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minha cidade ISSN 1982-9922

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DE SOUZA MARTINS, José. Cristo, de Volpi, espera os operários. Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 086.03, Vitruvius, set. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.086/1916>.


Alfredo Volpi, Cristo Operário, 1951, têmpera, 187 x 310 cm


Alfredo Volpi, A Sagrada Família, 1951, têmpera, 244 x 450 cm

Alfredo Volpi, Santo Antonio pregando aos peixes, 1951, têmpera, 244 x 450 cm

Alfredo Volpi, Santo Antonio pregando aos peixes, 1951, têmpera, 244 x 450 cm

Yolanda Mohalyi, Anunciação, 1951, têmpera

Yolanda Mohalyi, Árvore da vida, 1951, têmpera

Yolanda Mohalyi, Pomba da paz, 1951, têmpera, 188 x 132 cm

 

O povo da Vila Brasílio Machado, no Alto do Ipiranga, queria apenas uma igreja dedicada a Santo Antônio. Mas quando chegou o frei João Batista Pereira dos Santos (1913-1985), dominicano, em 1950, deixou o povo contrariado, dando-lhe uma capela de Cristo Operário. O salão de uma antiga mercearia ganhou presbitério e torre e foi transformado em capela modesta e não em suntuosa e rica igreja, que era aspiração dos trabalhadores e dos pobres.

O frade tinha idéias próprias a respeito do que era o operariado e, sobretudo, do que a Igreja queria que o proletariado fosse. Tinha sido padre-operário na França. Ligara-se ao movimento Economia e Humanismo, do padre Lebret, na linha da Ação Católica por uma terceira via entre o comunismo e o capitalismo, a Revolução tranqüila. Tinha a simpatia e o apoio de empresários e por meio de um deles, Cicillo Matarazzo, convidara artistas para que fizessem da velha venda uma capela.

Alfredo Volpi (1896-1988) - nascido na Itália, imigrado para São Paulo com 1 ano de idade, pintor de paredes que se ligara aos artistas plásticos do Grupo Santa Helena, os artistas-operários - além de fazer os desenhos para os vitrais com os quatro evangelistas, pintou os murais das três paredes do presbitério. À esquerda, São José carpinteiro trabalha ajudado por Jesus menor de idade, como faziam tantas crianças da época. Nossa Senhora dona de casa contempla ternamente, de uma janela, sua família de artesãos. Na parede oposta, Santo Antônio faz uma concessão aos moradores do bairro, pregando aos peixes. Na parede do fundo, Cristo abre os braços, acolhedor. Atrás dele, um pavilhão industrial de grande indústria, com chaminé, aponta a distância histórica com aquela Sagrada Família artesã, ali ao lado, e com o projeto social e religioso pré-capitalista do frei João.

Um dos pontos de referência do progressismo católico de então era a luta contra a alienação do trabalhador no processo fabril, uma certa revolução na vida cotidiana. Essa ideologia combinava idéias do personalismo de Emmanuel Mounier, o leigo católico que dirigia a revista Esprit, e idéias do marxismo crítico, que ganhava corpo na obra de autores como Henri Lefebvre.

Na ação do frei João, ganhará substância a criação da Unilabor, em 1954, uma cooperativa de trabalhadores, nos anexos da capela, que se dedicará à produção de móveis modernos, com design do fotógrafo e artista plástico Geraldo de Barros (1923-1998). Buscava ele a forma pura e sem ambigüidades, o que, filosoficamente, convergia para a intenção católica do personalismo e também para a crítica marxiana à dominação do sujeito pelo objeto. O arquiteto Mauro Claro virou e revirou essa história (1).

O núcleo duro da Unilabor foi um grupo de 23 trabalhadores de marcenaria e serralheria, seis deles de uma mesma família e ao menos um deles originário da Ação Católica. A experiência durou longos 13 anos porque envolvia profissões artesanais e pré-modernas. A indústria movelheira ainda estava na fase da manufatura, longe do padrão alienante da chamada grande indústria. A experiência era, pois, um tanto postiça porque propunha a desalienação do operário em profissões em que a alienação resultava primariamente da comercialização dos produtos do trabalho e não da sua produção.

Havia, porém, outra dimensão da alienação que a Igreja não enfrentava: o sacerdote como autoridade da força incontornável da religião. Não só o frade impusera à comunidade a devoção política contra a popular, como também o cardeal, ao visitar a capela, determinara a remoção de duas esculturas de Bruno Giorgi, uma Nossa Senhora, porque sensual, e um São João Batista, porque deformado. Finalmente, o próprio frade e os próprios trabalhadores, com disputas relativas ao reinvestimento dos lucros, descapitalizaram o empreendimento e o levaram ao fim, em 1967. A experiência não suprimiu a alienação dos trabalhadores. Mas o Cristo de Volpi ainda espera os operários de braços abertos.

notas

1
Ver CLARO, Mauro. "Recuperação e restauro da Capela Cristo Operário: uma obrigação". Minha Cidade, n. 025. São Paulo, Portal Vitruvius, jul. 2001 <www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc025/mc025.asp>.

[artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno Metrópole 2, sábado, 10 mar. 2007, p. C12}

sobre o autor

José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.

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