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my city ISSN 1982-9922

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Neste artigo Juliano Motta Silva chama a atenção para o descaso com relação às paisagens da cidade de Vila Velha, no Espírito Santo, discutindo suas origens e consequências na atualidade

how to quote

SILVA, Juliano Motta. Vila Velha deu as costas para o Convento da Penha. Minha Cidade, São Paulo, ano 11, n. 122.04, Vitruvius, set. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/11.122/3578>.


Visão panorâmica do Convento para a cidade de Vila Velha, com destaque para o “mar de prédios”
Foto Juliano Motta Silva


O Convento da Penha teve sua construção iniciada em 1558 por Frei Pedro Palácios
Foto Juliano Motta Silva

Orla da Praia da Costa, com destaque para os altos edifícios a beira-mar
Foto Juliano Motta Silva

Convento da Penha visto a partir da avenida Nossa Senhora da Penha (Reta da Penha) em Vitória
Foto Juliano Motta Silva

Vista da Reta da Penha a partir do Convento, com destaque para o edifício escalonado (Global Tower) à esquerda
Foto Juliano Motta Silva

Convento da Penha visto a partir da avenida Carlos Lindenberg, na entrada do bairro Santa Inês
Foto Juliano Motta Silva

Convento da Penha com ampla visibilidade a partir da avenida Carlos Lindenberg, na altura do bairro da Glória
Foto Juliano Motta Silva

Avenida Carlos Lindenberg nas proximidades do Centro de Vila Velha, tendo novamente o Convento da Penha com visibilidade obstruída
Foto Juliano Motta Silva

Forma de ocupação e verticalização considerada “ideal” para manter a visibilidade do Convento da Penha a partir da avenida Carlos Lindenberg. Simulação gráfica desenvolvida na finalização do subprojeto de pesquisa “Manutenção da paisagem urbana na região
Juliano Motta Silva

 

A paisagem urbana, enquanto tema de planejamento urbano, ainda é um tema pouco considerado na construção das nossas cidades. Os geógrafos Aziz Ab’Sáber e Milton Santos dizem que a paisagem deve ser compreendida a partir das superposições naturais e antrópicas realizadas ao longo do tempo, o que não impede de ser tratada como uma herança. O geógrafo canadense Douglas Porteous, especialista em estética ambiental, afirma que são evidentes os sinais de queda no valor estético das paisagens urbanas em cidades de todos os continentes, sendo relevante o debate público acerca do tema, a despeito de tratar-se de questão notadamente subjetiva.

No Espírito Santo, apesar das poucas discussões acerca deste tema – tanto pelo poder público quanto pelas disciplinas de arquitetura e urbanismo – é desenvolvida, na Universidade Federal do Espírito Santo, uma pesquisa que visa estruturar Método de análise e construção da paisagem urbana, coordenada pela professora Dra. Eneida Maria Souza Mendonça. Nos últimos doze meses participei deste projeto, enquanto bolsista de iniciação científica, com um subprojeto intitulado Manutenção da paisagem urbana na região metropolitana de Vitória segundo os fluxos cotidianos.

Durante a realização deste estudo, foram percorridos os principais eixos viários da região metropolitana – nas cidades de Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra – com o intuito de se identificar os referenciais da paisagem urbana que pudessem ser visualizados pela população, no cotidiano. Foram percorridos aproximadamente 95 quilômetros de vias, identificados mais de 150 pontos de visualização e realizadas cerca de 700 fotografias.

Em Vila Velha – a cidade mais antiga e populosa do Espírito Santo, fundada em 1535 e com aproximadamente 420 mil habitantes – o descaso com relação às suas paisagens é evidente, na contemporaneidade. Entretanto, este processo não é recente, tendo se iniciado desde a formação da região metropolitana de Vitória, quando a cidade passa de uma pequena vila – esquecida desde que a sede da capitania foi transferida para a ilha de Vitória em 1551 – para se tornar uma área de expansão urbana da capital.

Pode-se dizer que a inauguração da rodovia Carlos Lindenberg, em 1951, foi um dos principais fatores para o processo de conurbação entre as duas cidades – foi a primeira estrada asfaltada do Espírito Santo, atualmente transformada em avenida. A via de dez quilômetros promove a ligação entre o bairro São Torquato, nas proximidades da ponte Florentino Avidos – primeira conexão da ilha de Vitória com o continente – com o centro de Vila Velha.  Entre as décadas de 1970 e 1980 o processo de expansão urbana intensificou-se, com a criação de diversos loteamentos, conjuntos habitacionais, ou bairros resultados de invasões. Este processo teve início no final da década de 1960, devido a um grande êxodo-rural e a construção de grandes indústrias na região de Vitória, como a Companhia Siderúrgica de Tubarão e a Companhia Vale do Rio Doce.

No início da década de 1990 foi inaugurada a Terceira Ponte, entre a região da Praia do Canto – nessa época se consolida como o novo centro financeiro de Vitória – com a Praia da Costa e Centro de Vila Velha, possibilitando a ligação com a capital a partir do litoral. A ponte, considerada uma das maiores obras de engenharia realizadas no Espírito Santo, passa por dois morros que se configuram como um dos principais referenciais de paisagem da cidade: o morro do Moreno, na entrada da baía de Vitória, que separa as duas cidades; e o morro do Convento de Nossa Senhora da Penha. Após a inauguração desta ponte, a cidade inicia um novo processo de expansão urbana, com a valorização da praia pelo mercado imobiliário e, por consequência, a verticalização dos bairros litorâneos.

Neste contexto de crescimento urbano, com a expansão periférica de novos bairros e a verticalização da orla, Vila Velha cresceu rapidamente nos últimos quarenta anos. Esse crescimento, sem um planejamento urbano adequado, afetou significativamente o acesso, a manutenção e a visibilidade dos referenciais da paisagem urbana da cidade. Dentre os principais referenciais de paisagem destacam-se a praia, os rios e canais que cortam a cidade, os morros florestados localizados à beira da baía de Vitória e o Convento de Nossa Senhora da Penha.

O Convento da Penha pode ser considerado o principal marco na paisagem de Vila Velha, tendo sua construção iniciada em 1558 por Frei Pedro Palácios. O santuário franciscano é o principal monumento histórico, religioso, cultural e arquitetônico do Espírito Santo – independente da religião, os capixabas possuem uma relação de identidade, afetividade ou memória com o Convento – além de ser o ponto turístico mais visitado do Estado. Está localizado a 154 metros de altitude, em um morro florestado pela mata atlântica preservada, a beira da baía de Vitória, em uma construção branca, singela, quase fortificada: magnífica. Todos os anos, durante as festividades em homenagem a Nossa Senhora da Penha, mais de cem mil romeiros percorrem a avenida Carlos Lindenberg, vindos da Catedral Metropolitana de Vitória, em direção ao Convento. De suas janelas e varandas, é possível visualizar a amplitude das cidades de Vitória e Vila Velha, os navios que entram e saem dos portos, o oceano atlântico e as serras do interior, que formam o cenário de fundo do litoral capixaba.

Apesar de toda essa importância, a construção da cidade negou a presença deste grande referencial de paisagem urbana da cidade. A verticalização da orla e a expansão urbana das áreas periféricas não consideraram a presença do Convento da Penha na cidade, fazendo com a população perdesse gradativamente a relação visual com o monumento de diversos pontos da cidade, perdendo também seu caráter de referência, no cotidiano. Dos bairros litorâneos só é possível visualizar o monumento por algumas frestas entre edifícios, e do alto do Convento não é mais possível visualizar as praias da cidade – apenas o mar de prédios.

Um claro exemplo do descaso do desenho urbano com relação ao Convento é justamente a construção da atual avenida Carlos Lindenberg. O traçado da via corresponde a um arco, que percorre as baixadas da cidade, e em seu trecho final – de aproximadamente dois quilômetros entre os bairros Santa Inês, Glória e Centro – a via é constituída de uma reta, que poderia ter sido direcionada para o Convento, mas foi feita sem considerar a presença deste monumento.

Vale destacar que a consideração da paisagem urbana no planejamento urbano não é uma questão recente – aqui no Espírito Santo tem-se um bom exemplo de planejamento em favor dos referenciais de paisagem. Em 1896 foi realizado pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito um projeto de expansão urbana da cidade para a região leste da ilha de Vitória, onde hoje está a região do bairro Praia do Canto – uma área distante do núcleo urbano da época. O projeto, denominado Novo Arrabalde, constitui-se basicamente de uma malha quadriculada de ruas cortada por duas grandes avenidas diagonais.

A preocupação com a manutenção da visibilidade dos referenciais de paisagem foi uma das intenções de projeto, quando Brito direciona uma das avenidas diagonais para a serra do Mestre Álvaro – monumento natural do município de Serra, amplamente visto da atual avenida Leitão da Silva – e direciona a outra via diagonal para o morro e Convento da Penha – pertencente à Vila Velha, mas amplamente visto pela avenida Nossa Senhora da Penha, conhecida como Reta da Penha. Atualmente a verticalização deve ocorrer de forma a não afetar a visão do Convento a partir da avenida, para garantir a preservação do cone de visualização – como ocorreu com o edifício Global Tower, que por um impedimento na legislação, foi construído de forma escalonada, resultando em uma arquitetura inusitada.

Com a aprovação do Plano Diretor Municipal de Vila Velha, em 2006, inicia-se, ainda que de forma incipiente, a discussão sobre a necessidade de a cidade ver o Convento da Penha. Apesar de terem sido instituídos cones visuais em algumas ruas e avenidas, ainda não foram discutidos quais serão as diretrizes para a manutenção e a valorização da visibilidade deste elemento paisagístico – tampouco se discute sobre outros referenciais paisagísticos da cidade.

Retornando a avenida Carlos Lindenberg, o Convento pode ser visualizado desde a entrada do bairro Santa Inês, passando pelo bairro da Glória até o término da via, no Centro – o Plano Diretor Municipal prevê o início do cone visual apenas a partir da Glória. Apesar desta visão não ser retilínea em relação ao Convento, como na Reta da Penha em Vitória, o observador pode vê-lo em uma visão periférica, à sua direita. Essa vista, porém, é comprometida por algumas poucas construções de três ou mais pavimentos que se localizam à direita da via – todas as construções neste trecho são “autoconstruções”, ou seja, não foram construídas pelo mercado imobiliário formal.

Na finalização do meu subprojeto de pesquisa de iniciação científica, foi proposta a demolição parcial das edificações que obstruem a visão do Convento a partir da via, por meio de desapropriações. Além disso, foi estudada, através de simulação gráfica, a melhor forma de se ocupar e verticalizar as construções para garantir a visibilidade do santuário a partir da avenida Carlos Lindenberg – chegou-se a um modelo “ideal”, com dois pavimentos de base e a verticalização somente a partir de 20 metros da testada do lote.

Em reportagem do jornal A Tribuna, do dia 29 de julho de 2010, foi apresentada pela primeira vez uma discussão do poder público local acerca da visibilidade do Convento em Vila Velha, levando em consideração sua visualização a partir da rua Castelo Branco, entre os bairros Praia da Costa e Centro. Discutia-se quais as diretrizes de ocupação do solo poderiam ser implantadas, e sugeria-se aos novos empreendimentos a realização estudos de impacto na visão do Convento a partir da via. Empresários de construtoras locais alegaram que esta medida “já veio muito tarde”, e não viam “que tipo de benefício teria essa ação nesse momento”. É curioso que atualmente as construtoras vendem edifícios “com vista para o Convento”, já que a “vista para a praia” encontra-se bastante ocupada e valorizada para a construção de novos prédios.

Esse assunto deve ser discutido pelo poder público e pela sociedade. As paisagens urbanas de Vila Velha precisam ser tratadas como uma herança, e a construção da cidade deverá, daqui para frente, procurar recuperar e valorizar os locais em que ainda se permite visualizar o Convento.

Vila Velha não pode mais continuar dando as costas para o Convento da Penha.

sobre o autor

Juliano Motta Silva cursa o 8º período de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Espírito Santo. Em trabalhos de iniciação científica, promove pesquisas sobre paisagem e mobilidade urbana, com foco na região metropolitana de Vitória ES.

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