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drops ISSN 2175-6716

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Segundo o autor, o programa do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP caracteriza-se por oferecer uma formação generalista e abrangente

how to quote

JORGE, Luís Antônio. Ensino de Projeto e o projeto de ensino. Da arquitetura e do urbanismo na FAU-USP. Drops, São Paulo, ano 10, n. 030.05, Vitruvius, jan. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/10.030/2113>.


FAU - USP
Foto Inês Bonduki


"... é preciso saber se tudo aquilo que houve foi projeto ou destino, se o homem construiu segundo os próprios desígnios ou se, pensando fazê-lo, fez algo que já estava dito e decidido. Fazendo a vida para nos subtrairmos à morte, fazemos realmente a vida ou fazemos, com nossas mãos, a nossa morte?" (G. C. Argan)

"Há duas espécies de escritores. Os que são e os que não são. Nos primeiros, forma e conteúdo se completam como corpo e alma; nos outros, forma e conteúdo se combinam como corpo e roupa." (Karl Kraus)

"Nessa terra a dor é grande e a ambição, pequena." (Caetano Veloso)

O programa do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP caracteriza-se por oferecer uma formação generalista e abrangente, percorrendo um pressuposto vasto campo de atuação profissional do arquiteto, derivado e comprometido ideologicamente com a tradição humanista e utópica do projeto moderno.

Esta formação generalista, quando proposta e implantada, estava amparada por uma visão restrita da arquitetura e do urbanismo – “restrita”, no sentido afirmativo que estava palavra carrega ao escudar-se em um paradigma claramente definido e no combate diletante a outras alternativas ou modelos de arquitetura. Esta visão, identificada por alguns historiadores como “arquitetura paulista”, se não era a única, era hegemônica e garantia a unidade necessária da proposta pedagógica, diante da abrangência de conteúdos e da diversidade de métodos de ensino derivados da heterogeneidade da formação e da atuação profissional do corpo docente.

Dizendo de outra maneira: a arquitetura que podemos, sem muito esforço, imaginar como derivada de uma matriz chamada Vilanova Artigas e reconhecida no edifício da FAU-USP como seu exemplo máximo de valor arquitetônico (inclusive, no que ele pode conter, na sua retórica discursiva, uma ideologia de espaço público e, sobretudo, uma pedagogia do projeto) serviu à FAU de lição onipresente da sua identidade como Escola de Arquitetura. Esta notável obra de arquitetura encarnou um conjunto de valores (e, se pensarmos no processo de ensino-aprendizado, um conjunto de conteúdos) a serem ensinados aos nossos alunos. O edifício funcionava como um farol em meio ao mar aberto à profusão de experiências didáticas e de conteúdos diversos, cujas autonomias eram sempre lidas como justificáveis e enriquecedoras. E, de fato, foram.

Para muito além das críticas corriqueiras de ordem funcional ou de conforto ambiental, que se fazem ao Edifício – que se não são mais sussurradas, também não chegam a plenos pulmões – o que deveríamos (não como sessão de psicanálise coletiva) é indagar esta condição de paradigma de arquitetura. Não para desqualificar o edifício – nosso maior e inquestionável patrimônio cultural – mas para reavivar o pensamento crítico e necessário à produção do conhecimento em arquitetura. Há que se distinguir, portanto, a condição de mito da de paradigma. A FAU, na condição de mito, paralisa-nos e desestimula a investigação que move o fazer reflexivo e propositivo da atividade de projeto. Na condição de paradigma, ao contrário, permite a inovação ou até, a sua superação, desde que reconhecidas as exigências das suas lições de obra de arquitetura de excelência. Questionar o mito significa, paradoxalmente, uma atitude de respeito à tradição que o forjou: a da busca pela necessária complementaridade entre forma e conteúdo como expressões de um mesmo desígnio.

O campo do conteúdo, como bem sabemos, atingiu tamanha complexidade que parece hoje ser inabarcável e, por conseguinte, assistimos dois fenômenos que são faces da mesma moeda: um, o do caminho da super-especialização, corrida sem fim (comparada à tarefa de Sísifo) em direção à multiplicação (ou inclusão) dos (últimos) conteúdos e à fragmentação acelerada do conhecimento; outro, por ceticismo, por falta de meios ou por prudência, abdica-se de ostentar a posse da realidade, promovendo, cada vez mais, um esvaziamento de conteúdos ou mesmo, uma alienação. Ambas as faces, não prezam a tradição da FAU, reconhecida pelo seu pioneirismo e também, como referência na história do ensino e da pesquisa em arquitetura e urbanismo no Brasil.

Nesse quadro, cabe indagar os propósitos da arquitetura e do urbanismo nas condições concretas dadas pela nossa realidade econômica, social, cultural, tecnológica, ambiental e metropolitana. Ainda podemos admitir a idealização de uma sociedade futura e de um projeto construtivo que contribua para sua realização? Ainda acreditamos na arquitetura como partícipe da vanguarda (apesar do anacronismo do termo) cultural brasileira? E no ensino, ainda vislumbramos a oportunidade de nos reinventarmos à luz das agudas indagações apresentadas pela ampliação dos conteúdos e do horizonte complexo desenhado pelas ciências e pelas artes contemporâneas?

O poeta e professor Décio Pignatari, parafraseando a máxima sobre a crítica literária, dizia com freqüência que a crítica da arquitetura é uma outra arquitetura. Este exercício crítico como atividade de projeto só pode encontrar respaldo em condições pedagógicas claramente orientadas para este fim, isto é, que reivindicam massa crítica e repertório informacional. Esta é atividade central dos Studios (ou Ateliers) que vislumbramos para a FAU: construir um campo da investigação projetual autônomo, fundamentalmente experimental. A definição dos seus conteúdos haverá de passar, necessariamente, por uma racionalização das atuais convergências existentes entre docentes, pesquisas e experiências didáticas. Só assim poderemos aprofundá-las em um campo nitidamente investigativo como deve ser a prática do projeto de arquitetura e urbanismo. Aqui, mais uma vez, resgatamos aquela tradição encarnada no edifício do Artigas.

Se não há espaço para um discurso hegemônico e redentor das nossas angústias e dos nossos desígnios, por que, ao invés de aguardarmos um novo consenso (ou um D. Sebastião), não explicitemos as nossas, ainda que transitórias, visões de mundo (e de arquitetura)? Por que não podemos ser uma escola-laboratório onde os conteúdos reflitam a eleição de um conjunto de problemas, condição necessária, tanto para a produção do conhecimento, quanto para a definição do papel da FAU na arquitetura brasileira?

Por que os Studios de Projeto não se orientam, com determinação ambiciosa, para experiências que buscam responder às realidades incontestáveis àquele grupo de “professores-investigadores” que por ele seriam responsáveis? Se não é mais possível aquela visão restrita da arquitetura e do urbanismo, que sejam explicitadas as distinções e que, elas (se existirem) sejam transformadas em projetos de investigação com personalidades próprias.

A título de um breve rascunho inicial, vejamos uma lista de bons problemas a estimular a investigação nestes Studios, suficientemente amplos para abrigar propostas bem focadas que poderiam ser reformuladas ano a ano, porém apoiada em um corpo de conteúdos mais estáveis a orientá-la:

1. Arquitetura e demandas sociais brasileiras

Temas: habitação de interesse social, urbanização de favelas, reutilização de edifícios ociosos, equipamentos públicos urbanos, tratamento urbanístico/paisagístico de áreas de preservação de recursos naturais, arquitetura do lazer (ou do prazer) nas periferias brasileiras, etc, etc, etc.

2. Arquitetura e cultura brasileira

Temas: patrimônio cultural e projeto de arquitetura e urbanismo (formas de intervenção e/ou preservação); reabilitação das áreas centrais das grandes e médias cidades; arquitetura e identidade cultural (aproximação à cultura dos lugares); projeto e linguagem da arquitetura brasileira; etc, etc, etc.

3. Arquitetura como artefato

Temas: sistemas construtivos e arquitetura; história das tecnologias construtivas e experiências projetuais; arquitetura e recursos técnicos, materiais e financeiros; tecnologia sustentável e arquitetura; tecnologia industrial e projeto de arquitetura; etc, etc, etc.

4. Arquitetura e metrópole

Temas: projetos de equipamentos públicos da escala metropolitana; redes de infra-estrutura e a arquitetura e o urbanismo; estratégias para o planejamento urbano e territorial na metrópole; arquitetura e novas demandas da vida metropolitana; etc, etc, etc.

Os professores poderiam se organizar, considerando duas variáveis não excludentes: a mais óbvia e racional, de acordo com a área de conhecimento (ou especialidade) em que o professor atua e, a mais natural e sensível, sob a orientação teórica, ideológica e sentimento de afinidade de pensamento estético. Assim, os Studios vão adquirindo personalidades próprias e apresentando-se como opções aos alunos de acordo, também, com as suas orientações. Poderemos ter uma FAU muito mais atenta às suas múltiplas facetas, ao seu potencial investigativo e ao processo de ensino-aprendizado se superarmos a velha idéia do pensamento científico como algo neutro e universal, e assumirmos toda a parcialidade que nos aprisiona como seres de nosso tempo e espaço. Poderemos nos beneficiar da motivação que é a própria da produção de conhecimento, da experimentação e do atrito de idéias sobre um problema bem colocado para o ensino de projeto e para a escola se pensar nos termos da arquitetura e do urbanismo. Poderemos construir, pontualmente que sejam, espaços permanentemente questionadores que nos situe em um panorama alargado que abrange a universidade, a cidade e o país. Poderemos aprimorar a convivência com a diferença e com o contraditório. Poderemos evitar um ensino sem surpresas, um projeto sem conteúdo, uma escola obsoleta e acreditar fazer a vida para nos subtrairmos à morte. O destino? É saber ouvir as lições silenciosas do edifício da FAU-USP.

sobre o autor

Luís Antônio Jorge, arquiteto e urbanista, Prof. Dr. do Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Luís Antônio Jorge, São Paulo SP Brasil

FAU - USP
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