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interview ISSN 2175-6708

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Ao pichar obra de Nuno Ramos na última Bienal de Arte de São Paulo, o pixador Djan Ivson, conhecido como Cripta Djan, chamou a atenção para a ambiguidade de sua forma de expressão, que ronda perigosamente a contravenção e flerta envergonhada com a arte.

how to quote

LASSALA, Gustavo; GUERRA, Abilio. Cripta Djan Ivson, profissão pichador. "Pixar é crime num país onde roubar é arte". Entrevista, São Paulo, ano 13, n. 049.04, Vitruvius, mar. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/13.049/4281>.


Djan Ivson Silva, o Cripta Djan, em ação
Foto divulgação [Arquivo Cripta Djan]


Gustavo Lassala e Abilio Guerra: Como você entrou no mundo da pixação?

Cripta Djan Ivson: A minha iniciação mesmo, prá valer, foi quando eu saí no rolê com um parceirinho meu que era amigo de infância e de fazer tudo, o Ricardinho. A gente já colava com a galera da rua, a galera mais velha, que já pixava em Barueri, no bairro dos Camargos. O Ricardinho começou a pixar, pegava as tintas do pai dele e pixava tudo em volta da casa dele. Um dia, ele falou: “vâmo”? A gente era parceiro de fazer tudo e eu nem gostava da pixação para falar a verdade, não tinha vontade mesmo de fazer. Meu negócio era andar de patins, lutar capoeira e jogar bola. E aí, eu saí com o Ricardinho nesse dia, a gente começou a pixar e eu comecei a curtir aquele negócio. Ele lançava Os Assassinos e eu entrei para a gangue e esse foi meu primeiro rolê, cara. A gente começou a pixar as vielas ali perto de casa, mas eu demorei muito – estava pixando um andaime perto de casa – e minha tia me procurou; eu fiquei escondido, então já foi uma adrenalina; eu tinha doze anos. Nós éramos uns moleques, sempre em busca de aventura. Nesse dia, nós acabamos com as tintas ali perto do bairro, e falamos: “vamos lá prá estação agora, vamos lá prá longe”. Aí fomos prá longe de casa pixar e um cara nos pegou, deu um banho de tinta em nós, bateu. No meu primeiro rolê, cheguei em casa todo pintado dos pés a cabeça, aquilo me marcou.

GL/AG: Esse cara era dono da propriedade?

CDI: Olha só, que história louca, de filme, de novela. A gente estava pixando uma viela, não era nem o muro dele, era da casa lá de cima da ponta. Ele viu da janela, desceu correndo e a gente correu a rua inteira, mas a gente era moleque e não teve fôlego para correr mais que o cara, ele nos pegou lá na esquina, trouxe arrastando, mandou tirar as camisas e esfregar na parede, e nós começamos a esfregar. E aquela sensação de frustração, desespero... O cara começou a agredir meu parceiro, porque provavelmente ele era palmeirense e o moleque estava com a camisa da Gaviões [Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians Futebol Clube]. Eu fiquei assustado com aquele “baguio” porque esse cara foi muito covarde. Hoje em dia, eu tenho filho e tenho uma dimensão de quanto aquele cara foi covarde. A gente tinha doze anos... O dono da casa saiu e isso foi a nossa salvação porque o cara era mais tranquilo, ficou assustado, viu a gente e disse: “vou levar esse meninos em casa”, e o malandrão foi junto. O dono chegou na porta de sua casa, chamou o pessoal e o cara começou a explicar e nessas, foi chamar o pai do outro moleque. Quando o pai do moleque chegou, não era ele compadre do dono da casa? Olha que coincidência! Só que o dono da casa teve uma postura e sobrou pro maluco. De repente, estava um bando de pixadores lá na rua, viu a gente daquele jeito, virou uma confusão... Queriam pegar o cara, que entrou dentro de um carro e se trancou. Só não quebraram o carro porque este era do dono da casa, que foi gente boa. Dalí, já foi um “baguio” que me marcou e me revoltou, “já rodei”. Mas, cara, eu falei prá minha família que não ia mais pixar. Só que eu não consegui, não conseguia parar de ter vínculo com o negócio, acho que foi uma praga... Até que chegou um dia que eu falei: “eu sou pixador mesmo e já era”. Assumi mesmo, cansei de mentir; eu nunca gostei muito de mentir.

GL/AG: Você estava com quantos anos?

CDI: Então, doze anos. Minha tia começou a falar “o Djan está chegando com tinta” e eu escondia a tinta na garagem e não tinha como negar, tá ligado? Eu pixava Os Assassinos. Eu saí da gangue porque eu e o Ricardinho fomos pixar em outro lugar e ele me deixou falando sozinho na hora da fuga, tá ligado? Era prá ele me esperar e não me esperou, eu fiquei chateado com ele e aí acabei entrando para Os Garotos, que era a gangue dos caras da rua, com os quais eu já andava. Fiquei um tempo n’Os Garotos e depois entrei pro Cripta em 1997.

GL/AG: O que te passa pela cabeça quando vai pixar?

CDI: Cara, é uma sensação ali de... É um prazer que a gente tem, que é... Sei lá, quando a gente está pixando... É uma pergunta interessante porque, na minha mente, é um prazer, uma satisfação muito grande, estar fazendo aquilo ali. Tem o lance do medo também, da repressão... Eu mesmo nunca consigo fazer um pixo totalmente tranquilo, tô sempre agitado, nunca tô de bobeira, tá ligado? Às vezes, o pessoal até fala “você é muito acelerado”, mas não, é um risco, você está com a lata de tinta... Prá você assinar um processo na delegacia é muito fácil, às vezes, não precisa nem estar pixando... Quando eu tô pixando, me sinto num momento de conflito com tudo e todos. Ali é um momento meu, que eu estou desafiando todo mundo, sabe? Porque quase ninguém aceita o negócio e nem é obrigado a aceitar também. E eu tenho que arcar com as consequências do que eu tô fazendo.

GL/AG: Você se lembra da primeira entrevista que cedeu para um periódico de grande circulação?

CDI: Foi prá Band [TV Bandeirantes]. Eu tenho até uma foto. Foi a primeira vez e eu já estava numa fase boa do rolê e nesse dia eu representei o pixador que não fazia parte do projeto. A matéria foi assim: os assessores, secretários, falaram “é o seguinte, nós vamos falar sobre o projeto aqui e tal, mas vai ter que ter um que vai ter que falar que não aderiu ao projeto”. Os caras olharam assim e... “o Djan!” Aí, dei entrevista falando que não queria entrar para o projeto e tal; mas foi legal, minha primeira entrevista como pichador e todo mundo viu, tá ligado?

GL/AG: Mas não era um embuste, porque na verdade você ia para o projeto?

CDI: Eu fazia parte do projeto, era armação nossa. Assim, tem que ter um lado bom e um lado ruim da história. E comecei a dar uma entrevista em Barueri, dei entrevista para o Fantástico na época, quando era o Caco Barcelos. Não chegou a sair por que... Você sabe como é, os caras entrevistam um monte de coisa e não usam tudo. Mas aí eu já comecei a pegar esse contato com a mídia porque eu fiquei muitos anos em Barueri, a gente deu muita entrevista no decorrer desses anos, desenvolveu um trabalho bonito na cidade e era pixador. A gente tem um conceito lá na cidade e conseguiu até inverter nossa visão, tinha até um respeito, até da guarda municipal porque a gente até “aloprava” onde a gente estava trampando. Era uma festa, tá ligado? A gente pegava um viaduto para pintar, virava um point, ficava meses lá trampando e era uma zona. A gente parecia que mandava na cidade, tá ligado?

GL/AG: Como você escolhe o prédio ou monumento que você vai pixar? Você escolhe com antecedência?

CDI: Tem as duas formas. Às vezes, você está no rolê e aquilo surge – sabe? –, com a necessidade do rolê. A gente tem essa facilidade de tanto tá articulando o local antes, como no momento também. Tem coisas maravilhosas que acabam surgindo no rolê e que a gente nem imaginava pegar e tem coisas que a gente estuda mesmo e tem como alvo, meta, tá ligado?

GL/AG: Existe algum tabu, algum tipo de edifício ou monumento que não pode ser pixado?

CDI: Não. Não há restrição alguma para pixação, cara. Isso é uma coisa da pixação, não há... Você vê que até o Cristo já foi pixado, a cara do Cristo.

Djan Ivson Silva, o Cripta Djan, na praia
Foto divulgação [Arquivo Cripta Djan]

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