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interview ISSN 2175-6708

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Ao pichar obra de Nuno Ramos na última Bienal de Arte de São Paulo, o pixador Djan Ivson, conhecido como Cripta Djan, chamou a atenção para a ambiguidade de sua forma de expressão, que ronda perigosamente a contravenção e flerta envergonhada com a arte.

how to quote

LASSALA, Gustavo; GUERRA, Abilio. Cripta Djan Ivson, profissão pichador. "Pixar é crime num país onde roubar é arte". Entrevista, São Paulo, ano 13, n. 049.04, Vitruvius, mar. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/13.049/4281>.


Djan Ivson Silva com a máquina que ele usa para capturar as imagens dos filmes que produz
Foto Gustavo Lassala


Gustavo Lassala e Abilio Guerra: Qual o seu papel no movimento da pixação em São Paulo hoje?

Cripta Djan Ivson: Hoje em dia, além de tá fazendo essa documentação, que eu vejo como importante, eu penso em deixar pelo menos um legado, tá ligado? Deixar um caminho a ser seguido, entendeu? Só apontar um caminho prá galera, tá ligado? Falar “olha, eu acho que a gente tem que direcionar mais o pixo como instrumento de revolução mesmo”, sabe? É legal pixar, ter seu Ibope, mas a gente também não pode se afastar totalmente desse questionamento político, sabe? Eu acho que a gente tem que usar porque o exemplo disso foram os ataques e tudo que veio gerando para nós. Quando o Rafael chegou prá mim em 2008 e falou que queria sacrificar o diploma dele, eu não consegui enxergar o que é que ele estava propondo. Parecia um papo de louco, mas ele já tinha isso idealizado, tinha a visão e eu não conseguia ver... O preconceito é tão grande da sociedade, a falta de informação também é tão grande, porque a galera é tão carente.

GL/AG: Como é a reação da sociedade ao pixo e aos pixadores? Quem gosta e quem não gosta?

CDI: Ninguém gosta de pixação, nem bandido gosta.

GL/AG: E sua família?

CDI: Meu pessoal é tranquilo, eu tive sorte porque o meu pessoal tem uma cabeça boa. Os caras que são pixadores, a maioria, tem a família com a cabeça boa, mas tem cara que a família nem pode saber que ele pixa. Eu tive uma família que tem a cabeça aberta. Melhor... Por isso que eu até tenho essa facilidade prá dar entrevista e falar disso publicamente, isso já não é mais um problema, entendeu?

GL/AG: Em algumas entrevistas, você fala que é ex-pixador?

CDI: Na real, é o que acontece. Eu não chego a falar que sou ex-pixador, pode prestar atenção. Os caras me creditam como ex-pixador porque quando eu dava essas entrevistas eu estava em atividade, aí os caras perguntam “você tá pixando?” e eu falo “no momento, não tô pixando”. Minha atividade, que era uma coisa monstruosa, parou em 2004, tá ligado? Eu me considero, desde então, um cara “aposentado” no pixo. Eu nunca mais voltei a ter aquela dedicação que eu tinha, entendeu? Faço um rolê ou outro, mas a galera sabe que eu não voltei. A galera sabe... Mas tem cara que acha que eu estou na ativa, por tudo que acontece aí e tal.

GL/AG: E o Lin, que estava preso e voltou à ativa?

CDI: É, voltou e fez bastante. Você vê e fala “o cara voltou e tá fazendo tudo que fazia na antiga e mais um pouco”. Eu explodia, na minha época! Explodia, escalava tudo que era prédio, catava umas janelas, fazia muita quebrada também. E eu chegava “de três”, em pé, nas quebradas...

GL/AG: O que te motivou a começar a produzir documentários sobre a pixação?

CDI: Era a falta de material direcionado prá nós. A gente tinha que se contentar com recortes de jornais ou uma foto numa revista de grafite. A gente chegou a ter o álbum de figurinha “Só Pixo”, mas os caras que faziam o baguio colocavam muita foto deles e aí a galera desanimou, né? Mas parece que eles tiveram um boicote na época, não sei qual que foi, mas ele tiveram que parar. Aí veio o Pixadores em Ação, o primeiro vídeo direcionado a pixadores. Antes disso a gente pegava rabeira em algum vídeo de grafite, no São Paulo Show, no Invasão, n’Os Mais Obscuros. Os caras do grafite sempre tiveram uma condição melhor, sempre foi aquela galerinha classe um pouco média alta, mais playboy. Pra você ver, o caras já tinham acesso a esses recursos, nós não. Os caras já tinham vídeo; a gente, se tivesse vídeo do começo dos anos 1990, poxa!... A pixação era magnífica. E tem, assim, o vídeo Bombardeio Obscuro, eles chegaram a pegar bastante coisa de pixo e é mágico. Esses materiais são ótimos, é muito importante, o Pixadores em Ação foi feito por pessoas que não eram pixadores, eram os caras de uma balada, do “Tio Sam”, e eles não deram continuidade, então, ficou aquele lance, de “a gente não tem mais nada!” Depois de 2003, conheci o pessoal do 100 comédia – que não era projeto meu – e do Escrita Urbana [série de vídeos]. Já tinham título, já estavam em andamento. Nas filmagens, eram os caras da Pompéia que gravavam os vídeos 100 comédia. Outro moleque do Bom Retiro gravava o Escrita Urbana; o cara era pixador e o “Vadios” acabou abandonando o projeto 100 comédia na minha mão. Eu tinha participado do 100 comédia e corri atrás... Do nada, um dia, estava dando entrevista prá revista Graffiti, para o Alexandre de Maio, que é um cara do Rap. Foi ele quem me entrevistou. O cara era muito gente boa e depois da entrevista – quem ia me entrevistar era o Binho e eu já tinha perguntado pra ele como fazer um vídeo, mas o Binho meio com má vontade e tal não respondeu... – bem, o Alexandre não, já falou, “porque que você não faz um vídeo?”. Eu falei, “material a gente tem, mas não tem recurso prá editar” e ele, “eu me comprometo!”. O cara se comprometeu e eu retomei o projeto. Fui até o fim. Foi difícil fazer o baguio de favor, tive que ser chato, tive que ficar em cima e aí, conheci o T.H.O. no estúdio dos caras. Na real, nem foi o Alexandre que deu a força, mas acabou que passou a bola para o Roney, que trabalhava com vídeo e é o cara das batalhas de “breique”, um cara antigo do hip hop, que abriu o estúdio dele; o T.H.O. era o editor dele. E aí, “vocês editam aqui e eu lanço”, só que quando acabou a edição, ele não tinha dinheiro para lançar aí nós mesmos lançamos. O T.H.O. é editor, mas não tinha dedicação ao trabalho. Em 100 comédia e Escrita Urbana 2 eu filmei o material sozinho. O T.H.O. estava me dando muito problema pois a função dele era editar e a minha, filmar, e ele não estava fazendo a função dele. Tive que contratar um editor. Foi aí que eu comecei a tocar tudo sozinho (1).

GL/AG: Você tem problemas com a justiça por conta da pixação? Sofreu processos, passou por julgamentos?

CDI: Meu primeiro processo foi na festa do Cripta, em 1999, por incrível que pareça. Porque, às vezes, a gente é abordado, chega a ser levado para a delegacia e não chega a ter uma ocorrência. Para a ocorrência acontecer, a vítima tem que estar presente, mas, hoje em dia, os caras estão tão filhos da puta que eles fazem um termo que você se compromete logo com o Ministério Público. Se o cara te pegar com tinta na rua e quiser te fuder, ele faz isso, entendeu? Mas o meu primeiro processo foi assim, fiz a festa do Cripta na minha casa, a vizinhança me processou em ação conjunta. Foi meu primeiro problema com pixação. Depois, realmente fui pego em cima de um estabelecimentoe a polícia cercou. Na realidade, o primeiro processo foi esse de 1998 e a primeira vez que eu caí em delegacia foi em 1997, que deu aquela merda lá, que o cara fez a gente se agredir, que o prefeito foi e comprou a bronca. Em 1998 eu rodei fazendo um “pico” numa padaria. Os caras cercaram e nos pegaram lá em cima. Eu tive audiência, reparamos o dano, pagamos a tinta prá família... Na época, eu era “de menor” e a responsabilidade era da família. Depois teve o da festa, a juíza já ficou puta comigo e eu era moleque, não estava nem aí prá juíza, batia de frente com ela, ela ficava louca e falava “e aí, mãe, e esse moleque?” Eu, nem aí prá ninguém, molecão, quinze anos. Depois, 1999 foi o ano que eu mais tive processo, que eu “tava que tava” dedicado e comecei a ir pro centro. 1999 foi o ano em que eu falei para mim: “eu tenho que ser alguém na pixação”. Porque em 1998 eu já comecei a iniciação de ir prá fora, tá ligado? Eu assinei um processo no centro, assinei dois processos no centro. Na mesma semana, em 1999, a juíza ficou puta comigo, a juíza lá do centro. Aí já era da comarca de São Paulo, porque tem o município, se você “roda” no município, você vai prestar conta pro município, se você “roda” na grande São Paulo, você vai prestar conta no fórum de lá. Eu tive esses dois processos e nenhum dos dois deu em porra nenhuma, porque não teve que pagar reparação de dano. Um foi pixando uma porta de aço e o outro era um pico de um prédio que tinha acabado de ser reformado e queriam que a gente pagasse setecentos reais. Na época, era um absurdo isso, não tinha como, minha mãe foi lá e falou que não tinha condições e ficou por isso mesmo. Também teve um processo, em 2000, quando eu “rodei” fazendo uma porta de aço em Carapicuíba, que gerou um certo comprometimento. Coisa que a gente nem imagina, às vezes, uma portinha, um pixinho bobo, por isso que, hoje em dia, eu não gosto de dar bobeira, que prá assinar um processo é foda. Eu, quando saio prá pixar, é coisa séria, já saio concentrado de casa, já saio determinado com a missão, é planejado, prá mim, rolê é missão.

GL/AG: Missão é palavra militar, não é? Você percebe isso? Vocês usam tática de guerrilha, fica um vigiando, etc?

CDI: Totalmente! Depende muito do que a gente vai fazer. O que precisa mais de contenção é quando está pixando no baixo, quando a gente está fazendo um pé nas costas, pixando aqui, chão. Aí, sempre é bom ter gente olhando pros dois lados porque a tendência de “rodar” pixando em baixo é muito maior. Se subiu, você já está ganhando tudo, ninguém anda olhando prá cima, só pixador, tá ligado? “De maior”, comecei a ter processo em 2003, foi meu primeiro. Tive um pixando um murinho, tive um escalando um prédio na Avenida Rio Branco, que os caras me pegaram no meio da escalada, falaram que eu era o homem-aranha; esse aí foi engraçado! Também tive um problema sério por causa de briga de pixação, que também acabei sendo nem absolvido; o caso foi encerrado por falta de provas e era tentativa de homicídio a acusação. Isso me complicou muito porque essa confusão aconteceu em 2002, fui acusado sem provas, mas eu fui acusado, pela vítima. Era uma “treta”, era uma guerra que aconteceu nos points e foi gerada por rivalidade mesmo, nem foi atropelo de pixo, foi por quem superava mais o outro, quem subia mais alto e, em 2004, quando eu assinei esse processo, a delegada achou o inquérito disso, aí foi que me deu uma desanimada, eu já estava pai, meu moleque já tinha dois anos porque eu casei com dezoito. Então, já começou a pesar prá mim, sabe? Muita noite de “delega” e tal, mesmo assim eu nunca consegui me afastar, mas eu parei de me dedicar daquela forma exagerada, que era uma forma pesada.

GL/AG: Foram quantos processos?

CDI: “De menor”, foram quatro, Barueri foram quatro; no centro, dois; em Carapicuíba, um... Bem, “de menor”, foram cinco! “De maior”, teve 2003, 2004 e 2006. Oito processos, cara.

GL/AG: Chegou a passar noite em delegacia?

CDI: Cheguei... Fiquei muito em “corró”. Fora os processos, fui muitas vezes prá delegacia. No centro eu conheci todas as delegacias, passei em todos os “corrós”, já limpei muito lixo de preso, bituca de cigarro, tá ligado?

GL/AG: Ficou no máximo quanto tempo?

CDI: Uma noite, o máximo de tempo ainda quando eu era “de menor”. E era uma miséria, então eu já aprendi uma coisa: quando era “de menor”, caiu de “delega”, dá o telefone da mãe! A melhor coisa é sua mãe te retirar porque aí a gente vai prá uma triagem, né? Tem que ter um pequeno julgamento, isso aí foi um transtorno do “caraio”. Eu fiquei assustado quando caí dentro de um pavilhão todo fechado e tive que vestir uma roupinha, andar na linha, “Sim, senhor! Não, senhor!”. Foi pesado.

GL/AG: Como é na delegacia, você chega lá no “corró” e os caras perguntam o que você fez?

CDI: No “corró” a gente “tromba” uns caras que estão fudidos, que quando nós falamos que é por pixar, os caras: “ah, tá suave...” Os caras ficam com inveja da gente, tá ligado? “Queria também ser pixador nessa hora aqui e ia ser liberado com vocês!”

GL/AG: Pixação tem alguma coisa a ver com arte?

CDI: Eu acho que tem. A arte é uma das coisas que também fazem parte da pixação. Por várias questões, uma questão é a da tipografia. A tipografia faz parte das artes plásticas, não é? A performance também faz parte da arte. E a performance do pixador é a performance da vida, não é? E também acho que é subversão. A pixação é um objeto artístico, não é só arte. Uma das coisas que compõem a pixação é a arte, mas não é basicamente só isso; eu acho que a pichação merece sim reconhecimento da instituição de arte, não que isso vá colocar a gente num cubo branco ou que a gente queira espaço autorizado na cidade ou projetos sociais. A gente não quer nada disso; a gente quer um reconhecimento pelo que a gente é na essência, entendeu? Um reconhecimento existencial. Só isso. Essa que foi a nossa busca.

GL/AG: O que você entende por tipografia?

CDI: Cara, eu vejo a pixação com uma riqueza muito grande, tipográfica. Ela reinventou a escrita! Cada pixador tem que desenvolver uma letra prá poder estar se destacando, cada pixador tem um alfabeto único e você vê aí que a gente tem origem numa apropriação do alfabeto rúnico que é uma escrita, uma tipografia de muito tempo atrás, não é? Eu acho que a riqueza estética da pixação, tipográfica, é muito interessante.

GL/AG: Mas como essa ligação com o alfabeto rúnico, você acha que os pixadores viam livros, estudavam isso?

CDI: Não, porque os caras do rock se apropriaram disso no logotipo das bandas, tá no inconsciente e a galera do punk começou a usar isso sem saber, tá ligado?

GL/AG: Mas a palavra tipografia para você o que é?

CDI: Pra mim é letra.

GL/AG: Como você vê a presença da mulher no mundo do pixo?

CDI: A gente sente por ter poucas minas, mas entende porque é um movimento muito viril. É arriscado, exige uma força física... Lógico que tem minas que conseguem se destacar na pixação, mas nunca como um pixador, tá ligado? Um homem tem mais disposição para subir nos negócios, escalar as paradas, as minas que pixam usam mais aquelas táticas de enganar os porteiros, subverter a segurança, entendeu? As minas conseguem se destacar dessa forma, pixando prédio e tal. Poucas minas escalaram, fazem pé nas costas e se destacaram por esse tipo de rolê. As minas tem mais rolê de leve, rolê de chão, ou pixam muito com um cara que é foda. Às vezes, o namorado da mina acaba pixando prá ela, tem essa também. Tem poucas minas que realmente se destacaram, tá ligado?

GL/AG: E tem preconceito?

CDI: Que nada, os caras preferem levar as minas, porque às vezes é mais “picadilha” você dar uma disfarçada, mas sei lá, depende da mina. Também tem cara que não vai querer mina no rolê.

GL/AG: Mas não tem uns caras com segundas intenções?

CDI: Para a maioria dos caras, a intenção é essa, arrumar alguma coisa com as minas e, como é pouca mina, quando aparece mina que é pixadora, vixi, os malucos ficam tudo doido!

GL/AG: O que significa pixar?

CDI: Pixar é a sua promoção existencial, entendeu? A gente escolheu não ficar no anonimato e fazer aquela autopromoção da nossa existência. É basicamente isso aí.

Djan Ivson Silva em Paris
Foto divulgação [Arquivo Cripta Djan]

nota

1
Ver página de Cripta Djan no Youtube com vídeos do 100 Comédia e outras produções <www.youtube.com/user/CriptaDjan?ob=0&feature=results_main>. Outros vídeos no Youtube: Pixadores em Ação <www.youtube.com/watch?v=gSpUa2oF4wo>; Bombardeio Obscuro <http://t.co/XjpqXxZh>; Escrita Urbana <www.youtube.com/watch?v=sVOcoQ8Z0HI>; Escrita Urbana 2 <www.youtube.com/watch?v=bJfHXGaIRx4>.

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