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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Mais um artigo de Carlos A. Ferreira Martins, professor do IAU USP, sobre a degradação da democracia brasileira, se atendo a dois personagens principais: o idiota útil e o idiota inútil.

how to quote

MARTINS, Carlos A. Ferreira. Sobre idiotas úteis e inúteis. Ou sobre os que não falam, não ouvem, não veem. Drops, São Paulo, ano 19, n. 141.04, Vitruvius, jun. 2019 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.141/7379>.



Três manifestações de rua em um único mês indicam que a sociedade brasileira não está tão passiva quanto denunciam alguns e desejariam outros.

É verdade que aqueles, como eu, que consideram esse sintoma positivo, devem agradecer ao que alguém, acuradamente, chamou de idiocracia. Como homenagem à freudiana fixação por títulos falsos das universidades americanas, podemos também chamar de idiocracy.

O neologismo indica um momento do país em que não é o povo (demo), nem simplesmente o dinheiro (pluto), nem a elite (aristo) que estão no centro do exercício do poder.

Mas um conjunto de idiotas levados a essa posição pela peculiar articulação entre os donos do dinheiro (os plutocratas), as classes médias que morrem de medo de não se diferenciar dos pobres (os demófobos), e os setores do aparato estatal, civil e militar, interessados na ampliação de seus privilégios.

É o caso de esclarecer a diferença entre o idiota e o ignorante. De origem grega, idiota significava inicialmente individuo ignorante e sem educação. Entre nós, está dicionarizada com dois sentidos: como pessoa que carece de inteligência; ignorante ou estúpido, mas também como pessoa pretenciosa, vaidosa e tola.

Inegável que os idiotas no poder conjugam admiravelmente os dois sentidos. Não lhes bastando ser ignorantes, exibem vaidosamente sua tolice, em uniformes falsos, caixas de chocolate ou guarda chuvas.

Também é o caso de lembrar que a ignorância não é, em si, um atributo negativo. Há um sentido positivo na ignorância que se reconhece, com humildade, frente a tudo que ainda falta saber. É esta que move a dúvida sistemática, a reflexão e a aposta no exercício do contraditório como condições para o avanço do conhecimento. É ela que justifica o investimento público no ensino e na pesquisa. Essa é a ignorância – ou a sua consciência – útil.

Hoje está no poder a outra. Aquela que reconhece sinceramente que não veio para construir nada, só destruir. E o afirma com a satisfação dos irrecuperavelmente idiotas.

In-úteis, em sentido preciso.

sobre o autor

Professor do IAU USP, reconhece sua ignorância, mas não se orgulha dela.

 

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