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my city ISSN 1982-9922

abstracts

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O texto se posiciona a favor do blog MISCinema, que luta para a transformação do MIS Campinas em cinema gratuito de rua como busca do fortalecimento e da construção coletiva da rua como espaço urbano social, por excelência.

how to quote

FABIANO JUNIOR, Antonio. MIS Campinas, pelo direito à rua. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 175.02, Vitruvius, fev. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.175/5427>.



A rua é o espaço materializado do coletivo. Ela pode ter infinitas formas, infinitos jeitos, infinitas vocações mas é sempre isso: uma rua. Lugar onde move-se o vento, ao som da música de gente, de coisas e de sonhos coletivos. A rua é arquitetura enquanto movimento e somente da experiência do lugar podem nascer as exceções que dão forma a ela.

No meio desse percurso, dessa – ou de qualquer outra – cidade formada por essa – ou de qualquer outra – rua, descobre-se a chave de um mundo complexo. Descobre-se a fascinação e o encantamento de mistura de ciências e humanidades, escultura e pintura, bênçãos e crendices, beleza e feiúra. Descobre-se que o que parecia feio, num primeiro olhar, na realidade tem uma beleza pura. Pura e simples beleza. Descobre-se também a beleza de querer fazer uma cidade.

O que está em jogo na luta pela transformação do Museu da Imagem e do Som de Campinas – MIS Campinas em cinema gratuito para a cidade, luta esta guerreada e documentada de forma precisa e informativa pelo blog MIScinema, não é uma simples criação e adequação de espaços físicos frente à um grande programa dentro de um valor de pertencimento local imenso que o edifício carrega. Isso seria fácil. Bastam cadeiras, um projetor e equipamentos de som. A reivindicação aqui é outra. De outra magnitude e de outro valor social.

É possível observar duas formas distintas de trabalhar o espaço urbano através de ferramentas da comunicação: ora a cidade abordada por meio das palavras que a descrevem e a categorizam – discursos sobre a cidade –, ora abordada como um elemento discursivo por si só – as linguagens da/na cidade –. Assim, tencionada entre realidade "objetiva" e realidade "discursiva", a cidade é primeiramente produto cultural, mas também produtora de cultura. Ou seja: em uma cidade atual composta por elementos virtuais, frutos e geradores de comunicação, fragmentos e dispersão, aparece, como resistência a esses elementos “etéreos” e “intocáveis”, o valor das manifestações corpóreas das arquiteturas nas pedras. Elas são permanência. E como tal imprimem significado que perpassa pelos tempos afirmando a ideia de lugar.

Museu da Imagem e do Som de Campinas – MIS Campinas
Foto Mariana Pinheiro

O cinema não tem tempo. Podemos ver o mesmo filme milhares de vezes e em todas estas vezes ele, enquanto produto, será rigorosamente igual. Mas o ato de assisti-lo o torna único. A efemeridade que a arte tanto trabalha está nessa chave. O mesmo filme confrontado com a pessoa – que muda constantemente –, com o espaço – que muda constantemente – e com outras milhares de condicionantes – que mudam constantemente – fazem o ato do cinema ser único. A chave desta luta está na mudança – do homem e do espaço – para que ele, o homem, entenda e valorize o espaço.

Voltando às questões simbólicas físicas citadas acima, uma das problemáticas de pertencimento, entendimento e compreensão desses signos está justamente na dicotomia entre o homem que habita e o homem que circula nesse espaço. Quem habita a cidade se habitua aos signos através dos quais circula e convive. Às vezes pode parecer necessário um olhar de fora, um olhar estrangeiro, que se depara com o estranho da diferença e faz aparecer aquilo que sempre esteve a nossa volta. O olhar que descobre a cada instante a cidade, a funda novamente. E muitas vezes, o habitante não é um contemplador do constante devir da cidade, pois, habitar uma cidade implica em ser chamado a decifrar, aprender a ler e posteriormente a interpretar. Agora, é interessante notar quais são os olhares de pertencimento e quais os olhares estrangeiros da cidade hoje, uma vez que, em muitos casos, o habitante de Parintins, por exemplo, não sai da frente de seu computador e que por este meio tecnológico pode ter mais contato com o espaço urbano de Paris, do que com o da sua cidade.

Museu da Imagem e do Som de Campinas – MIS Campinas
Foto Mariana Pinheiro

A complexidade vivida na luta por um cinema de rua nesse ambiente é experimentada como um ato de resistência e autonomia da existência da matéria-cidade, em uma série de elementos contrapostos formando um amplo espectro de espaços sociais na paisagem aberta, não só de valor histórico, estético, arquitetônico e cultural mas de valor presencial.

Não é uma luta por mais uma sala de cinema na cidade.

Não é uma luta por uma revitalização de um edifício de importância história para a cidade.

É uma luta pelo direto à rua. À cultura. E ao homem.

Temos aqui duas chaves: a do valor da cultura e a da experiência da cultura.

Cultura é inclusão, é uma porta de entrada para que tenhamos uma sociedade mais justa e mais humana.

Cultura é experiência. É ato em si. É possibilidade de permitir que pessoas conheçam novas pessoas, que pessoas se reconheçam em outras pessoas e que pessoas enxerguem o solo que as sustentam assim como sustentam todas as outras pessoas.

Cultura é essência e origem.

Cultura é o cultivo do tempo e do espaço.

Cultura é rua.

E rua sempre será o habitat do coletivo.

Museu da Imagem e do Som de Campinas – MIS Campinas
Foto Mariana Pinheiro

sobre o autor

Antonio Fabiano Junior é mestre pela FAU USP, ministra aulas na PUC-Campinas. Publicou diversos artigos em revistas acadêmicas e congressos internacionais e participou de equipe que recebeu menção honrosa no concurso para o Pavilhão Brasileiro na Expo Milão 2015.

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