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drops ISSN 2175-6716

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Débora Carvalho leu esse texto durante o debate com a cineasta Anna Muylaert, ocorrido na FAU USP. Os argumentos apontam para o desapontamento da autora frente a perda de oportunidade de se discutir a questão negra a partir do personagem de Regina Casé.

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CARVALHO, Débora. Te colocando no teu devido lugar. Sobre as empregadas domésticas brancas do filme A que horas ela volta?. Drops, São Paulo, ano 16, n. 097.06, Vitruvius, out. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.097/5769>.



Hoje assisti ao filme A que horas ela volta?, de Anna Muylaert. Vi na FAU USP. Fiquei desapontada, pois, mais uma vez, a questão do negro não foi contemplada. Colocaram protagonistas domésticas, que, pela sociedade brasileira, são lidas como brancas. Invisibilizaram inúmeras questões, ao se decidirem por personagens brancas, sendo que as negras sempre fazem papel de empregadas em toda a teledramaturgia brasileira. Todas as atrizes negras protagonistas já tiveram que aceitar uma personagem subalterna. O filme não venderia tanto com o sucesso de uma negra no vestibular? A filha da empregada é aprovada na primeira fase de um dos certames mais concorridos do Brasil, para o qual o filho da patroa não o foi. O filme poderia ter sido um grande marco, caso cumprisse completamente toda a sua função social de educar para a diversidade, poderia ter sido um grande marco em retratar a mulher negra com suas normais habilidades acadêmicas e intelectuais.

O trabalho doméstico está intimamente ligado à história do Brasil, sendo ele um nítido resquício da escravidão, e, este posto, ocupado quase que unicamente por mulheres negras, que na abolição, em uma inteligente jogada de marketing das outrora amas-de-leite, despertaram a necessidade e o desejo pelos seus serviços em suas patroas. Assim driblaram os infortúnios da ausência de políticas públicas para aquela população analfabeta e excluída. Tiveram um trabalho multifacetado, como babás, cozinheiras, passadeiras, lavadeiras e empregadas domésticas, ao contrário dos seus companheiros homens que foram marginalizados.

Hoje na USP os tambores das baterias ecoam pela famosa Praça do Relógio. O filme retrata perfeitamente os valores afrodescentes, do cuidado, do carinho, do toque, do entendimento, da coletividade, da não competição que foram passados para as crianças da alta sociedade, através das babás negras, as verdadeiras mães. O que ambas as cenas têm em comum? Indivíduos não-negros desempenham tais funções. A ausência de negros em postos tipicamente ocupados por negros. E o mais interessante é que não há questionamentos mais profundos, não há um envergonhamento pela invisibilização.

Caímos em um dilema: ser moderno e não selecionar negros ou ser conservador e colocar negros em posições ocupadas por eles secularmente? Não há respostas certas. Depende do contexto. O clichê de bons em serviços, esporte, dança e tráfico está ultrapassado. Sim, há uma antiga reivindicação da comunidade negra, pois não queremos mais somente fazer papéis subalternos. Queremos “todas” as personagens, queremos ser a advogada bem sucedida, queremos ser a engenheira bem sucedida e negra, sem poréns. Porém, até nos postos com os quais os negros têm ligações históricas e culturais, estão sendo preteridos. Tudo bem, se a patroa do filme fosse negra, eu aceitaria com mais facilidade a ausência de maior elenco negro. E se a Jéssica negra fosse aprovada utilizando o direito que lhe foi concedido das ações afirmativas?

O filme toca no ponto G da classe média, retrata e reforça a relação de poder, tenta causar repugnância aos patrões, mas tenho dúvidas se o efeito não é o inverso. Um filme que liga a questão serviçal à USP é muito interessante. Durante todos os anos de graduação me perguntaram centenas de vezes onde é que eu trabalhava na USP, de que país eu vinha. As pessoas menos atualizadas e preconceituosas fingem não saber que nós negros brasileiros somos também intelectuais e acadêmicos. Como forma de expressar seu descontentamento, fingem um engano. O filme tenta reforçar a ideia: “pobre insolente, vamos te colocar no teu devido lugar”. É bem típico. Não há inovação. Mais do mesmo.

Bem, temos que ser inovadores, progressistas. Mudamos a ótica e deixamos este filme como um marco. A partir dele nenhum papel subalterno será ocupado por negros, para não discriminar. Nenhum papel de poder será ocupado por brancos, para não discriminar. Ser racista é selecionar 100% de brancos para personagens positivas. Que seja selecionada a melhor atriz, o melhor ator, independentemente da sua cor. Ou melhor: quero ver 53% dos patrões negros. Quero ver 47% dos serviçais brancos. Depois, vamos para uma fase mais evoluída, onde a teledramaturgia e o cinema não precisem mais retratar relações de poder. Daí sim começarão os questionamentos sobre mérito, cultura, conhecimento. Por exemplo, imagino um dia em que o mesmo filme seja em dois ambientes, contando a história de duas pessoas que vêm tentar vestibular na USP, deixando o espectador decidir quem tem mais méritos de ser aprovado no vestibular. Uma menina pobre e negra do Rio Grande do Sul, como eu, ou um menino “estuda e passa”.

Nas relações intrarraciais, é mais fácil admitir sucessos dos seus iguais. Esta é a causa de tanta aprovação do filme. Nas relações interraciais, vislumbrar o sucesso de uma pessoa de uma raça mais despretigiada que a sua, desperta a ira. Ver a raiva de perto foi uma experiência marcante na minha vida uspiana. A violência contra a mulher tenta humilhar, menosprezar, duvidar das capacidades. A violência contra negros tenta aniquilar, eliminar, suprimir, desencorajar. O leitor pode presumir o que é ser mulher negra. É uma sensação de afogamento. É lutar para contrariar as estatísticas. Nasci assim, vou morrer assim, lutando.

Sempre frequentei a casa dos patrões das minhas tias. Minhas tias moravam no emprego, como no filme, só que o quarto era a metade – eu disse a metade e não o dobro – do tamanho. Sempre entrávamos pela portinhola lateral, a famosa entrada de serviço. Tinham muitos cachorros enormes na área. Não podíamos realmente ousar em passar da cozinha. Uma vez a patroa não estava. Na cozinha tinha uma televisão do tamanho da que havia na minha casa, a cozinha era maior que lá em casa. A geladeira era a maior que eu já tinha visto na vida, do tamanho de um roupeiro com duas portas, como a do filme. Eu me sentei no sofá rosa de poltronas macias que acompanha três paredes da sala. Fui no lavabo, onde tinha uma toalhinha para cada mão. Depois fomos no quarto do casal. Eu já sabia contar e contei doze portas em baixo e doze portas em cima; não entendia quem poderia ter tanta roupa assim. A casa era como se fosse um palácio, com cortinas de voil, que davam um toque romântico; na parede da sala, dois enormes retratos desenhados a nanquim dos donos. Tinham duas filhas, a mais nova regulava de idade comigo.

Agora, depois que tanta coisa aconteceu na minha vida, eu me formei em engenharia na USP, fiz mestrado na Alemanha, aprendi tantas línguas, a minha tia me contou uma raiva que ela carregava no coração: quando eu tinha oito anos, numa dessas visitas que fazíamos à “casa” dela, a patroa falou sobre mim: “é tão pretinha, não vai ser ninguém na vida”. Tive proteção familiar e divina, contra a prática mais moderna e mais antiga de recrutamento serviçal: o desencorajamento precoce e a desinformação. A vida, patroa da minha tia, dá voltas e hoje eu é quem pergunto: o que são as tuas filhas? A quem elas recorrem quando se sentem tristes? O leitor já sabe a resposta.

Sinto que sou uma personagem da vida real, que nenhuma patroa ou obra de ficção brasileira, embebidas em preconceitos, ousou em conceber. Como eu, há muitas Jéssicas, que diante do respeito e da oportunidade, conquistam os seus espaços mundo afora. Nós definimos o lugar que queremos estar. Talvez a verdadeira abolição esteja começando a ser redesenhada agora pelas nossas próprias mãos. Não somos utopia, somos seres de plenas capacidades, de carne, osso e pele negra.

notas

NE1 – texto parcialmente lido pela autora durante o evento Que horas ela volta? AUH Encontros  Bate-papo com Anna Muylaert, organizado por Nilce Aravecchia e Giselle Beiguelman, ocorrido no auditório da FAU USP, cidade universitária, no dia 14 de outubro de 2015.

NE2 – Ficha técnica do filme: Que horas ela volta? Roteiro e direção de Anna Muylaert. Produção de Gullane, Africa Filmes, Globo Filmes, Brasil, 2015, 1h51’. Com Regina Casé (Val), Camila Márdila (Jéssica), Michel Joelsas (Fabinho), Karine Teles (Bárbara), Lourenço Mutarelli (Carlos), Helena Albergaria (Edna), Luis Miranda (empregado) e Theo Werneck (motorista).

sobre a autora

Débora Carvalho é formada há pouco mais de um mês em Engenharia Ambiental pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, sua segunda graduação. Estudou Engenharia Geológica e Hidrogeologia na Technische Universität Bergakademie Freiberg, na Alemanha, onde se tornou Master of Science. Tem o sonho de fazer o doutorado na sua área de atuação, já encontrou possíveis orientadores em universidades brasileiras, holandesas, alemãs e francesas. Escolherá onde for tratada com respeito. Débora percebeu que não podia se desconectar de tudo o que ela representa, e paralelamente aos seus estudos acadêmicos em universidades de excelência na área de engenharia ambiental, e por ser, pelo que se sabe, a quinta engenheira negra formada pela USP, se dedicou também aos estudos do racismo brasileiro, para melhor entender todas as provações que ela passou no seu percurso acadêmico. Débora é também integrante do PoliGen, o Núcleo de Gênero da Poli.

 

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