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my city ISSN 1982-9922

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FERRAZ, Marcelo. Numa velha fábrica de tambores. SESC-Pompéia comemora 25 anos. Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 093.01, Vitruvius, abr. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.093/1897>.


Vista aérea geral da Fábrica da Pompéia antes da Reforma
Foto Peter Sheier [OLIVEIRA, Liana Paula Perez de. A capacidade de dizer não: Lina Bo Bardi e a Fábrica da Po]


Concretagem do contrapiso do “leito do rio”, dezembro 1979 [Idem]

Calha de concreto e alvenaria revestida com seixos rolados [Idem]

Inicio das obras na rua interna [Idem]

Fábrica de tambores da Pompéia
Foto Peter Sheier [Idem]

Fábrica de tambores da Pompéia
Foto Peter Sheier [Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi]

A Fábrica da IBESA – Indústria Nacional de Embalagens S. A., que fabrica carcaças de geladeiras a querosene Gelomatic
Foto Peter Sheier [Arquivo Instituto Lina Bo e P. M. Bardi]

Retirada do reboco das paredes originais do galpão de atividades gerais, abril 1980 [Idem]

Detalhe das treliças do galpão de atividades gerais [Idem]

Maquete
Foto Hans Günter Flieg [Idem]

Retirada do reboco das paredes originais do galpão de atividades gerais, abril 1980 [Idem]

 

Há exatos 25 anos, uma bomba explodia no ambiente arquitetônico brasileiro, mais especificamente em São Paulo. Essa bomba era o Centro de Lazer Fábrica da Pompéia, hoje conhecido simplesmente como SESC-Pompéia. Por que bomba? Porque ... era ininquadrável nas gavetas da arquitetura corrente. Era estranho. Era feio? Fora de escala? Bruto, mas também delicado? Seguramente, era algo que não fazia parte do universo possível, alcançável às mãos dos arquitetos atuantes. Foi de fato uma bomba, um choque.

Lina Bo Bardi, depois de amargar um ostracismo de quase dez anos, vitima do regime militar e também vitima das “vistas grossas” da arquitetura oficial, surpreende a todos com um presente para São Paulo: o Centro de Lazer SESC Pompéia.

Paris acabara de inaugurar o Centro Georges Pompidou – Beaubourg, modelo extravagante de arquitetura que causava frisson nos estudantes e jovens arquitetos, e que logo se tornaria referência. Simbolizava uma via de escape ao modelo modernista já um tanto deteriorado. Por conseqüência, era inevitável sua comparação ao novo centro de lazer que nascia no bairro da Pompéia: linguagem industrial, mudanças bruscas de escala, cores, muitas cores e, principalmente, “estranheza” com a vizinhança. Mas, apesar de tudo isso, as duas propostas eram muito distantes e dessemelhantes em suas origens, seu ideário e seus resultados.

Convidada por Renato Requixa e Gláucia Amaral, diretores do SESC à época, Lina mergulhou numa viagem que seria a mais fecunda e prolífica de sua vida, já na idade madura. E nós, André Vainer e eu, como estudantes e recém formados, participamos dessa privilegiada aventura. Durante nove anos (1977 a 1986), desenvolvemos com Lina o projeto do SESC-Pompéia, numa atividade diária em meio ao canteiro de obras: acompanhamento dos trabalhos, experimentações in loco e grande envolvimento de técnicos, artistas e, sobretudo, operários. Esta postura foi, também, uma verdadeira revolução no “modus operandi” da prática arquitetônica vigente. Tínhamos um escritório dentro da obra; o projeto e o programa eram formulados como em um amálgama, juntos e indissociáveis; ou seja, a barreira que separava o virtual do real não existia. Era arquitetura de obra feita, experimentada em todos os detalhes.

Em 1982 foi inaugurada a primeira etapa do SESC Pompéia, a readequação da antiga fábrica de tambores dos Irmãos Mauser (e, posteriormente, sede da Ibesa-Gelomatic). Lina, com olhar arguto e culto, descobre que a velha fábrica possui uma estrutura moldada por um dos pioneiros do concreto armado no início do século XX, o francês François Hennebique. Talvez a única conhecida no Brasil até esse momento,

Essa descoberta/revelação dá ao conjunto um valor especial. Tem início, então, um processo de desnudamento dos edifícios a la Matta Clarck, com a retirada dos rebocos e a aplicação de jatos de areia nas paredes, em busca de sua essência de sua tectônica.

Mas esse era apenas um aspecto do trabalho, e não o mais importante, seguramente.

Quando chegamos ao conjunto para iniciar os trabalhos e instalar nosso escritório, o SESC já promovia atividades culturais e esportivas naquele espaço. (Essa é, aliás, uma pratica corrente da organização. Foi assim também no Belenzinho, no SESC Pinheiros e agora no SESC Paulista. Começaram a utilizar o espaço de forma improvisada, antes mesmo da reforma ou da construção definitiva do centro). Na Pompéia, encontramos várias equipes de futebol de salão, teatro armador feito com recursos mínimos, o baile da terceira idade, o churrasco aos sábados, o centro de escoteiros mirins e muita criança circulando por todo lado, como revoada de passarinhos. Lina, muito rapidamente, captou o lugar: “O que queremos é exatamente manter e amplificar aquilo que encontramos aqui, nada mais”.

O programa

Começa então uma guerra surda sobre o programa a ser implantado.

Ao invés, de centro cultural e desportivo, começamos a utilizar o nome Centro de Lazer. O cultural, dizia Lina, “pesa muito e pode levar as pessoas a pensarem que devem fazer cultura por decreto. E isso, de cara, pode causar uma inibição ou embotamento traumático”. Dizia que a palavra cultura deveria ser posta em quarentena, descansar um pouco, para recuperar seu sentido original e profundo. E o termo desportivo implicava no esporte como competição, disputa. Um rumo, segundo ela, nocivo na sociedade contemporânea, que já é competitiva em demasia. Então, simplesmente lazer. O novo centro deveria fomentar a convivência entre as pessoas, como fórmula infalível de produção cultural (sem a necessidade do uso do termo). Deveria incentivar o esporte recreativo, com uma piscina em forma de praia para as crianças pequenas ou para os que não sabem nadar; quadras esportivas com alturas mínimas abaixo das exigidas pelas federações de esporte e, portanto, inadequadas à competição. A idéia era reforçar e fomentar a recreação, o esporte “leve”. Assim, programa e projeto se fundiriam, indissociáveis, amalgamados.

Escala fabril

O bloco esportivo inaugurado em 1986, todo em concreto aparente, foi, na verdade, o choque maior. Duas torres de concreto, uma com “buracos de caverna” ao invés de janelas, outra com janelas quadradas salpicadas “aleatoriamente” pelas fachadas, ao lado de uma terceira torre cilíndrica de 70 metros de altura, também em concreto aparente e marcada por um “rendado” em seu aspecto exterior – uma “homenagem ao grande arquiteto mexicano Luis Barragán”, dizia Lina. Ligando as duas torres, entre os vestiários e as quadras, 8 passarelas de concreto protendido venciam vãos de até 25 metros e criavam uma atmosfera feérica, expressionista, evocando Metrópolis, o filme de Fritz Lang. É importante lembrar que, sob tais passarelas passa um córrego canalizado – o Córrego das Águas Pretas – que cria uma área non aedificandi. As passarelas, portanto, não surgem de uma decisão formal e nem arbitrária de projeto. Elas respondem à realidade do lugar, entendido no sentido amplo do terreno.

Antecedentes

No SESC Pompéia, Lina retoma, com revisão critica de quase vinte anos de distanciamento, sua experiência vivida na Bahia (1958 a 1964), no projeto de reabilitação do Solar do Unhão, projetado para funcionar como Museu de Arte Popular, mas duramente afetado pelo golpe militar de 1964. Muitos dos conceitos – a relação entre programa e projeto – utilizados no SESC Pompéia haviam sido experimentados nessa fase baiana. O componente popular, ou seja, a formulação de uma programação abrangente e inclusiva, somada às soluções espaciais de acessibilidade (trazer a rua, a vida pública para o interior do Centro) que contemplasse e criasse interesse às diversas faixas etárias e às diversas classes sociais, sem discriminação, ... seria a chave para o sucesso do projeto. Uma função da arquitetura. E das mais nobres.

A rua aberta e convidativa, os espaços de exposições, o restaurante público com mesas coletivas, o automóvel banido com rigor, as atividades a céu aberto culminando com a “praia do paulistano” em que se transformou o deck de madeira no verão, tudo fez do SESC Pompéia uma cidadela de liberdade, um sonho possível de vida cidadã.

O Centro é como um verdadeiro oásis em maio à barbárie de desconforto urbano de nossa sofrida São Paulo. Quem não guarda uma boa lembrança do SESC Pompéia nestes 25 anos de densa existência na vida da Metrópole? Os shows de música, circo, festas juninas, festivais multiétnicos, exposições remarcáveis, ou o simples nada fazer dos encontros ao lado da água ou do fogo, nos sofás públicos... Parece que tudo de bom passou e continua passando por ali. É claro que a programação e a promoção sócio-cultural do SESC, em suas mais de 30 unidades no Estado de São Paulo, são os motores fundamentais. Mas, eu arriscaria dizer, compartilhando a opinião de um sem número de pessoas, que, na Pompéia, o sabor é especial. E por quê?

Arqueologia Industrial

A reabilitação de uma antiga fábrica, local de trabalho duro, sofrimento de muitos, testemunho do trabalho humano, e sua transformação em centro de lazer, sem o apagamento dessa historia pregressa, fazem do SESC Pompéia um espaço especial. O cuidado da recuperação em deixar todos os vestígios da antiga fábrica evidentes aos olhos dos freqüentadores – seja nas paredes, nos pisos, telhados e estruturas, seja na linguagem das novas instalações –, fez com que o espaço iniciasse sua nova vida de Centro de Lazer já pleno de calor e animação. Com alma e personalidade. A própria linguagem arquitetônica das novas edificações reforçava o lado fabril e industrial do conjunto. Ela está no despojamento da aplicação dos materiais e, principalmente, em sua escala. Sim, os edifícios novos rompem a delicadeza e a escala “bem composta” dos galpões de tijolinhos e telhas de barro, e se apresenta como grandes containers ou silos industriais; as passarelas se assemelham a pontes ou esteiras rolantes para transportar grãos ou minérios. E nada disso buscava o mimetismo, um estilo ou arremedo decorativo. Tudo está lá para atender plenamente às suas funções de centro de lazer. Ninguém nota, ninguém racionaliza – e nem é necessário, mas todos sentem através dos cinco sentidos, a presença da fábrica nas soluções de arquitetura, que ali vai até os mínimos detalhes. Todos sentem, impregnado em cada decisão de projeto, o respeito à história do trabalho humano.

Uma velha fábrica em desuso, que não serve mais às funções para as quais foi concebida, renasce com toques contundentes e até violentos, como as torres de concreto, ou delicados, como as canaletas de águas pluviais da rua central ou as treliças de madeira das janelas. Lina soube dosar a mão – ora pesada ora leve, de acordo com a demanda e o discurso arquitetônico a ser comunicado a todos os que passaram e passam por ali. Afinal, arquitetura é forma eficaz e necessária de comunicação. A falta de comunicação, no sentido amplo do termo, é uma das maiores causas das desgraças de nossas cidades nos dias de hoje. Mas essa é uma outra história. Voltemos ao nosso centro de lazer. Quem pode ter passado impunemente pelo SESC Pompéia, sem o registro de uma emoção, surpresa ou descoberta – para usar três das sensações que, a meu ver, definem a boa e verdadeira arquitetura?

A experiência do SESC Pompéia contém uma chave para aqueles que quiserem refletir sobre o papel da arquitetura na vida dos homens. Uma chave contemporânea, ativada e ao nosso alcance. É uma experiência arquitetônica que alia criatividade a um grande rigor, liberdade com responsabilidade, riqueza com concisão e economia de meios, poética com ética.

Perguntada por estudantes que visitavam o SESC Pompéia nos anos 1980 sobre o papel de arquitetura, Lina responde, referindo-se especificamente àquele projeto: “Arquitetura, para mim, é ver um velhinho, ou uma criança com um prato cheio de comida atravessando elegantemente o espaço do nosso restaurante à procura de um lugar para se sentar, numa mesa coletiva”. E, para arrematar, com a voz embargada de quem desabafa uma vida de trabalho e de sonho por um mundo melhor, disse:

“Fizemos aqui, uma experiência socialista.”

sobre o autor

Marcelo Ferraz é arquiteto formado pela FAU-USP em 1978, é sócio do escritório Brasil Arquitetura, onde tem realizado vários projetos com premiações no Brasil e exterior. É também sócio fundador da Marcenaria Baraúna, onde desenvolve projetos de mobiliário, desde 1986

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