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drops ISSN 2175-6716

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O político belga François Perin tomou uma decisão tão inesperada quanto difícil, ele renunciou ao seu cargo de senador e anunciou na tribuna que o fazia por não mais acreditar no seu Estado.

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LIMA, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. O político que não amava o seu Estado... e que o confessou. Drops, São Paulo, ano 15, n. 091.05, Vitruvius, abr. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.091/5491>.



Horum omnium fortissimi sunt Belgae
“De todos os povos da Gália, os Belgas são os mais valorosos”
Júlio César. Comentários sobre a guerra da Gália

O ex-professor universitário belga e ex-senador de Estado, François Perin, assim explicou em um artigo à revista Le Vif as razões que motivaram a escritura do seu (último, conforme depois saberíamos) livro, intitulado Carta a um amigo francês – sobre o desaparecimento da Bélgica: “Esta obra tem o mérito considerável de alertar os valões e os bruxelenses francófonos, a fim de que eles estejam preparados para enfrentar uma cisão do Reino, a qual não se pode ser prevista com exatidão mas que parece cada vez mais inelutável” (1). Tal sinceridade, dificilmente encontrada em um político (mesmo naqueles que tenham deixado as suas funções), pode ser motivo de espanto. De qualquer sorte, sabemos que a Bélgica, com os seus conflitos étnicos e comunitários levados ao extremo e com obstinação pela sua classe política, parece ser um país inviável, e que existe mais pelo hábito de existir do que por uma real razão de ser. Ora, aqueles que têm da Bélgica a imagem de um pequeno, pacífico e rico país, “onde nada acontece”, não poderiam estar mais enganados. Divididas por inabaláveis rivalidades, disputas e desconfianças mútuas, as duas principais comunidades éticas do país não cessam de se afrontar. De qualquer sorte, devemos ao menos conceder que não é normal que um país, qualquer país, fique 541 dias sem governo, como foi o caso da Bélgica na crise político-institucional de 2010-2011, esta mesma antecedida pela de 2007 (2).

Neste clima deletério qualquer questão que, em princípio, pareceria ser meramente técnica, pode se tornar o motivo de uma disputa infindável. Cito um exemplo recente: o voo dos aviões que decolavam do aeroporto nacional, situado na cidade flamenga de Zaventem. Uma bela noite, os bruxelenses descobriram que a rota dos aviões havia mudado e que estes sobrevoariam, na maioria das vezes, a sua cidade (3). A esta “descoberta” seguiu-se uma polêmica infindável, na qual os bruxelenses culpavam os flamengos de terem poupados a si mesmos enviando os aviões sobrevoarem a sua cidade. E, por outro lado, ainda culpavam os políticos francófonos de o terem permitido por alguma razão obscura e até mesmo suspeita. A polêmica durou meses e acabou contaminando e dominando os debates públicos que antecederam as eleições regionais e nacionais de 2014. A frustração – e até mesmo cólera – foi tamanha que o político francófono supostamente responsável pela mudança na rota dos aviões, o democrata-cristão Welchior Wathelet, acabou abandonando, em definitivo, a vida pública (4). Ora, maldosamente o plano de mudança de rota era nomeado, na mídia, de “plano Wathelet”...

Posto isto, retornemos a François Perin. Como escrevemos acima, é raro que um ex-político escreva um livro no qual afirme que não acredita mais na existência de seu país, que seria uma espécie de “doente terminal”. Contudo, pode-se lançar sobre o autor a seguinte questão: por que ele não teria afirmado isto quando ainda estava em atividade? Poder-se-ia argumentar não sem razão que é sempre mais confortável dizer a suposta verdade quando esta não tem mais consequências diretas sobre seu autor, isto é, quando se está ao abrigo de possíveis retaliações. Mas este está longe de ser o caso de Perin, que foi o agente de um acontecimento inédito na história política do Ocidente, um político que sobe a tribuna para anunciar a renúncia do cargo que ocupava, dizendo não mais acreditar no Estado do qual era parte integrante: “Eu não consigo mais, em consciência, a acreditar no futuro do nosso Estado. É difícil continuar parlamentar de um Estado no qual não se acredita mais e cujo sistema político parece absurdo” (5). E continuou: “e representante de uma nação – nos termos da constituição – que não existe mais. Eu entrego neste dia a minha demissão de senador ao presidente desta assembléia” (6). Pode-se imaginar o mal estar na plateia, mal estar este que deve ter aumentado quando Perin passou a enumerar ciosamente as razões da sua profunda e convicta descrença: o nacionalismo flamengo, o poder excessivo dos sindicatos e a “particracia”, termo pejorativo usado para designar um sistema político inteiramente dominado pelos partidos.

Falecido em 27 de setembro de 2013 (7), François Perin jamais lamentou a sua renúncia e, diga-se de passagem, os políticos do seu país nunca lhe deram muita razão para que se arrependesse. Um partido nacionalista, a N-VA (Nova Aliança Flamenga) tornou-se o partido político mais influente do país, dominando a estrutura do Estado que ele, paradoxalmente, tenta destruir (8). O sistema político belga ainda merece ser denominado de “particracia”, e o cidadão belga teve que assistir durante exatos 541 dias, dividido entre a incredulidade e a impotência, o triste espetáculo proporcionado pelos seus políticos que, por meio de reuniões inúteis e disputas pouco importantes tentavam em vão formar um governo (e no meio da maior crise jamais conhecida pelo país ainda se permitiam a frivolidade de sair em férias, como se nada de grave estivesse acontecendo). Os sindicatos, por sua vez, continuam a possuir atributos que em qualquer outro país pertencem aos governos, como o pagamento do seguro desemprego.

Não, decididamente François Perin não amava o seu Estado e o proclamou em alto e bom tom diante de uma nação que, segundo ele, não existia mais. E o interessante deste ato foi que ninguém lograria enxergar nele o menor ato de anticivismo, uma vez que consistia, justamente, no seu oposto: após tentar reformar o Estado conferindo-lhe mais funcionalidade e coerência por meio da federalização das instituições, Perin viu-se obrigado a reconhecer os seus fracasso e impotência. De qualquer sorte, é mister reconhecer que não são todos os dias que se vê um político assumir, por meio de um ato de extrema coragem, as verdades nas quais acreditava. E desta maneira terminou o seu último discurso na Assembleia este político ímpar: “Eu retomarei, [desta vez] solitariamente, o caminho difícil das verdades insuportáveis” (9).

notas

NE – ver do mesmo autor: LIMA, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. Bélgica. O quebra-cabeça de línguas, etnias, partidos e governos. Drops, São Paulo, ano 15, n. 084.08, Vitruvius, set. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.084/5295>.

1
PERIN, François. Le dernier écrit de François Perin. Le Vif/l'express, Bruxelas, 30 set. 2013 <http://www.levif.be/actualite/belgique/le-dernier-ecrit-de-francois-perin/article-normal-108225.html>.

2
HONORE, Renaud. La Belgique met fin pour un temps à la crise politique. Les Echos, Bruxelas, 08 out. 2014 <http://www.lesechos.fr/08/10/2014/lesechos.fr/0203843440765_la-belgique-met-fin-pour-un-temps-a-la-crise-politique.htm>.

3
REDAÇÃO. Le survol de Bruxelles. La Libre, Bruxelas, 24 abr. 2015 <http://www.lalibre.be/dossier/le-survol-de-bruxelles-534cfdf03570d35ee3ee825c>.

4
REDAÇÃO. Melchior Wathelet (CDH) quitte la politique. Le Soir, Bruxelas, 10 abr. 2015 <http://www.lesoir.be/847825/article/actualite/belgique/politique/2015-04-10/melchior-wathelet-cdh-quitte-politique>.

5
Este fato ocorreu no ano de 1980. BRABANT, François. Quand le fédéralisme était une utopie. Le Vif/l'express, Bruxelas, 11 abr. 2015 <http://www.levif.be/actualite/belgique/quand-le-federalisme-etait-une-utopie/article-normal-388817.html>.

6
HAZETTE, Pierre. L’exemple de François Perin… à l’épreuve du réel. A.W.F. Alliance Wallonie Franc, Bruxelas, 21 nov. 2014 <https://alliancewalloniefrance.wordpress.com/2014/11/21/lexemple-de-francois-perin/>

7
REDAÇÃO. Les partis rendent hommage à l'ancien ministre François Perin. La Libre, Bruxelas, 28 set. 2015 <www.lalibre.be/actu/belgique/les-partis-rendent-hommage-a-l-ancien-ministre-francois-perin-524669db3570bed7db9f823a>.

8
“A eleição legislativa, que ocorreu em 25 de maio [de 2014], confirmou o avanço do partido nacionalista flamengo, a N-VA, que se tornou o primeiro partido com mais de 32% dos votos. O seu estatuto é claro: a emergência de um Estado flamengo soberano. Fonte: GHEUDE, Jules. Belgique: chronique d'une implosion annoncée. Le Figaro, Paris, 04 ago. 2014 <http://www.lefigaro.fr/vox/monde/2014/08/04/31002-20140804ARTFIG00073-belgique-chronique-d-une-implosion-annoncee.php>.

9
HAZETTE, Pierre. Op. cit.

sobre o autor

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, arquiteto e urbanista, Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Autor do livro Arquitessitura; três ensaios transitando entre a filosofia, a literatura e arquitetura. Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

 

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