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drops ISSN 2175-6716

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A recente pixação do Pátio do Colégio colocou em questão o valor patrimonial de um monumento recente revestido de histórico e o dilema entre a depredação do patrimônio público e o protesto de cunho social.

como citar

NEVES, Deborah. Precisamos falar sobre monumentos e sua simbologia. Ou sobre a pixação no Pátio do Colégio. Drops, São Paulo, ano 18, n. 127.05, Vitruvius, abr. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.127/6947>.



1) Já há alguns anos, alguns locais considerados emblemáticos para a cidade de São Paulo vêm sendo alvo de intervenções estéticas – em sua maioria, pixações. O mais notório caso é o Monumento às Bandeiras, que volta e meia é alvo de tintas. Hoje é a vez do Pátio do Colégio. Aí eu, historiadora e técnica do patrimônio tenho que me manifestar. Então, senta que lá vem textão.

2) Vamos começar pelo começo. O Pátio do Colégio, que é o "marco fundador da cidade de São Paulo" não é tombado pelo Condephaat. “Oh, mas como assim não é?” Pois então. Aquilo lá não é original, sabia? A única coisa que resta da edificação erigida no século 16 é uma parede de taipa que fica no interior do Museu Anchieta, protegida por vidros.

3) Então porque não é original não tem valor de patrimônio cultural? Não é isso. Qualquer coisa tem valor de patrimônio cultural desde que a população atribua a um lugar/coisa esse valor. E esse é o caso do Pátio do Colégio. Não é tombado, mas a população tem um laço afetivo com esse local. E por quê? Porque desde a mais tenra idade escolar, a gente aprende que ali a cidade foi fundada, o mito dos jesuítas pacificadores de índios selvagens e a civilização se impondo sobre a barbárie.

4) O pátio do Colégio e a capela primitiva foram demolidos totalmente – após muitas reformas – no final do século 19. A construção que hoje vemos foi iniciada como comemoração ao IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954. Ficou pronta apenas em 1979, quando Paulo Maluf era governador e Olavo Setúbal (sim, aquele do Itaú) era prefeito. É, portanto, um “monumento” artificialmente criado para estabelecer no tempo e no espaço urbano, um marco para o que pretende representar. Não foi algo que está lá há séculos. Mas é uma produção intencional e ideológica de um monumento.

5) Feito o preâmbulo histórico/crítico, vamos falar da pixação (sim, escrevo com “x” porque é assim que é escrito por quem pixa). As manchetes que trazem a questão tratam como “vandalismo”. Mas vamos pensar um pouquinho além do mais óbvio? Não foi exatamente “vandalismo” o que aconteceu ali, porque não foi o pixo de sempre – crews ou indivíduo que deixou ali sua marca, grife, apelido (1) – mas um protesto. Está escrito claramente “OLHAI POR NOIS”.

6) E aí que mora a grande questão. O prédio é associado a uma memória cristã, católica e jesuíta. A frase escrita em letras monumentais (sentiu o trocadilho, hã hã?) foi dita pelo maior símbolo dessa manifestação e que está presente na sua principal oração – Jesus. Olhai por nós. Nós quem? Percebem a simbologia dessa pixação? Não é só vandalismo. É um manifesto, um grito para que olhe por nós. Quem olhe? Deus? A Igreja? Olhe para quem? A população excluída (e aí cabe um monte de categorias)? Os pixadores?

7) Fato é que, a pixação cumpriu com seu propósito: fez alguém olhar para o prédio, fez olhar para quem escreveu, pode nos fazer olhar para o que ela chama a olhar. Porque, como diria Ulpiano Meneses, não há nada mais invisível que um monumento.

8) Basta que pensemos para além do título do vandalismo e do "ai, que absurdo pixaram um patrimônio". Porque a real é que a maioria dos bens tombados tem pouca aderência entre a população, porque geralmente são lugares que pouco têm a ver com a história de vida da maior parte da população. É só muito recentemente – talvez desde a década de 1980 – que o tombamento deixou de privilegiar a memória cívica e passou a discutir e representar segmentos à margem da sociedade tradicional brasileira. Até porque quem tinha possibilidade de produzir bens que durem sobre os tempos não eram exatamente os mais pobres.

9) Vale ressaltar que é só dar uma lixada na parede e aplicar tinta ali que tudo fica como antes. Não é uma demolição, não é uma violação. É um manifesto simbólico e que foi feito pra causar mesmo, pra chamar a atenção. Não vou aqui ser legalista do patrimônio. Primeiro porque não é tombado pelo Condephaat, segundo porque há muitos bens em péssimo estado de conservação – como o Batalhão de Guardas no Parque Dom Pedro, ali do ladinho – e quase nada se fala sobre o tema. A questão aqui não é sobre o tombamento, o “crime contra o patrimônio cultural”, mas sobre os significados que o prédio têm e outros que têm, mas são escamoteados e que a pixação vem pra jogar na cara as contradições da sociedade.

10) Por fim, termino com o Jacques Le Goff falando sobre documento-monumento, porque ele é muito mais competente que eu pra isso.

"O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmitificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo” (2).

notas

1
NE – sobre a semântica do pixo, ver: LASSALA, Gustavo; GUERRA, Abilio. Cripta Djan Ivson, profissão pichador. "Pixar é crime num país onde roubar é arte". Entrevista, São Paulo, ano 13, n. 049.04, Vitruvius, mar. 2012 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/13.049/4281>; LASSALA, Gustavo. O que a pixação tem a dizer. Drops, São Paulo, ano 14, n. 075.02, Vitruvius, dez. 2013 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.075/4989>.

2
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, Editora Unicamp, 1996, p. 538.

sobre a autora

Deborah Neves é graduada e mestre em História pela USP, especialista em Gestão do Patrimônio e Cultura pela Unifai e em História Recente pelo CAICYT (Argentina) e doutoranda em História pela Unicamp.

 

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