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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Cecilia Herzog analisa o modo como as pessoas estão se apropriando dos espaços verdes na cidade, e recriando suas relações com a natureza.

english
Cecilia Herzog examines how people are appropriating the green spaces in the city, and recreating their relationship with nature.

how to quote

HERZOG, Cecilia P.. As pessoas tomam conta da natureza em suas cidades com suas próprias mãos. Drops, São Paulo, ano 14, n. 076.04, Vitruvius, jan. 2014 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.076/5018>.



A produção de alimentos nas cidades está ganhando momentum com o lançamento de livros, seminários e congressos, websites e mídia social. Algumas cidades têm promovido programas para que haja um contato direto pessoas e a natureza através de hortas – comuns ou em allotment gardens (lotes públicos que são disponibilizados por uma quantia simbólica anual).

Fiquei instigada por essas questões. Por isso, tenho pesquisado e visitado muitos lugares em busca de casos interessantes. Paris tem sido um modelo empolgante, não apenas por se tratar de uma cidade grande e uma metrópole complexa, mas porque também tem um papel importante no imaginário das pessoas sendo uma das cidades mais visitadas do mundo. Paris atrai visitantes de todos os lugares em busca de arte, cultura, moda, arquitetura, parques e jardins! Sim, Paris tem inúmeros parques e jardins de todos os tamanhos, formas, funcionalidades e cobertura vegetais. Eles podem ser históricos, recreativos, ecológicos e são parte importante da floresta urbana, como Bois de Boulogne e Bois de Vincennes.

Paris

Tenho ido a Paris com frequência por décadas. Nos últimos anos tenho visto uma grande transformação em como os parisienses estão lidando com a natureza urbana e abrindo espaços para pessoas, biodiversidade e produção de alimentos. Isso está acontecendo não apenas em parques e jardins, mas nas ruas, pequenos lotes, tetos, em áreas públicas e privadas. Ao longo do rio Sena, as ruas no verão são transformadas em praias urbanas. A cidade tem promovido eventos educacionais em todos os espaços e escalas, e minha percepção é que estão fazendo uma revolução silenciosa no modo como as pessoas valoram a natureza e têm melhorado no dia-a-dia as suas inter-relações com o rio, parques e hortas urbanas.

Nos últimos anos, o paisagista e escritor Gilles Clément tem feito um tremendo trabalho mudando a cabeça das pessoas, tanto de tomadores de decisões como das pessoas comuns. Ele tem projetado e escrito sobre paisagens e jardins, como Tier Paysage (Terceira Paisagem — áreas urbanas não manejadas que se espalham pelas cidades e abrigam expressiva biodiversidade); e Jardins en Mouvement (Jardins em Movimento) — jardins onde o projetista e o jardineiro trabalham com a natureza de forma que a vegetação possa resplandecer com diversidade de maneiras surpreendentes; entre outras publicações.

Meus amigos Miguel, Pablo Gorgieff e Nicolas Bonnenfant são arquitetos e paisagistas que trabalham com comunidades na construção conjunta de jardins (Coloco). Eles exploram a biodiversidade urbana de várias maneiras, algumas vezes em performances com a participação do público.

A praça em frente ao Hotel de Ville (Prefeitura) é lugar de diferentes eventos ao longo do ano. No verão, estive numa instalação de amostras de ecossistemas que visavam educar as pessoas sobre a natureza que as rodeia. Muitos parques novos estão sendo projetados para recriar esses ecossistemas. Por exemplo, o Jardin d’Éole tem um belo wetland (ecossistema de área alagada, no Brasil também conhecido como banhado) e um jardim arenoso, no local onde anteriormente abrigou uma área de manobras de trens.

Mas, o que mais me impressiona são as plantações de alimentos que estão sendo incorporadas aos parques e outros espaços públicos e privados. Não é um conceito novo, mas hoje fazem parte de todos os bairros. O programa Jardins Familiaux et Collectifs (Jardins Familiares e Coletivos) tem mais de 100 anos e dá aos “urbanoides” a oportunidade de manter o contato com a terra, com o plantio e colheita de sua própria comida e flores. Há uma longa lista de espera para um lote de terra que possibilita explorar seu próprio jardim, para produção de alimentos ou flores.

A cidade está desenvolvendo uma antiga área industrial na zona noroeste, no 17eme Arondissement (17o. distrito), Clichy-Batignolles. A estratégia foi a de começar com o novo parque Martin Luther-King. O parque atingiu objetivos sociais e ecológicos, com espaços para uma variedade de atividades, um alagado construído (wetland) e jardins produtivos, que fazem parte do programa Jardin Partagé – Main Verte (Jardim Compartilhado – Mão Verde). Esse é um modo inovador de dar oportunidade a alunos – crianças – de cultivar alimentos em áreas públicas em sua vizinhança. Cada classe (ou sala como se diz no Rio de Janeiro) tem seu próprio lote. O jardim comunitário tem sinalização que mostra quem está plantando o que.

Main Verte não acontece apenas em parque novos, tem também em Bercy que já existe há algumas décadas (1). Todo ano no mês de setembro, a cidade promove um fim de semana dedicado aos jardins, com ênfase na produção de alimentos: “Fête des Jardins” (Festa dos Jardins).

Berlim

Há um forte movimento de baixo para cima (vindo dos moradores) olhando “para trás”, que visa reconectar as pessoas com a natureza em densos centros urbanos. Estive em Berlim em julho passado, e visitei duas hortas urbanas que realmente me impressionaram: o Prinzessinnengarten, na  Moritz Platz (Praça Moritz), e o parque Tempelhof. Ambos são exemplos de engajamento social ativo em assuntos ecológicos relacionados com comida e biodiversidade. São lugares únicos e têm sido desenvolvidos pelos moradores com a intenção de conservar espaços abertos da especulação imobiliária. O primeiro é localizado no coração da cidade, em um antigo espaço subutilizado. A associação chamada Nomadic Green (Verde Nômade) foi criada e alugou o espaço público da cidade, onde implantou além da horta, um restaurante, um café e uma pequena biblioteca. O plantio é feito em recipientes portáteis – daí a origem do seu nome. Em apenas poucos anos a transformação do lugar e das pessoas tem sido absolutamente surpreendente.

O parque Tempelhof se situa em um aeroporto desativado que foi convertido em espaço público no sul de Berlim. O seu tamanho é impactante. As pessoas usam intensamente e amam o lugar. A área do parque mais marcante para mim foi a parte em que os moradores se apropriaram, criando hortas e “salas de estar” ao ar livre. É um lugar acolhedor. Mesmo em final de dia com forte chuva, foi agradável ficar em uma tenda comum com o som das águas e do vento, conversando com gente interessante e amigável.

Nova York

Falando de cidade grande e produção de alimentos, Nova York é realmente surpreendente. Existem inúmeros jardins comunitários em todos os bairros, como o West Side Community Garden (Jardim Comunitário do Lado Oeste) na rua 89. Na região da universidade de Nova York (NYU), existem dois exemplos de engajamento com a natureza. No LaGuardia Corner Gardens (Jardins da Esquina LaGuardia), moradores cuidam do jardim comunitário, trabalhando para mantê-lo bonito e com rica biodiversidade. Está ameaçado pelo plano NYU 2031 que prevê a expansão da área para a construção de mais um edifício no local. Alunos da universidade mantêm a Fazenda Urbana NYU. Quando estive lá os alunos estavam terminando o trabalho do dia.

Em uma escala comercial, a inovação espetacular é a transformação de tetos do cinza para o verde nas fazendas do Brooklyn Grange. Ela possui duas sedes: a primeira é a do bairro do Brooklyn e a segunda foi instalada no bairro do Queens. Ambas são abertas à visitação nos dias em que a feira funciona (2). Visitei a fazenda no Queens em uma bela manhã de outono em outubro passado. Havia muitos visitantes, gente comprando alimentos frescos e orgânicos, aprendendo sobre como plantar, apreciando a natureza do alto do teto de um prédio antigo com uma vista de Manhattan.

São Paulo

Na cidade em que nasci, São Paulo, há um grupo chamado Hortelões Urbanos que está transformando lugares, mentes e corações. É um movimento a favor da vida – num sentido amplo – começou com duas jornalistas que completaram um curso de permacultura e decidiram cultivar seu próprio alimento. O local inicial foi a Praça das Corujas, na Vila Madalena, um bairro cheio de vida que reúne artistas e muitos jovens. Tomaram conta do que era um gramado (“um deserto verde”) plantando comida e flores, decoraram com arte feita de material reciclado. Em curto espaço de tempo, houve uma adesão significativa de mais moradores. Começaram um grupo na Internet e, em um ano e meio, possuem mais de 6000 membros! É como um vírus do bem que está sendo inoculado nos “urbanoides” que buscam uma qualidade de vida melhor.

Feiras orgânicas acompanham esses movimentos. Pequenos produtores se reúnem para vender a produção local nos bairros das cidades. Um exemplo de resistência às investidas de urbanização desenfreada é o movimento dos produtores rurais da cidade do Rio de Janeiro, que estão se organizado para manter as propriedades agrícolas nas áreas urbanas. Seus sítios ficaram inviáveis por conta do Plano Diretor que designa toda a área da cidade como urbana, tendo que pagar o imposto por metro quadrado. Eles têm o apoio dos “ecochefs” que trabalham em restaurantes e mantêm uma barraca na Feira Orgânica do Jardim Botânico, aos sábados. Produção local é bonita, pois conserva o trabalho e as relações, incentiva laços com a terra e a natureza, e mantém tradições e cultura locais, e mais do que tudo melhora os valores e emoções das pessoas.

Os benefícios são evidentes: comida saudável, reconexão das pessoas com a natureza, melhoria do clima e da qualidade das águas do local, aumenta a biodiversidade e, mais importante, proporciona pessoas mais felizes e saudáveis. Existem inúmeros estudos científicos que comprovam que os benefícios que a natureza e alimentos orgânicos oferecem são essenciais para manter a vida no planeta Terra. O livro lançado recentemente Urbanization, Biodiversity and Ecosystem Services (Urbanização, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), liderado por Thomas Elmqvist, é uma leitura essencial para pessoas interessadas em aprender mais sobre os serviços que a natureza oferece nas cidades. Paisagens produtivas e biodiversas deveriam substituir gramados e jardins cosméticos com poucas espécies ornamentais, que necessitam de manutenção cara e permanente, melhorar a funcionalidade da cidade. Essas áreas podem ser de grande importância para a construção de cidades com melhor qualidade de vida, mais sustentáveis e resilientes.

Depois de anos de pesquisa, Marco Schmidt (Water Paradigm) afirma eloquentemente que a mudança do uso do solo de verde para cinza, e em outros usos que causam erradicação da biodiversidade e perda de solo fértil, é um fator que provoca mudanças climáticas porque altera o ciclo de evaporação que é responsável pela manutenção do ciclo hidrológico, o qual influencia o clima local e global. Isso é frequentemente ignorado. Solos e plantas capturam carbono e produzem oxigênio que é fundamental para manter a vida; drenam e filtram águas da chuva; previnem enchentes e deslizamentos de terra; amenizam as temperaturas e regulam o clima local. A urbanização está aumentando, assim como a mudança na cobertura do solo. Se revertermos esse processo, incluindo vegetação nativa e as águas em planos e projetos de diversas maneiras em áreas urbanas públicas e privadas, podemos contribuir para a construção de cidades mais sustentáveis e resilientes. Muitas das crises mais urgentes podem ser mitigadas e até mesmo adaptar áreas urbanas para desafios inesperados que as mudanças climáticas nos trazem, onde quer que estejamos no planeta.

E se gramados públicos e privados fossem transformados em paisagens produtivas, com alimentos e vegetação associados para manter a interação biodinâmica entre a biodiversidade? E se as superfícies impermeáveis, como tetos, calçadas, estacionamentos e pátios escolares se tornassem verdes com águas visíveis, recuperando as funções da paisagem, proporcionando recreação e educação acessíveis a todos: crianças, adultos e idosos? E se as pessoas, arte e cultura locais, biodiversidade e mobilidade fossem planejadas e projetadas para harmonizar comunidades com muitas amenidades para todas as idades? Que cidades maravilhosas poderíamos ter: “cidades vivíveis”.

Esses não são sonhos. Esses lugares existem e as pessoas adoram, como vimos acima. As pessoas têm o poder de transformar o mundo pouco-a-pouco, jardim por jardim, quarteirão por quarteirão, comunidade por comunidade.
Então, mãos à obra!

notas

NE
Este artigo foi publicado originalmente no site The Nature of Cities em 10 de novembro de 2013. 

1
Veja o mapa para localização de todas as hortas na cidade.

2
A programação está disponível no site, pois varia segundo as estações do ano.

sobre a autora

Cecilia Herzog é paisagista urbana e mestre em urbanismo, presidente co-fundadora do INVERDE Instituto de Estudos, Pesquisas e Projetos em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana. Pesquisadora independente com foco em como as cidades podem se tornar sustentáveis e resilientes com a reintrodução de biodiversidade nativa em áreas urbanizadas para fornecer inúmeros serviços ecossistêmicos onde as pessoas vivem, trabalham e se divertem. 

 

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