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interview ISSN 2175-6708

abstracts

português
Político e diplomata, no "olho do furacão" por décadas, Ronaldo Costa Couto fala do excelente livro "Brasília Kubitschek de Oliveira"

english
Politician and diplomat, the "eye of the storm" for decades, Ronaldo Costa Couto speaks of the excellent book "Brasilia Kubitschek de Oliveira"

español
Político y diplomático, en el "ojo del huracán" por décadas, Ronaldo Costa Couto habla del excelente libro "Brasilia Kubitschek de Oliveira"

how to quote

BARBOSA, Antônio Agenor. Ronaldo Costa Couto. Entrevista, São Paulo, ano 03, n. 010.01, Vitruvius, abr. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/03.010/3342>.


Hotel de Brasília
Foto Peter Sheier [fonte: Acervo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF]

Antônio Agenor de Melo Barbosa: O governo de Juscelino Kubitschek foi mesmo especial?

Ronaldo Costa Couto: Foi. Claro que era impossível, mas ele tentou mesmo avançar 50 anos em cinco. Tentou pra valer, com entusiasmo comovente, quase inacreditável. Um exemplo? A própria construção de Brasília. Enfrentou tudo. Da falta de recursos à incerteza de inaugurá-la e acusações de corrupção. Era uma pilha de energia, garra e capacidade de trabalho. Por exemplo: sabe quantas viagens Rio-Brasília-Rio ele fez de outubro de 1956 até o final de 1958? 225 viagens! Trabalhava o dia inteiro no Rio, depois entrava num DC-3 ronceiro e ia feliz para Brasília. Olhava tudo, punha fogo em todo mundo e voltava feliz. Depois trocou o DC-3 por um Viscount. Dormia bem nos vôos. Lembre-se: Brasília era um canteiro de obras em pleno sertão. Em média, ele fez uma viagem a cada três dias. Muita determinação e coragem, não é?

AAMB: Então foi um período de grandes e rápidas mudanças no Brasil, não é?

RCC: Sim. O país realmente mudou muito. A auto-estima subiu, o complexo de inferioridade herdado do período colonial diminuiu um pouco. O desenvolvimento foi intenso. Qualitativa e quantitativamente. Industrialização acelerada, atração de capital estrangeiro, fortes investimentos em infra-estrutura. Esforço monumental. Inclusive para fazer Brasília. E repare: no início dos anos cinqüenta, o produto interno brasileiro não era muito maior que o da Bolívia de hoje. Em 1950, a população era menos de um terço da atual. Cerca de 52 milhões, 64% no campo. No final de 60, havia 71 milhões de habitantes, 45% urbanos.

Nos anos JK o gigante adormecido foi sacudido e acordou. Juscelino já tinha acelerado o desenvolvimento de Belo Horizonte como Prefeito e o de Minas Gerais como Governador de Estado.

AAMB: E a economia do país como andou neste período?

RCC: Governo diferente e extraordinário o de Juscelino Kubitschek. Começa em 1956 e se propõe a fazer cinqüenta anos em cinco. Não consegue, claro. Ninguém conseguiria. Mas ele realmente tenta. Tenta com tanta inteligência, vontade e força que altera o referencial histórico do país. Há o Brasil de antes dele e o de depois.

A estrutura econômica se altera, a prioridade do desenvolvimento entra definitivamente na agenda nacional. Constrói Brasília, desencadeia a marcha para o interior, impressiona no exterior; aproveita os ventos internacionais favoráveis e acelera o processo de substituição de importações, que atinge o auge, inclusive com a implantação da emblemática indústria automobilística; concretiza as hidrelétricas de Furnas e Três Marias; faz mais de vinte mil quilômetros de estradas e asfalta cerca de 5,6 mil quilômetros de rodovias antigas; constrói mais de três mil quilômetros de ferrovias; a produção siderúrgica dá um salto; ele idealiza e costura a Operação Pan-Americana, que atrai apoio norte-americano para o desenvolvimento da América Latina.

A média anual de crescimento da economia brasileira é de 10% reais no triênio 1958-60. O produto interno bruto (PIB) aumentou quase 50% durante o governo dele. É o apogeu do modelo de substituição de importações, principalmente a de bens de consumo duráveis. E assim por diante.

AAMB: Qual o principal ponto fraco do governo JK? A despeito de todos estes avanços positivos onde é que os críticos do Presidente mais atacam a sua gestão?

RCC: Eles batem principalmente na tecla de que teria deixado a casa desarrumada, com a inflação reprimida e dificuldades nas contas externas. Alguns apontam a construção de Brasília como principal causa da inflação subseqüente. Muitos implicam sinceramente com ela até hoje. Isso também é examinado no livro.

AAMB: O que mais impressiona em JK?

RCC: O coração cheio de sonhos e a capacidade de pensar grande e realizar. De dar esperança ao povo. A fé e o entusiasmo no Brasil. Habilidade política, amor sincero ao país, autoridade, carisma, visão de futuro, vontade superior de trabalhar, o dom de inventar e costurar soluções. Compreensão do país e sintonia com o povo. Coragem às vezes quase inconseqüente e confiança sem fim no Brasil.

Outra coisa que poucos percebem: JK foi um extraordinário formador de equipes de governo. Descobria e prestigiava talentos. Niemeyer, por exemplo, tinha 35 anos quando arquitetou a Pampulha, de que Brasília é a continuação. Veja só quem estava no time dele no projeto de Brasília: Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Burle Marx, Bernardo Sayão e outros grandes talentos do Brasil. Darcy Ribeiro, por exemplo, ajudou muito. É o pai da Universidade de Brasília (UnB). É admirável a fé de Juscelino no “instinto kubitschekiano”.

AAMB: Como político, ele se guiava por esse instinto?

RCC: Muitas vezes. Inclusive em decisões capitais. Quando ele disparava, JK ia em frente de qualquer jeito. Há muitos exemplos. A construção da Belém-Brasília é um deles. Apesar dos técnicos, dos números e do FMI, com quem, aliás, rompeu em 1959. Outros tempos, outras circunstâncias. JK dizia que não basta a visão técnica, que ele chamou de “sabedoria seca”. Era preciso entender os problemas do povo, acreditar no país e no seu futuro. Fazer política dentro da democracia. Esse é outro ponto fundamental: o compromisso dele com a democracia, o respeito por ela em todas as circunstâncias. Desenvolvimento e democracia lembram JK. Também me impressiona muito o brutal sofrimento dele, as feridas e dores no corpo e na alma. Ele morreu mesmo três vezes.

AAMB: E as historinhas inseridas nesta grande História de Brasília?

RCC: Há muitas, dezenas. No final de 1976, Oscar Niemeyer acerta com a amiga Vera Brant uma visita ao túmulo de Kubitschek, no Campo da Esperança, ao final da tarde. Marcam para cinco e meia. Oscar se atrasa. Às seis, em ponto, o porteiro fecha o portão. Vera e Oscar chegam um minuto depois. Ela pede ao funcionário para abrir uma exceção, dar um jeitinho. Ele se desculpa, diz que não pode, cumpre ordens. Ela explica, insiste. Nada. Insiste mais. Nada. Oscar assiste a tudo calado. Simulando fúria, ela grita que vai arrebentar o portão. Entra no Alfa-Romeo, liga o motor, deixa em ponto morto e acelera fundo. Um barulhão. Em pânico, o porteiro resolve abrir. Dentro:

– Puxa, Oscar, você não falou nada, ficou só olhando! Achei que ia me ajudar na briga.
Brigar pra entrar em cemitério, Vera?

AAMB: Poderia mencionar um pequeno trecho do livro?

RCC: “Quem escreve sobre Brasília corre o risco de se desviar, perder o rumo. Há muitas tentações. Personagens fortes, irresistíveis. Juscelino invade cabeça e coração, razão e emoções. Mexe na alma da gente, cresce, impõe-se, quase expulsa a tentativa de neutralidade. É preciso vigilância máxima para que não tome o tema, a tese, a pena. Personagem superior. Brasília é Juscelino, símbolo e obra maior de seu governo e vida. Brasília é ele. É Kubitschek de Oliveira. E também Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, Darcy Ribeiro, o candango Seu Zé – cearense sem medo e filósofo do povo – e muitos mais da brava gente brasileira. Vidas e feitos que gritam silenciosamente por grandes biógrafos”.

Palácio do Alvorada e Lago Paranoá, 10 de junho de 1960
[fonte: Acervo Arquivo Público do Distrito Federal]

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