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my city ISSN 1982-9922

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FERNANDO DE SOUZA LEÃO ANDRADE, Carlos. Palácio Capanema: uma das 7 maravilhas do Rio? Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 086.02, Vitruvius, set. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.086/1917>.


Ministério da Educação e Saúde em construção, Rio de Janeiro. Géza Heller, 1938


Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro RJ. Arquitetos Lúcio Costa, Jorge Machado Moreira, Ernani Vasconcellos, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão e Oscar Niemeyer, 1939/45
Foto Nelson Kon

Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro RJ. Gabinete do Ministro
Foto Nelson Kon

Edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, segundo projeto de Le Corbusier, agora para o terreno do centro, Rio de Janeiro RJ
Le Corbusier, 1936

Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro RJ. Plano de vidro na fachada sul
Foto Nelson Kon

Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro RJ. Jardim do Ministro. Paisagismo de Burle Marx
Foto Nelson Kon

 

Num domingo, passando os olhos no ranking de O Globo sobre as maravilhas do Rio, tive a mesma sensação de desagrado que deve acometer certos torcedores ao conferirem a classificação do Brasileirão: meu favorito era o lanterna do campeonato – o Palácio Gustavo Capanema.

Aturdido, pensei: a população não associa o nome ao prédio. A designação é recente e, numa cidade que só conhece a sede do executivo municipal como Piranhão , usar o nome oficial pode ser fatal. Ou seja, o tal Palácio, expressão também esquisita, pois que reservamos palácios aos príncipes e, mais recentemente, aos presidentes, como residências oficiais, refere-se ao prédio do MEC - ministério que não mais existe, embora tenha vingado a sigla.

Mas, se a foto do edifício foi fartamente divulgada, o problema não há de ter sido só esse. Parece, isto sim, que há uma certa dificuldade da nossa parte, enquanto arquitetos, de conseguirmos transmitir o real significado, tanto de nossos saberes como dos fazeres. Naquele mesmo domingo, podia-se perceber, por exemplo, um certo estranhamento no ar por conta de ter, o Presidente Lula escolhido, um arquiteto, quando dizia procurar um gestor para Furnas. As duas coisas eram, para muitos, incompatíveis, mesmo no caso de alguém que já houvesse gerido por quatro anos a segunda maior aglomeração humana do país.

Na realidade, o dia-a-dia de um arquiteto inclui coordenar dez projetos complementares, além daquele de arquitetura, que fazem com que não seja por acaso que uma torneira não se posicione sobre o local reservado ao fogão, por exemplo. Uma obra exige milhares de itens que precisam estar dispostos a tempo e a hora, mas a população ainda vê a arquitetura como um mero momento de criação. Um rabisco inspirado.

Tudo bem, o prédio do MEC também começou com um rabisco, por sinal, ilustre. Le Corbusier, em uma de suas passagens pelo Rio, deixa um croqui que era um resumo do pensamento modernista, que revolucionava a arquitetura naqueles anos de 1930.

O novo Ministério de Educação e Saúde deu oportunidade para que acontecesse um concurso de projetos, para o qual venceu uma proposta que seguia os preceitos acadêmicos, o que levou o Ministro, que hoje dá nome ao prédio, a uma decisão complicada, politicamente, mas culturalmente abençoada: desconhecendo o resultado, achou por bem que a cidade e seu ministério tivessem um prédio modernista, encomendando-o à equipe de Lucio Costa, composta por jovens como Niemeyer, Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Hernani Vasconcellos, entre outros que, mais tarde, construiriam um período da arquitetura brasileira tão reconhecido aqui, como lá fora.

Baseando-se no croqui-manifesto do mestre franco-suíço, enquanto a Europa se destruía entre os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, os meninos do Brasil começavam a construir o prédio e, pela primeira vez, no Mundo, experimentavam seus ensinamentos em escala monumental. E o resultado foi um monumento com a cara do Brasil!

É uma maravilha de paisagem: o prédio solto no centro do quarteirão, abrindo novos espaços públicos numa área onde todos os prédios se localizam no alinhamento frontal dos lotes. E os pilotis, bem mais altos que os do risco inspirador, com o carioca cruzando o quarteirão diagonalmente.

Também é "uma maravilha" os jardins de Burle Marx, em plena aridez do centro do Rio, e o povo descansando em suas muretinhas. Assim como os azulejos de Portinari, que acrescentam arte à vista do pedestre. E a deliciosa confusão entre espaços públicos e privados, quando estes limites são sempre tão precisos e, ultimamente, gradeados.

A estatuária acrescentada ao passeio, que já inspirou gente como Carlos Drummond de Andrade ao descrever a poesia de um pássaro bebendo a água empoçada no colo de uma das figuras de pedra é, igualmente, uma maravilha.

Enfim, é uma maravilha a própria existência do prédio, com suas fachadas, uma em vidro e a outra de brises soleil. Sem ele, a arquitetura brasileira não teria chegado aonde chegou, nem a arquitetura mundial teria se alterado tão profundamente. A reconstrução da Europa pós-guerra, o prédio da ONU, o International Style, dos anos 1950, têm, de alguma forma, a contribuição de nosso conterrâneo.

Listei sete maravilhas do prédio do MEC, ou Palácio Gustavo Capanema. E espero que, mesmo que não tenham nele votado, os cariocas comecemos a olhá-lo com mais atenção, gratos e felizes por tê-lo generoso e belo, nesta cidade, igualmente generosa e bela.

sobre o autor

Carlos Fernando Andrade é arquiteto, doutorando em Urbanismo no PROURB- FAU- UFRJ. Ex Presidente do IAB-RJ, atualmente Superintendente do IPHAN no Rio. Participou do juri que indicou os 50 monumentos que concorrem às Sete Maravilhas do Rio.

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