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interview ISSN 2175-6708

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Fernando Diez, editor da revista argentina Summa+, conversa com Abilio Guerra, editor do portal Vitruvius, e comenta sobre sua trajetória profissional e intelectual.

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GUERRA, Abilio. Entrevista com Fernando Diez. Editor, professor e consultor argentino fala sobre sua trajetória intelectual. Entrevista, São Paulo, ano 14, n. 055.02, Vitruvius, jul. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.055/4808>.


Projeto Elemental Iquique, Chile, 2004. Elemental / Alejandro Aravena e outros
Foto divulgação [Acervo Summa+]


Abilio Guerra: Como a maior parte dos editores latino-americanos, você tem viajado muito nestes últimos anos, participando de eventos diversos. Qual o papel destes – Bienal de Veneza, Bienal de São Paulo, Bienal de Buenos Aires, Trienal de Lisboa, Bienal Iberoamericana etc. – na discussão da produção contemporânea?

Fernando Diez: Respondo com as palavras de Silvia Arango, que escreveu um ensaio excelente sobre a crítica, onde diz que os prêmios de arquitetura são uma parte importantíssima da crítica, porque fixam pautas e dão parâmetros para os mais jovens. Ao mesmo tempo, Arango observa como muitos dos prêmios sofrem condicionamentos que estão dados pela própria mecânica dos jurados coletivos. Por exemplo, muitas vezes os segundos prêmios são melhores que os primeiros. Mas o melhor é ler o artigo de Silvia publicado na Summa+ (1). As Bienais são muito importantes, lugares naturais de intercâmbio. A Bienal de Buenos Aires, na qual participei ativamente em várias edições nos anos 1990, a de Quito, para onde estamos viajando em breve, ou também a Bienal Iberoamericana, onde fui representante argentino em duas ocasiões, são encontros mobilizadores e, sobretudo, lugar para o intercâmbio de ideias.

AG: O que acontece hoje com a arquitetura e o urbanismo? Estamos diante de um final de era ou já vivemos uma quebra paradigmática? Quais são os novos vetores que direcionam as novidades?

FD: Faço parte do grupo dos que consideram que não se pode analisar nem discutir a arquitetura alijada dos problemas ambientais e sociais. Desde os anos 1980 estamos lutando para impor uma visão onde arquitetura e urbanismo são uma mesma coisa, onde há uma continuidade cultural e condicionamentos práticos. Uma arquitetura idealizada, hedonista, alheia às necessidades e circunstâncias reais – ou seja, uma arquitetura como pura arte – pode ser inspiradora, mas só terá significado se for útil tanto no terreno espiritual como no terreno prático. A quebra de paradigma consiste no desencanto com os discursos épicos, que prometeram muito, mas terminaram oferecendo pouco. A visão mecanicista da sociedade e do meio ambiente produziu uma cidade desumana, apagou nosso registro histórico e destruiu vínculos comunitários e tradições culturais. Os benefícios da era da máquina foram erodidos pelos resíduos dessa produtividade e agora tentamos pensar de uma maneira menos arrogante, buscando um equilíbrio e uma racionalidade ambiental. A superprodução e o hiperconsumo são necessidades da máquina e do sistema de produção. Sua virtude foi a baixa dos preços dos produtos sofisticados – lava-roupas, automóveis, telefones ou computadores –, mas não conseguiu superar o descarte sistemático e a obsolescência programada. Esse é um desafio ao qual a arquitetura não é alheia. Como especialistas, poderíamos dizer que é a relação entre técnica e civilização, nas palavras de Lewis Mumford, ou entre técnica e cultura como gosto de dizer, onde caberia à arquitetura o poder de aportar ao processo uma relação mais racional com o meio ambiente, para torná-la viável no tempo, ou seja, sustentável.

À esquerda, Summa+ 115, casa no Paraguay, Gabinete de Arquitetura / Solano Benìtez, 2008; à direita, Summa+ 58, edifício em Rosário, Rafael Iglesia, 2003
Divulgação [Acervo Summa+]

AG: Summa+ é hoje uma revista internacional, que circula pela América Latina, o que te permite uma visão do que está ocorrendo em outros países. Como está a produção da América Latina em geral? Qual o balanço comparativo que você poderia fazer entre as arquiteturas mais sólidas, caso da argentina, chilena, brasileira e colombiana?

FD: Hoje observamos como uma nova geração de arquitetos criou uma rede de colaborações e influências na América Latina, onde as influências cruzadas mostram o surgimento de sensibilidades e experiências que também se tornam mais visíveis para a Europa e os Estados Unidos. Sem dúvida, a arquitetura chilena produziu uma geração muito interessante de arquitetos, mas sua produção não está isolada do que acontece em outros países da região. Por exemplo, o chileno Alejandro Aravena mantém contatos muito estreitos com o argentino Rafael Iglesia, com o paraguaio Solano Benítez e com o brasileiro Angelo Bucci. Diria que por um momento se moviam em conjunto, se recomendavam mutuamente, e mantinham uma discussão comum muito ativa. Mas temos também os arquitetos mexicanos, como Javier Sanchez, Michel Rojkind, Castillo e Springall, que têm sido muito publicados nas páginas de Summa+, e creio que através de nós esta obra ficou mais conhecida em nosso meio. Pessoalmente, creio que a qualidade da arquitetura produzida por esta nova geração da América Latina é muito boa, ainda que talvez o problema seja outro: em que medida estas obras exemplares conseguem contagiar a produção geral. Porque também é certo que há uma grande proporção de arquitetura de baixa qualidade, sem preocupações maiores com o meio ambiente e a cidade.

Edifício 13 de Setembro, México DF, Higueras-Sanchez, 2005
Foto divulgação [Acervo Summa+]

AG: Com o peso cada vez maior da infraestrutura no destino das cidades, há uma tendência cada vez mais forte do arquiteto trabalhar naquilo que Alberto Varas, grande arquiteto argentino, chama de “arquiteturizar a infraestrutura”. O que você pensa desta situação?

FD: Há pouco estive em Los Angeles participando de um seminário organizado por Princeton e UCLA, onde precisamente o tema era as infraestruturas, em particular as relacionadas à água. Um dos aspectos que eu destaquei é o interesse em criar infraestruturas cada vez mais descentralizadas, mais adaptadas ao meio. O interesse pelo paisagismo, que cresceu consideravelmente nas últimas décadas, parece estar relacionado com a ideia de arquiteturizar as infraestruturas, mas tem também um aspecto hedonista, puramente visual, do qual não compartilho. Não se trata apenas de embelezar as infraestruturas, como se fez cobrindo de verde os lixões nos arredores das grandes metrópoles (com impensados mas terríveis efeitos hidráulicos no caso de Buenos Aires), mas se trata de desativar a produção de resíduos e isso deve ser feito nos balcões de venda e nos domicílios urbanos. Creio que devemos focar o aspecto conceitual e causal de nossos problemas. Enterrar autopistas para não vê-las, como se fez em Boston ou em Madri a um custo astronômico, produz belos parques na superfície, mas todo esse paisagismo que oculta o que acontece embaixo apenas adia as decisões radicais que devem ser tomadas, como os impostos sobre o combustível fóssil, investimentos em transporte publico e adensamento de cidades demasiado estendidas.

AG: Quais são hoje os principais arquitetos argentinos? Quais são os jovens que estão se destacando?

FD: É um pouco difícil mencionar apenas alguns, o inclusive injusto, porque há muitos. Mas sem mencionar os já consagrados como Clorindo Testa ou MSGSSS, é interessante mencionar a maneira em que um grupo muito amplo de arquitetos jovens produziu uma renovação da habitação coletiva urbana, construindo pequenos edifícios de apartamentos, em um processo que eu tenho chamado de “táticas de infiltração”. Quando se observa em perspectiva o trabalho destes arquitetos, se evidenciam as influências recíprocas e a maneira em que a multiplicação destas obras em bairros antes deprimidos tem sido capaz de criar verdadeiros fenômenos de renovação urbana. Entre os precursores de Palermo Viejo, que construíram as primeiras casas, pode-se mencionar Lacroze-Miguens-Prati e a Hampton-Rivoira. Na geração seguinte, concentrados em edifícios de apartamentos, temos Caram-Robinsohn e Blinder-Janches; e ainda há uma geração mais nova, entre os quais posso citar Adamo-Faiden e A77 (Dieguez e Gilardi). Este fenômeno se vê também em Rosário, quiçá com uma quantidade menor de exemplos, mas com uma altíssima qualidade em cada um deles. Basta mencionar Rafael Iglesia, Gerardo Caballero, Marcelo Villafañe e, na geração mais nova, Nicolás Campodónico. Não quero deixar de mencionar alguns nomes destacados de Córdoba, como Bertolino-Barrado, Ana Etkin e Dutari-Viale.

À esquerda, dormitório infantil, Boulonge sur Mer, Buenos Aires, A77 / Gustavo Diéguez e Lucas Gilardi, 2006; à direita, Edifício Conesa, Buenos Aires, Adamo-Faiden, 2008
Fotos divulgação [Acervo Summa+]

nota

1
ARANGO, Silvia. Crítica y premios de arquitectura. Summa+, Buenos Aires, n. 124, set. 2012, p. 76-81.

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