Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

my city ISSN 1982-9922

abstracts

how to quote

CAMPOS, Márcio Correia. Depois da demolição do Clube Português em Salvador. Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 090.03, Vitruvius, jan. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.090/1905>.


Clube Português da Bahia, antes da demolição. Foto: Márcio C. Campos


Demolição do Clube Português da Bahia

Demolição do Clube Português da Bahia

Clube Português da Bahia. Foto: Isadora Santos

Clube Português da Bahia. Foto: Isadora Santos

Clube Português da Bahia. Foto: Isadora Santos

 

No último dia do ano de 2007, a edição on-line do jornal A Tarde trazia em destaque e ilustrada com fotos a demolição do Clube Português na Pituba por parte da Prefeitura de Salvador. Para quem está ausente do cotidiano da cidade, mas imagino não somente para estes, é inevitável associar esta notícia ao recente debate sobre a demolição da Fonte Nova. Até porque esta associação pode ser estendida a uma série de "posturas" recorrentes na cidade frente à arquitetura moderna.

Ver fotos do clube sendo demolido depois de anos de descaso confere além disto ares de irrealidade romântica aos vários trabalhos de graduação desenvolvidos nos cursos de arquitetura da cidade nos últimos anos, onde a preservação do Clube era parte do tema a ser desenvolvido pelos estudantes. E indica como, a exemplo da Fonte Nova, este tema arquitetônico do debate acadêmico alcança pouco eco para fora dos espaços universitários. E isso inclui a própria comunidade de arquitetos, uma vez que o IAB, que vem sendo o órgão que publicamente vem se posicionando contra a demolição do estádio Otávio Mangabeira, há algum tempo vem se caracterizando por uma expressiva participação de membros dos corpos docentes das instituições de ensino, ou seja, não deixa de expressar uma opinião acadêmica sobre o assunto.

As "posturas" que fazem parte da série a que me refiro acima apresentam algumas variações em suas histórias singulares: a primeira delas descreve um edifício publicamente conhecido ou de importância reconhecida pela comunidade acadêmica sendo ameaçado de demolição ou de forte descaracterização; em reação, e apenas aí, a um tal anúncio, a comunidade acadêmica se reúne, consegue ou não realizar alguma movimentação – que inclui presença na mídia de alcance popular, abaixo-assinados, petições, etc – e talvez se tenha algum sucesso. Assim parece decorrer o processo da Fonte Nova – ainda que, como já documentado, várias pessoas, a exemplo do Prof. Heliodório Sampaio, tenham alertado em um momento anterior para a situação do edifício – e assim o foi quando da ameaça de demolição da sede da Prefeitura há pouco tempo, ocasião quando eu pessoalmente estive à frente dos abaixo-assinados, comunicados à imprensa, etc.

Uma outra variação desta história inclui a notícia de uma provável demolição ou reforma de um edifício de importância, mas que não consegue eco suficiente para gerar uma ação coletiva no ambiente acadêmico, tornando-se apenas temas de conversas e indignações de poucos dos seus membros. A lista de exemplos aqui é muito maior, e estar em desconforto com algumas de suas soluções finais pode realmente parecer um luxo frente à possibilidade de ver a Fonte Nova sendo demolida: contra as transformações por que passaram o foyer e rampa do TCA após a reforma dos anos 90 – novas esquadrias, novo forro e novas luminárias, painel de madeira, e acima de tudo a "contra-rampa" no meio da rampa – quase não se pode tomar partido pois "qualquer" estado é melhor do que o teatro abandonado e fechado dos anos anteriores; a reforma de fachada do Banco do Brasil no Comércio, descaracterizando-o por completo; o desmonte dos brises metálicos do Edifício Caramuru, também no Comércio, provavelmente o desenho de fachada mais importante da cidade no século XX; a mudança do Cine Roma para Memorial Irmã Dulce, com seu ornamento pseudobarroco; e, para não me estender tanto, a reforma do Elevador Lacerda, que apenas foi tombado depois da reforma que conferiu ao equipamento público um ar de shopping center de periferia ter sido concluída, ou seja, sem que houvesse nenhuma proteção específica à sua arquitetura.

A terceira variação destes destinos é a do Clube Português, abandono e demolição, com alguma resistência ou simplesmente sem nenhuma. Até aqui fiz um esforço para citar apenas edifícios que corresponderiam por sua qualidade arquitetônica àquilo que seria uma lista de objetos protegidos a nível municipal, ou seja, longe de uma pretensão maior ou de uma arquitetura mais cotidiana, da qual ainda haveria um sem número de exemplos (entre eles aqueles de propriedade da Universidade Federal....).

A atuação básica por parte dos interessados em proteger algo do patrimônio arquitetônico do século XX na cidade deveria ser o da luta pela inclusão do maior número de edifícios na lista de bens tombados, para criar efetivamente uma possibilidade concreta – pelo menos legal – de negociação da defesa de qualidade arquitetônica de edifícios ameaçados de demolição ou descaracterização. Aqui a maior falta que faz é a de qualquer sinal desta direção vinda dos órgãos oficiais de preservação. Não há programas, estratégias, nem pronunciamentos públicos.

Daqui se poderia abrir para uma discussão maior que acabaria por indicar que a falta de sensibilidade coletiva para a arquitetura moderna é apenas um detalhe da falta de valorização cultural da arquitetura em si na cidade, mas este não é o espaço. No que se refere às edificações do século XX em Salvador, elas parecem ter uma chance de sobrevida apenas se estiverem em posse coletiva, como os edifícios de apartamentos, caso estes não sucumbam a alguma moda de novos materiais de fachadas, e isso provavelmente por uma questão jurídico-fundiária. Uma vez nas mãos de um único proprietário, seja ele público ou privado, não há traços de reconhecimento de sua qualidade arquitetônica no momento em que um edifício precisa ser reformado.

Voltando à Fonte Nova, a única força social capaz de impedir a demolição do estádio parece ser mesmo a torcida organizada do Bahia, e não o IAB ou as Universidades. Não se deve esquecer que para a realização dos Jogos Pan-Americanos do Rio em 2007 cogitou-se em demolir a edificação em solo brasileiro mais conhecida no mundo, o Maracanã. E não foram os argumentos arquitetônicos que o salvaram. Caso a torcida do Bahia resolva defender o estádio, ele sobreviverá a sua tragédia. Ou alguém solicita o seu tombamento e abre outro patamar de discussão. Ou esperaremos o próximo edifício ser ameaçado – mesmo que já não sobram tantos – para começar a organizar mais uma vez os nossos abaixo-assinados.

sobre o autor

Márcio Correia Campos é arquiteto formado pela UFBA, Mestre em Arquitetura pela Universidade Técnica de Viena, Áustria, atualmente cursando o Doutorado na Universidade Técnica de Munique, Alemanha

comments

newspaper


© 2000–2017 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided