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drops ISSN 2175-6716

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Renato Anelli faz um balanço da X Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, comentando as diversas instalações e as múltiplas relações com a cidade.

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ANELLI, Renato. X Bienal de Arquitetura de São Paulo. Quando o meio é a mensagem. Drops, São Paulo, ano 14, n. 074.09, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.074/4967>.



A décima edição da Bienal de Arquitetura de São Paulo reverte um ciclo de decadência desse importante evento. Ao liberar-se do seu confinamento no Ibirapuera, a Bienal lançou os visitantes a uma instigante rede de situações – museu, centro cultural, parques, casas, apartamentos. O formato tornou-se tão ou mais importante do que aquilo que foi exposto. Exige que os visitantes vivenciem a cidade e sua arquitetura. Estimular a experiência urbana não é pouca coisa nos dias atuais.

Não é de hoje que o campo cultural paulistano distribui seus eventos pelo território urbano. Mas, se experiências como a Virada Cultural sugerem uma deambulação pelo centro, a Bienal exige planejamento. Pela sua concentração espacial e temporal – centro da cidade e um final de semana, a Virada Cultural permite o vagar sem rumo, conduzido pelos fluxos de gente, sons, luzes. Esta Bienal é outra coisa. Distribuída em locais estrategicamente escolhidos a partir da rede de transportes públicos, sua visitação exige um planejamento complexo, de tempo e espaço. Sem planejamento, para o qual o website da Bienal é fundamental, é impossível desfrutar da riqueza de produção oferecida. Portanto, Virada Cultural e Bienal proporcionam modos diversos de fruição da cidade e das ofertas culturais da programação (1).

O formato em rede exigiu uma hierarquia. Um núcleo de nove sedes e eventos controlados pela curadoria, diretamente ligados à rede de transportes públicos, ao qual foram agregando outras propostas que formaram a rede expandida. Apesar de remeter à Bienal de Arquitetura de Veneza, com suas duas sedes principais, Arsenale e Giardini, e uma miríade de eventos paralelos, a dimensão paulistana agregou uma complexidade inexistente no evento italiano.

O principal núcleo da rede foi muito bem escolhido: o Centro Cultural São Paulo (CCSP). Edifício rude, de caráter infraestrutural e urbano – uma rua de pedestres que se inicia em uma estação de metrô e se desenvolve em meio a um talude entre duas avenidas – sintetiza em si o tema desta edição da Bienal: a tensão da vida metropolitana contemporânea.

Em outro extremo, conectado à rede por um corredor de ônibus, o Sesc Pompéia representa o seu oposto, apesar da contemporaneidade da construção de ambos. No Pompéia as intervenções de Lina Bo Bardi transformaram o significado da arquitetura fabril – espaço disciplinar do trabalho – conferindo-lhe o poder de amparar a intensa sociabilidade de seus usuários em suas atividades de lazer. No CCSP, a arquitetura abriga atividades de lazer e cultura, justapondo ambientes transparentes ao longo do percurso interno que em nada remete a formas urbanas tradicionais.

Apesar das diferenças formais, constituem dois oásis para o tempo livre em meio ao frenesi da vida paulistana. Arquiteturas exemplares para entender a dimensão metropolitana.

Seguindo a hierarquia da rede, as demais sedes da programação principal englobam instituições e arquiteturas com diferente características.

Obras recentes, como a Praça das Artes e a Praça Victor Civita, recebem visitantes curiosos por suas arquiteturas, enquanto que instituições consolidadas como o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Museu da Casa Brasileira, atraem mais pela programação de exposições e debates.

A exposição no Masp, apesar da qualidade da temática e abordagem, acentua a indignação com o tratamento que os “cavaletes de cristal”, suportes expositivos transparentes concebidos por Lina para a pinacoteca do museu, vem tendo desde o seu banimento na década de 1990. Apesar da intenção de homenagem, sua disposição formando paredes transparentes que chegam perto de configurar pequenas “salas” em meio à amplitude do espaço do museu é somente uma caricatura da grandeza original. Momento difícil para o Masp, que defende o cercamento do vão livre como modo de enfrentamento do aumento de criminalidade e do consumo de drogas nesse local.

Ainda na programação principal, as exposições Modos de Encontrar, na Estação Paraíso do Metrô e Modos de Negociar, em um apartamento da Associação Parque Minhocão, anunciam as principais modalidades adotadas na Rede Expandida. Em Modos de Encontrar, os percursos exploratórios pela cidade (alguém precisa alertar aos estrangeiros que “Projeto Safári” soa preconceituosa aos nossos ouvidos), em Modos de Negociar, os espaços específicos.

A visita ao apartamento ao lado do Minhocão permite a experiência de um desastre urbano. Visitá-lo em dias de trânsito normal deveria ser obrigatório aos gestores das cidades, para que constatem o resultado de suas decisões. É inestimável o valor de levar estudantes, profissionais e outros visitantes a vivenciar, mesmo que por alguns poucos minutos, os níveis de poluição produzidos por infraestruturas de mobilidade urbana como essas. Pena que o maior público vá aos finais de semana, quando o elevado vira uma área de pedestres intensamente usada.

O melhor contraste é oferecido na Casa de Vidro, sede do Instituto Bardi e parte da Rede Expandida. Além da tranquilidade proporcionada pela pequena floresta que a envolve, a exposição do projeto de Lina para o concurso de reurbanização do Vale do Anhangabaú realizado em 1981 oferece uma concepção alternativa para a convivência entre fluxos intensos de trânsito e a cidade. Pela maquete realizada especialmente para a exposição pode-se aferir as proporções entre via elevada e o entorno edificado – alturas, larguras, afastamentos – necessárias para uma coexistência suportável. Tema novamente atual, graças à opção do Metrô de São Paulo pelas redes aéreas de monotrilhos.

A Rede Expandida oferece a oportunidade de descoberta de espaços pouco conhecidos. Casa do Povo e Como Clube são dois bons exemplos.

O centro de cultura judaica construído com projeto de Ernest Mange pouco conhecido (ao qual foi acrescido um teatro projetado por Jorge Wilheim), recebeu a oficina Nós Brasil, organizada pela representação alemã na Bienal.

O projeto 6ˆ3ˆ3 – seis artistas, três dias e três cidades (São Paulo, Buenos Aires e Hamburgo) nos leva à sede do Como Clube, sede de um clube de artistas situada em um apartamento duplex no nono andar do edifício Esther, pioneiro da arquitetura moderna corbusiana no Brasil. Fotos e projeções entre as janelas corridas, estrutura independente, mezanino e vista fantástica para a noite na Praça da República.

Coroando a série de casas, a Casa Bola de Eduardo Longo abriu-se para a exposição Modos de Habitar, no Museu da Casa Brasileira, e esteve acessível para visitação guiada. Oportunidade rara para uma obra singular da arquitetura brasileira, a qual exige a experiência da sua espacialidade interna para a sua análise e compreensão. Ao situá-la entre um conjunto de exposições sobre habitação social, a curadoria destacou seu caráter de protótipo para uma eventual série produzida industrialmente, que poderia ter sido uma das primeiras grandes megaestruturas metabolistas brasileiras.

Se a experiência direta é o mais marcante da concepção da X Bienal, não deixa de ser relevante seu papel de portal para outras realidades mais distantes. Além de percursos e visitas, algumas enriquecidas por performances artísticas, a Bienal apresentou um leque enorme de conexões com grupos de ação em periferias e situações de demanda social espalhados pelo mundo.

Nesse sentido, a exposição Modos de Colaborar concentrou no Sesc Pompéia, espaços de debates e oficinas que criaram um local de interface entre grupos agentes nas periferias do mundo e outros interessados no tema. Ainda que um certo caráter de participação ingênua e artificial possa ser sentido (comprovados pelos excessos de painéis com post its), a exposição chama a atenção com realidades estranhas e instigantes, tais como a arquitetura flutuante em algumas cidades africanas, o glossário urbano do grupo indiano ou iniciativas singelas, como um muro construído por estudantes e comunidade em Tiquatira, zona Leste.

Apesar de todas as dificuldades, a curadoria teve a sorte de ver os temas que propôs ecoarem nas ruas em junho, com os protestos por melhores condições nos transportes e serviços públicos. Ou ainda propor a discussão dos modos de fazer a cidade em um momento de intenso debate urbanístico propiciado pelo processo de revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo.

O conteúdo das exposições, além dos debates, palestras e oficinas, foi heterogêneo e rico. Mas o formato da Bienal é um ganho, que comprova que a controvertida saída do Ibirapuera representou mais um ganho do que um prejuízo.

Conteúdos e formatos podem e devem ser aprimorados nas próximas edições. Mas não se pode perder a conjunção institucional que permitiu a existência de uma equipe curatorial competente e ousada, embasada em recursos de apoio cultural bem geridos pela equipe de produção.

Estabeleceu-se um novo patamar, a partir do qual, temos a obrigação de tocar a bola para frente.

nota

1
Esta comparação surgiu de uma conversa com o editor Abílio Guerra.

sobre o autor

Renato Luiz Sobral Anelli, arquiteto e professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo, USP-São Carlos.

A rede que forma a X Bienal
Foto Renato Anelli

Entrada do Centro Cultural São Paulo a partir da Estação Vergueiro do Metrô
Foto Renato Anelli

América Latina no Centro Cultural Vergueiro
Foto Renato Anelli

Registros de debates participativos na exposição “Modos de Colaborar”, Sesc Pompéia
Foto Renato Anelli

 

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074.09 x bienal
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