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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Este artigo se trata de um ensaio, articulando a produção arquitetônica e a ecologia. Os argumentos se desenvolvem com o intuito de conciliar o caráter antropocêntrico da arquitetura com a inexorabilidade do meio ambiente que o cerca.

english
This article is an essay, articulating the architectural production and ecology. The arguments are developed in order to reconcile the anthropocentric character of architecture with the inexorability of environment that surrounds it.

español
Este artículo tratase de un ensayo, articulando la producción arquitectónica y la ecología. Los argumentos se desarrollan con el fin de conciliar el carácter antropocéntrico de la arquitectura con la inexorabilidad del medio ambiente que lo rodea.

how to quote

CANABARRA, Gabriel Ferreira. A casa da casa. Ensaio por uma nova epistemologia da produção arquitetônica. Drops, São Paulo, ano 16, n. 094.03, Vitruvius, jul. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.094/5604>.



I

Tagore disse uma vez que as árvores são o extremo esforço da terra em conversar com o céu. Às vezes parece que outras formas de vida procuram estabelecer relações mais complexas com o céu, enquanto o homem busca copiar um céu que ele mesmo criou. Isso torna o exercício humano de criação uma fabricação de espelho, embasado numa metalógica conveniente.

Quando se edifica, se produz algo para satisfazer a necessidade do homem, seja ela de habitação, religiosa, funcional etc. e, dessa maneira, a arquitetura é uma criação do homem para ele mesmo. Até quando se constrói algo em benefício de outra espécie, assim é porque o homem quis, uma vez que todas as decisões sobre o que se cria e se produz na Terra são tomadas pela humanidade. Entretanto, os humanos não são a única coisa no planeta.

Quando edificamos, edificamos sobre um terreno. Esse terreno existia antes de criarmos as nossos contratos sociais e até mesmo antes da própria existência do homem. Ou seja, o terreno – como parte da natureza – não tem nada a ver com as nossas práticas. Não tinha, até o homem arrancar as árvores, abrir um buraco, botar uma dúzia de sapatas e edificar uma casa. Os pássaros que moravam nessas árvores também não tinham nada a ver com isso.

Essa abordagem pode soar utópica e inverossímil na estrutura social e produtiva que temos hoje, mas na verdade é bem prática. Prática porque a arquitetura – que serve ao homem – não tem se mostrado eficaz em sanar os problemas do habitar (no sentido amplo heideggeriano). Na prática, temos enchentes, temos poluição, temos doenças oriundas dessa poluição, temos sub-habitações e outras tantas mazelas que desqualificam o habitar. E na prática, essas chagas têm como impulsionador a impermeabilização e canalização arbitrária; excesso de carros, fábricas e prédios gerando ilhas de calor; políticas públicas não efetivas e demais criações humanas. Nessa perspectiva, essa produção humana mais se aproxima de uma autofagia do que da solução dos conflitos ordinários do existir. É contraproducente divagar sobre o não produzir, não edificar. Entretanto, a epistemologia produtiva deveria atualizar-se frente aos novos cenários que se projetam.

II

O primeiro passo para uma compreensão mais abrangente do homem no mundo é dado através do entendimento da abordagem sistêmica. O respirar de uma pessoa capta oxigênio do ambiente imediato e devolve dióxido de carbono para esse mesmo ambiente. Ainda que em escala pequena, esse processamento depende e altera esse ambiente imediato. Em uma escala menor há a respiração celular. Numa escala maior, há a respiração das florestas, dos oceanos etc. A Teoria dos Sistemas, sugerida por Bertalanffy na década de 1930, trouxe à abordagem científica o caráter relacional dos elementos do ambiente, numa perspectiva sintética frente as relações complexas das coisas do mundo. Na década seguinte, Wiener contribuiu para a evolução dessa abordagem sistêmica, inserindo também o caráter analítico ao afirmar que a ciência deve estudar não só a influência do todo nas partes, mas também o comportamento dessas partes e a relação entre elas e o sistema. Essa abordagem cibernética aclarou a relação dos sistemas e das partes: o ambiente fornece informações à uma parte, que a processa e devolve um produto ao mundo, num exercício cíclico, assim como nos processos de respiração supracitados.

A cibernética tornou a abordagem sistêmica mais prática, sendo utilizada por várias ciências aplicadas como administração, economia, ciências da informação etc. Compreender que tudo está relacionado – inclusive o que nós produzimos e botamos no mundo – nos permite enxergar como todas as coisas coexistem no ambiente. Os prédios que produzimos são coisas que pomos no mundo para se relacionar com nós humanos e nossas necessidades de habitação, trabalho, transporte, cultura etc. Estariam, contudo, os nossos edifícios relacionados somente com aquilo que planejamos? Eles não se relacionam com a fauna nativa, flora, microclima etc. só porque não relevamos isso?

O problema é que somente quando as disfunções surgem, emanam as necessidades e as problemáticas. Somente a ineficácia de um elemento faz com que o enxerguemos como uma coisa Zuhandenheit, útil ao nosso sistema. Emana então o ‘pelo que’ dessa coisa e nos faz acender uma luz e pensar “ah, tá... o problema é esse, essa coisa existe para isso”. Precisamos da necessidade dos piscinões de São Paulo e das fachadas bird-friendly de Nova Iorque para nos darmos conta de que há um sistema ambiental e que ele existe quer o ser humano o considere, quer não.

III

Isso nos conduz ao segundo passo para a compreensão expandida do homem no mundo, a ecologia profunda, conceito proposto por Arne Naes na década de 1970. A ideia é simples: a humanidade é uma população própria e significante, entretanto, é somente mais um elemento na teia da vida. Ou seja, há outras coisas significantes no mundo, de grandeza igual, maior ou menor à nossas vidas. As formigas existiram sem o homem? Talvez sim, mas com certeza a existência do homem altera a existência das formigas e vice-versa. E o comportamento dos fluidos, existiria? Dos astros? As organelas das células do homem sim, existem dentro do sistema ‘homem’ e é difícil imaginar sua existência sem a existência do mesmo. Tudo se trata de perspectiva para abordar cientificamente as relações das coisas do mundo: botando o homem como centro ou como mais um elemento da complexa trama das coisas que habitam a Terra.

Aí que começam a surgir lacunas na abordagem ambiental das ciências aplicadas. Como estudar algo que não somos nós, não é produzido por nós, através de uma perspectiva viciada em centrar o homem? Essa abordagem tendenciosa do meio ambiente é levada às tecnologias que incorporam questões ambientais, como a arquitetura. Decorrente disso, a arquitetura se preocupa somente com questões de conforto e males ambientais que lastimam escancaradamente o homem, como enchentes, poluição, etc. Esse indução, tentando resolver somente o imediato, vicia os valores sociais, vontades políticas e métodos produtivos quanto ao tema. Numa perspectiva sistêmica, se molesta minimamente a natureza, por mais que soe inofensivo ao homem, em algum grau e algum aspecto irá afetá-lo.

A arquitetura passiva e renovadora de qualidade ambiental começa a surgir, mas ainda em concursos e estudos de caráter utópico. O mercado não liga, a tecnologia não acompanha. A mensuração de eficiência energética é um primeiro passo, mas o meio ambiente não se limita às fontes de energia úteis ao homem. O antropocentrismo na abordagem ambiental não seria um problema se, cientificamente, fosse comprovado que o homem tem poder de controle sobre essas moléstias ambientais que o aflige. Entretanto, isso não foi refutado e o critério de demarcação não consegue estabelecer tais poligonais.

IV

Aclara-se essa articulação com a arquitetura quando retornamos à ideia de que no princípio a paisagem era natural e o meio ambiente equilibrado, sujeito somente às modificações do tempo e não às degradações antrópicas. Por mais dos aspectos de origem política, social ou histórica, as consequências palpáveis na paisagem são materializados através da arquitetura. Um parque industrial é composto de edifícios, a cidade é composta de tramas de edifícios e vias etc. Tudo ao nosso redor é arquitetura.

Mesmo que as decisões que resultam na construção tenham origem exógena à arquitetura, poderia o materializador – o arquiteto – lavar as mãos e ignorar que existe um mundo não humano ao redor da arquitetura? Por isso a necessidade de atenção dos arquitetos frente à inoperância política, às maquiagens verdes adotadas pelas prefeituras, fugacidade do mercado e até a própria prepotência humana frente ao meio ambiente. Afinal, cada centímetro do seu traçado irá se materializar numa casa. Contudo, essa casa está sobre a terra, sob o céu, no mundo, do mundo e com o mundo. Assim como cuidamos da nossa casa, há de atentar para a casa das nossas casas, pois também habitamos nela.

sobre o autor

Gabriel Ferreira Canabarra é administrador, mestrando em Estratégia e Competitividade e graduando em Arquitetura e Urbanismo.

 

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