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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Teria cidade o poder de responder negativamente às formas de fazer e usar a mesma nos dias atuais? Um estudante de arquitetura reflete sobre a como a produção da arquitetura e do espaço urbano responde de forma degenerativa aos seus usuários.

english
Would have the city the power of answer negatively to the way of making and using it in nowadays? An undergraduate of architecture reflects about how the production of the architecture and the urban space responds in a degenerative way to its users.

español
Tendría la ciudad el poder de responder negativamente a las formas de hacer y usar la misma hoy? Un estudiante en arquitectura reflexiona sobre cómo la producción de la arquitectura y el espacio urbano responde forma degenerativa de sus usuarios.

how to quote

MEDEIROS, Cleyton Santos de. A vingança da cidade. Reflexões sobre uma negativa resposta da cidade aos citadinos. Drops, São Paulo, ano 15, n. 091.02, Vitruvius, abr. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.091/5482>.



Este breve texto que gostaria de ser despojado e analítico vem de um arquiteto em formação, expõem-se aqui reflexões sobre “cidade” abordadas e discutidas durante uma trajetória de formação acadêmica nas disciplinas de Desenho Urbano e História da Arquitetura e nas conversas com amigos de curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRN rebatendo estas conversas para as observações no concreto.

Não pretendo ficar citando grande quantidade de teóricos a cada afirmação que fizer, apesar de, sempre ter sido ensinado nos trabalhos acadêmicos que sem fundamentação teórica meus argumentos viram um conjunto de palavras ao vento. O que se quer falar neste breve texto é a ação de “vingança do espaço”, uma reflexão que partiu do texto The revenge of place (a vingança do lugar) do professor e arquiteto William J. Mitchel, de 2001. Em breves palavras, dentro do artigo o teórico aborda que a tecnologia da comunicação está fazendo da cidade um território de não-lugares, mas que, apesar disso, os lugares que possuem uma forte identidade ou imagem tendem a ser cada vez mais valorizados e visitados pelas pessoas. Diferente de Mitchel, o que quero expressar aqui é como o espaço físico da cidade responde negativamente ao cidadão que nele está de forma a interferir no seu “direito à cidade”. Interferir em maior ou menor grau o exercício do usufruto e dos processos sociais que abrange vários âmbitos da vivência em uma cidade (consumo, deslocamento, trabalho, educação, câmbio cultural, entre outros processos).

Quando falo “a cidade se vinga”, é com certeza no “sentido figurado”, até porque a cidade é feita de pessoas e somos nós todos que podemos sofrer com o produto das decisões políticas de gestão das cidades e com as práticas dos “modos de fazer e modos de usar” (1).

De uma forma genérica o espaço urbano pode se autodegenerar respondendo às pessoas que nele vivem. Alguns argumentos podem ser expostos para ratificar tal assertiva e aqui vão alguns deles aplicados nas minhas vivências e observações de estudante.

Primeiro, a cidade se vinga toda vez que, submetidos à massiva cultura do automóvel, ainda que de forma involuntária, perdemos muito tempo presos em engarrafamentos cotidianos enquanto poderíamos estar produzindo, isso sem falar nos impactos ambientais que geramos. A comodidade que o automóvel traz para o usuário é inegável; se me perguntarem “e aí, você quer ter um carro?”, eu responderei “claro!” O problema não é ter carro, o problema é a cultura de dependência dele para deslocar-se na cidade. A intermodalidade dos meios de transporte poderia ser uma grata solução. Enquanto isso a cidade se vinga diariamente e os cidadãos ficam oprimidos por um sistema de transporte ineficiente e também por uma cultura de desenho urbano para o automóvel considerada falida há tempos. Veja bem! Não estou querendo banir o automóvel de nossas cidades, mas como minha amiga e colega de curso Camila Nobre defende: “Continuar planejando para carro já era, meu povo! Ele deve ter o seu espaço, mas jamais ser prioridade” (2).

Segundo, a cidade se vinga quando nos cercamos de muros, grades e outros dispositivos para obter proteção. A reprodução das práticas de uma arquitetura defensiva, ao invés de ser o remédio, pode ser o indutor da desintegração de uma vida comunitária – segundo os conceitos abordados pelo sociólogo Zygmunt Bauman em seu livro Confiança e medo na cidade, o medo do outro, do estrangeiro, do desconhecido gera uma vulnerabilidade frente as ações de violência. A mídia parece querer alimentar ainda mais a sensação de tensão e medo noticiando de forma sensacionalista os delitos e oferecendo-os como a refeição mental da hora do almoço (a patrulha policial que o diga).

A sensação de insegurança no meio urbano revela muitas vezes a ausência nos espaços coletivos das cidades das boas características preconizadas por Jane Jacobs em seu livro Morte e vida das grandes cidades (3): diversidade de uso, vigilância natural, uso da calçada, boa relação com os circunvizinhos, atributos que tornam os lugares mais seguros e saudáveis. É pela falta de atributos positivos como esses que a cidade se vinga mais uma vez das pessoas, impedindo-as de exercer o livre usufruto dos espaços públicos, do ambiente da rua em essência. Estamos perdendo a oportunidade de viver mais a cidade, de viver mais os espaços públicos. Com a insegurança urbana surgiu o fenômeno da segregação sócio-espacial, com a franca produção dos condomínios fechados e formação de espaços segregados. Estes conteúdos são recorrentes para quem estuda a cidade e a teia de relações é muito ampla. Em suma: a vingança do espaço vem da falta de urbanidade.

Terceiro, a cidade se vinga no momento em que se esgotam as capacidades de infraestrutura para minimizar os impactos de fenômenos naturais. Natal RN, que sempre alaga em vários pontos do seu território quando chove muito, é um bom exemplo e foi recentemente explorado por Igor Santos em seu trabalho de graduação (4). Para ele, cidades como Natal, de extrema vulnerabilidades às inundações, acumulam um previsível conjunto fatores: nível alto de impermeabilização do solo urbano (vias e lotes); diminuição da cobertura vegetal; ocupações irregulares de zonas baixas da cidade impulsionadas pela especulação imobiliária e políticas habitacionais não inclusivas; deficiente sistema de drenagem urbana. Em maior ou menor grau, os impactos dos alagamentos causam consequências em vários setores da sociedade e da economia de uma cidade ou região metropolitana.

Quarto, a cidade se vinga dos citadinos quando é tratada como mercadoria (5), quando impede o acesso fácil aos bens e serviços. Este apontamento relaciona-se com segundo ponto, uma vez que os agentes do desenvolvimento urbano, essencialmente o setor imobiliário, forjam dinâmicas de “mais valia” (6) para determinadas regiões da cidade enquanto outras se tornam espaços de “desvalia” (7). Esse fenômeno pode interferir na destinação dos recursos das políticas públicas de melhoramentos urbanos englobando aí desde infraestrutura básica a equipamentos públicos.

Quinto, e em sua opinião, a cidade se vinga quando...?

Os quatro pontos são suficientes. Não quero que esse texto seja um poço de pessimismo. Não vou afirmar que o espaço urbano sempre se vingará dos citadinos caso os fenômenos exemplificados aconteçam, pois “a cidade não é uma função matemática: se for X, será Y”. Os pontos abordados servem de breves reflexões para entender um pouco mais sobre as relações de conflito pessoa/espaço físico nesta “máquina de misturar gente” (8) chamada cidade.

Se Natal RN adotasse ao menos 30% das ideias urbanísticas que surgem na academia, esse lugar seria bem mais atrativo e instigante para morar. Pois então é isso: as cidades estão precisando de pessoas arrojadas, de ideias arrojadas. Fator crucial para que isso ocorra é a existência de “vontade política”, como se vê na bem humorada frase escrita na parede do centro acadêmico: “enquanto os arquitetos não fizerem política, os políticos continuarão fazendo arquitetura”.

Complicado entender essa teia de decisões políticas, então vou parar por aqui para não ficar cuspindo palavras sem um suporte teórico. Para manter o otimismo, acredito que as novas mídias de comunicação possibilitarão uma consciência maior sobre as importantes pautas e demandas dos centros urbanos brasileiros. Na verdade, eu prefiro ficar com a opção que estamos demonstrando boa vontade e interesse em se apurar mais sobre nós mesmos. Acompanhemos as próximas notícias e continuemos as nossas conversas.

E lembrem-se do que disse Rem Koolhaas em 1994: More than ever, the city is all we have.

notas

1
Cidade: modos de fazer, modos de usar, tema da Bienal de Arquitetura de São Paulo 2013.

2
NOBRE, Camila. Sobre ônibus, tarifas e direitos – e isso é só o começo. Blog Le droit à la ville, Natal, 13 jun. 2013 <http://droitalaville.blogspot.nl/2013/06/sobre-onibus-tarifas-e-direitos-e-isso.html>.

3
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

4
Aqua Nostra: uma interpretação sistêmica e estratégica do cenário de risco de inundações em Natal.

5
PEREIRA. Marlene de Paula. A cidade como mercadoria: influências do setor privado na produção do espaço urbano. Revista de C. Humanas, Viçosa, v. 12, n. 2, p. 446-460, jul./dez. 2012.

6
Expressão mencionada pela professora Giovana Paiva durante as aulas de PPUR I.

7
Conceito visto na dissertação de Águeda Muniz, de 2012.

8
As duas frases foram pronunciadas pela professora Edja Trigueiro durante as aulas de HTAU 2.

sobre o autor

Cleyton Santos de Medeirosé estudante do último ano de Arquitetura e Urbanismo – UFRN. Participou de Iniciação Científica junto aos grupos MUsA (Morfologia e Usos da Arquitetura –UFRN) e LabCon (Laboratório de Conforto Ambiental). Atualmente é bolsista do programa Ciência sem Fronteiras.

 

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