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my city ISSN 1982-9922

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CAMPOS, Márcio Correia. Dois concursos, dois buracos, duas cidades. Minha Cidade, São Paulo, ano 02, n. 018.02, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/02.018/2070>.


Michaelerplatz, Viena


Praça da Sé, Salvador

Michaelerplatz, Viena

Praça da Sé, Salvador

 

2 concursos

Em fase de andamento, dois concursos públicos de arquitetura estão sendo parte do processo de decisão do futuro desenho de duas áreas públicas abertas em Salvador, a Praça Visconde de Cayru e o Largo Dois de Julho. Depois de uma série de intervenções em áreas semelhantes que foram realizadas nos últimos anos sem este instrumento, como por exemplo os novos desenhos da Praça Nossa Senhora da Luz na Pituba, da Praça da Inglaterra no Comércio, do Parque Costa Azul, do Dique do Tororó ou da Praça da Sé, o Instituto dos Arquitetos do Brasil associou-se aos órgãos financiadores das futuras obras para a realização destes dois concursos. Apesar disto, nenhum dos dois editais faz um apelo mais evidente à produção de projetos que sejam capazes de inserir a produção do espaço urbano em um campo que o aproxime por um lado da discussão contemporânea internacional e por outro da compreensão de seu papel instigador como objeto cultural de caráter artístico. Embora a realização de concursos seja efetivamente um elemento qualificador da produção arquitetônica, ao indicar no caso específico de Salvador uma renovação no modus operandi de uma política cultural, já que tal realização deve ser entendida como parte de sua estratégia, ela é ainda tímida para possibilitar o alcance de um outro patamar de discussão sobre as idéias arquitetônicas dentro destes mecanismos, o que deveria vir a ser uma próxima meta das instituições envolvidas.

É com este propósito que este texto busca realizar uma crítica do projeto realizado para a Praça da Sé, agora em fase de conclusão: através do método da comparação, arriscar uma compreensão mais detalhada de uma série de decisões de projeto e a partir daí tentar chegar a outros campos de discussão de idéias para os espaços abertos da cidade.

1 buraco, 1 cidade

O visitante interessado em arquitetura que chegue a Viena e vá procurar o famoso edifício sem ornamentos de Adolf Loos – a Loos Haus, de 1911 – irá perceber em primeiro lugar a importância do contexto urbano onde a obra está inserida – no Michaelerplatz, em frente ao Palácio Imperial, terminado alguns anos antes, a partir de desenhos da época barroca – para a compreensão do papel desta obra para a história da arquitetura. Neste contexto também se insere, desde 1992, o rasgo no círculo central da praça chamado de “campo arqueológico”, projeto de Hans Hollein para o sítio arqueológico descoberto durante o trabalho de renovação urbana da praça e que apresenta ruínas do período do Império Romano.

Lugar de conexão entre duas áreas de intensa atração de turistas – de um lado o centro medieval com a catedral de Santo Estevão e as ruas de comércio Graben e Kärntnerstrasse, região com quase toda a área de maior uso destinada exclusivamente a pedestres, e do outro lado o Palácio Imperial e os museus de História da Arte e História Natural, estes já no lado externo da Ringstrasse –, o Michaelerplatz tornou-se parada obrigatória para os turistas que em geral passaram a contemplar as descobertas arqueológicas e mais demoradamente os outros edifícios ao redor, como a Michaelerkirche e a própria Loos Haus.

O “buraco” – como a intervenção foi chamada pela população, em geral desgostosa da solução – obriga todos os passantes vindos da rua Kohlmarkt em direção ao Palácio Imperial a contornar os achados arqueológicos, ao situar-se como um fosso praticamente perpendicular a esta direção. Em contraponto aos dois muros de granito que delimitam o fosso em seus lados maiores, as laterais menores, correspondentes ao arco de círculo da praça, são delimitadas em gradis de aço inoxidável, tornando visível aos menos avisados os restos arqueológicos ali expostos. Assim, auxiliados por um painel eletrônico que em várias línguas conta a história daqueles restos de edificações, os turistas então descem alguns degraus em relação ao nível da praça e podem, apoiados no muro de pedra cinza, contemplar os achados arqueológicos.

Outro buraco, outra cidade

Quem visitar Salvador nos dias atuais e tiver por acaso interesse pela obra de Lina Bo Bardi, irá encontrar boa parte do importante patrimônio deixado por um dos maiores nomes da arquitetura do século XX no Brasil bastante desfigurado. (1) Quem tentar procurar então o bar e mirante projetado por Lina Bo Bardi para o Belvedere da Sé, não o encontrará mais, vítima das obras para a nova Praça da Sé. E exatamente nas imediações de onde antes se encontrava o bar e mirante de Lina é que existe hoje uma série de “buracos arqueológicos”, que em alguns aspectos formais se assemelham ao buraco projetado por Hollein para Viena.

De semelhante à intervenção na cidade centro-européia, os “buracos” na Praça da Sé de Salvador têm a textura e cor do concreto das partes maciças do muro, o desenho em aço dos gradis e a disposição de degraus que trazem o observador para um nível abaixo do nível da praça, fazendo com que alguém que conheça o “buraco” vienense tenha a sensação imediata de estar diante de, usando uma palavra com determinadas implicações, um simulacro do projeto de Hollein.

Há porém duas importantes diferenças: na sua lógica urbana os buracos soteropolitanos estão invertidos em relação ao vienense: também situado a meio caminho entre duas atrações turísticas principais – de um lado a praça municipal com o Elevador Lacerda e o Mercado Modelo já na cidade baixa, e do outro lado o Terreiro de Jesus e a área do Pelourinho propriamente dita –, o desenho das aberturas no piso da praça que revelam os restos das fundações da antiga Sé é interrompido para não impedir o fluxo dos passantes que vão de um lugar a outro, situando-se dos dois lados deste caminho de pedestres, sem querer incomodá-lo.

No seu desenho formal reside a outra grande distinção: enquanto Hollein abre uma fenda de geometria clara, onde o buraco passa a ser limitado em planta por duas retas paralelas e pelos arcos de circunferência estabelecidos pela forma da praça, com isso distinguindo-se claramente do traçado das ruínas por ele explicitadas – um desenho de contraste entre ordens geométricas que encontra seu paralelo naquele do Museu projetado por Moneo em Mérida, na Espanha – os buracos na Praça da Sé tem uma forma irregular que abraça as esquinas da fundação da igreja demolida em 1933, o que torna a sua leitura não tão clara, algo que é reforçado pela ausência de um contraste maior em cor e textura entre os muros e as pedras das ruínas, algo em contrapartida alcançado por Hollein, ao trabalhar diferenças entre os tijolos das ruínas e o granito polido dos muros a ela circundantes.

Mas a intervenção na Praça da Sé, de autoria de Assis Reis, não se limita aos buracos: uma edificação hoje já parcialmente demolida se aproximava demais da fachada lateral da Santa Casa da Misericórdia ocultando-a; no lugar do antigo Belvedere de Lina, que conservava no patamar inferior o desenho eclético anterior a ele, foi construída uma escada de acesso a este patamar inferior – cuja configuração eclética também não resistiu ao atual projeto – onde hoje a principal atração além da vista é a escultura de autoria de Mário Cravo. Todo o piso da Praça foi elevado, ao ponto de ter sido quase suprimido um dos degraus do Palácio Arquiepiscopal, criando a possibilidade de um passante ter acesso visual através de suas janelas do térreo, algo inimaginável frente à compreensão do edifício na história. Entre os diversos materiais utilizados em revestimentos e equipamentos, como por exemplo os blocos de granito polido dos bancos, destaca-se o piso cerâmico de cor branca que recompõe no piso da Praça a planta baixa da Igreja: sua capacidade de reflexão de luz é tão grande que todos os pedestres são ofuscados na maior parte do dia.

Para oferecer uma ordem geométrica à extensão maior da Praça, que surgiu e teve sua história até o abandono do centro da cidade compreendida a partir da função de terminal urbano – história esta quase completamente apagada no seu novo desenho, a não ser por um trilho de bonde ostensivamente coberto pelo novo piso em frente à Igreja da Misericórdia –, a estátua do Primeiro Bispo do Brasil foi deslocada do seu lugar original para criar um eixo longitudinal com uma nova estátua do Fundador da cidade, eixo este ladeado de bancos e pequenos canteiros arranjados como parterres.

Aqui se chega ao cerne do entendimento do espaço nesta intervenção: a estátua do Bispo estava originalmente situada no local onde antes se encontrava o altar da demolida Sé. Junto com a janela que falta na fachada lateral do Palácio Arquiepiscopal ela formou até o novo desenho da Praça da Sé o indicador espacial da antiga e não mais existente igreja. A conjugação destes dois elementos como índice de reconstrução espacial da igreja era o sentido da estátua, cuja posição foi respeitada em todas as intervenções anteriores na Praça. Agora, em frente ao Palácio, ela acaba por sugerir um reforço hierárquico da Igreja Católica no espaço público. Mas, mais importante, tal gesto abre mão de uma estratégia de indexação, abstrata e fomentadora da criatividade, por uma figurativa e dada, de efeito duvidoso, a da representação no piso da planta baixa da antiga igreja.

Desde já fica evidente a escolha de um tipo de representação da história em detrimento, por exemplo, de outro mais dinâmico. Mas os buracos, que estão associados em seu desenho a esta reprodução da planta baixa no novo piso da Praça, acabam por denunciar mais claramente a arbitrariedade da representação da história: as ruínas que eles revelam não são, em sentido estrito, nenhuma descoberta arqueológica, todos sabíamos que ali existiu a Igreja da Sé, ou por conhecer pela tradição oral a explicação da posição da estátua do Bispo, ou pelos livros de fotografias antigas, ou pelo trabalho de Fernando da Rocha Peres. Os buracos no fundo nada revelam, pois o que neles se torna visível já era conhecido de todos. Voltando por um instante à comparação com o buraco desenhado por Hollein no Michaelerplatz em Viena, a descoberta das ruínas romanas à porta do Palácio Imperial abre a possibilidade de no espaço urbano serem recontados os discursos de relações de filiação entre os Impérios na história, com a indefinição e abertura próprias dos processos de significação do espaço, reforçadas pelo pós-modernismo tão caro a Hollein.

Os buracos da Praça da Sé de Salvador por sua parte materializam simulacros de ruínas, de arqueologias e de espaços públicos, congelados em suas representações. Eles constituem o arremate final da escolha de uma representação da história para o centro da cidade, associando-se diretamente, em sua razão de ser de simulacro e de apelo à figuração estática, à arbitrariedade do colorido excessivo das fachadas do centro histórico após os trabalhos de intervenção que voltaram a maior parte da sua área construída para a indústria do turismo e entretenimento.

notas1
O Belvedere da Praça da Sé não existe mais; A Casa do Olodum sofreu reformas que alteraram em muito o seu aspecto original; O restaurante da Casa do Benin incendiou-se.

[este texto foi publicado originalmente na revista virtual www.revistaturba.cjb.net, em dezembro de 2001]

sobre o autor

Márcio Correia Campos é arquiteto (Dipl.-Ing. Arch. TU-Wien, Áustria) e professor da UFBA, Salvador BA.

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