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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Este artigo problematiza as possibilidades de análise do ambiente urbano em cidades de pequeno porte no Sertão do Brasil a partir da leitura de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e dos estudos sobre o termo paisagem de Jean Marc Besse.

english
This article discusses the possibilities of the urban environment analysis in small cities in the Sertão (Becklands) of Brazil from the reading of Grande Sertão: Veredas, from Guimarães Rosa, and Jean Marc Besse studies about landscape term.

español
Este artículo problematiza las posibilidades de análisis del ambiente urbano en pueblos del Sertón del Brasil desde la lectura de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, y desde los estudios del término paisaje por Jean Marc Besse.


how to quote

GRINOVER, Marina. Narrativa e paisagem. Relato de viagem ao sertão de Guimarães Rosa. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 213.03, Vitruvius, fev. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.213/6898>.

Este ensaio narra as investigações teóricas motivadas pelo encontro internacional Rosa y Rulfo (1), organizado como uma viagem às cidades descritas por Guimarães Rosa em seus contos e romances no Sertão Brasileiro. A partir das reflexões motivadas pela deriva nas pequenas cidades de Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé e Três Marias em Minas Gerais, nasceu a intenção de investigar um modo de leitura analítica da paisagem a partir de duas disciplinas: a literatura e a geografia. Os objetos que estruturam este artigo são os textos de Guimarães Rosa e os lugares do Sertão do Brasil.

Mas antes, esclareço que parto de um ponto de vista de quem atua desenvolvendo e ensinando projetos de desenho urbano. Deste modo, o lugar em que me encontro é operativo, isto é, busca-se compreender a realidade de um lugar para nele agir propositivamente. Venho adotando como premissa de trabalho e ensino estudar uma ideia de mundo em diálogo com um conhecimento do mundo e uma forma de expressão deste mundo, colocando o desenho na convergência de campos teóricos e campos práticos. A literatura e a geografia são pontos de apoio transdisciplinar e não pretendo exaurir seus conteúdos específicos, mas, procurar modos de analisar que desfrutem de um posicionamento mais interno ao problema, reinventando modos para compreender os lugares e então desenhá-los.

Primeiramente examino a literatura de Guimarães Rosa, principalmente a partir da leitura dos contos e romances e das interpretações de Willi Bole (2). E depois, a geografia humana contemporânea a partir de autores que abordam o conceito de paisagem em métodos de leitura e desenho interdisciplinar, contaminando-se com operações de outros campos, como das artes, da economia, do urbanismo, da filosofia, principalmente os ensaios do historiador Jean Marc Besse e do arquiteto Francesco Careri (3).

Por fim, minha própria experiência de viagem ao Sertão de Morro da Garça e Andrequicé. O contato real com o Sertão e os pequenos povoados dali motivaram-me a levantar questões para compreender parte do significado da cidade para comunidades rurais, que representam 44% dos municípios do Brasil (4).

Nestes povoados, a fronteira entre rural e urbano contem uma imprecisão que pode ser muito frutífera para estudar o entendimento de cidade do ponto de vista de seus habitantes aqui no Brasil. Por outro lado, esta condição de pequeno núcleo urbano não é a realidade da maioria da população do país que habita cidades numerosas em uma parcela pequena do território nacional. Hoje, 40% da população, ou seja 82.000.000 de pessoas moram em 20 dos 5.500 municípios (5). Parte destes habitantes moram em situações precárias de urbanidade, e muitas vezes, as soluções de sobrevivência estão associadas há uma realidade vernácula de cidades menores onde a fronteira entre urbano e rural é difusa. Este artigo versa sobre esta problemática na relação entre identidade e espaço habitado.

Casa urbana em Morro da Garça, 2016
Foto Marina Grinover


Literatura e paisagem

O estudo da obra de Guimarães Rosa para a pesquisa sobre as pequenas cidades brasileiras aflora como método analítico na medida em que sua narrativa nos transporta para a observação do uso da linguagem escrita, decorrendo dai, o estudo da linguagem como ferramenta poética e política. Segundo Bento Prado Jr. (6), a profundidade da operação linguística de Guimarães Rosa é seu modo de problematizar o mundo, sua filosofia expressa em palavras presentes. O que nos leva a pensar em duas análises simultâneas, uma dos conteúdos simbólicos e, outra, da estratégia criativa de sua linguagem literária.

Dois livros são fundamentais para estudiosos da obra de Guimarães Rosa: Corpo de Baile (sete contos em dois volumes) e Grande Sertão Veredas, ambos de 1956 (7). A contundência de sua obra vem sendo estudada a partir de temas como sua criatividade narrativa, o modo como o autor coloca o leitor dentro da história ou os significados intrínsecos ao texto, localizando sua obra junto aos grandes textos da cultura moderna nacional. Esta é a tônica nas publicações analíticas de sua obra e, neste momento, venho iniciando meus estudos a partir da obra do professor de literatura alemã Willi Bolle (8). O pesquisador expõe uma perspectiva convergente com os interesses desta investigação na medida em que, diante da complexidade da obra de Guimarães Rosa, ele faz a leitura dos debates em diferentes perspectivas e linhas de pensamento, mostrando que a crítica à obra tem estabelecido condições para pensar o país, sua história, sua sociedade e seus conflitos, mesmo sessenta anos depois.

Bolle escreve justamente sobre a importância da obra de Guimarães Rosa dentro da tradição de “textos retratos do Brasil”. Seu estudo nos aponta, justamente, uma inflexão na cultura moderna dos “retratos” ao comparar e contrastar "Grande Sertão: Veredas" com "Os Sertões" de  Euclides da Cunha, mostrando uma “afinidade eletiva, uma relação intertextual” (9) diante de um projeto literário que se pretende, ao mesmo tempo, reeditar o tema dos retratos de um povo, bem como expor um projeto emancipatório para a literatura. Isto é, narrar um conteúdo identitário e fundador do Brasil e ao mesmo tempo fazê-lo de modo inventivo. A narrativa é protagonizada por um homem do povo, que teve a oportunidade do estudo, mas que torna-se herói jagunço, e a língua de sua fala é interna ao universo popular.

A leitura de Guimarães Rosa, sensibilizou algo urdido em seu texto: a reflexão sobre um modo de ser brasileiro cujo reconhecimento poderia apontar valores para uma leitura espacial e social. Historicamente esta busca de identidade em nossa cultura moderna brasileira trouxe pulsante o conflito entre o arcaico e o novo, entre sertão e cidade. Ela nos rememora o dilema no qual a ideia de progresso faria perder o Brasil, faria perder uma originalidade, diante de valores universais.

Esta raiz modernista, paradoxal, está presente, ainda hoje, em nossas “paisagens” dada a atual condição desigual de nossa sociedade. Esta condição se expressa não somente do ponto de vista social, mas espacial também. Este dilema atual aponta uma característica, que também o texto de Guimarães Rosa explorou: as ambiguidades dos sentidos de nação e povo para falar destas desigualdades.

O estudo de Willi Bolle usa o termo “nação dilacerada” (10) para esta condição latente, para explicar esta falta de diálogo entre as realidades distintas do povo e a definição de nação. Nesta chave de conceitos observei, ao viajar para o Sertão na narrativa de Guimarães e presencialmente em 2016, que tanto no seu romance quanto na concretude da paisagem urbana, existe a falta de clareza da “esfera pública” (11).

Claramente o texto de Guimarães não versa sobre o sentido público de cidade. O lugar urbano ficou rebaixado nas suas histórias que tem como centralidade de lugar o Sertão, o interior vasto, desocupado, conhecido por quem o atravessa, desconhecido para todos os outros. Associei primeiramente esta estratégia literária a uma crítica à economia de subsistência e o declínio dos latifúndios agropecuários como temática central da vida sertaneja, onde a cidade seria o lugar de poderes institucionais, da igreja e da justiça do estado, delatando a imprecisão delas neste mundo Sertão. Por outro lado, em chave analítica mais simbólica em seu texto, cidade pode ser associada à violência aos mais fracos, ao pecado, ao diabo, já que muitas cenas urbanas são de guerra, de loucuras e perdições mundanas. Diante da diversidade de modos de vida do Brasil, fica explicita a fragilidade do isolamento social no lote semi-urbano sem divisa franca entre fim de cidade e começo de roça, sem limite claro de cidade, a mercê das forças políticas ou militares autoritárias.

Até o momento verifico que se examinarmos o sentido de público associado ao sentido de nação e povo, encontramos, nos textos “fundadores do Brasil” (12) no século 20 , uma leitura uníssona. O conflito entre o povo e as narrativas que construíram o sentido de nação colocaram o primeiro sempre apartado da definição do que nos identificou enquanto pais.

Segundo Willi Bolle, Guimarães Rosa, entretanto, buscou em Grande Sertão: Veredas uma mediação ao inventar uma linguagem a partir da fala popular do Sertão. A partir do conceito de "nação dilacerada" sendo aquela sociedade fundada na falta de diálogo entre as classes sociais, estaria Rosa propondo uma invenção de linguagem para mediar, para espacializar uma possibilidade de diálogo.

A análise de Bolle é muito sensível aos modos como Rosa nos contou sua ideia de nação dilacerada. Por exemplo: na fragmentação da narrativa de Riobaldo, nas explicações autoritárias dos homens de poder, na miséria dos jagunços, na condição da mão de obra barata no campo. O texto narrado expõe a concentração de riqueza mas de modo genuíno pois ao nomear em personagens a noção de “povo”,  se opõe a uma simples abstração conceitual. Deste modo, o retrato de um país quase parado, onde a economia de subsistência e a violência são a tônica do cotidiano, não apontava sentido para um lugar de significação pública por excelência, que é a cidade, pois não existia espaço para o diálogo.

Como vimos, a dicotomia Cidade versus Sertão, explorada por Rosa e outros autores, pertence à narrativa de estudos sobre a formação do Brasil. Ainda no final dos anos 1950, dada a condição econômica histórica do país sempre voltada para o exterior, o interior desenvolveu-se adaptando a ideia de nação em formas pessoais de domínio, explorando a mão de obra com raízes escravocratas e lidando com uma ética familiar, em maioria autoritária e violenta.

Willi Bolle, lembrando do contexto no qual o romance foi escrito, resgatou o momento desenvolvimentista de industrialização do país nos anos 1950. No âmbito da paisagem a ocupação do interior culminou com o projeto de Brasília, que também é no Sertão e carrega outro projeto de nação: emancipada, moderna, democrática, industrial, ainda que em conflito com a ideia de uma cultura arcaica de valor simbólico para a definição de “povo” (13).

Expor esta ambiguidade aproxima Guimarães Rosa de outros artistas modernos que buscaram, na mesma época, fundir arcaísmo e inovação no sentido de modernidade valorizando nosso hibridismo.

Aqui faço menção a obra da arquiteta ítalo brasileira Lina Bo Bardi, que, em 1958, foi convidada pelo governo da Bahia para fundar em Salvador o museu de arte moderna mas que ao explorar a cultura sertaneja miserável, inventou o Museu de Arte Popular. Uma ideia de escola de arte industrial, design e documentação da cultura arcaica de objetos cotidianos do Sertão brasileiro. Uma cultura pobre, hibrida de miscigenação européia, indígena e africana que deveria ser a referência simbólica e imaginativa para um contexto progressista industrializado.

Esta operação poética pode também ser encontrada em outros artistas e intelectuais fundadores de nosso modernismo. Por exemplo a ideia antropofágica de Mario de Andrade, também buscando um sentido de novo na digestão da cultura rural, arcaica, pela urbana. Mas, segundo Bolle, no caso de Guimarães Rosa, o antagonismo Sertão versus Cidade não estava no plano do argumento, mas no interior da forma do discurso. Estava personificado no próprio Riobaldo, o jagunço letrado, dando uma dimensão de identidade não abstrata. Estabelecendo uma função narrativa concreta de significação real.

Abre-se aqui um campo metodológico experimental que justapõe a análise crítica do país à invenção de linguagem, entrando, o texto, como modo de mediar um discurso que se pretende menos desigual. Uma posição moderna que ainda apontava um campo possível de entendimento entre povo e nação. Naquele momento artistas e intelectuais viam na arte uma real possibilidade de construção da “esfera pública” em sentido pleno do termo cunhado por Hanna Arendt, cuja ação poética seria também política.

Rua urbana em Morro da Garça, ao fundo capela, 2016
Foto Marina Grinover

Segundo o sociólogo José de Souza Martins (14), as críticas mais construtivas à modernidade na América Latina adotaram o hibridismo cultural como conceito para um estado inconcluso, de permanente transitório no cotidiano do viver. Este inacabado, produziu no Brasil, uma consciência social dupla na modernidade. Para ele, “Guimarães Rosa colocou este traço fundante de modo mais belo e claro: a travessia” (15). Seria na passagem, no atravessar sem chegar, que encontramos nosso modo de ser, do exótico ao dramático, uma modernidade desprovida de laços fundos com os processos sociais ditos e não realizados. Mas ao mesmo tempo, Martins conduz seu raciocínio para uma outra perspectiva metodológica: uma via diferente da tese de que o popular foi incorporado à modernidade para dar-lhe cor e identidade, mas ao revés, examina o modo como o moderno foi incorporado pelo popular.

Esta hipótese de travessia indica a possibilidade de reestabelecer um ponto de vista de mediação para observar as dificuldades de nossa modernidade ainda latentes nas distâncias entre classes sociais e expressa no modo como ocupamos os espaços públicos. Seria possível estudar desenhos de cidade que consideram este hibridismo não mais na chave de incorporação ilustrada do popular, mas a partir de modos populares?

Contando com a obra de Guimarães Rosa, sua intenção mediadora, este hibridismo popular de valor coletivo aponta significados possíveis para um entendimento comum de público.

Resta saber se neste momento de nossa história, muito diferente dos anos 1950, os valores da experiência, da vivência, do como fazer, que estão também intrínsecos na travessia, podem ser entendidos como fundamentos ainda válidos para apontarmos o desenho também como linguagem mediadora.

Vista da cidade Morro da Garça desde o cume do Morro, 2016
Foto Marina Grinover

Geografia e paisagem

Na busca por um entendimento destas possibilidades de desenho que carreguem o diálogo, a mediação como ferramenta poética e política, passo a examinar a paisagem inspirada pela operação roseana de narrar de dentro. A partir de um trecho do romance Grande Sertão Veredas procuro examinar as potencias deste conhecer cotidiano, que não é científico, mas vivido, operativo e profundamente sábio. Nesta passagem do texto o narrador, Riobaldo, conta ao senhor, que ouve a história, as sutis maravilhas de quem conhece o Sertão e de quão precioso é este conhecimento:

“Se acordou, bem digo. Cada dia é um dia. E o tempo alisado. Triste é a vida de jagunço - dirá o senhor. Ah, fico me rindo. O senhor nem não diga nada. “Vida” é noção que agente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia. Ora, mais, ordens já para antes do vir da aurora se cumprir, dali Zé Bebelo já tinha dado. E foi se saber: o Suzarte e o Tipote, e outros, com João Vaqueiro, rastreavam redobrados, onde em redor, remedindo o mundo a olho e faro. Tudo eles achavam, tudo sabiam; em pouquinhas horas, tudo tradiziam. O chão, em lugares, guardava molde marcado de cascos de muitíssimas reses, calçados para um rumo só - um caminho eito. Aqueles rastros tinham vigorado por cima da derradeira lama da derradeira chuva. E - de quantidade e de quanto tinha chovido - eles liam, no capim e nos resgos de enxurradas, e na altura da cheia já rebaixada, a deixa, beiradas do ribeirão. Pelo comido pastado das reses, também muito se reconhecia. Aos passos dos cavaleiros e dos cachorros. As pessoas da casa tinham viajado para as bandas de oestes. Mas o gado, escolhendo por si e sem tocada, mas depois de solto por boa regra, pegara ida espaçada mais virante a cima, onde deveria haver, para se lamber, salinas de barreiro. E bastante outras coisas eles decifravam assim, vendo espiado o que de graça no geral não se vê. Capaz de divulgarem até os usos e costumes das criaturas ausentes, dizer ao senhor se aquele  sêo Habão era magro ou gordo, seria forrêta ou mão aberta, canalha inteirado ou razoável homem de bem. Porque dos centos milhares de assuntos certos que parecem mágica de rastreador, só com Tipote e Suzarte o senhor podia rechear um livro. E ainda antes do meio dia subir, desemalocaram duas gordas novilhas, carneadas fartas para nossa refeição. Um bom entendedor, num bando, faz muita necessidade.” (16)

Na história, o lugar se chamava Valado, casa do senhor das terras do Sucruiú, seu Habão. O grupo de jagunços ficou na casa um mês e eles adoeceram e se curaram e foi a partir da vivência ali, que, na história, Riobaldo se tornou chefe de bando de jagunço, o Tatarana. Vou retomar alguns pontos deste trecho para fortalecer a ideia de certo modo de conhecimento sobre o lugar como virtude para estratégias de sobrevivência e desenho que o texto de Guimarães Rosa inspira:

"Vida é noção que agente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia". Pode-se observar a presença da relação temporal com a vida. A “ideia falsa” é pensamento de futuro, de passado, vida mesmo é o aqui e o agora, o presente. Mas, como poética na travessia da vida, um é complemento do outro.

"...rastreavam redobrados, onde em redor, remedindo o mundo a olho e faro". São os sentidos que nos conectam com o mundo, com a vida. São verbos transitivos, imprimindo na narrativa que o medir e remedir o mundo são uma constante.

"Tudo eles achavam, tudo sabiam; em pouquinhas horas, tudo tradiziam". A estratégia de leitura é acompanhada da tradução e da comunicação - tradiziam junta o verbo traduzir com dizer.

"E bastante outras coisas eles decifravam assim, vendo espiado o que de graça no geral não se vê. Capaz de divulgarem até os usos e costumes das criaturas ausentes". Deste trecho depreendo a importância que o conhecimento, o domínio de um saber ver, saber fazer tem. Ele não é ilustrado, são jagunços, homens sem escola, mas com uma sabedoria que vem da vivência, das tradições. Tem um sofisticados domínio dos sentidos, da língua da natureza e sabem traduzir. Traduzem usos e costumes do que se vê e também do que não está. Sofistas no sentido mais ancestral da palavra (17). Um domínio sobre as coisas do mundo muito distante de ter valor na cultura dos homens de lei, homens da academia.

"Um bom entendedor, num bando, faz muita necessidade". E a descrição termina deixando explicito que este tipo de entendimento de mundo é fundamental.

A experiência de estar na paisagem urbana ou rural, de caminhar por elas, apresenta-se como método para expor, subjetivamente, diálogos entre o dentro e o fora de nós. Tomando em conta a perspectiva de identificar o “mundo fora”, ou examinar o registro deste viver no mundo, no Sertão de Minas Gerais, a deriva se apresentou como uma oportunidade de caminhar por lugares literários de Guimarães Rosa, um modo de leitura propositiva da paisagem.

Procuro estabelecer um conceito de paisagem que cumpra o papel de significar, ao mesmo tempo, uma espacialidade e as práticas e valores de um lugar. E me deparo com um conjunto teórico complexo, ambíguo, dada a condição das diferentes disciplinas que devem ser convocadas para este entendimento. O historiador Jean Marc Besse em seu artigo “As cinco portas da paisagem, ensaio de uma cartografia das problemáticas paisagísticas contemporâneas” (18), fornece um olhar instigante na medida em que aponta que a paisagem é um objeto que mobiliza diferentes referências intelectuais em função da disciplina que a examina. Arquitetos, sociólogos, antropólogos, geógrafos, ecólogos, literatos ou filósofos abordam o tema da paisagem deflagrando uma polissemia móvel do conceito, o que me parece extremamente interessante.

Rua em Morro da Garça, 2016
Foto Marina Grinover

As cinco “entradas” temáticas para estudar o conceito de paisagem trazem uma aproximação teórica que ampara a precisão do termo e são colocadas como hipóteses para as diferentes disciplinas.

"A paisagem é uma representação cultural e social” (19): nesta abordagem identifica-se a paisagem como uma realidade mental, atrelada à percepção, à categorias do discurso, dos sistemas filosóficos e estéticos a partir dos quais a paisagem deve refletir. Também inclui todo o campo artístico de modelos pictóricos nos quais a paisagem tornou-se inclusive um gênero de pintura no século 17, onde ela foi "enquadrada" estabelecendo um ponto de vista da qual era observada. De modo mais abrangente cabe aqui a ideia de representação cultural, onde a paisagem é a construção social de um lugar atribuindo-lhe valor econômico, histórico, religioso.

Em chave mais contemporânea, a paisagem é como um texto humano a ser decifrado e neste sentido muitas correntes artísticas se apresentaram propositivamente a este entendimento de paisagem, dispondo a obra de arte em sua relação direta com o real. Podemos citar os dadaístas, os surrealistas, a land art.

"A paisagem é um território fabricado e habitado" (20): existem correntes que examinam a paisagem levando-se em consideração sua dimensão material, não apenas discursiva. Segundo esta abordagem, a paisagem pode ser definida como um território produzido e praticado pelas sociedades humanas por motivos econômicos, políticos e culturais.

Um tipo de geografia objetiva, uma escrita na superfície da terra. Ela concebe a paisagem como produção cultural mas considera a cultura nos níveis material e espacial, um espaço organizado com intenções mais ou menos conscientes, mais ou menos projetadas dependendo do momento histórico e da cultura ali localizada. Neste sentido, torna-se forte a ideia de que a paisagem é uma obra coletiva das sociedades.

"A paisagem é o meio ambiente material e vivo das sociedades humanas" (21): A paisagem não é somente a vista, a imagem ou pensamento, ela é o mundo vivido, fabricado e habitado por sociedades em constante mudança. Há uma distinção entre a noção de ecúmeno e planeta, ou entre lugares construídos e lugares naturais, mesmo se hoje esta distância seja mínima ou mesmo questionável. As relações entre paisagem e natureza são o ponto focal das disciplinas ambientais ligadas ao conceito de paisagem.

Elas, versam seu olhar sobre o funcionamento da natureza na paisagem, entendendo esta como uma totalidade dinâmica entre fluxos de energia e matéria, um sistema de naturezas.

"A paisagem é uma experiência fenomenológica"  (22): progressivamente entende-se que a paisagem não é somente uma representação mental, mas também uma realidade passível de ser, cientificamente, investigada. Mas esta realidade apresenta-se ao ser humano numa realidade concreta, ela nos atesta a existência de um dentro e um fora, um outro. Neste sentido, a experiência, o campo sensível da relação com o ambiente tem importância para esta quarta perspectiva.

A paisagem é o encontro concreto, este acontecimento entre homem e mundo, é primeiramente vivência. A caminhada é a melhor ação de reconhecimento e aqui a paisagem não é lugar, mas um estar que escapa a razão do ser. Não há objeto, nem sujeito, e este estranhamento é a condição da paisagem.

"A paisagem como projeto"  (23): Nesta perspectiva, toma-se como premissa que a caminhada é uma crítica do real, o estar no mundo é orientado e articulado. Esta posição é artística, pois não se contenta em caminhar mas vai também desenhando o caminho. A caminhada requalifica o espaço, dá-lhe novas qualidades, novas intensidades. Há um valor experimental e questionador da caminhada que envolveu muitos artistas no século 20. Mas que, principalmente, reposicionam a atividade de projeto da paisagem. A paisagem é convocada de modo privilegiado para imaginar soluções para o encontro, para a relação entre cidade e natureza. O projeto estabelece uma relação com algo que já esta ali, e ambiguamente, imagina o real, efetivamente é fabricar o que já está presente e que não se vê. O projeto inventa um território ao representá-lo e descrevê-lo, tece ligações entre sinais e deixa o pensamento latente atrás de formas visíveis de um por vir.

Neste ponto não seria desejável fazer uma síntese mas deixar que estas distintas interpretações da paisagem componham seu entendimento. A paisagem tem valor enquanto obra, como elaborou Hannah Arendt, é a abertura de uma duração, de um mundo, então motiva uma vontade e uma meditação da vida (24). A dimensão de estar no mundo, de habitarmos e explorarmos é simultânea, e, coloca a possibilidade da deriva como método de ativar este entendimento.

Ao experimentar a deriva de um lugar, ultrapassando o momento puramente sensível, passamos da memória ao relato, em um procedimento de tradução. Neste sentido, viajar, caminhar, colocam-se, não somente, como percepção e representação dos espaços, mas, fundamentalmente, como pontos de vista sobre as coisas, as ideias e o mundo.

Os estudos do arquiteto italiano Francesco Careri (25) sobre a prática estética do caminhar, apontaram a deriva como ferramenta de conhecimento e transformação do espaço atravessado, colocando neste momento, a paisagem como meio no qual a existência humana é verificada, registrada, inventada.

Estrada para Cordisburgo, 2016
Foto Marina Grinover

Relato de viagem

Foi com este afeto aqui descrito, e a cabeça em sintonia com o texto de Guimarães Rosa, que fui levada ao Sertão em agosto de 2016 no seminário Rosa y Rulfo. Dispus-me a refletir por uma deriva espacial de mente aberta e coração forte, pois temos que ter coragem para entrar no Sertão.

Passamos pouco mais de três dias em caminhadas pelas cidades significativas do universo roseano. Sua cidade natal, Cordisburgo, Morro da Garça, cidade real e fictícia do conto Recados do Morro (26), Andrequicé onde morou o vaqueiro Manuel Nardi, personagem inspiração do conto Manuelzão e Miguilim (27). Cidades rurais entremeadas pela mata seca e retorcida do Sertão.

Esteve muito presente em minha experiência os estudos de Francesco Careri, citado acima, logo de início o tema do nomadismo aparecia em pensamentos filosóficos, nos quais caminhar permite ver o dinamismo das estradas, dos caminhos que delineiam o território, colocando o pensamento atrás do movimento das coisas. Explorando as transformações do campo em cidade, da transmutação de paisagem natural ocupada em paisagem construída criando uma nova outra trama: a estrada virando rua a rua virando cidade.

Como uma hodologia - termo cunhado por John B. Jackson, em 1984 (28) que deriva de hodos, em grego caminho, ou viagem - sensibilizada pela expressão poética da experiência, minha travessia desenvolveu-se como oportunidade de estar no entre lugares: entre o Sertão e a Cidade. Ao mesmo tempo, ativou os sentidos concretos e reais de estar no mundo e suscitou questões conceituais de significado para nossa sociedade e nossa paisagem e então, de categorias ligadas ao urbano.

Rua na praça da Matriz em Andrequicé, 2016
Foto Marina Grinover

Uma cidade ao mesmo tempo igual e muito diferente dos grandes centros urbanos.

Identifiquei elementos muito comuns de cidade, de rua, de calçada, de construções e espaços livres públicos. Mas todos frágeis, dissolvidos no silêncio da ausência de seus habitantes escondidos no interior das construções no fundo dos lotes, tudo parece vazio. As pessoas estavam a espreita, examinando estes nômades, forasteiros que se aproximavam. Algo de surreal estava no ar, uma cidade onírica que me instigava a buscar o suprimido, tive vontade de ficar errante. Pensei em como transmitir este olhar estético e ao reler o conto Recado do morro, as fotos e os desenhos foram ferramentas importantes.

Queria narrar esta paisagem amalgamada a suas origens naturais, a sua ocupação singela, miserável, mas rica de valores culturais. Lugares escondidos atrás das janelas fechadas para inventar um desenho entre as casas e o mato. Intrigada com o tema do espaço público, da importância dos espaços de cultura, da vivência e do ensino do bem comum, localizei os lugares desta prática, nos museus, igrejas e cinemas.

Cinema de Andrequicé na praça da Matriz, 2016
Foto Marina Grinover

Observando o contexto dos eventos nos quais fomos envolvidos possuía um sentimento ambíguo de pertencimento. Segundo o filósofo italiano Antônio Negri (29), em tempos contemporâneos é preciso compreender, mais que o público, o sentido de comum. Um conceito não mais moderno, mas pós-industrial a partir do qual é possível reconhecer as diferentes realidades para a constituição de um campo de interesses comum. Este entendimento necessita tempo para amadurecer, convivência e distinção das diversidades entre pares. O comum se constitui na medida em que os diferentes poderes, financeiros, governamentais, políticos e sociais se estabelecem enquanto distintos ao redor de um interesse pactuado, comum.

Diante da precarização da terra e do trabalho, condições explicitas nas cidades que visitamos, fiquei com o problema da gestão, da construção de um campo de entendimento, um lugar da “esfera pública” que nos possibilita vivermos juntos no mundo.

Desenho de memória, mapa da cidade de Morro da Garça, 2016
Foto Marina Grinover

Sou arquiteta e já querendo jogar com todas estas informações pensei num mapa, um desenho de memória, lúdico que guardasse estas minhas impressões das cidades-sertão, minha deriva como um projeto indeterminado.

Segundo Italo Calvino (30), “a primeira necessidade de fixar lugares na carta está ligada à viagem, é o lembrete da sucessão de etapas, o traçado de um percurso. A cartografia, embora estática pressupões uma ideia de narrativa está concebida em função de um itinerário”.

notas

1
O Seminário Internacional “Os sertões de Rosa y Rulfo” foi organizado pelo Prof. Dr. Luis Antônio Jorge da FAU USP, como atividade do Grupo de Pesquisa do CNPQ "Representação dos lugares na cultura brasileira" em diálogo com os pesquisadores mexicanos Antônio Rivera da Universidad Autónoma Metropolitana, Cidade do México e Marcela de Nis da Universidad de la Costa (Puerto Vallarta). A atividade compreendeu a exposição de motivações para estudar literatura e desenho e uma viagem por quatro cidades no Sertão de Guimarães Rosa em agosto de 2016. Em abril de 2017 ocorreu em Guadalajara, México o "Primer seminario interdisciplinario de diseño y literatura", no qual este ensaio foi apresentado oralmente. Uma das referências importantes foi a coletânea: DÍAZ, Luis Antonio Rivera (org). Ensayos sobre retórica y deseño. Mexico, Universidad Autonoma - Casa abierta al tiempo, 2011.

2
Stefan Wilhelm Bolle, literato, livre docente em literatura alemã pela FFLCH USP. Estudioso da obra de Guimarães Rosa, escreveu: BOLLE, Willi. Grandesertão.br: o romance de formação do Brasil. São Paulo, Duas Cidades, 2004.

3
As obras usadas como referência neste artigo são: BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo, exercícios de paisagem. Rio de Janeiro, Eduerj, 2014; CARERI, Francesco. Walkspaces, caminhar como prática estética. São Paulo, Gustavo Gili, 2013.

4
Dados observados em indicadores sociais municipais de 2010 em pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGEwww.ibge.gov.br>.

5
Idem, ibidem.

6
PRADO, Jr. Bento. O destino decifrado. In: Alguns ensaios: filosofia, literatura, psicanálise. São Paulo, Max Limonad, 1985, p. 195-226.

7
Os livros citados são: ROSA, João Guimarães. Grande Sertão Veredas. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2015; ROSA, João Guimarães. Corpo de baile. Volume 1. Rio de Janeiro, José Olimpio, 1956; ROSA, João Guimarães. Corpo de baile. Volume 2. Rio de Janeiro, José Olimpio, 1956.

8
BOLLE, Willi. Grandesertão.br: o romance de formação do Brasil. São Paulo, Duas Cidades, 2004.

9
Idem, ibidem, p. 30.

10
Idem, ibidem, p. 261-376.

11
O conceito de "esfera pública" foi explorado pela filósofa Hannah Arendt em seu ensaio sobre a condição humana. As relações entre poder e capital elaboradas a partir da noção de trabalho e a noção de arte e política. Ver: ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1995.

12
Idem, Ibidem; BOLLE, Willi. Op. cit., p. 25.

13
Para as relações entre Brasília e os conceitos de nação ver os textos de Mario Pedrosa na coletânea: WISNIK, Guilherme (org). Mario Pedrosa, arquitetura ensaios críticos. São Paulo, Cosac Naify, 2015

14
Em MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples. São Paulo, Contexto, 2010. O sociólogo explora a condição desigual em que se encontram os estratos mais pobres da sociedade diante do projeto moderno para o país elaborado no século 20. No todo o dia de muitos brasileiros a perspectiva de progresso, de unicidade na noção de povo nunca pertenceu à realidade. Neste sentido, a complexidade do progresso moderno possível nunca esteve no horizonte da população mais simple. Seria neste enigma que poderemos encontrar substrato para um futuro menos desigual.

15
Idem, ibidem, p. 43.

16
ROSA, João Guimarães. Grande sertão veredas. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2015, p. 327.

17
BACKMAN, Mark. Las raíces de nuestra sofisticación. Traducción de Alejandro Tapia.Woodbrige, CT, Ox Bow Press, 1991, p. 1-32.

18
Ver: BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo, exercícios de paisagem. Rio de Janeiro, Eduerj, 2014, p. 11-66.

19
Idem, ibidem, p. 12.

20
Idem, ibidem, p. 26.

21
Idem, ibidem, p. 37.

22
Idem, ibidem, p. 45.

23
Idem, ibidem, p. 54.

24
Op. cit. p. 180-188.

25
Ver: CARERI, Francesco. Walkspaces, caminhar como prática estética. São Paulo, Gustavo Gili, 2013.

26
ROSA, João Guimarães. Recado do morro. In: Corpo de Baile. Volume 1. Rio de Janeiro, José Olimpio, 1956, p. 385-464.

27
Personagens dos contos: ROSA, João Guimarães. "Campo Geral" e "Uma estória de amor". In: Corpo de Baile. Volume 1. Rio de Janeiro, José Olimpio, 1956, p. 13-246.

28
Ver: BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo, exercícios de paisagem. Rio de Janeiro, Eduerj, 2014, p. 184.

29
NEGRI, Antônio. A constituição do comum. In II Seminário Internacional de Capitalismo Cognitivo, Rio de Janeiro, 2005.

30
CALVINO, Italo. Coleção de areia. São Paulo, Cia das Letras, 2010, p. 36.

sobre a autora

Marina Mange Grinover, arquiteta e urbanista FAU USP, mestre e doutora FAUUSP, professora de projeto na FAU USP, FAAP e Escola da Cidade. Organizou os livros: Lina por escrito (com Silvana Rubino) e Maquetes de papel de Paulo Mendes da Rocha (com Catherine Otondo), pela editora Cosac Naify, 2009. Sócia da Base Urbana desde 2007, premiada em 2014 pela APCA: melhor urbanidade pela Urbanização Favela do Sapé.

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