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drops ISSN 2175-6716

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MOTA, Carlos Guilherme. Conceito de biblioteca. A posição do Diretor. Um rumo para a BBM. Drops, São Paulo, ano 14, n. 078.08, Vitruvius, mar. 2014 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.078/5109>.


Quando, no mês de fevereiro de 2014, assumi a Direção da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), a convite do novo Reitorado da Universidade de São Paulo, estava ciente da complexidade da honrosa missão que me aguardava. Seja pela importância inigualável da obra excepcional do casal Mindlin, seja pela necessidade de sua preservação para utilização competente do acervo por pesquisadores e consulentes qualificados, pareceu-me óbvio que, dada sua alta especialização, demandaria a BBM cuidados muito especiais. Last but not least, a qualidade dos membros do Conselho Deliberativo foi outro motivo que me levou a aceitar essa complexa tarefa.

Não parti do zero, pois minha vida profissional teve início na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no final da gestão do saudoso Sérgio Milliet, quando convivi com as bibliotecárias do nível das Dras. Adelpha Figueiredo, Noemia Lentino e Maria Eugenia Franco. Fui assistente do Diretor, o bibliotecário professor Francisco de Azevedo (irmão de Fernando de Azevedo), quando conheci bibliófilos de mérito, como Rubens Borba de Morais e bibliotecárias como Rosemarie Horch, esta já no IEB. Um de meus inspiradores historiográficos foi José Honório Rodrigues, ex-Diretor da Biblioteca Nacional (como meu ex-professor Sérgio Buarque). Mais recentemente, a atuação de Eduardo Portella, com quem colaborei na Biblioteca Nacional (e na Unesco) tornou-se referência, por mostrar como um intelectual-professor pode lidar com acervos importantes. Não foi menos importante meu estágio como pesquisador na Biblioteca da Universidade do Texas (1967-68) e, sobretudo, na de Stanford University (1996-97). Para esta, fiz expertise no caso da compra da biblioteca Lauerhas, aceita, ora transferida para Palo Alto.

Apesar de já estar me distanciando das lides da USP, e da experiência adquirida no longo período (1964-1993) em que pude formar quase uma centena de mestres e doutores, criar o Instituto de Estudos Avançados (na gestão do ex-Reitor Goldemberg) e escrever alguns livros e ensaios, o convite para dirigir a notável Biblioteca impôs-me um desafio enorme. Pois se trata do momento decisivo da inserção efetiva da Biblioteca nas estruturas da Universidade.

Conheço a complexidade desta instituição marcada pelo burocratismo, cujo Reitorado hoje parece querer mudar de rumo e procurar novos caminhos, no sentido de efetiva e tardia modernização. Reconheço que a visão humanista e multidisciplinar do novo Reitor, de seu Vice e da Pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, possuidores de larga experiência no campo da pesquisa, constitui garantia de um tempo melhor para nossa instituição. Por outro lado, não desconhecemos o abismo orçamentário para o qual a USP foi jogada, o que infelizmente terá reflexos no futuro imediato da BBM (com o novo planejamento competente e ação conspícua, em poucos meses a USP poderá se reerguer).

Em face desse quadro, e em homenagem à memória do casal Mindlin e com muita esperança na qualidade das pesquisas e obras dos atuais e futuros pesquisadores, não pude deixar de aceitar o desafio. Constatei que tal convite era apoiado pela família, pelo Conselho Administrativo e por várias personalidades universitárias e intelectuais do porte do ex-Reitor Goldemberg e do professor e ex-Chanceler Celso Lafer, além do placet do professor Antonio Candido – a quem tive o cuidado de consultar, dada sua reconhecida autoridade e amizade pessoal e intelectual aos Mindlin.

Os primeiros levantamentos e diagnósticos da situação atual da BBM levam-me a constatar que a mesma se encontra sem rumo. Da falta de um Regimento Interno à desordenada utilização dos espaços, o que encontrei foi enorme confusão sobre o que deveriam ser as atividades prioritárias de uma Biblioteca Especializada (1). Embora reconhecendo o enorme esforço coletivo para a implantação física de um edifício do porte da BBM no campus, está claro que a mesma carece de um projeto propriamente acadêmico, que venha a dar sustentação à sua existência e identidade.

Quando ainda na residência dos Mindlin, tal projeto, com critérios apurados para preservação, mas também acesso ao acervo, era muito claro, dentro de uma vocação definida e assegurada por seus possuidores. Agora, ao passar efetivamente para uma universidade pública, novas regras devem ser discutidas, aperfeiçoadas e implementadas, inclusive abarcando questões complexas como manutenção do edifício, preservação do acervo, segurança e linhas de expansão do acervo. Tal transição naturalmente imporá a criação de novos códigos de funcionamento, inclusive a fixação de critérios para acesso e seleção de projetos de pesquisa e de pesquisadores – a exemplo da Fapesp ou de outros centros especializados de pesquisa, como a Newberry Library (Chicago).

Enquanto centro especializado de pesquisa, o BBM deverá dar prioridade absoluta às investigações no campo das Humanidades, entendidas aqui em sua acepção mais abrangente. Eventos poderão ocorrer, sempre ligados à vocação principal da Biblioteca, não devendo a instituição se envolver em iniciativas que escapem ao escopo central, mas também (e sobretudo neste momento) às suas limitadas possibilidades orçamentárias.

Para aprimorar o trabalho de seleção de prioridades que garantam a vocação principal da BBM, esta Diretoria nomeou um Comitê Acadêmico, segundo decisão tomada na última reunião de 27 de fevereiro último, comitê composto de pesquisadores de mérito escolhidos em áreas distintas para, em perspectiva multi e interdisciplinar, auxiliar na orientação e supervisão dos critérios da própria Diretoria.

Quanto ao edifício da BBM no campus, dado o condomínio que se estabeleceu sem qualquer planejamento, esta Direção procurará redefinir as relações da BBM com seus vizinhos e congêneres, prioritariamente com o Instituto de Estudos Brasileiros, o SIBI, e a Livraria da EDUSP. No caso do IEB, as afinidades são conhecidas, embora suas vocações sejam distintas, solicitando melhor entendimento entre aquele produtivo Instituto e a BBM; no caso do SIBI, trata-se de órgão basicamente administrativo, não se justificando ocupação de espaço no edifício da BBM; e finalmente, no caso da Livraria da EDUSP, dada sua qualidade, parece-nos clara a possibilidade de continuar atuando no mesmo edifício da BBM.

Colóquios Mindlin

Além de oferecer condições excelentes de pesquisa para pesquisadores e usuários devidamente cadastrados, a BBM coordenará atividades propriamente intelectuais, organizando congressos e seminários no campo das Humanidades (considerada também o da Biblioteconomia, incluída aí a problemática da digitalização e dos Direitos Autorais), além de Colóquios e Cafés Acadêmicos.

Os Cafés Acadêmicos, mais informais, serão dedicados a pesquisadores que venham a realizar seus projetos na BBM, a visitantes eventuais e a professores e intelectuais de passagem por São Paulo. Já os Colóquios, de alto nível, constituirão uma peça-chave das novas atividades da Biblioteca. Os expositores convidados deverão perceber pro-labore (com exceção dos que pertençam aos quadros da própria BBM) e oferecer seus textos para publicação.

Tal iniciativa terá a grife do fundador da Biblioteca, Doutor José Mindlin, com a denominação Colóquios Mindlin. Embora não exclusivamente, a ênfase das análises será nos trabalhos de pesquisas desenvolvidas pelos autores.

O roteiro dos Colóquios ora propostos (sujeito a alterações) poderá ser o seguinte:

  1. Vida e obra de Charles R. Boxer, por Laura de Mello e Souza
  2. Vida e obra de Rubens Borba de Morais, por Ana Maria Camargo e
  3. Vida e obra de Joaquim Nabuco, por Angela Alonso
  4.  Vida e obra de Machado de Assis
  5. Vida e obra de Euclides da Cunha, por Walnice Nogueira Galvão
  6. Vida e obra de Vitorino Magalhães Godinho, por Fernado A. Novais
  7. Vida e obra de João Guimarães Rosa
  8. Vida e obra de José Honório Rodrigues, Carlos Guilherme Mota e Marina de Mello e Souza
  9. Vida e obra de Luiz Gama
  10. Vida e obra de Manoel de Oliveira Lima
  11. Vida e obra de Sérgio Buarque de Holanda
  12. Crítica, literatura e história na obra de Antonio Candido, por Celso Lafer
  13. Vida e obra de Caio Prado Junior
  14. Vida e obra de Alberto da Costa e Silva
  15. Vida e obra de Mário de Andrade
  16. Vida e obra de Paulo Prado, por Carlos Augusto Calil
  17. Vida e obra de Graciliano Ramos
  18. Os tempos na obra  de Eduardo Portella, por Marco Lucchesi
  19. Vida e obra de Marlyse Meyer
  20. O pesquisador Florestan Fernandes
  21. A pesquisadora Emília Viotti da Costa
  22. Vida e obra de Raymundo Faoro
  23. Vida e obra de von Martius, por Karen M.Lisboa
  24. O tempo na obra de Sérgio Milliet
  25.  A São Paulo do pesquisador Richard M. Morse
  26. Etc.

A BBM deverá lançar uma publicação especializada eletrônica (semestral), a exemplo do Boletim Bibliográfico, criado pelo então Diretor da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, o escritor e crítico Sérgio Milliet. Realizará também pequenas publicações eletrônicas sob o título Colóquios Mindlin. Tais publicações serão disponibilizadas na webpage da BBM, ora em revisão, cujo endereço atual (lwww.bibliotecamindlin.usp.br) será alterado para www.bbm.usp.br

Analisaremos a possibilidade de lançarmos uma Coleção Nova Brasiliana, com obras derivadas das melhores teses de Doutorado e Mestrado em Estudos Brasileiros, da USP e de outras universidades, e também obras de pesquisadores de reconhecido saber, não pertencentes à Academia. Os critérios de seleção serão definidos pelo Comitê Acadêmico.

A preservação e restauração deverão constituir uma das prioridades da nova gestão, com atenção especial ao Laboratório de Conservação Preventiva. Com o tempo, também a encadernação – uma das atenções de Guita Mindlin – deverá ser objeto de cuidado especial, podendo tornar-se uma referência nacional (uma “Escola”).

Relação com outras Bibliotecas Especializadas: da Brown University, da Harvard University (especialmente com prof. Robert Darnton), com a Newberry Library (Chicago), além da Biblioteca Pública de Nova York, a de Stanford University (com Roberto Trujillo), a de Princeton University, com a Biblioteca Saint-Geneviève (Paris), com a Bibliothèque Nationale (Paris), com a Oliveira Lima Library (Washington dc) etc.

A gestão do Laboratório de Digitalização, que é institucional, passará a ser conduzida a partir de três critérios básicos: i) articulação com o setor de Biblioteca e com o Laboratório de Conservação Preventiva; ii) observação das melhores práticas de digitalização e priorização da qualidade do trabalho; iii) priorização do trabalho com o acervo da BBM.

Finalmente, um ponto importante a ser analisado com maior cuidado refere-se à utilização do nome “Brasiliana” em atividades não ligadas à BBM, podendo estar envolvidas questões de copyright e de Direitos Autorais. Ou seja, a questão da utilização por particulares (ou não) de material do acervo Mindlin (comercialização etc). A Consultoria Jurídica da USP está analisando a questão, para nortear esta Direção.

nota

1
Sobre essa noção (bem como a de Biblioteca de pesquisa), consulte-se a seguinte obra do historiador Robert Darnton, diretor da Biblioteca da Harvard University, especialmente a Parte I, Futuro: DARNTON, Robert. A questão do livro. São Paulo, Companhia das Letras, 2010.

Carlos Guilherme Mota
Foto Julia Mota

 

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