a tradição pode existir na arquitetura de um modo geral, inclusive a convencional ou erudita, isto é, aquela produzida pelo arquiteto no sentido formal da palavra. Com efeito, em que pesem as grandes inovações, especialmente tecnológicas, as necessidades básicas essenciais que a arquitetura deve atender, em particular quando se trata da habitação, não mudaram tanto quanto pode se imaginar à primeira vista: as necessidades humanas de abrigo contra as intempéries e de autopreservação, por exemplo, e mesmo outras que nos parecem tão modernas e atuais, como as de conforto e privacidade, estiveram presentes há séculos no ato de se construir casas (8). Igualmente, as soluções apresentadas evoluíram muito lentamente ao longo do tempo. Mesmo em termos formais, a habitação, como a arquitetura em geral, sempre se limitou historicamente a algumas configurações geométricas básicas em planta e em volume, como o retângulo, o quadrado, o círculo, ainda que às vezes travestidas de invólucros aparentemente inusitados, que descaracterizam visualmente essas formas básicas. Somente em época muito recente, graças aos avanços tecnológicos, ao uso da informática e ao desenvolvimento de materiais e técnicas construtivas novas e cálculos avançados, a arquitetura consegue se expressar segundo formas altamente inovadoras, em alguns casos parecendo se libertar de imposições naturais, como a da gravidade (9). Contudo, essas manifestações formais são típicas de obras excepcionais, e precisamente por isso, nem de longe representam o conjunto do ambiente construído na cidade e no campo, em particular na área da habitação. Portanto, a tradição pode ser atribuída também à arquitetura convencional, feita por arquitetos formais. Afinal, “em arquitetura nada se cria, tudo se copia”, como se costuma dizer jocosa e exageradamente nos meios acadêmicos.

Isto posto, a tradição por si só não é suficiente para garantir que uma arquitetura seja classificada como vernacular, pois são necessários outros atributos para definir e sobretudo distinguir este tipo de arquitetura dos demais, como veremos ao longo deste artigo. Contudo, o contrário é verdadeiro, isto é, toda arquitetura vernacular é intrinsecamente tradicional, isto é, a forma arquitetônica de um determinado povo surge e se desenvolve como resultado de um longo contínuo no tempo, às vezes durante séculos de história humana, sempre a partir de formas familiares, consagradas por gerações anteriores. Esta é a característica principal da arquitetura vernacular.

Como dissemos, ambos, João Stroeter e Hassan Fathy, mencionam a figura do arquiteto formal. Pelo menos como o entendemos hoje, o profissional de arquitetura inexiste na arquitetura vernacular. Mas aqui inicia a segunda característica importante, pois ela prescinde tanto do projeto arquitetônico como do seu projetista, ou seja, o arquiteto. Trata-se de uma arquitetura sem arquitetos. Como diria Elvan Silva:

“O abrigo‚ produzido pelo próprio usuário, geralmente reproduzindo um estereótipo ou modelo concreto, sugerido ou imposto pela tradição. Não existe a figura do construtor profissional, nem o conceito abstrato de arquitetura como forma de conhecimento; neste contexto, o projeto é totalmente dispensável e inconcebível” (10).

Casa Tataouine, Tunísia
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Se nos atermos à distinção que fez Amos Rapoport entre arquitetura “primitiva” e “vernacular”, a afirmação de Elvan Silva parece se adequar melhor à primeira, uma vez que ele exclui as noções de arquitetura como concepção abstrata e do construtor profissional, noções que se aplicam inteiramente somente à arquitetura não-vernacular, convencional. Seja como for, tanto a arquitetura primitiva quanto a vernacular permitem certa superposição, como dissemos.

Historicamente fundamental, a concepção ou classificação estilística para a arquitetura parece ter perdido seu sentido a partir do advento da arquitetura Moderna, na primeira metade do século 20. Segundo Anatole Kopp, os principais proponentes desta última rejeitaram a noção de estilo para a nova arquitetura que surgia (11), e o termo tem, desde então, caído em certo desuso quando aplicado não somente à arquitetura Moderna, mas também à atual, Contemporânea, pelo menos no meio acadêmico e profissional (12). Em se tratando da arquitetura vernacular, porém, a noção de estilo sempre careceu de sentido. Nela, sempre prevaleceram as necessidades funcionais da habitação, entendidas como as carências básicas de sobrevivência e alto-preservação humanas: repousar, alimentar-se, reproduzir, proteger-se, socializar-se, entre outras. Ainda que na busca da solução haja alguma intenção plástica, esta ocupa um lugar em geral menos relevante do que a função básica do abrigo e as demais funções que dela decorrem. Evidentemente, estamos lidando neste artigo com um conceito – o de arquitetura vernacular – e não com comunidades concretas e específicas, para as quais a estética – normalmente associada a determinadas significações e símbolos culturais pertencentes ao grupo – pode ter maior ou menor incidência na forma da habitação, segundo cada caso específico. Ademais, há quem defenda que a estética também pode ser entendida como uma necessidade funcional (13). Este postulado, se aceito, reforçaria ainda mais o argumento segundo o qual são as necessidades funcionais – nas quais se incluem as de natureza estética – que condicionam fortemente a forma da habitação.

A ausência de estilo no sentido formal do termo, tal qual aprendido nas escolas de arquitetura, por sua vez, faz com que a arquitetura vernacular seja quase sempre rural, "porque a erudita, com seus estilos e modismos, instala-se inicialmente nas cidades” (14). De fato, a arquitetura vernacular é essencialmente de origem rural. Na cidade, ela está bastante sujeita às influências que são mais frequentes no meio urbano, as quais resultam principalmente dos meios de comunicação ali mais desenvolvidos, dos avanços tecnológicos, de um modo de pensar e agir mais "moderno", ocidental. A arquitetura vernacular localizada próxima ou na periferia das cidades revela essa ambiguidade de influências rural e urbana. Construída pelos seus moradores, quase sempre de origem rural, ela guarda todas ou quase todas as características rurais, de natureza vernacular. Com o tempo, como resultado da própria mudança cultural daqueles que nela habitam, a moradia, em suas características físico-espaciais, também muda. Ela tenta então se "modernizar", se "urbanizar", recebendo assim influências estilísticas, entre outras. O resultado desta ambiguidade rural-urbana, entretanto, é a formação de um tipo híbrido, nem rural, nem urbano, mas uma espécie de meio termo entre os dois.

Casa dos Ndebele, África do Sul
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Uma das características mais interessantes e louváveis da chamada arquitetura vernacular é o respeito às condições locais. É talvez aqui também onde ela tem mais o que ensinar à arquitetura convencional, produzida pelos arquitetos. A arquitetura vernacular se destaca pela grande sensibilidade às condições locais do meio geográfico onde se situa, tais como o clima, a vegetação, o solo e suas características topográficas.

A arquitetura vernacular é normalmente produzida por povos que dispõem de um nível tecnológico bem menos avançado do que o da sociedade "moderna" (conceito que é, aliás, relativo, pois também aqueles povos, à sua maneira, o são), nível este que inclui não só os aspectos especificamente construtivos, mas também os referentes aos transportes, comunicação, etc. Por este motivo, essa arquitetura será essencialmente o resultado do que oferece o meio físico-geográfico local. Se esse aspecto se aplica à arquitetura vernácula, ele parece ser mais evidente ainda na arquitetura primitiva, para usar a feliz distinção de Amos Rapoport. É por isso que Gilberto Freyre, quando escreveu sobre o mucambo – um exemplo típico dessa última arquitetura, pelo menos em sua versão mais original, sem as contribuições posteriores – o classificou em quatro tipos diferentes, de acordo com as especificidades geográficas encontradas dentro da própria região Nordeste (15). É por isso também que as casas da região Norte do país, construídas em madeira, sobre palafitas, estão apenas respondendo, de modo adequado, às exigências topográficas, bem como climáticas da região. Outro exemplo dentro das fronteiras do Brasil é a casa dos babaçuais, feita com palhas de babaçu, outrora bastante presente no Maranhão. Exemplos poderiam ser multiplicados à vontade. Não é exagero afirmar, portanto, que a arquitetura vernacular é uma "amostra", em termos de abrigo, dos recursos naturais existentes em uma determinada região, sejam eles a pedra, o barro, a madeira, o gelo (no caso dos países nórdicos), a palha etc.

A arquitetura vernacular também responde satisfatoriamente às exigências climáticas do meio onde se situa. Assim, por exemplo, as casas construídas em climas extremamente frios são compactas, com pouquíssimas aberturas para o exterior; casas situadas em regiões desérticas com alta variação de temperatura entre os dias e as noites e com altíssimo grau de luminosidade natural, como no deserto africano, são igualmente fechadas para o exterior, possuindo paredes espessas; em outras regiões, onde não chove, as casas são construídas sem teto; em climas tropicais, o uso da varanda é altamente recorrente. Esses exemplos, embora também possam ser vistos na arquitetura convencional, é um traço marcante da arquitetura vernacular. Eles resultam basicamente das exigências climáticas de uma determinada região geográfica, e foram sendo adaptados e apreendidos ao longo de gerações. Evidentemente, não há um determinismo climático para a habitação vernacular. A sua forma arquitetônica como um todo não é um resultado automático do clima, como bem demonstrou Amos Rapoport, mas resulta principalmente da cultura de um determinado povo. Mas, sem dúvida, o clima é um dos condicionantes principais na explicação de certas características básicas da arquitetura vernacular.

O uso de uma tecnologia autóctone é outro traço marcante da arquitetura em apreço. Victor Saúl Pelli, ao fazer uma reflexão sobre uma tecnologia apropriada para a América Latina, classifica quatro tipos básicos de tecnologia no continente: a tecnologia formal, a tecnologia informal, a tecnologia autóctone e, finalmente, a tecnologia dos países hegemônicos (a tecnologia avançada ou de "ponta"). A tecnologia autóctone, segundo o autor, dispõe de algumas características básicas, a saber: ela não está integrada à estrutura cultural predominante, mas existe dentro de uma organização sócio-econômico-cultural subjacente; ela se caracteriza por ser primitiva em relação às demais tecnologias, em particular à formal e principalmente à hegemônica; também se caracteriza por ter uma relação não agressiva e nutriente com a natureza; a tecnologia autóctone é parte de um mecanismo de integração entre produção, vida comunitária e vida cotidiana; finalmente, e dentro das condições atuais, ela tende a desaparecer no futuro (16).

Blackhouse, Escócia e Irlanda
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

A tecnologia autóctone, assim definida, é, portanto, aquela empregada na arquitetura vernacular. Um exemplo é a técnica construtiva do pau-a-pique ou taipa (17), típica da arquitetura vernacular brasileira, por sua vez inserida nas chamadas “arquiteturas de terra” uma das mais amplamente utilizadas em todo o mundo. Seria interessante aplicar algumas das características citadas acima a esta técnica milenar, que no Brasil também recebe os nomes de taipa, pescoção, sopapo ou tapona, entre outros (18): a taipa não está integrada à estrutura cultural predominante. Dificilmente a classe dominante, e mesmo a classe média brasileira iria construir casas de taipa (19); a taipa é, portanto, subjacente e inferior quando comparada aos “valores tecnológicos” da classe média e alta, embora não seja necessariamente para as classes baixas; a taipa é muito menos agressiva à natureza, com a qual mantém uma relação bem mais harmoniosa do que a tecnologia dominante (20). Finalmente, apesar de ser uma tecnologia barata, “ecológica”, acessível à população e adequada do ponto de vista climático, pelo menos no Nordeste, ela tende a desaparecer no futuro, como aliás acontece coma própria arquitetura vernacular.

É evidente que a caracterização do que seja a tecnologia autóctone, apresentada por Victor Saúl Pelli, tem uma forte dimensão social e sobretudo temporal. No passado, e sobretudo para as sociedades da era pré-industrial, nem todas as características citadas pelo autor para definir uma tecnologia como autóctone se aplicavam à taipa. Naquele contexto, ela estava integrada à estrutura cultural predominante, portanto, não era tida como subjacente, primitiva ou inferior, pois era usada indistintamente pela sociedade da época, mesmo que houvesse técnicas construtivas mais “nobres” como a pedra e cal, utilizada, por exemplo, em edifícios de maior importância (21). Contudo, precisamos entender que os valores culturais, e tecnológicos em particular de uma sociedade variam com o tempo. Pouca gente questionaria a afirmação de que, na atualidade, a taipa não está mais integrada à estrutura cultural predominante, ou de que ela é subjacente, primitiva, inferior, em relação aos “valores tecnológicos” da classe média e alta. É neste contexto atual que a caracterização de Victor Pelli ganha toda sua força. Aliás, a própria noção de arquitetura vernacular – da qual a tecnologia autóctone é parte integrante – inexistia para as sociedades pré-industriais. Considerar essas definições a partir do olhar da sociedade daquela época é, assim, algo completamente anacrônico. Portanto, e à luz das características definidas por Pelli, a taipa, mencionada aqui apenas como exemplo do que seja uma tecnologia autóctone, só pode ser tida como tal em sua integralidade, isto é, como atendendo a todos os pré-requisitos citados pelo referido autor, se considerarmos o tempo presente e a sociedade atual.

A arquitetura vernacular é criticada por ser considerada repetitiva, e, portanto, vulgar. Ela não muda, não acrescenta nada de novo. É uma arquitetura previsível. Aliás, é justamente por ser considerada "vulgar" que ela é chamada de "vernacular". A palavra é oriunda do latim "vernae", termo utilizado para identificar a linguagem vulgar no Império Romano. Por extensão, o termo foi adaptado e adotado na arquitetura, com este mesmo significado (22). Cabe se perguntar, em contraponto a essa crítica, o que é realmente novo na arquitetura de um modo geral. Citamos anteriormente Hassan Fathy, para quem a arquitetura é um dos campos de conhecimento mais tradicionais que existem. E mesmo admitindo que algo de realmente novo ou inédito surgiu no tempo, particularmente com o advento da era industrial e pós-industrial, a permanência, muito mais do que a mudança, parece prevalecer em nosso ambiente construído. Ainda na atualidade, percebemos que muito pouco daquilo que consideramos novo na arquitetura o é realmente. O máximo que se pode dizer destas inovações é que elas são variações de um mesmo tema.

Casa em Lisieux, França
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Um estudo mais aprofundado dos inúmeros tipos de arquitetura vernacular existentes no mundo demonstrará que existem realmente variações, não só entre os diferentes tipos, o que é de qualquer maneira óbvio, mas que as diferenças e variações ocorrem dentro de cada tipo especifico. Entretanto, estas variações são conservadoras. Elas surgem dentro de um "vocabulário" conhecido. Neste sentido, as formas do passado não são meramente copiadas, mas compostas e decompostas criando variações, dentro de uma mesma "linguagem", conhecida dos membros da comunidade. Em outras palavras, o que surge de "novo" não agride, não nega o que já foi consagrado pela cultura. As variações existentes na arquitetura vernacular não são críticas, não se opõem à tradição arquitetônica existente. Para aqueles que veem a arquitetura como uma forma de linguagem, as variações que ocorrem dentro da arquitetura vernacular são, portanto, ao nível da língua. Como diz Stroeter:

“Entendida como língua, a arquitetura [...] formada ao longo do tempo e da história, é a somatória do trabalho de muitos, fenômeno coletivo e social [...] a arquitetura da língua é um repertório que oferece combinações particulares possíveis” (23).

As mudanças que ocorrem na arquitetura vernacular não se encontram, portanto, no nível da “palavra”. A este respeito, continua o mesmo autor:

“A arquitetura como palavra [...] resulta de um ato individual, geralmente de inconformismo e rebeldia [...] o edifício surge como uma ação isolada do arquiteto. É um fenômeno novo, uma obra individual, pessoal e consciente. É um trabalho de exceção, que desobedece às regras” (24).

Contribuições ao nível da palavra são, portanto, raras ao longo da história da arquitetura, como são raros os arquitetos que, em diferentes épocas, criaram “palavras” que depois foram incorporadas à "linguagem" arquitetônica (25). Os "arquitetos" da arquitetura vernacular não estão preocupados em acrescentar "palavras" para serem incorporadas ao "vocabulário" arquitetônico existente, pelo menos não de forma consciente. Apesar disto, chegam muitas vezes a resultados interessantes, o que comprova que o "belo" não surge necessariamente do "novo" (26).

Palafitas pré-históricas, reconstituição, Alemanha
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Cada uma das características acima citadas tem uma dimensão cultural bastante acentuada, de modo que muitas referências aos aspectos culturais da arquitetura vernacular já foram mencionados acima. Amos Rapoport, que é talvez a maior autoridade sobre os aspectos culturais da habitação, afirma que

“a casa é uma instituição, não somente uma estrutura, criada para um conjunto complexo de propósitos. Como construir uma casa é um fenômeno cultural, a sua forma e organização são grandemente influenciadas pelo meio cultural ao qual pertence [...] a casa‚ um fato humano, e mesmo dentro das mais severas limitações físicas e tecnológicas o homem tem construído em formas tão diversas que elas só podem ser atribuídas à escolha, que envolve valores culturais [...] forças socioculturais se tornam, portanto, de importância primordial no relacionamento do modo de vida humano ao meio-ambiente” (27).

O ato de construir e de morar em um abrigo é, portanto, um ato cultural. Assim como a comida, a vestimenta e os costumes, a casa também faz parte do universo cultural de uma determinada comunidade.

Novamente, retomamos aqui a discussão inicial sobre a dificuldade de uma definição para a arquitetura vernacular, uma vez que muitas das características citadas podem de alguma forma se aplicar à arquitetura primitiva, adotando a distinção acima exposta, mas também e até mesmo à arquitetura convencional, feita por arquitetos no sentido formal da palavra. Isso se evidencia ainda mais no chamado “regionalismo crítico” – uma reflexão teórica, erudita, acadêmica, certamente inexistente na arquitetura vernacular, essencialmente voltada para a práxis – que se propõe a retomar a arquitetura Moderna, pretensamente universal em dado momento de sua trajetória histórica, mas enfatizando a importância do contexto em que ela é produzida. Defendido por teóricos como Kenneth Frampton, o conceito atenta para o papel do local ou da região na produção arquitetônica. Como afirmou Nezar Alsayyad, trata-se de “um modo de prática arquitetônica que abraça a arquitetura moderna de forma crítica por suas qualidades universais qualificadoras ao mesmo tempo em que, simultaneamente, responde aos contextos social, cultural e climático da região em que é construída” (28). Assim, propõe um modo de fazer arquitetura que sob vários aspectos se apropria ou valoriza os aspectos positivos da arquitetura vernacular (29). Desta maneira, o regionalismo crítico põe indiretamente, e certamente de modo não intencional, a arquitetura vernacular em destaque no meio acadêmico e profissional, ela que tem sido historicamente desvalorizada e às vezes encarada como datada, superada, romantizada, nesses mesmos meios especializados.

Casa Bai, República Palau, Oceano Pacífico
Desenho Rubenilson Brazão Teixeira

Seja como for, as superposições não são suficientes para impedir a detecção de algo essencialmente típico da arquitetura vernacular em várias das características acima expostas, e que nos permitem propor uma definição, sempre sujeita a revisões e contribuições futuras. Assim, definimos a arquitetura vernacular como “uma arquitetura tradicional, resultante do desenvolvimento histórico de um determinado povo. Ela prescinde tanto do arquiteto como do projeto, na sua concepção contemporânea. Não cabe nas classificações estilísticas da arquitetura convencional. Origina-se ou é mais frequente em área rural. Respeita e se adapta bem às diversas limitações tecnológicas e físico-ambientais. A tecnologia é autóctone, primitiva, rudimentar, quando comparada à tecnologia formal. Ela permite variações ao nível da língua, mas não da palavra. A arquitetura vernacular é fundamentalmente a expressão de um povo, e, portanto, um ato cultural”.

notas

1
WEIMER, Gűnter. Arquitetura popular brasileira. São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. XXXIX-XLI. Além de “vernacular” e “popular”, existem outros termos, com sentidos que comportam superposições, como arquitetura “tradicional” e arquitetura “folk”, na língua inglesa. O termo “vernacular”, porém, é o mais amplo. Vernacular architecture, Wikipedia. Acesso em 15 de julho de 2016.

2
RAPOPORT, Amos. House, form and culture. New Jersey, Prentice-Hall Inc., 1969.

3
A citação é um extrato do resumo feito pela pesquisadora Marcia Sant’Anna a respeito do livro RAPOPORT, Amos. Op. cit. A íntegra do resumo pode ser encontrada em www.arqpop.arq.ufba.br/tags/arquitetura-primitiva, acesso em 15 de julho de 2016.

4
OLIVER, Paul. Built to meet needs. Cultural issues in vernacular architecture. Oxford, Elsevier, 2006, p. 18. Ele acrescenta: “o que queremos dizer com “arquitetura vernacular”? Infelizmente, não há uma resposta fácil; podemos fazer muito mais por exemplos do que por definição”. Idem, ibidem, p. 4.

5
Tradição e cultura são temas caros à antropologia de um modo geral e à antropologia cultural em particular. Ver, por exemplo: HIEBERT, Paul G. Cultural anthropology. Philadelphia, University of Washington, 1976; SCUPIN, Raymond. Cultural anthropology. A global perspective. Boston, Pearson, 2012. O aporte dessa área de conhecimento poderia facilmente vir em apoio às considerações feitas neste artigo, caso quiséssemos adentrar em áreas que transcendem os aspectos puramente arquitetônicos, objeto deste trabalho.

6
STROETER, João Rodolfo. Arquitetura e teorias. São Paulo, Nobel, 1986, p. 109.

7
FATHY, Hassan. Construindo com o povo. Arquitetura para os pobres. Rio de Janeiro, Forense/Universitária, 1982, p. 40-41.

8
No Ocidente, alguns desses conceitos aparentemente contemporâneos começaram a se desenvolver a partir do Renascimento europeu. RYBCZYNSKI, Witold. Casa, pequena história de uma ideia. Rio de Janeiro, Record, 1996.

9
O desenvolvimento das tecnologias estruturais do aço e do concreto armado, por exemplo, tornou possível projetar edifícios sem considerar, pelo menos nos estágios preliminares do processo projetual, como eles serão construídos ou permanecerão de pé. Essa liberdade representou uma contribuição importante e às vezes não reconhecida que a tecnologia estrutural forneceu à arquitetura, liberando os arquitetos das limitações impostas pela necessidade de prover o suporte para os edifícios que antes só eram em alvenaria e madeira. A introdução do computador nas últimas décadas do século 20, primeiramente como um instrumento de análise estrutural, depois como uma ferramenta de projeto, permitiu aos arquitetos a descrição e o controle do processo construtivo de formas arquitetônicas inusitadas. Assim, a forma arquitetônica nesses casos tende a ser profundamente escultural. MACDONALD, Angus J. Structure and architecture. 2a edição. Department of Architecture, University of Edinburgh, 2001.

10
SILVA, Elvan. Uma Introdução ao projeto arquitetônico. Porto Alegre, Editora UFRGS, 1983, p. 19.

11
KOPP, Anatole. Quando o moderno não era um estilo e sim uma causa. São Paulo, Nobel, 1990.

12
No linguajar popular, às vezes apoiado em publicações como revistas não especializadas, nos deparamos frequentemente com termos como “estilo moderno” ou “estilo contemporâneo” de arquitetura.

13
Num contexto bem diferente do aqui discutido, pois referindo-se à arquitetura erudita, formal, e se contrapondo à crítica de ser considerado um arquiteto “formalista”, Oscar Niemeyer defende a estética na arquitetura também como uma necessidade funcional. Ele diz: “quando uma forma cria beleza, ela tem uma função das mais importantes na arquitetura”. NIEMEYER, Oscar. A forma na arquitetura. Rio de Janeiro, Limitada, 1980, p. 54.

14
LEMOS, Carlos A. C. História da casa brasileira. São Paulo, Contexto, 1989, p. 15-16.

15
FREYRE, Gilberto. Mucambos do Nordeste. Rio de Janeiro, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1937.

16
PELLI, victor Saúl. Notas para uma Tecnologia Apropriada à Construção na América Latina. In Lúcia Mascaró (coord.). Tecnologia e arquitetura. São Paulo, Nobel, 1990, p. 18.

17
No Nordeste do Brasil pau-a-pique e taipa são sinônimos. No sul do Brasil, o termo taipa é mais comumente utilizado para a “taipa de pilão”, uma técnica construtiva distinta, mas que também faz uso da terra.

18
COSTA, Írio Barbosa da Costa; MESQUITA, Helena Maria. Tipos de habitação rural no Brasil. Rio de Janeiro, IBGE, 1978.

19
Mesmo que existam soluções altamente promissoras para o uso das chamadas “arquiteturas de terra”, nas quais se inserem a taipa, que envolvem pesquisas e resultados interessantes, inclusive do ponto de vista estético, de baixo custo, para a arquitetura. O CRAterre – Centro Internacional da Construção em Terra, uma associação e laboratório ligado à Escola Nacional Superior de Grenoble, França, desde 1979 desenvolve pesquisas neste sentido (http://craterre.org/). Ver, também, DAM – FUNDAÇÃO CENTRO DE DESENVOLVIMENTO DAS APLICAÇÕES DE MADEIRAS NO BRASIL. Taipa em painéis modulados. 2a edição. Brasília, MEC/CEDATE, 1988.

20
É suficiente lembrar que os índios, mestres do convívio harmonioso com a natureza, dela se utilizam há muito, enquanto que a fabricação de uma simples cerâmica, de um vidro ou de um outro material qualquer da tecnologia “moderna”, demanda muita energia, da qual o mundo está carente, além, de poluir o meio ambiente.

21
TEIXEIRA, Rubenilson Brazão. O poder municipal e as casas de câmara e cadeia : semelhanças e especificidades do caso potiguar. Natal, EDUFRN , 2012, p. 91-114.

22
STROETER, João Rodolfo. Op. cit., p. 92.

23
Idem, ibidem, p. 77-78.

24
Idem, ibidem.

25
Michelangelo, ou para citar exemplos mais recentes, Le Corbusier, Mies van Der Rohe ou Frank Lloyd Wright, fazem parte desse seleto grupo.

26
Os "arquitetos calçados" da arquitetura convencional, por outro lado, parecem perseguir a todo custo a novidade, o ineditismo, mas na maioria das vezes sem a competência devida. E em se tratando dos países não desenvolvidos, ocorre frequentemente que a procura pela "novidade" em si mesma traz outra consequência nefasta: a alienação cultural. Como bem colocou Ramon Gutierrez, referindo-se à questão da identidade cultural na arquitetura latino-americana: "a angústia de estarmos na moda, de nos mimetizarmos com a última novidade, de nos sentirmos participantes da modernidade dos países centrais arrasa com a possibilidade de ser a partir da nossa própria realidade periférica" (GUTIERREZ, Ramón. Arquitetura latino-americana. São Paulo, Nobel, 1989, p. 44-45). Há quem ache esse discurso ultrapassado em tempos de globalização, e que a arquitetura precisa sempre inovar, avançar. Isto é verdade, mas também é verdade que, em essência, a afirmação de Ramon Gutierrez permanece válida quando essa modernidade é vista a partir de modelos forjados nos países centrais, e não a partir de nossa própria realidade.

27
RAPOPORT, Amos. Op. cit., p. 46-48.

28
Prefácio do livro: HEATH, Kingston WM. Vernacular architecture and regional design: cultural process and environmental response. Oxford, Elsevier, 2009.

29
É preciso atentar, aliás, para o fato de que nem tudo na arquitetura vernacular é inerentemente bom. Por exemplo, por razões culturais, os antigos quartos das residências coloniais – as chamadas "alcovas" – eram fechados para o exterior. Nelas dormiam as moças da casa, faziam a sua higiene pessoal e se escondiam frequentemente quando da visita de pessoas do sexo masculino à casa. Viviam em quase total reclusão, como é amplamente observado por vários viajantes do Brasil ainda no século 19, a exemplo de (KOSTER, Henry. Travels in Brazil. London, Longman, Hurst, Rees, Orms and Brown, Paternoster-Row, 1816, p. 7-8, 145-146). Para os padrões atuais, as alcovas são objeto de crítica por serem potencialmente danosas à saúde, em razão da insalubridade, falta de insolação e ventilação natural, etc., além de indiretamente contribuir para a reclusão da mulher. E, no entanto, era um elemento fundamental na arquitetura vernácula do período colonial no Brasil.

sobre o autor

Rubenilson Brazão Teixeira é doutor em Estudos Urbanos (EHESS/Paris, 2002) e Mestre em Habitação (McGill University, Montreal, 1990). Pós-doutorado no CRHIA/La Rochelle, 2013. Professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGAU – da mesma universidade.

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