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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Rodrigo Boufleur relaciona a chamada gambiarra, construção de um artefato improvisado através do reaproveitamento de materiais, com o design de produtos

english
Rodrigo Boufleur in this article relates the quick fix, building an improvised device through the reuse of materials, with product design

español
Rodrigo Boufleur en este artículo relaciona la llamada gambiarra, construcción de un artefacto improvisado a través del reaprovechamiento de materiales, con el diseño de productos

how to quote

FIRMINO, Rodrigo. A questão da gambiarra. O design espontâneo para necessidades específicas. Drops, São Paulo, ano 07, n. 018.05, Vitruvius, mar. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/07.018/1714>.


Hoje em dia, o termo gambiarra remete a muitos significados diferentes. Dentre esta variedade, gostaríamos de destacar a idéia de improvisação, de fazer uma adaptação, conserto, remendo, “dar um jeito” – o difundido “jeitinho brasileiro”. Neste sentido, quando pensamos que gambiarra é um procedimento usado para criar soluções na forma de objetos, esta idéia começa a ter uma boa proximidade com o conceito de design de produtos.

Assim, é dentro do universo da cultura material, precisamente no âmbito da produção de artefatos que se estabelece a essência da relação entre estas duas práticas. Se anteriormente ao advento da indústria não existia o que entendemos por design, outras maneiras de desenvolver artefatos surgiram também a partir da estrutura que o processo de industrialização proporcionou. Mas, com uma diferença fundamental: ao invés de utilizar matéria-prima bruta, nestas “práticas alternativas”, os artefatos são constituídos através da transformação ou re-configuração de outros artefatos industriais pré-existentes; não com o objetivo de serem comercializados ou simplesmente como arte, mas sobretudo, para serem utilizados. Essa condição faz com que estas “formas alternativas” de desenvolver artefatos se aproximem dos procedimentos de reutilização / reciclagem, e também, do conceito de bricolagem (2).

Sabemos muito bem, que este tipo de prática não é uma exclusividade do povo brasileiro. No entanto, essa conotação tem sido empregada por muitos como um meio de identidade cultural, enfatizando a capacidade de improvisação, a inventividade e a inteligência popular do brasileiro dentre outros povos. Esta visão tem sido sugerida por alguns pensadores, ao exemplo de Aloísio Magalhães:

“A capacidade de invenção, para mim, cada vez se torna mais clara ser o grande atributo do homem brasileiro” (3).

Frente aos rumos que o uso do termo tem tomado, gostaríamos de tentar propor uma definição, a partir de quem o considera sob a ótica da cultura material. De uma maneira genérica, gambiarra é o procedimento necessário para a configuração de um artefato improvisado. A prática da gambiarra envolve sempre uma intervenção alternativa, o que também poderíamos definir como uma “técnica” de re-apropriação material: uma maneira de usar ou constituir artefatos, através de uma atitude de diferenciação, improvisação, adaptação, ajuste, transformação ou adequação necessária sobre um recurso material disponível, muitas vezes com o objetivo de solucionar uma necessidade específica. Podemos compreender tal atitude como um raciocínio projetivo imediato, determinado pela circunstância momentânea; ou ainda, como uma espécie de design espontâneo (4).

Seja porque uma determinada peça do ventilador quebrou e precisa de conserto imediato ou porque é muito mais fácil dar um “jeitinho” do que procurar alguma loja que venda um esquisito parafuso; seja porque não se fabrica mais a maçaneta da porta de um carro antigo ou porque não há dinheiro para comprar uma vassoura; seja porque o apagador de lousa não se enquadra nas proporções da mão nem no jeito de manipulá-lo ou porque não existe uma cadeira de rodas que se adapte às condições atmosféricas e de relevo em que se vive; seja porque não se encontra uma mochila com características que correspondam à maneira de viver de um indivíduo, muitas vezes somos convidados a partir para a busca de uma solução não convencional. Uma das condições que parecem motivar estes tipos de solução é a existência das necessidades específicas ou insólitas. Deste momento em diante, segue o uso de algum recurso ou material disponível (veja bem, não necessariamente adequado) – e vale então o raciocínio inventivo, a capacidade criativa, para se obter os mais variados resultados. Enfim, as gambiarras estão sempre relacionadas a um contexto peculiar, uma conjuntura de situações que não se repetem de forma padronizada, nem costumam ser previsíveis. É natural, assim, encontrarmos diversos exemplos de objetos que são transformados, pequenas adaptações que são feitas para melhor adequar a função de um produto, artefatos que são criados a partir de resíduos de outros, ajustes, consertos, remendos improvisados dentro das condições cabíveis naquele instante. É possível que tenhamos passado desatentos até aqui, mas sob o olhar de um assunto muito comentado atualmente, entender e aprimorar a prática da gambiarra pode significar uma real contribuição para nosso desenvolvimento sustentável.

Um dos maiores problemas da atualidade é o destino dos resíduos sólidos. O lixo é o único recurso em crescimento no planeta, portanto qualquer proposição a esta problemática é bem-vinda. Obviamente já existem diversas alternativas propostas, e outras já implementadas, como a reciclagem do lixo massificado (latas de alumínio, caixas de longa-vida, garrafas PET, vidro, papel em geral). Contudo, dentro da composição de todo entulho que existe no espaço urbano, é possível encontrar uma gama variada de recursos materiais disponíveis, os quais possuem atributos particulares. Devido à sua característica extremamente diversificada, ao valor na tipologia (sua forma muitas vezes sugestiva), além de sua qualidade material, poderíamos intitulá-los pela expressão “lixo rico”. Não é comum, mas todos devem concordar que é possível encontrar objetos inutilizados, como um tubo de televisão queimado, uma bola de boliche mal fabricada, um mostruário ultrapassado de celulares, uma roda de bicicleta desmontada, uma vitrola e seu disco de vinil, ou uma bacia giratória de máquina de lavar roupa que estragou. Talvez sejam objetos tão difíceis de existirem descartados no espaço urbano, em quantidade tão desprezível, que para alguns seja um assunto de importância nula. Mas, ao reunir objetos que se enquadrem nessa característica, temos uma quantidade razoável de raridades. Diante destas condições, há um questionamento que se pode apresentar: Não seriam possíveis outros destinos, diferentes da reciclagem convencional, das usinas de incineração, do ferro-velho ou dos aterros sanitários? Por exemplo: enxergá-los como matéria-prima instantânea para desenvolver novos artefatos, às vezes com a ajuda de alguns clipes, vergalhões, tocos de madeira, canos de PVC, parafusos, telas, placas de plástico, chicletes, guardanapos, barbantes, fita crepe, pasta de dente, trapos de pano, fios elétricos, elementos pré-fabricados (materiais pré-industrializados) ou quaisquer outras peças e objetos em geral.

Curioso é que paralelamente à questão do lixo rico, todos nós – por sermos seres individuais e variados – possuímos características muito particulares ou raras, as quais, possivelmente em algum momento, demandam diferenciais nos artefatos que utilizamos. Muitas vezes vemos pessoas marginalizadas pela sua condição singular, como o caso dos portadores de deficiência, das pessoas que possuem medidas incomuns, ou até daqueles que “insistem” em adotar um hábito de vida diferente da maioria. Como desenvolver produtos em série para atender essas mais variadas necessidades?

Talvez, essa relação disponibilidade / demanda (recursos materiais disponíveis / necessidades específicas) pressuponha a existência de uma espécie de “projeto idiossincrático”, pois seria interessante que a produção dos artefatos também respondesse à particularidade destas duas realidades. Isso sugere que uma forma de produção industrial, o modelo tradicional para desenvolver artefatos através do design, deixa lacunas, não sendo capaz de suprir todas as necessidades materiais existentes.

Portanto, não é casual nosso intuito de relacionar as duas práticas. Como pudemos perceber, as práticas do design e da gambiarra possuem algo em comum. Porém, enquanto ao se pronunciar o termo design, subentende-se idéias como “nobre”, “de qualidade”, “bonito” e “valioso”, a palavra gambiarra tende a estar associada a idéias como “tosco”, “feio”, “precário” e “ordinário”. Ainda, os artefatos improvisados são muitas vezes interpretados como alegorias. Também é mais comum dedicar atenção ao aspecto insólito, festivo ou bizarro destes objetos, o que ofusca a possibilidade de entendê-los como reflexos de uma problemática sócio-cultural e ambiental. Muitos artefatos de extrema utilidade e benefício, por isso, deixam de receber seu devido valor.

Por outro lado, o termo design tem sido cada vez mais banalizado pela mídia. Usa-se design para atribuir um mito vazio, uma forma de produzir ostentação, opulência. Costuma-se relacionar design ao luxo, ao hedonismo, destituindo as verdadeiras funções sociais desta atividade, para transformá-la numa ferramenta que desempenhe a função de “estilismo”.

Num trocadilho de termos mal-interpretados, enquanto design parece uma realidade distante para muitos, gambiarra é uma realidade próxima para a maioria. A difusão da idéia de aproximar gambiarra e design tende a colaborar com a quebra de alguns paradigmas insustentáveis; um passo para se re-pensar alguns preconceitos quanto à recuperação, à recauchutagem, ao reaproveitamento, à restauração, à reutilização, ao uso de artefatos improvisados, reparados, recuperados; ao que entendemos aqui como a prática da gambiarra.

notas1
Artigo baseado no seguinte trabalho: BOUFLEUR, Rodrigo. A questão da gambiarra: formas alternativas de produzir artefatos e suas relações com o design de produtos. Dissertação de msestrado. São Paulo, FAU-USP, 2006.

2
Para maiores compreensões sobre o conceito de bricolagem, consulte a introdução de LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. [1966] São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1970.

3
MAGALHÃES, Aloísio. E triunfo? A questão dos bens culturais no Brasil. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997, p. 178.

SANTOS, Maria Cecília Loschiavo. As cidades de plástico e papelão. Tese de Livre Docência, São Paulo: FAU-USP, 2003, p. 75.

[publicação: junho 2007]

sobre o autor

Rodrigo Boufleur é designer e mestre pela FAU-USP.

Rodrigo Boufleur, São Paulo SP Brasil

Funil improvisado com guardanapo
Foto Rodrigo Boufleur, São Paulo, SP, 200

Suporte para planilha e porta-objetos em bicicleta
Foto Rodrigo Boufleur, Riacho Grande, SP, 2005

Lata de refrigerante com uma membrana elástica colocada no lugar da agulha da vitrola
Foto Rodrigo Boufleur

"A questão da gambiarra"
animação com ilustrações de Vinicius Oppido e Marcelo B. Branco

"A questão da gambiarra"
animação com ilustrações de Vinicius Oppido e Marcelo B. Branco

"A questão da gambiarra"
animação com ilustrações de Vinicius Oppido e Marcelo B. Branco

Artefato de rápido recolhimento para vendedor ambulante
Foto Rodrigo Boufleur, Curitiba, PR, 2004

 

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