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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Revisa a situação enfrentada pela preservação, conservação e valorização do patrimônio moderno em São Paulo, através da reavaliação do ideário do movimento moderno, das ações do capitalismo e da disposição dos órgãos de preservação.

english
Reviews the situation faced by the preservation, conservation and valorization of modern patrimony in São Paulo, through the reappraisal of the ideology of the modern movement, the actions of capitalism and the disposition of preservation agencies.

español
Revisa la situación que enfrenta la preservación, conservación y valorización del patrimonio moderno en São Paulo, a través de la reevaluación del movimiento moderno, las acciones del capitalismo y la disposición de las agencias de preservación.


how to quote

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Desafios para a preservação do patrimônio arquitetônico e urbanístico modernos em São Paulo. O Docomomo no início do século 21. Arquitextos, São Paulo, ano 19, n. 219.00, Vitruvius, ago. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/19.219/7039>.

Para tratarmos do futuro do admirável legado arquitetônico e cultural da arquitetura, do paisagismo e do urbanismo do movimento moderno, alguns aspectos nos parecem importantes para refletir, antes mesmo de entrar nas possibilidades que o Comitê Internacional para a Documentação e Preservação de edifícios, sítios e unidades de vizinhanças do Movimento Moderno (Docomomo), como organização internacional e nacional que defende esse patrimônio, tem para enfrentar esse desafio (1).

O ideário moderno: o paradoxo de Sert

Gostaria de começar lembrando uma anedota antiga sobre a proteção do patrimônio arquitetônico moderno. Como relatou Oriol Bohigas, certa vez, nos anos 1970, um jovem e engajado arquiteto, para defender da demolição um edifico do Paseo de Gràcia, em Barcelona:

foi solicitar o apoio de Josep L[luís] Sert, o mais importante arquiteto da época republicana [na Espanha], líder do GATPAC, discípulo de Le Corbusier, Dean de Harvard. Sert quase o jogou pelas escadas abaixo, lembrando-lhe que quando ele era jovem ele assinou manifestos em favor da demolição de edifícios e bairros degradados e desatualizados, para ser capaz de substituí-los por uma nova arquitetura e um novo urbanismo ao serviço das novas necessidades, da nova cultura e, ainda, da nova política urbana (2).

O relato serve para mostrar um primeiro problema quando se pretende defender o legado do movimento moderno, em geral, pois os próprios modernos não tinham per se uma ideia muito precisa do que seriam seu legado. Seus edifícios? Ou sua atitude perante a cultura material? A opção de Sert, a julgar pela narrativa de Bohigas, foi pelo legado, isto é, pelas ideias que encamparam essa forma particular de formatação cultural que se deu no Ocidente, na Europa de fato, nas primeiras décadas do século 20. A defesa do patrimônio construído da cultura material, usando terminologia cara ao historiador mexicano Rafael López Rangel (3), era um contrassenso no caso daqueles arquitetos da primeira e segunda modernidade. Foram historiadores, como Sigfried Giedion (4), que introduziram, tardiamente por certo, um senso histórico, e patrimonial (monumental) no movimento moderno. No Brasil, a despeito da figura de Lucio Costa, o modernismo, sobretudo o paulista, também demorou em entender esse sentido histórico.

À diferença dos edifícios de outros períodos, como o classicismo, que se incorporavam a uma tradição (e aqui esta palavra tem um peso fundamental) julgada eterna e verdadeira pelos seus promotores, os edifícios modernos, em geral, foram feitos incluindo neles uma temporalidade precisa, a do presente, apressada pelo poderoso progresso, entendido como uma força ao mesmo tempo destrutiva e criativa. Temos que lembrar que esse furor destrutivo foi enaltecido pelos modernos (lembrar-se-á dos futuristas), pelo menos até a Segunda Guerra Mundial, e Sert lembrava-se bem dele ainda nos anos 1970.

Os edifícios históricos (5), por outro lado, são portadores de uma temporalidade difusa e longeva que admite com facilidade a preservação, até porque muitos deles estão entre nós há séculos, isto é, já fazem parte da preservação natural que a própria sociedade criou na sua decantação histórico-cultural (permanências, diria Aldo Rossi (6)), ainda que isso seja mais evidente na Europa do que no Brasil.

Edifícios modernos, pelo contrário, são muito recentes e foram pensados para durar pouco, pois dependeriam sempre das relações com as forças produtivas “ao serviço das novas necessidades” da sociedade, como afirmou Sert (7), de uma sociedade que foi sempre pensada como “viva, cambiante, nova”, que são as palavras com as quais Mies van der Rohe (8) encerra seu famoso aforismo de 1923, onde pretendia definir a arquitetura.

O capitalismo: criando espaço para a acumulação

Outro aspecto importante é o do desenvolvimento capitalista, que, como afirmou David Harvey:

precisa superar o delicado equilíbrio entre preservar o valor dos investimentos passados do capital na construção do ambiente e destruir esses investimentos para abrir espaço novo para a acumulação. Em consequência, podemos esperar testemunhar uma luta contínua, em que o capitalismo, em um determinado momento, constrói uma paisagem física apropriada à sua própria condição, apenas para ter de destruí-la, geralmente durante uma crise, em um momento subsequente (9).

O sistema capitalista, e os capitalistas, não estão do lado da preservação. Pelo contrário, anseiam iniciar o processo de destruição que lhes garantirá lucros imediatos a expensas do capital imobilizado que se encontra no ambiente construído. O ambiente construído é sempre um entrave, ao mesmo tempo em que se define como um desafio, por se tratar do campo riquíssimo da acumulação já consolidada. O capitalista, e as estruturas econômicas que o sustentam, no entanto, percebe perfeitamente que, como Harvey menciona, parte desse capital imobilizado é ainda um investimento rentável e por isso não o destrói imediatamente. Mas, o capitalismo é como Cronos, precisa devorar seus filhos para existir.

Assim, ainda que o sistema capitalista seja capaz de “criar espaços novos para a acumulação” (10), o que é evidente na construção das enormes periferias que alongam as metrópoles contemporâneas, ele também funciona seguindo o caminho menos espinhoso. “A sobrevivência do capitalismo é atribuída à capacidade constante de acumulação pelos meios mais fáceis” (11). A destruição de patrimônio construído é um ponto chave nesta questão, pois normalmente essas construções estão situadas em pontos considerados rentáveis e a capacidade da sociedade para protegê-los é difusa, isto quando existe alguma capacidade nesse sentido.

Evidentemente, demolir o MASP para levantar uma torre mista com galeria comercial no térreo e nos sobressolos, amplo estacionamento e uma torre de escritórios de alta rentabilidade acima de tudo isso, não é possível (ainda), mas fazê-lo uns quarteirões ao sudoeste dessa localização já se mostrou totalmente factível, a pesar da indignação de alguns setores (pequenos) da sociedade que protestaram pela destruição de um dos últimos casarões da Av. Paulista e sua enorme área ajardinada.

O patrimônio moderno – que foi o resultado da boa relação que os arquitetos modernos estabeleceram com os grupos de poder da época (1940 e 1960), tanto públicos como privados – está bem localizado, mas não goza do prestigio que outrora tivera e está longe de ser considerado insubstituível. Há claro, grandes exceções, como o MASP e o Copan, por exemplo, o que nos confronta com os critérios de seleção das obras que podem ou que devem ser protegidas. Este tema inclui, necessariamente, trazer para este debate a posição dos órgãos de preservação e a percepção contemporânea do patrimônio arquitetônico, paisagístico e urbanístico do movimento moderno, e do patrimônio cultural em geral no Brasil, ou pelo menos em São Paulo.

Os órgãos de preservação: uma visão deturpada

Uma visão interessante, pelo fato de ser recente e da posição hierárquica dos envolvidos, comparece nas declarações do atual Presidente do Conpresp, o Eng. Cyro Laurenza, que afirmou, numa mesa redonda organizada pelo Insper, que “não existe patrimônio cultural em São Paulo” (12).

A essa afirmação se seguiu um comentário que afeta de forma bastante direta o entendimento do que significa o patrimônio arquitetônico e urbanístico do Movimento Moderno, pois em referência ao Largo do Paissandu (13), manifestou que “com exceção da Igreja da Mãe Negra [Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos], que está linda, bonita, conservada, o resto é um lixo de jogar fora” (14).

Nesta afirmação temos dois aspectos importantes, o primeiro é a identificação da Igreja como um exemplo de integridade. Reconhecer a igreja como único edifício de valor remete às afirmações que antes expressamos sobre a temporalidade do patrimônio histórico frente ao patrimônio moderno, isto é, o valor de uma estética clássica do antigo frente a uma estética moderna do velho e decrépito que lamentavelmente é bastante recorrente em nossos dias. Retoma-se aqui a ideia da temporalidade difusa, da obra de arte. Reconhecemos nessa afirmação um fato generalizável, que a sociedade consegue se sensibilizar mais com o histórico do que com o moderno. Parte dessa situação é resultado de uma percepção temporal e outra plástica. A temporal é resultado da percepção evidente de que se trata de uma construção antiga (ainda que não seja) e a plástica parte da aceitação de uma componente estética que identifica o classicismo (e até o ecletismo) como uma expressão artística. Isto não ocorre com o movimento moderno, que, apesar de historicamente ser resultado de uma postura estética, não é assim reconhecido pela cultura popular, que o identifica com um acúmulo de caixas e sua temporalidade se afasta do antigo para resumir-se no velho.

A segunda parte da afirmação do presidente do Conpresp é igualmente sintomática, pois frente à igreja, “que está linda” (15), se nos apresenta o “lixo de jogar fora” (16) restante, que está constituído nada menos do que por um grupo significativo de edifícios modernos que se erguem majestosos no Largo do Paissandu. O edifício Wilton Paes de Almeida, obra ímpar de Roger Zmekhol, de 1961-1968; o Domingos Fernandes Alonso, onde está a Galeria Olido, construído pela Sociedade Construtora Duarte, em 1957; o conjunto José Paulino Nogueira, onde se encontrava o cine Paissandu, do Escritório de Ramos de Azevedo e Severo Villares, de 1958; o Centro Comercial Grandes Galerias, conhecido como “Galeria do Rock”, de Alfredo Mathias, de 1962-1963; e, ainda, o Cine Arte-Palácio, de Rino Levi (o cinema, não o edifício), de 1936. E pode ser até provável que algum deles esteja em situação lastimável - a obra de Zmekhol, por exemplo, que está ocupada e pichada -, mas não por isso é admissível aceitar que sejam reduzidos a “lixo [...] invadido por miseráveis” (17).

É muito provável que não se conheçam todos estes edifícios pelo nome, ou até que não se saibam as datas de construção ou o nome de seus arquitetos ou construtores, a imensa maioria da população de fato não sabe nada disso, mas o fato de demonstrar repulsa para com um ambiente urbano construído tão rico como esse, tratando-o como “lixo”, embora ele esteja realmente em lastimoso estado de conservação, como de fato está, parece indicar uma cegueira que é totalmente contrária ao espirito de proteção do espaço construído moderno.

Na mesma mesa redonda (18), o Presidente do Condephaat, o Prof. Dr. Carlos Faggin, afirmou que, apesar de termos um patrimônio cultural, “ninguém sabe [na sociedade o que é patrimônio]” (19) apoiando a afirmação de Laurenza de que em São Paulo “não temos políticas públicas para a proteção do patrimônio” (20). Arrematou ainda o seu discurso, o Presidente do Condephaat, informando que os conselhos de patrimônio são “prestadores de serviços” (21) e que quando, como parece ser o caso em São Paulo, esses prestadores de serviço não sabem o que seus “clientes” (22) querem ou pensam, o serviço que prestam é “de quinta categoria” (23), com o qual as ações de demolir ou de tombar têm o mesmo efeito arrasador.

Evidentemente, sabemos que a função dos órgãos de preservação não é a de proteger fisicamente o patrimônio tombado, ou mesmo fiscalizar seu estado de conservação, sabemos também que os comentários dos presidentes podem estar fora de contexto, quando aqui citados, e de fato estão, pois aqui estamos no âmbito do Docomomo e aquilo era um debate no Insper. Ou que ainda as frases citadas foram ditas de forma espontânea e pouco reflexiva, ou se referiam a outras questões, como a sujeita dos edifícios ou aos “miseráveis”, mas pensamos que essas afirmações representam realmente o sentimento de muitos dos integrantes políticos que fazem parte desses órgãos e, sobretudo, de uma importante parte de sociedade também. Isso é preocupante.

As pressões econômicas das entidades organizadas em volta da indústria da construção, e da imobiliária, forçam, normalmente, o processo de destruição do patrimônio, o histórico ou o moderno, dá igual, seguindo as leis da acumulação como descritas por Harvey, já comentadas, e os órgãos de preservação, associados ao governo, que deveriam garantir a proteção desse patrimônio, são, algumas vezes, sensíveis a essas pressões e não encontram políticas públicas sobre as quais ensaiarem sequer uma defesa que uma parte bem menos influente da sociedade deseja.

O futuro do Docomomo em São Paulo: the spider in the web

Nossa situação está emperrada nesta dualidade, por um lado o legado conceitual do movimento moderno e por outro uma sociedade que não tem uma sensibilidade orientada à compreensão dos benefícios do legado construído desse movimento e sua específica temporalidade. Some-se a isto a pressão econômica que o sistema capitalista gera para liberar espaço para novas construções que alimentarão a criação de riqueza material, e temos uma situação explosiva e conflitiva com pouco espaço para manobras. É neste ambiente conturbado que devemos pensar as ações do Docomomo e o legado que se pretende defender.

Quais são os objetivos gerais do Docomomo Internacional (24)?

1) A troca de conhecimentos e ideias no campo da arquitetura do movimento moderno e do design e sua documentação e conservação;

2) Proteger obras do movimento moderno (arquitetônicas ou urbanísticas) que estejam em perigo;

3) Estimular o interesse do público em geral e das autoridades competentes, em particular, pela arquitetura, o urbanismo e o design, do movimento moderno;

4) Criar um registo internacional dos edifícios importantes do movimento moderno para serem preservados e/ou documentados;

5) Formular novas ideias para o futuro do ambiente construído com base em experiências passadas do movimento moderno.

E qual a missão do Docomomo Internacional (25)?

1) Agir como “vigilantes” (watchdog), quando edifícios importantes do movimento moderno em qualquer lugar sofram ameaças de destruição.

2) Trocar ideias relativas à conservação de tecnologia, história e educação do movimento moderno.

3) Fomentar o interesse pelas ideias e herança do movimento moderno.

4) Apontar e definir a responsabilidade para com esta herança arquitetônica recente.

É interessante apontar, também, que os organizadores do Docomomo reconhecem que “a natureza pluralista, interdisciplinar do Docomomo Internacional, devido à sua capacidade de reunir historiadores, arquitetos, urbanistas, paisagistas, ambientalistas, professores, alunos e funcionários públicos, tem sido um forte trunfo” (26). E que “os núcleos nacionais ou regionais do DOCOMOMO podem funcionar como “incentivadores” (spider in the web) das instituições já existentes estimulando-as a defender o patrimônio moderno em conformidade com o seu mérito” (27).

Por outro lado, no caso do Brasil, as principais ações do Docomomo Brasil são:

A realização de inventários, campanhas de preservação e divulgação de obras de arquitetura, urbanismo, paisagismo, engenharia e artes em geral do Movimento Moderno no Brasil, bem como pedidos de tombamento. Além de lutar contra a descaracterização e a destruição de obras representativas do Movimento Moderno no Brasil e apoiar ações semelhantes no resto do mundo (28).

Há aqui um viés diferente.

Aqui no Brasil, ainda que este comentário não seja generalizável, parecemos estar mais interessados em inventariar e evitar a destruição de obras. Também pensamos em seus derivados mais acadêmicos, como “trocar ideias relativas à conservação de tecnologia, história e educação do movimento moderno” (29). Ou ainda, nas tarefas operativas que se relacionam com o trabalho dos órgãos de preservação, como os inventários e o tombamento.

O Docomomo Internacional, no entanto, enfatiza as ações de esclarecimento que tem a ver com “estimular o interesse do público” (30), o geral e o governamental, e ainda “fomentar o interesse pelas ideias e a herança do movimento moderno”, atrelando, contudo, essas propostas à finalidade de “apontar e definir a responsabilidade” para com essa herança.

Este caminho apontado pelo grupo internacional parece mais acertado hoje, na hora de enfrentar a atual conjuntura político econômica, pelo menos em nossas latitudes. Voltando a Harvey (31), nos resulta evidente que “o caminho da acumulação seguirá por onde a resistência for mais fraca”, pois o capitalismo busca sempre “os meios mais fáceis” para realizar seu processo de acumulação. Afrouxar a resistência à destruição do patrimônio, como pretendem alguns dos órgãos de preservação (pressionados pela indústria imobiliária, devemos reconhecer), não é o melhor caminho, mas é o caminho que se seguirá se não tentamos influenciar de alguma maneira a política desses órgãos.

Devemos estimular o interesse público, o que significa desenvolver um interesse do público em geral, sobretudo dos mais jovens, e influenciar, ao mesmo tempo, as instâncias públicas (não só os conselhos) para que se interessem e conheçam esse patrimônio.

Questões de responsabilidade: um espaço de difícil demarcação.

Quem é responsável pelo patrimônio moderno? A julgar pelas declarações dos atuais presidentes do Conpresp e do Condephaat, é a sociedade. Isto é, só podemos falar de patrimônio se a sociedade abraça essas construções como própria, as usa e as defende. Esta atitude simplifica a questão, pois translada a responsabilidade à sociedade (que é uma entidade difusa) deixando o governo de fora. Afirma-se que não preservamos porque a sociedade não manifesta esse desejo. O que deixa o caminho desimpedido para que o capital destrua e construa, aprimorando o processo de acumulação que não leva em conta a componente cultural.

Aqui entra em pauta outra das ideias do Docomomo Internacional, a de “formular novas ideias para o futuro do ambiente construído com base em experiências passadas do movimento moderno” (32). Obviamente algumas das ideias e algumas das realizações do movimento moderno foram desastrosas, Pruitt-Igoe continua sendo uma evidência, e uma advertência, contundente. Mas, no caso brasileiro isto não é bem assim. A modernidade no Brasil criou uma enorme quantidade de obras de excelente qualidade plástica e de melhor qualidade ambiental. Exemplos como o exuberante conjunto do Parque Eduardo Guinle (1948-1954), projeto de Lucio Costa, ou o mais recatado, ainda que urbanamente muito bem resolvido, Edifício Louveira (1946), de Vilanova Artigas em São Paulo, são expressivos da enorme qualidade da modernidade em estas latitudes.

A modernidade deu uma cara a São Paulo, e ainda que essa cara esteja sendo maltratada por décadas, continua sendo, em muitos bairros da cidade (como Higienópolis, Bela Vista, Santa Cecilia, Jardins, Consolação, e o centro, novo e velho, entre tantos), a melhor cara da cidade. Evidenciar essa situação (a de uma modernidade atual e atuante) é uma parte importante do trabalho do Docomomo. Evidenciar que essa situação é compartilhada por muitas outras cidades do Estado é também um trabalho necessário, pois muitas dessas cidades se consolidaram no período do auge da modernidade, entre os anos 1940 e 1970, são fruto do pensamento e da estética que acompanhou o modernismo, fazem parte da identidade dessas agrupações, da mesma maneira que resultam significativas para um bairro da capital. Expandir o trabalho de conscientização e esclarecimento, de conhecimento e reabilitação conceitual primeiro, e material depois, pode ser um dos caminhos mais frutíferos para enfrentar o impacto do capital, dificultando seu avanço destrutivo sobre o patrimônio moderno. Talvez, se fossemos suficientemente bons nessa tarefa de dificultar a ação demolidora do sistema, criando entraves à acumulação, o capitalismo encontraria outros caminhos mais fáceis para cumprir com sua missão histórica: a da acumulação de capital, como afirma Harvey (33), que implica, necessariamente, destruir.

Como realizar este trabalho? Seguindo o ponto forte do Docomomo Internacional, isto é, reunindo historiadores, arquitetos, urbanistas, paisagistas, ambientalistas, professores, alunos e funcionários públicos, e ainda trabalhando com as comunidades locais, que podem estar num bairro da capital ou numa cidade do interior. Não devemos só valorizar, promover e defender esse importantíssimo legado arquitetônico e cultural, devemos esclarecer à população e às autoridades que ele representa o melhor resultado de nossas cidades ainda hoje, e que isso continua sendo um acumulo de riqueza muito, mas muito, rentável.

Se nós mesmos fôssemos capazes de reconhecer essa relação positiva e revigorante entre a modernidade e nossa realidade urbana atual, romperíamos também o paradoxo de Sert, porque a experiência moderna não seria a de “edifícios e bairros degradados e desatualizados”, como parece ser o Largo do Paissandu para alguns, mas uma aventura ao “serviço das novas necessidades, da nova cultura e, ainda, da nova política urbana” (34).

 

Uma conclusão inconclusiva, mas necessária: uma nova política urbana

A premissa de que “o moderno virou passado” (35) é inconsistente com a percepção da realidade, ainda que estejamos frente a percepções que identificam edifícios modernos como “lixo”, pois o moderno (e a modernidade) continua sendo, pelo menos no Brasil, parte integrante e ativa do ambiente construído da cultura material na qual todos nós cidadãos desenvolvemos nossa vida cotidiana. Da mesma forma que, na Roma Albertina, a Roma imperial e a arquitetura clássica faziam parte inseparável da vida de um romano comum, a arquitetura moderna nos acompanha em São Paulo, e em outras cidades do Estado, de uma maneira contundente e expressiva, que nos forma como indivíduos e nos dá caráter cidadão. Esta é a percepção que nos compete evidenciar para a sociedade, não o fato de que estamos preservando uma antiguidade ou uma velharia, mas de que estamos enfrentados no presente à nossa identidade cultural e que nosso legado urbano é único e enriquecedor de nosso futuro. Perdê-lo nos empobreceria, retiraria nosso capital acumulado desgastando nossa riqueza e deixando nossas expectativas estéreis.

Evidentemente, é difícil que no seu afã imediatista pelo lucro, a indústria imobiliária compreenda de forma pacífica estas ideias. Lutar contra os investidores é uma forma de desgaste frustrante para um movimento da sociedade civil como Docomomo, mas influenciar e incentivar (spider in the web) a direção das políticas públicas e das redes sociais na direção que nos interessa poderia ser um caminho mais eficiente e menos oneroso para nossas parcas forças.

Podemos, por exemplo, fomentar a capacidade de consumo dos bens imóveis construídos na modernidade que são de excelente qualidade espacial e plástica, muito melhores que seus congêneres contemporâneos que deixam a desejar tanto desde um ponto de vista dos metros cúbicos por habitante como das caraterísticas dos acabamentos e do uso de obras de arte na construção do ambiente. Esses altos investimentos do passado são hoje impossíveis de serem realizados em uma escala tão ampla como foi feito na modernidade. Essa riqueza deve ser enfatizada para demonstrar que a o patrimônio construído da modernidade é mais bem resolvido e rentável do que o que poderá substitui-lo se fosse o caso de sua demolição. Destruir o edifício Wilton Paes de Almeida, por exemplo, para substituí-lo por outro edifício de escritórios, ou ainda de habitação, não garantiria a qualidade plástica que esse edifício já oferece ao cidadão que circula pela Largo do Paissandu. Por outro lado, revitalizar o Largo incluindo-o seria “formular novas ideias para o futuro” (36).

Esse, penso, é o interesse e o destino do Docomomo, pensar o futuro usando a experiência do passado, de um passado moderno que nos acompanha cotidianamente na contemporaneidade, usando os médios de nossa época para nos auxiliar nessa árdua tarefa.

Parafraseando a Sert, diríamos que essa tarefa está ao serviço de novas necessidades, de uma nova cultura inclusiva e, ainda, de uma nova política urbana respeitosa da riqueza cultural e material da modernidade.

notas

1
Conferência apresentada no 5º Seminário Docomomo – SP, São Paulo, 16-17 out. 2017, na Mesa 2: Docomomo Século 21: futuros. A mesa foi desenvolvida sob o lema: "Quando o Moderno virou passado, mas é ainda contemporâneo, como valorizar, promover e defender esse importantíssimo legado arquitetônico e cultural?”. Participaram também: Fernando Diniz Moreira, Cláudia Cabral, Ana Beatriz Galvão. Coordenador: Hugo Segawa.

2
BOHIGAS, Oriol. El ejemplo del azufaifo. El Periódico de Catalunya, Barcelona, 11 jul. 2007. Disponível in <http://www.elperiodico.com/es/opinion/20070711/el-ejemplo-del-azufaifo-5463439>.

3
RANGEL, Rafael López. La Modernidad arquitectónica mexicana, antecedentes y vanguardias: 1900-1940. México, UAM-Azcapotzalco, 1989.

4
Referimo-nos ao Giedion do VIII CIAM, onde propus o entendimento da “nova monumentalidade”.

5
Diferenciamos aqui o patrimônio construído entre “histórico” e “moderno”, não porque o moderno não seja histórico, mas como uma forma de facilitar a diferenciação entre essas duas realidades, pois pretendemos demonstrar que são bem diferentes, tanto desde um ponto de vista conceitual como operativo perante a sociedade.

6
ROSSI, Aldo. La arquitectura de la ciudad. Barcelona, Gustavo Gili, 1982.

7
SERT apud BOHIGAS, Oriol. Op.Cit.

8
MIES VAN DER ROHE, Ludwig. Aforismo 1923. Arq.urb, São Paulo, n. 10, p. 169-172, 2º semestre 2013. Disponível in <http://www.usjt.br/arq.urb/numero-10/13-classicos-fernando-g-vazquez.pdf>.

9
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo, AnnaBlume, 2006, p. 54.

10
HARVEY, David. Op.cit., p. 67.

11
HARVEY, David. Op.cit., p. 71. Grifado no original.

12
INSPER. Patrimônio em debate: Políticas públicas de preservação. São Paulo, INSPER, 28 jun. 2017. Gravação da Mesa Redonda com a participação de Cyro Laurenza, Carlos Faggin, Juliana Prata, Raul Lores, Álvaro de Souza e Marcos Lisboa. Disponível in <https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/patrimonio-em-debate-politicas-publicas-de-preservacao/>.

13
Este texto foi escrito em outubro de 2017, bem antes do lamentável incêndio que acabou com o edifício Wilton Paes de Almeida em 1º de maio de 2018. Preferimos deixar o texto como foi escrito, sem incluir maiores comentários sobre o terrível evento porque nos pareceu importante deixar em evidencia nossa preocupação pela situação do Largo do Paissandu antes do desabamento. Nossa opinião sobre o que aconteceu com o edifício pode ser lida no sítio do Núcleo Docomomo São Paulo. Disponível in <https://www.nucleodocomomosp.com.br/noticias>.

14
INSPER. Op. cit. 2:40:09 - 2:40:21. Depois da afirmação, o presidente se pergunta “se pode jogar fora esse lixo”, e afirma que não, pois há questões sociais (prédios “invadidos por miseráveis que não tiveram outra solução com eles a não ser enfia-los em aqueles lugares”) que fazem parte dessa situação de deterioro, o que pareceria deixar o problema fora do âmbito da preservação. Ainda assim, chama a atenção o fato de que o presidente perceba tamanho deterioro e não seja capaz de formular, ou pelo menos sugerir, uma ação de governo, da Secretaria de Cultura ou de outras, para enfrenta-lo.

15
Idem, ibidem.

16
Idem, ibidem.

17
Idem, ibidem.

18
Idem, ibidem.

19
Idem, ibidem, 3:04:17.

20
Idem, ibidem, 2:41:02.

21
Idem, ibidem, 3:03:50

22
Idem, ibidem.

23
Idem, ibidem, 3:06:58.

24
Revision 2010. Docomomo Constitution. Emenda à constituição do Docomomo de 1990, realizada em 2010 no Congresso de México. Cidade do México, ago. 2010. Disponível in <https://www.docomomo.com/pdfs/about/constitution/104836_docomomoconstitution.pdf>. Tradução livre.

25
Site oficial do Docomomo Internacional. Disponível in <https://www.docomomo.com/mission>. Tradução livre.

26
Idem, ibidem.

27
Idem, ibidem.

28
Site oficial do Docomomo Brasil. Disponível in <http://docomomo.org.br/sobre-o-docomomo-brasil/>.

29
Site oficial do Docomomo Internacional. Disponível in <https://www.docomomo.com/mission>.  Item 2, da “missão” do Docomomo International.

30
Idem, ibidem. Item 3 dos “objetivos” do Docomomo Internarional.

31
HARVEY, David. Op. cit., p. 71.

32
Site oficial do Docomomo Internacional. Disponível in <https://www.docomomo.com/mission>.  Item 5 dos “objetivos” do Docomomo International.

33
HARVEY, David. Op. cit., p. 71.

34
BOHIGAS, Oriol. Op. cit.

35
Mote da mesa temática, onde esta palestra foi ministrada: “Quando o Moderno virou passado, mas é ainda contemporâneo, como valorizar, promover e defender esse importantíssimo legado arquitetônico e cultural?”.

36
Site oficial do Docomomo Internacional. Disponível in <https://www.docomomo.com/mission>.  Item 5 dos “objetivos” do Docomomo International.

sobre o autor

Fernando Guillermo Vázquez Ramos é Professor Adjunto do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da USJT. Coordenador do Núcleo Docomomo São Paulo. Coeditor da revista eletrônica “arq.urb”. Doutor (U.P.Madrid, 1992); Magister (Inst. de Estética y Teoria de las Artes, Madri 1990); Técnico em Urbanismo (INAP, Madri 1988); Arquiteto (UNBA, 1979).

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