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CARRILHO, Marcos José. A restauração da Casa da rua Santa Cruz. Minha Cidade, São Paulo, ano 01, n. 005.01, Vitruvius, dez. 2000 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/01.005/2100>.


Casa Modernista na ocasião da inauguração [Fotos do livro de Geraldo Ferraz, Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil]


Planta térrea do projeto original [revista Óculum nº 2]

Planta superior do projeto original [revista Óculum nº 2]

 
Depois de anos de abandono, após longa disputa judicial, parece que finalmente o Governo do Estado se dispõe a promover a recuperação da Casa Modernista da Rua Santa Cruz. A iniciativa aliás é urgente, pois o avançado estado de arruinamento que atingiu o edifício, ameaça tornar irreversível a perda de vários componentes originais desse que, de algum modo, ficou consagrado como o primeiro exemplar de arquitetura moderna no Brasil.A degradação atingiu várias partes do edifício. De um lado, expôs alguns aspectos anteriores à reforma sofrida em 1934 e, de outro, comprometeu vários elementos originais especialmente executados para o edifício, tais como lambris, mobiliário integrado, caixilhos e ferragens. Assim sendo, não se trata apenas de recuperar a casa, mas o que se apresenta como questão fundamental é o que restaurar e como fazê-lo. É imprescindível, portanto, a elaboração de um projeto de restauração, o qual, por sua vez, somente poderá chegar a bom resultado se for capaz de estabelecer adequadamente, a cada um dos aspectos da restauração, o juízo de valor compatível com o significado desta obra na história da Arquitetura Moderna no Brasil.Os argumentos conceituais que fundamentam nossa proposta de restauração da Casa da rua Santa Cruz poderão ser lidos em outra sessão de Vitruvius: "Arquitextos", texto especial 30PropostaTais circunstâncias ilustram bem as dificuldades que se apresentam diante das escolhas que necessariamente terão de ser feitas na definição do projeto de restauração. Contudo, a preservação do valor que esta edificação contem para a história da arquitetura moderna no Brasil, não pode ficar a mercê de soluções tímidas ou conciliatórias. Um projeto de restauração digno da importância e do significado deste edifício terá que examinar exaustivamente todas as alternativas decorrentes das sucessivas transformações sofridas e analisar até as últimas conseqüências as possibilidades de valorização de cada um de seus aspectos mais relevantes. Um dos aspectos mais importantes da análise consiste em compreender o significado desta obra em face de outras projetadas pelo próprio Warchavchik.Enquanto o CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – se viu na contingência de intervir rapidamente por meio do tombamento para evitar a demolição do edifício, superado o risco, o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – pode propor medidas de preservação mais abrangentes, contemplando também duas outras obras de Warchavchik, as casas da Rua Itápolis e da Rua Bahia. Conforme o parecer técnico que instruiu a decisão de tombamento do IPHAN, os três exemplares "constituem três etapas decisivas e quase didáticas do que poderíamos chamar de núcleo doutrinário da arquitetura moderna". (1) A abrangência maior deste tombamento permitiu selecionar uma amostragem mais representativa das origens da arquitetura moderna em São Paulo e no Brasil. Os três exemplares, cada um segundo as suas características, contemplam vários aspectos desta trajetória. A Casa da Rua Santa Cruz tem a precedência cronológica. A Casa da Rua Itápolis, concluída no início do ano de 1930, é uma realização melhor sucedida que a anterior, pois encerra uma volumetria mais rigorosa, onde já comparece o uso do concreto armado nas marquises e lajes. Sua organização espacial, porém, não traz inovações significativas. Sua planta coincide com o arranjo típico dos sobrados de classe média largamente difundidos em São Paulo. Reproduz, além disso, os resquícios de uma organização comprometida pela estrutura social característica de nosso meio, denunciada pela presença da edícula. Sua importância é conseqüência do fato de ter sediado a Exposição de Arte Modernista, e da decorrente demonstração do princípio da integração das artes - arquitetura, artes plásticas e artes aplicadas.
A realização mais importante sob o aspecto arquitetônico é, sem dúvida, a Casa da Rua Bahia, também de 1930. Neste caso o repertório arquitetônico moderno contempla todos os aspectos da edificação. A acomodação à declividade do terreno, a articulação dinâmica dos volumes, a feição quase industrial da elevação da rua Bahia em contraste com as aberturas longas e contínuas da face oposta e, finalmente, o uso do terraço jardim, destacam os aspectos mais evidentes dessa característica. Ao contrário da Rua Santa Cruz, neste exemplar não há mais hesitação, mas o domínio completo do repertório formal, da organização espacial e da técnica construtiva, a serviço do melhor desempenho funcional e construtivo, que atinge o nível de realização estética madura.

Mas se, comparativamente, a casa da Rua Santa Cruz apresenta limitações, isso não lhe reduz a importância. Ao contrário, tratando-se de um exemplar de transição, adquire um valor documental único, como testemunho da mudança na direção da arquitetura moderna. Mudança que se manifesta na hesitação entre dois códigos distintos, entre duas formas de concepção diversas evidenciadas pela presença de certos elementos de solução formal já apontados, como a simetria da composição, o recurso ao tromp l’oeil, a adoção de soluções espaciais como as varandas e a persistência de técnicas e materiais tradicionais, como o uso de telhas cerâmicas.

Se o raciocínio está correto, o juízo dele decorrente tem conseqüências diretas nos critérios de restauração a serem adotados, pois o propósito de evidenciar a importância documental do edifício implica na necessidade de restaurá-lo segundo sua forma original. É na sua configuração primitiva que é possível perceber os elementos contraditórios de sua concepção.

Embora esta proposta possa escandalizar aos mais ingênuos e parecer conservadora aos que se pretendem mais atualizados em relação às teorias contemporâneas de restauração, é relativamente fácil argumentar em sua defesa.

Para levar a efeito a preservação deste edifício temos três alternativas:

a) preservá-lo tal como se encontra;

b) recuperar alguns de seus aspectos originais como a fachada emblemática preservando o restante de acordo com a situação atual;

c) fazê-lo retornar à sua configuração original.

Preservar o edifício tal como se apresenta a partir da reforma de 1934 ou incorporando as alterações mais recentes, significaria atribuir a prevalência da biografia do arquiteto sobre o significado da obra. Apesar do inegável papel de Warchavchik como introdutor da arquitetura moderna, é sabido que sua trajetória posterior se orientou para uma produção mais voltada a demandas correntes do que à continuidade de suas pesquisas iniciais. Além disso, como foi destacado, a reforma de 1934 promoveu alterações de valor duvidoso, comprometendo os atributos que levaram ao reconhecimento do papel de Warchavchik na introdução da arquitetura moderna no Brasil.

Recompor alguns aspectos do edifício como, por exemplo, a fachada, imagem marcante desta obra, à qual sempre esteve associada a sua memória na maioria das publicações, mantendo-se o restante de acordo com a situação atual, resultaria em algo que o edifício nunca foi. Mas, pior que isso, uma tal proposta estaria em conflito com um dos preceitos mais importantes do Movimento Moderno, isto é, que a forma externa de um edifício deve estar, necessariamente em correspondência com seu conteúdo.

Resta, portanto, examinar a última hipótese.

A reversão da casa à sua configuração original é relativamente fácil. Não se trata de recriação, pois lá estão presentes quase todos os elementos originais. O mais difícil - porém simples diante dos recursos hoje disponíveis - é a remoção da laje do terraço. O pavimento superior é praticamente o mesmo, tendo sofrido apenas alguns acréscimos. A iconografia disponível é suficiente para orientar a recuperação dos elementos em seus detalhes. Prospecções dos elementos originais poderão servir para verificar dúvidas e confirmar detalhes construtivos.

Reforça esta hipótese o fato do edifício se encontrar em estado avançado de arruinamento. A casa permaneceu por longos anos sem conservação, na expectativa de solução do litígio judicial e de sua destinação final. Em face disso, os custos de restauração não serão muito diferentes numa hipótese ou noutra.

O critério proposto para o edifício se aplica, do mesmo modo, ao jardim. Tratando-se, no Brasil, da primeira obra paisagística moderna, o jardim fronteiriço à casa deverá ser recomposto com todo o rigor. O levantamento das espécies e a distinção entre elementos originais e acrescentados será indispensável para a recomposição de sua integridade. As espécies estranhas à sua concepção original deverão ser removidas. As espécies originais deverão ser analisadas quanto a sua condição fito-patológica para avaliar as possibilidades de sua conservação ou necessidade de substituição. Os registros fotográficos disponíveis são suficientemente ricos para guiar com segurança a seleção dos dados obtidos no levantamento.

O momento em que, finalmente, são obtidos os recursos necessários à recuperação deste importante testemunho da arte moderna brasileira, constitui uma oportunidade excepcional para buscar o restabelecer os seus valores em toda a sua integridade.

Argumentos conceituais complementares e que fundamentam nossas observações poderão ser lidos em outra sessão de Vitruvius: Restauração de obras modernas e a Casa da Rua Santa Cruz de Gregori Warchavchik Marcos José Carrilho, texto especial 030 de Arquitextos.

notas

1
Franco, Luis Fernando. Instrução do Processo de tombamento das Casas da Rua Santa Cruz, Itápolis e Bahia, MEC/SPHAN, p.64.

sobre o autor

Marcos José Carrilho é arquiteto (Universidade Federal do Paraná, 1978), mestre em História da Arquitetura pela FAUUSP (1994), visiting scholar na Graduate School of Architecture, Planning and Preservation, Columbia University (Nova York, 1995), professor das disciplinas de Projeto I e Técnicas Retrospectivas da FAU-Mackenzie e arquiteto do IPHAN - 9ºSR - São Paulo.

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