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my city ISSN 1982-9922

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Projeto de lei prevê o fechamento do elevado Costa e Silva para a circulação no prazo de 4 anos. A desativação do elevado coloca em questão o destino da estrutura e a Associação Parque Minhocão expõe suas ideias em defesa de sua preservação.

how to quote

COMOLATTI, Athos; SENA, Jaqueline; VON POSER, Paulo; LEVY, Wilson. O Parque Minhocão e a alma da cidade. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 166.01, Vitruvius, maio 2014 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.166/5154>.



Está em curso um importante debate sobre a desativação do Elevado Presidente Costa e Silva, conhecido popularmente como Minhocão, e sua transformação em parque elevado, destinado ao lazer dos paulistanos.

Protagonizado pela Associação Parque Minhocão, o debate ganhou um novo componente com a proposição do Projeto de Lei n. 10/2014, elaborado por uma frente suprapartidária composta por 7 vereadores de 6 partidos das mais variadas orientações ideológicas. O projeto prevê, de maneira paulatina e no prazo de 4 anos, o fechamento do elevado para a circulação de automóveis, culminando com a instituição do parque (1).

Essa discussão se insere num contexto maior, propiciado pela janela histórica aberta pelas manifestações populares de junho de 2013, e que, a despeito do caráter difuso de suas pautas, colocaram a cidade no centro dos debates públicos. Temas como "mobilidade urbana", "gentrificação", "plano diretor" e "democracia participativa", que antes eram discutidos de maneira atomizada, passaram a convergir como elementos informadores de uma questão maior, articulada em torno que se pode denominar "direito à cidade".

Todos os temas estão presentes no debate sobre a criação do Parque Minhocão e pautarão as audiências públicas previstas para acontecer no decorrer do processo legislativo. Não é o caso, por isso, de retomá-los neste texto. O foco aqui será outro: o Minhocão como componente da alma da cidade.

No livro Soul and Culture (Texas A&M University Press, 2003), o analista junguiano Roberto Gambini traz uma instigante contribuição a essa reflexão no capítulo denominado "The Alchemy of Cement in a Modern City" (A Alquimia do Cimento numa Cidade Moderna). Nele, Gambini parte da premissa de que a cidade de São Paulo perdeu sua alma e está sofrendo.

Pouca dúvida parece pairar sobre essa afirmação. Uma rápida caminhada pelas ruas da capital paulista fornece ao observador atento componentes empíricos eloquentes: pessoas ansiosas e pessoas depressivas; indivíduos fóbicos, solitários em meio à multidão; seres humanos que se bastam com a mera existência. Quadro em tudo diferente das narrativas que exaltavam as virtudes gregárias da cidade como espaço de produção de uma sociabilidade sinônima da evolução e do desenvolvimento econômico e social do homem.

O autor sustenta que tais sintomas, na esfera do indivíduo, podem ser resolvidos através de um processo terapêutico facilitado pelo analista. A expressão "facilitado" é mais adequada porque o analista, em verdade, é apenas um intermediário: a partir de uma história que expressa um conteúdo consciente, tentará acessar os aspectos silentes da ferida psíquica. Ao evidenciá-los, favorecerá o contato do paciente com as causas da dor e, através desse processo, facilitará a cura.

Uma cidade, por sua vez, não estaria sujeita a um tratamento nos mesmos moldes. Não existe, afinal, a figura de um "terapeuta de cidades". E mesmo um esforço levado a cabo por uma equipe multidisciplinar de profissionais focalizados na resolução dos problemas urbanos não lograria êxito nessa seara, porque seus focos de preocupação, ainda que tangenciem aspectos estruturais das cidades, não chegam aos seus aspectos mais íntimos.

Para o autor, a missão de transpor o nível superficial das percepções acerca das metrópoles pertence à sensibilidade do artista. É ele quem perfura o solo multifacetado da cidade e desce aos domínios de Hades para revelar a gênese sombria dos problemas que afligem de maneiras distintas seus habitantes.

Trabalhar pela metamorfose a matéria decaída é o ponto de partida do processo de alquimia - expressão utilizada por Carl Gustav Jung - capaz de reverter os focos de negatividade criados a partir de manifestações da sombra. Em países de urbanização caótica, como o Brasil, multiplicam-se focos dessa natureza: áreas degradadas, ruínas, regiões enegrecidas por poluição, bairros com poucas árvores, prédios abandonados. E também viadutos, como o Minhocão.

Aqui, seguindo os passos da reflexão de Gambini, é possível formular algumas hipóteses. O Minhocão é símbolo de uma forma autoritária de se produzir cidades. As pessoas que moravam no seu entorno não foram consultadas a respeito desse empreendimento e não tiveram a oportunidade de oferecer oposição a ele. E esse autoritarismo traz a reboque uma brutalidade de concreto e asfalto que não está escamoteada por nenhum adereço arquitetônico.

A brutalidade grita, agride, espanca. Machuca e dói, como uma chaga urbana purulenta. E o faz há mais de 40 anos, sem distinções: atinge de crianças, indiferente ao seu choro de desespero, a idosos e suas fragilidades físicas. Ao naturalizá-la - e esse é sempre um risco - o indivíduo pode entronizar sua linguagem autoritária e reproduzi-la em seu contexto relacional familiar e social. Ou continuar tolerando as formas de autoritarismo produzidas pelo Estado.

Não causa estranheza que muitos paulistanos queiram demoli-lo. A primeira reação é sempre aquela que busca eliminar a fonte do sofrimento. A resposta, porém, nunca é tão simples. No processo de cura das feridas psíquicas, é preciso radicalizar, descer às origens do problema, e tratar, definitivamente, suas causas.

Em outras palavras, o sofrimento não deixa de existir pelo esquecimento (aparente). A mera negação não elimina o conteúdo latente da experiência dolorosa. Por vezes, é preciso ir de um polo a outro, através de um processo de mudança de olhar. Ao defender a criação do Parque Minhocão, a associação está a marcar posição em favor da ressignificação - alquímica - daquele espaço, que lhe dará um (novo) sentido positivo.

Como espaço de memória, o Parque Minhocão servirá à missão de simbolizar transformação em lugar de retrocesso, extirpando o autoritarismo da maneira de se pensar a cidade, no interior de um equipamento de lazer que, se antes causava dor, agora se apresentará como espaço democraticamente construído, destinado à intersubjetividade, à reconstrução da alteridade, à contemplação, à fruição. Não é preciso ser um artista para enxergá-lo. Basta que se esteja aberto à percepção sensível, tão cara à qualidade de vida nas cidades e ao imperativo de se projetar o novo.

Ao não defender um projeto arquitetônico específico, defende a Associação Parque Minhocão que essa etapa não pode prescindir do componente democrático e participativo, que espelhe as demandas dos usuários e moradores do entorno, como experiência coletiva de rearranjo funcional. É o que querem os mais de 600 moradores que subscreveram, em apenas dois dias, um abaixo-assinado organizado pela Associação em defesa do parque.

Não é a toa que o artista, morador da região e membro da associação, Felipe Morozini, fez essa intervenção no Minhocão: a flor que brota, apesar do asfalto, pode simbolizar a delicadeza no lugar da brutalidade, a subversão do instituído, e já antevê uma demanda que a cidade não pode mais deixar de atender: o reencontro de sua alma.

Ao instituir o Parque Minhocão, a cidade de São Paulo estará diante de um verdadeiro laboratório de transformação social, contido no desafio de "ressimbolizar" esse equipamento. Muito desse conteúdo simbólico já se expressa aos domingos e nos horários em que o Minhocão permanece fechado.

Em meio a essas fissuras um novo símbolo já floresce.

nota

1
O projeto já mereceu abordagem específica em outro texto publicado pelo portal Vitruvius: COMOLATTI, Athos; VON POSER, Paulo; LEVY, Wilson. Cidade e democracia. Um estudo de caso da Associação Parque Minhocão. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 163.05, Vitruvius, fev. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.163/5051>.

sobre os autores

Athos Comolatti, 60, é engenheiro de produção e presidente da Associação Parque Minhocão.

Jaqueline Sena, 29, advogada e mestre em Filosofia do Direito pela USP.

Paulo von Poser, 53, arquiteto, artista plástico e professor universitário.

Wilson Levy, 28, advogado, doutorando em Direito Urbanístico pela PUC-SP e professor universitário, são membros da Associação Parque Minhocão.

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