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interview ISSN 2175-6708

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Entrevista com João Filgueiras Lima, Lelé, concedida a Otavio Leonídio, no canteiro de obras do hospital da Rede Sarah, Barra da Tijuca (Rio de Janeiro/RJ), no dia 18 de outubro de 2007.

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LEONIDIO, Otavio. Eu vivo numa ilha. Entrevista com João Filgueiras Lima, Lelé. Entrevista, São Paulo, ano 15, n. 058.01, Vitruvius, maio 2014 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.058/5170>.


Lelé e Otavio Leonídio no canteiro de obras do hospital da Rede Sarah, 2007
Foto divulgação


A morte de Lelé, ocorrida há poucos dias (1), marca o fim de um percurso excepcional. De fato, sua obra constitui um caso sui generis no quadro geral da arquitetura moderna brasileira – isto é, a arquitetura concebida por Lucio Costa (a partir da obra e sobretudo das ideias de Le Corbusier) e desenvolvida nos anos 1940 e 1950 por seus dois grandes chefes-de-fileira: Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy.

O excepcional, no caso, não é o descolamento dessas duas matrizes, senão o fato de que, na obra de Lelé, elas encontram uma síntese inusitada, capaz de aliar, de uma lado, a auto-suficiência da forma única (no caso de Niemeyer, espetacular) e, de outro, o rigor da forma que se reproduz de acordo com a lógica industrial/construtiva (próprio à arquitetura de Reidy).

O resultado dessa conjunção operada por Lelé não é apenas surpreendente, é acima de tudo estranho. Digo estranho não apenas com relação às formas que dela resultam, mas também da situação idiossincrática em que ela acaba colocando a obra de Lelé. Não surpreende, assim, que um dos traços mais marcantes da obra de Lelé seja o fato de que ela não encontrar abrigo em nenhuma das duas escolas surgidas a partir das obras de Niemeyer e Reidy – a carioca (hoje, extinta) e a paulista (hoje, mais pujante do que nunca).

O fato de Lelé repudiar (conforme afirma aqui) essa e outras categorizações é duplamente sintomático. De uma parte, sugere um desapreço por construções teóricas/historiográficas demasiadamente rigorosas e/ou elegantes. Mas acima de tudo, indica que, se tal clivagem de fato existe, ela talvez seja fruto de um desvio de rumos meramente circunstancial.

O que o aspecto extraordinário da obra de Lelé revela, nessa perspectiva, não é tanto aquilo que ele, isoladamente, logrou realizar como arquiteto (tudo aquilo que, como ele mesmo admite, fez com que se sentisse vivendo em uma ilha), mas sobretudo as possibilidades inexploradas de algo que teve em Niemeyer e Reidy apenas um início.

A ênfase que Lelé dá aqui ao tema da formação (tanto à sua própria formação quanto a dos arquitetos e arquitetas de hoje) me faz crer que este, precisamente, era o tema que mais o sensibilizava quando, em outubro de 2007, no barracão de obras do hospital Sarah do Rio de Janeiro, me recebeu para a entrevista que vai aqui publicada. Ao reler o texto, no dia de sua morte, ocorreu-me que a ilha chamada Lelé pode sempre se transformar num arquipélago.

nota

1
NE – João Filgueiras Lima faleceu no dia 21 de maio de 2014, em Salvador BA.

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