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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Este artigo é uma leitura crítica da montagem da ópera Lucia di Lammermoor, em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em maio de 2011

english
This article is a critical review of the assembly opera Lucia di Lammermoor, now showing at the Municipal Theater of Rio de Janeiro in May 2011

español
Este artículo es una lectura crítica de la producción de la ópera Lucia di Lammermoor, presentado en el Teatro Municipal de Río de Janeiro en mayo de 2011

how to quote

LORDELLO, Eliane. Lucia di Lammermoor, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Drops, São Paulo, ano 12, n. 046.04, Vitruvius, jul. 2011 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/12.046/3959>.



A ópera, tal como a conhecemos, surgiu na Itália, no século XVI, e difundiu-se para quase todo o continente europeu no final do século XVII. Na atualidade apressada em que vivemos, a persistência desse gênero, complexo em sua montagem e longo em sua duração, é algo encantador. Mais ainda, é um duplo alento, trazendo esperança na permanência da memória artística e fazendo crer na prosperidade das atividades contemplativas, como a assistência a óperas e concertos.

Entre todos os gêneros musicais, a ópera é talvez o que maior pressão exerce sobre um artista. Tal pressão é considerável não apenas pelo teor dramático que caracteriza a ópera, mas, também, pela grande quantidade de componentes envolvidos, tais como libreto, música orquestral e vocal, ação dramática, encenação, figurino e cenário. São componentes que implicam a participação de áreas diversas, tais como literatura, música, teatro, moda e arquitetura. A complexidade da ópera reside em conciliar todas essas áreas. É aí, também, que se encontra o seu sentido de inteireza, motivo maior de minha admiração por esse gênero artístico. Eis o motivo deste texto, que visa, tão somente, fazer uma apreciação crítica da montagem carioca da ópera Lucia di Lammermoor, que estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em maio de 2011.

Lucia di Lammermoor é uma ópera de Gaetano Donizetti (1), com libreto de Salvatore Cammarano (2), baseada no romance A Noiva de Lammermoor, de sir Walter Scott (3). Trata-se de uma obra do Romantismo, movimento que imperou nas artes, inclusive a ópera, entre o final do século XVIII até meados do século XIX (4). Entre as principais características desse movimento, está a ênfase no caráter emocional e romântico de todas as matérias e aspectos da vida. Conforme Massaud Moisés (5), a personalidade romântica, opõe, à Razão clássica, o sentimento; e cultua a imaginação desenfreada. Imbuída desse espírito, Lucia di Lammermoor foi composta por Donizetti no estilo melodramático característico da ópera romântica italiana do início do século XIX.

A história é ambientada na Escócia, no final do século XVII (6). A trama enfoca o turbulento romance entre Lucia Ashton e Edgardo di Ravenswood, único sobrevivente da família Ravenswood e inimigo mortal dos Ashtons. Trata-se de uma ópera trágica em três atos, que se inicia nos jardins do castelo de Ravenswood, antes pertencente a esta família, ora usurpado pelos Ashtons.

O comentário crítico que aqui se faz da montagem carioca dessa ópera no Theatro Municipal do Rio de Janeiro tem por base o espetáculo visto em 22 de maio de 2011. Nesta data, os três personagens principais, tiveram os seguintes intérpretes: Lucia, a soprano Rosana Lamosa; Edgardo, o tenor César Gutiérrez; e Enrico (irmão de Lucia) o baixo-barítono Licio Bruno. Junto com o padre Raimondo, interpretado pelo baixo José Gallisa (em momento inspiradíssimo), todos esses cantores protagonizaram performances soberbas, sendo ovacionados pelo público.

A trágica Lucia, heroína impulsiva e dramática, teve em Lamosa uma intérprete devotada. O êxtase de sua interpretação ocorre naquela que é conhecida como a “Cena da Loucura”, na qual Lucia, em pleno delírio, relata um casamento imaginário entre ela e seu amor proibido, Edgardo. A literatura especializada considera a interpretação dessa cena extremamente difícil, tomando-a como um dos maiores desafios para um soprano coloratura, em todo o repertório operístico (7).

Para esta espectadora aqui, no entanto, a cena preferida é a da aparição do fantasma na fonte, prenunciatória da locura em que iria se enredar Lucia, e da tragédia que sobre ela viria a se abater. Lucia é aí acompanhada por Alisa, uma espécie de dama de companhia. Personagem mais interessante da trama, pelas profundas e realistas reflexões que faz da condição da mulher ao tempo de Lucia, Alisa encarna a solidariedade feminina. Na montagem carioca, essa personagem é vivida pela meio-soprano Carla Odorizzi, que soube lhe dar o exato tom de discrição, sem prejuízo, em instante algum, de sua profundidade. O momento em que Alisa discorre, totalmente sozinha, sobre o sofrimento de Lucia e a tragédia que se afigura foi o mais tocante de todo o espetáculo, testemunhando a sublime atuação de Carla Odorizzi.

Como é corrente na literatura romântica, o trágico se afigura desde o início, com o tom soturno persistindo em toda a obra. Para que isso transparecesse plenamente, a coreografia foi fundamental, constituindo o componente mais arrebatador dessa montagem. Em seus aspectos gráficos, a coreografia formava desenhos límpidos no palco, obra de uma marcação sempre precisa, manifesta já na sublime cena de abertura. O desenho dessa cena é configurado por uma pesada massa de coro à esquerda, em total contraponto com o filete vertical formado por um guardião, posto no canto superior direito do palco. O guardião equilibra sua verticalidade por uma levíssima vara, que cruza o seu ombro horizontalmente e da qual pende o único elemento iluminado pontualmente no palco, um candeeiro retangular. Totalmente imóvel naquele extremo da cena, o guardião representa uma consciência sempre alerta, e sua presença ali é simplesmente formidável.

O caráter sombrio da história é também acentuado pelo figurino, que o corporifica nos seus tons predominantes – preto, cinza e marrom. Usando majoritariamente tais tonalidades, o figurino sublinha também o caráter dramático da obra, ao ressaltar, por contraste, os trajes vermelhos e brancos de Lucia. Esse contraponto é ainda fortemente favorecido pelo ótimo trabalho de iluminação, criando halos em torno de Lucia e sombreando o coro.

O cenário, por sua vez, contribui, com sua formação volumétrica e cromática, para o jaez soturno da obra. Porém, sua opção pela unicidade e dominância é problemática. Para melhor compreender o problema colocado por essa opção de cenário único e ubíquo, é preciso lembrar que a ópera Lucia di Lammermoor se desenrola em ambientes bastante diversos, entre eles, floresta, castelo e cemitério. Além disso, faz-se sentir, no cenário, a ausência da escada onde se desenrola a mais célebre cena da ópera. Alguém poderia objetar que todo o cenário é escalonado. De fato, é; mas, precisamente por isso, não configura uma escada isolada, como seria o adequado àquela notável cena.

A opção do cenário pelo jogo de volumes cúbicos, de diferentes alturas, partindo dos mais baixos para os mais altos, desde o proscênio até o fundo do palco, cria perspectiva para projetar os atos. Ambientando desde a cena inicial, passada nos jardins do castelo, essa volumetria vem também prenunciar o desfecho no cemitério, evocando jazigos, mesmo antes de fincadas as cruzes. Esse prenúncio é ainda enfatizado pelo tom de cinza que colore todo o cenário igualmente. No entanto, essa tonalidade também é problemática, por lembrar muito mais a pintura corriqueira de obras de concreto, do que as pedras de um cemitério escocês.

Considerada a proficuidade da arquitetura e do design (campos tão caros a este Vitruvius) para a cenografia, há que se ressaltar que a montagem carioca ganharia muito com um cenário que fizesse justiça à histórica grandeza de Lucia di Lammemoor. Em todo caso, fica a reflexão do quanto a arquitetura tem a ganhar, em termos conceituais e profissionais, com o correto estudo da arte cenográfica, em sua longeva história.

Lucia di Lammermoor tem quase dois séculos de existência. A ópera de Donizetti estreou, pela primeira vez, em todo o mundo, em 1835, em Nápoles. Sua longevidade é típica dos clássicos, algo reconhecido pelos mais diversos setores da sociedade. A propósito, em Pensando clássicos, a jornalista Heloisa Fischer (8) relata uma sábia reflexão, feita por um motorista carioca, em cujo táxi só se ouve música clássica. Sobre ela, lembra a jornalista: “Antes do término da viagem, ele disse: ‘Música que é ouvida há tanto tempo, passados 300, 400 anos, não pode ser uma coisa qualquer’.” (9) As palavras desse taxista repercutem a histórica excelência da música clásssica, razão maior de sua permanência no tempo.

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Lucia di Lammermoor foi montada pela primeira vez em 1916. A volta aos palcos brasileiros de uma ópera que estreou, pela primeira vez, no mundo, há exatos 176 anos, e, no Brasil, há 95 anos, é motivo de júbilo para a cultura brasileira. Que essa volta se dê, justamente, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje belíssimamente restaurado, é um orgulho para todos os envolvidos com o patrimônio cultural brasileiro.

notas

1
Gaetano Donizetti (1797-1848), compositor italiano natural de Bergamo, é autor também das óperas Favorita, Don Pasquale, A filha do Regimento, Elixir do amor. Cf. HOUAISS, A. Pequeno dicionário enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro, Larousse do Brasil, 1982.

2
Salvatore Cammarano (1801  –1852), italiano natural de Nápoles, foi um dos mais conceituados libretistas de seu tempo, tendo trabalhado para os melhores compositores italianos coetâneos, entre eles, Giuseppe Verdi (1813-1901). Cf. FEENEY, A. Salvatore Cammarano. Disponível em: <www.allmusic.com/artist/salvatore-cammarano-q16066> Acesso em: 27 mai. 2011; INTERNATIONAL MOVIES DATABASE. Disponível em: <www.imdb.com/name/nm0131899/>. Acesso em: 27 mai. 2011; e FURLANETTO, B. Lucia di Lammermoor. In: THEATRO Municipal. Lucia di Lammermoor de Gaetano Donizetti. Rio de Janeiro: Theatro Municipal, 2011, p 6-9.

3
Walter Scott (1771-1832), escritor escocês natural de Edinburgo, dedicou-se a poemas e romances, destacando-se, sobretudo, pelos romances fundados na história da Escócia. Suas obras lhe renderam celebridade universal e exerceram forte influência nos escritores românticos. Cf. HOUAISS, A. Pequeno dicionário enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro, Larousse do Brasil, 1982; e FURLANETTO, op. cit., nota ii.

4
ENCICLOPÉDIA Delta Universal. Rio de Janeiro: Delta, 1980, p. 5889.

5
MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, p. 463.

6
ENCICLOPÉDIA Delta Universal, op.cit., p. 5897, nota iv.

7
Idem, ibidem.

8
Cf. FISCHER, H. Revista VivaMúsica. Disponível em: <www.vivamusica.com.br/index.php/revista>. Acesso em: 27 mai. 2011; Id. VivaMúsica. Disponível em: <http://cbn.globoradio.globo.com/colunas/vivamusica/VIVAMUSICA.htm>. Acesso em: 27 mai. 2011; Id. VivaMúsica! e o Mundo dos Clássicos. Disponível em: <http://radiomec.com.br/vivamusica/index.php>. Acesso em: 27 mai. 2011.

9
Id. MEC FM: No meu táxi, só pega essa emissora. Disponível em: <http://pensandoclassicos.blogspot.com/search?updated-max=2011-03-31T11%3A08%3A00-03%3A00&max-results=10>. Acesso em: 26. mai. 2011.

sobre a autora

Eliane Lordello é arquiteta e urbanista (UFES, 1991), Mestre em Arquitetura (UFRJ, 2003) na área de Teoria e Projeto, Doutora em Desenvolvimento Urbano (UFPE, 2008), na área de Conservação Urbana (2008). Pesquisa, sobretudo, os seguintes campos: Memória e Patrimônio Urbanos; Representações Sociais de Arquitetura e Cidade; Poéticas Visuais de Arquitetura e Cidade. Atualmente é analista de projetos e pesquisas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES).

Vista interna - público no vestíbulo e na balaustrada
Foto Eliane Lordello

Vista interna - público na balaustrada da circulação das galerias
Foto Eliane Lordello

Vista interna - Emblema no vestíbulo do Salão Assírio
Foto Eliane Lordello

 

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