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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Julian Grub e Geisa Zanini Rorato discutem o sentido do habitar, a partir das ocupações das arquiteturas públicas pelos atores informais da cidade, na perspectiva que habitar está naquilo que nos constitui como ser no espaço.

english
The essay discusses the sense of inhabit, from the occupations of public architecture by the informal actors of the city. Inhabiting is what constitutes me as part of the space.

español
El ensayo discute el sentido de habitar, a partir de las ocupaciones de las arquitecturas públicas por los actores informales de la ciudad. Habitar es lo que me constituye como ser en el espacio.

how to quote

GRUB, Julian; RORATO, Geisa Zanini. Habitando o imaginário de Elias. Drops, São Paulo, ano 16, n. 094.06, Vitruvius, jul. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.094/5616>.



“Quem passa de carro ou mesmo a pé, nunca saberá que ali mora alguém. O vazio é isso, sobretudo: o desconhecimento do outro, o desconhecimento do deserto, o desconhecimento das vidas desertas, ele é todo um universo, mas que, entretanto, nos foge a compreensão porque, na verdade, não conhecemos em profundidade, não vivemos nesses espaços”
Fernando Fuão, 2012 (1)

A partir da leitura do texto “Arquitetura e vazio” de Fernando Fuão, em entrevista para Marina Mezzacappa, arrisco-me nesse ensaio estender as discussões do significado do habitar como ideia de lar a partir daquilo que entendo, ou entendia até então como possuir uma casa. Fuão num trecho do texto escreve sobre a casa de Elias, um morador de rua de Porto Alegre, um homem que vive nas bordas, excluído, é o sujeito esquecido, invisível pela sociedade que passa ao seu lado, é o próprio silencio como ser. Na escritura de Fuão, Elias ocupava um espaço protegido sob as estruturas do viaduto, numa espécie de céu protetor, de cobertura que o protegia, assim como a casa que moro.

Elias como ser efetivamente livre, escolheu num certo momento e situação aquele lugar para se abrigar, morar, poderia ser pela localização associada as suas atividades, facilitando seu deslocar pela cidade, poderia ser pelo simples fato do viaduto abriga-lo e protege-lo. Enfim a questão da escolha originou-se de uma necessidade essencial de sobrevivência, livre e autônoma de valores empregados por uma sociedade voltada ao desejo como falta, como consumo.

Fuão descreve os traços da morada de Elias, descreve-a como uma casa normal, cujos usos lembram a minha. A partir de um único espaço, organizam-se os mobiliários, um lugar do sentar e receber, através de cadeiras, um lugar de descanso provido de colchão, este protegido por um canto da parede, a mesma preocupação da posição do meu dormitório, onde a disposição da peça encontra-se mais isolada e protegida das demais, e um lugar do alimentar-se, equipado por um fogareiro junto a uma torneira para higiene pessoal e produção de alimentos, com panelas, pratos e uma caixa de mantimentos.

Esse espaço constitui-se, assim, como reflexo de uma necessidade essencial, própria de Elias, representa o livre-arbítrio do sujeito em habitar um lugar e sobreviver com identidade, numa constituição do ser por aquilo que ele precisa, a livre possibilidade e liberdade de escolhas.

Diferentemente de como escolhi esse apartamento de onde escrevo, constituído e organizado por cinco peças isoladas em 55,00m², numa ideia de “organizar-segregando”, numa relação estratificada de uso / atores, sendo as mais usadas, o dormitório / sala e banheiro / cozinha, numa hierarquização compartimentada, paradoxalmente sua arquitetura isola-me dela própria e daquilo que me constitui, a cidade.

Esta é minha casa, primeiramente de forma inconsciente, até esquecida, ela é meu abrigo, mas equivocadamente não me dou conta disso, ao contrário, de forma consciente e lógica a escolho por outros valores e desejos, como facilidade de acesso a bens de consumo, entretenimento, proteção pelo estado e pelos atores que ali moram, é ali que me reconheço (por sua classe de renda).

Como parte de um pensamento de uma sociedade “domesticada” tento com dificuldade aproximar-me da liberdade de Elias e começo a entender que o lugar de escolha independe de objetos ou coisas, ou da própria arquitetura, mas dos valores imateriais, a partir das necessidades e desejos que nos sãos colocadas como verdadeiras. Como coloca Fuão, não importa como elas chegam até mim, mas de que forma eu as aceito e estou aberto a elas.

Então o que é em si, uma casa, um lar? Um primeiro gesto de habitar? Mas penso, abrigo como gesto de acolhimento não deveria conter pelo menos um teto para me acolher, proteger do tempo, do clima, como necessidade primeira do habitar? Já que habitar como espaço de afeto é um reconhecer-se de tudo que está no seu interior e do próprio abrigar-se. Neste mecanismo de reconhecimento como lar, os produtos de consumo que possuo, como eletrodomésticos e uma infinidade supérflua de utensílios, seria minha referência de significação de afetos? Como orientação, ponto de origem e sentido?

Diferentemente, Elias escolheu sua morada de forma consciente pela necessidade de abrigar-se, aceitando, adotando e acolhendo-se sob o viaduto. Ele construiu o sentido de casa independente de sua arquitetura, forma, imagem, estética ou uso, diferentemente de mim, que recebo e aceito de forma verticalizada o que devo fazer, condicionando-me a uma situação imposta. Elias construiu conscientemente e de forma livre o espaço de abrigo como ideia de morada e inconscientemente pela vontade de se efetuar como ser morando. A construiu pelo espaço inexistente, pelo vazio agora ocupado e materializado em casa, que para nós é apenas imaginação, imaginação de Elias.

Nessa aproximação através das escrituras de Fuão, repenso as questões de valores, necessidades e afetos do morar de Elias, e vejo ali o sentido primeiro de habitar. Vejo de forma clara um lugar que o faz de-morar-se por suas características ligadas às necessidades básicas do homem, abrigar-se com sentido, sentimento.  Descansar, alimentar-se, abrigar-se, não se trata mais de arquitetura como linguagem, aparência, ou de questões físicas, materiais, mas como as assumo como necessidades minhas. Portanto aquele lugar cinza, do viaduto, desprovido de sentimentos, passa a ser casa de Elias. Todas suas referências, memorias, historias, o cuidado e amor pelo espaço-morada estão depositadas ali, mas também principalmente nele, em Elias. Ela é seu dispositivo que referencia sua existência, é sua ponte de contato com o mundo, seu habitar, assim como eu achava que lar era um simples morar neste apartamento.

Penso agora que lar não está no espaço, nem nas coisas e objetos, mas está contido em tudo, em qualquer coisa que eu de sentido como lar, é a possibilidade de significar aquilo que reconheço-me. Abrigar está na simples aceitação das coisas que necessito. Como coloca Heidegger, nem todas as construções são habitações, porém o fato de construir algo confere ao homem a possibilidade do habitar (2).

Portanto, arquitetura como sentido de lar deve ser sentida e pensada como um corpo a receber, aceitar e acolher tudo que pode transforma-la em ato de amor, de forma à habitá-la. Uma ponte, um viaduto, uma passarela, uma estação ferroviária, são construções e não habitações, mas como construções não teriam o sentido de abrigar, acolher algo, alguém? Será que dentre suas faculdades de existência não estaria o sentido de habitar como componente de sua singularidade?

notas

1
FUÃO, Fernando. Arquitetura e vazio. Entrevista para Marina Mezzacappa. Revista Comciencia, 2012 <http://fernandofuao.blogspot.com.br>.

2
HEIDEGGER, Martin. Construir, habitar, pensar. Ensaios e conferências. Tradução Márcia Sá Cavalcante Schuback. 2ª edição. Petrópolis, Vozes. 2006.

sobre os autores

Julian Grub é arquiteto e urbanista pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Mestre em Engenharia Civil e Ambiental – PPENG UPF e Doutorando pelo Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura – Propar UFRGS. Professor do curso de Arquitetura e Engenharia Civil na Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Geisa Zanini Rorato é arquiteta e urbanista pelo Universidade Federal de Santa Maria. Mestre e Doutoranda em Planejamento Urbano e Regional – PROPUR / UFRGS. Professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos

 

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094.06 habitar
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