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my city ISSN 1982-9922

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COTRIM, Marcio. De volta ao Vale do Anhangabaú. A proposta da equipe liderada por Artigas em 1974. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 182.04, Vitruvius, set. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.182/5609>.



A análise dos posicionamentos teóricos de Artigas a partir do final dos anos 1960 sugere uma gradativa mudança no tom de seu discurso, evidenciando uma preocupação crescente em direção aos problemas das cidades, ou ainda, à forma como foram conduzidos. Em um de seus escritos de 1975 afirmou:

"O mal é que assumimos as responsabilidades de curar as feridas sangrentas dos nossos meios urbanos, através de um planejamento isolado do planejamento geral e este muitas vezes não coincide com o nosso" (1).

Projeto de remodelação do Vale do Anhangabaú, 1974. Arquiteto Vilanova Artigas e equipe [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, p. 26]

Com esta afirmação Artigas indicou uma interpretação para a causa dos problemas urbanos a partir do possível isolamento em que, para ele, caiu o trabalho do arquiteto dentro da sociedade. Esta conjectura pôde ser confirmada sete anos depois quando, num ambiente menos hostil em meio a um nítido processo de abertura política e social, ele responsabilizou ao governo – pós-1964 – pela condição em que se encontrava a cidade de São Paulo e, em termos gerais, todas as cidades brasileiras:

"Lamento que em termos de cidade, de obras de arquitetura para o povo, muito pouco tem sido feito. Desde 1964, os homens públicos não fizeram nada. [...] O povo vive em situação miserável porque o sistema em que vive é perverso, é anti-povo" (2).

Projeto de remodelação do Vale do Anhangabaú, 1974. Croqui de Vilanova Artigas [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, capa]

Em seguida, procurou resguardar aos arquitetos e urbanistas a capacidade de atuar frente aos problemas urbanos, mas advertiu que naquele momento esta competência foi comprometida dentro de uma estrutura de ações marcadas pelo que chamou de tecnoburocráticas:

"Vê-se, portanto, que não há desinteresse ou incapacidade de nossa parte, mas sim uma incapacidade da estrutura de valorizar corretamente o papel do arquiteto no ambiente social" (3).

Projeto de remodelação do Vale do Anhangabaú, 1974. Croqui de Vilanova Artigas [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, capa]

Essa constatação no início dos anos 1980 é particularmente significativa quando conjugada aos dilemas teóricos enfrentados ao longo da década de 1970. Ao aceitar que se tornava necessário, além de uma correta valorização da função do arquiteto por parte da sociedade, também a existência de uma estrutura política e social que possibilitasse sua atuação, é posta em relevo a descapacitação, naquele momento, da arquitetura como instrumento de transformação num âmbito social; pelo menos da forma como lhe foi atribuída a partir da vinculação com governos civis desenvolvimentistas. Portanto, a década de 1970 se convertia em um momento de difícil continuidade dos paradigmas a que se pretendia dar sobrevivência.

Dentro de uma perspectiva que propõe conjugar os dilemas teóricos da arquitetura aos desafios profissionais gerados em conseqüência do agravamento da problemática urbana, puderam ser identificados alguns aspectos importantes a partir do estudo de 1974 elaborado pela equipe(4) liderada por Artigas para a remodelação do Vale do Anhangabaú.

Projeto de remodelação do Vale do Anhangabaú, 1974. Croqui de Vilanova Artigas [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, p. 22-24]

Chama a atenção, em meio às plantas e maquetes em escalas essencialmente urbana, uma série de desenhos à mão livre onde Artigas demonstra uma sensível compreensão dos problemas da cidade a partir do âmbito do pedestre. Aspecto que também transparece num depoimento do mesmo ano da elaboração do projeto:

"O estudo em questão pretende reorganizar o vale até poder reivindicar para ele a imagem de Parque do Anhangabaú que já teve no passado. O povo paulistano freqüenta o centro da cidade conforme comprovam estudos de trafego de passageiros fartamente conhecidos. [...] O parque do Anhangabaú deverá continuar a desempenhar a função que sempre teve de local destinado às mais importantes festas e manifestações populares" (5).

Projeto de remodelação do Vale do Anhangabaú, 1974. Croqui de Vilanova Artigas [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, p. 22-24]

O objetivo pretendido pelo estudo indica a reverberação de algumas das teorias urbanas desenvolvidas na Europa ao longo dos anos 1950, que propunham recuperar o caráter essencial das áreas centrais das cidades através dos seus potenciais de reunião, aglomeração e ramificação (6). Neste projeto evidenciou-se uma atitude otimista que propõe a recuperação do Vale do Anhangabaú a partir do seu significado anterior, devolvendo-o à população. A sensação é de que era necessário voltar ao ponto de partida da cidade para que seus problemas vitais pudessem ser solucionados. Segundo Artigas:

"A fim de poder instituir no espaço urbano estes objetivos fundamentais pareceu-nos necessário reconquistar para o pedestre, e só para ele, as vias laterais de trafego que estão nas encostas do vale e organizar dois largos passeios interligados por passarelas e associados a mobiliário de lazer a programar. A possibilidade de desviar as correntes de tráfego do automóvel para a rótula faz-nos prever que estas duas grandes calçadas poderão servir de arquibancadas naturais para festas cívicas ou populares" (7).

Projeto de remodelação do Vale do Anhangabaú, 1974. Croqui de Vilanova Artigas [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, p. 22-24]

Outro aspecto relevante deste projeto foi o “mobiliário de lazer a programar”, proposto como edifícios baixos situados nas duas extremidades do vale que, ao relacionarem-se entre si por passarelas, assumiriam uma função evidentemente urbana, definindo o que Artigas propõe como um sistema de marcha a pé.

Artigas construiu entre 1973 e 1976 um projeto que se assemelha a estes pequenos croquis elaborados para a remodelação do Vale do Anhangabaú, não exatamente por seu aspecto formal, mas principalmente por sua dimensão urbana: a rodoviária de Jaú. Transparecem no edifício da rodoviária as experimentações desenvolvidas a partir de suas casas, entretanto, releva-se neste caso a ampliação de sua função principal, assumindo até hoje um importante papel urbano: de conexão entre duas cotas da cidade através de rampas e passarelas.

Rodoviária de Jaú, cortes, 1973-1974. Arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi [Módulo, n.42, mar. 1976, p. 45]

A Rodoviária de Jaú é um edifício encravado em um desnível de aproximadamente 7,5 metros entre a área central de Jaú e um tradicional bairro residencial. Em uma operação semelhante à realizada por Lina no MASP, Artigas estende, na cota mais alta, o nível da rua, definindo um plataforma/praça sob a qual se organizam outras três em níveis intermediários até alcançarem a cota mais baixa. Aí, é onde se distribui todo o programa da rodoviária. Sobre esse conjunto, uma cobertura sombreia a plataforma/praça.  Sobressaltando a função de rodoviária, o edifício proposto por Artigas serve para conectar cotas distintas da cidade, contemplação e encontro: um edifício-praça.

Rodoviária de Jaú, 1973-1974. Arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi
Foto divulgação [ANDREOLI, Elisabetta. Op. cit., p. 80]

É necessário destacar a atitude otimista por trás desses dois projetos: a remodelação do Vale do Anhangabaú e a Rodoviária de Jaú. Ambos foram elaborados num momento delicado da saúde política e social do país e refletiram, a um só tempo, os esforços de manutenção e de renovação do papel do arquiteto dentro da sociedade. Revelam a manutenção dos valores essenciais construídos ao longo de toda uma trajetória e a capacidade de renovação desses valores diante dos problemas que iam sendo entrepostos.

Rodoviária de Jaú, 1973-1974. Arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi
Foto divulgação [ANDREOLI, Elisabetta. Op. cit., p.80]

Em 1984, pouco tempo antes de seu falecimento, esse otimismo parecia aproximar-se à descrença. Numa entrevista concedida a Lívia Álvares para a revista A Construção São Paulo(8), Artigas afirmou que o projeto para o Vale do Anhangabaú havia sido um grande laboratório, mas que por não gostar dele preferia não comenta-lo. Devido à insistência da entrevistadora decidiu falar:

"Acho que cometi um erro de avaliação [...] Sim, porque eu iria lutar para que a construção do metrô resultasse em passarelas subterrâneas. Exatamente para não modificar um viaduto que possui um valor histórico imenso, como acabou ocorrendo e o vale ficou conspurcado. São fatos como esses que nos levam a constatar que a cidade também se transformou em mercadoria, mais um espaço onde a classe dominante faz seus lucros" (9).

A palavra conspurcar utilizada por Artigas significa mais coloquialmente poluir, ou simplesmente sujar e, em outra acepção, mais antiga e praticamente em desuso, significa criar pus, infeccionar- se devido a uma lesão ou ferida, caso que parece adequar-se mais ao que pretendeu dizer. Ou, segundo Artigas, numa entrevista concedida na época da elaboração do projeto para o Vale do Anhangabaú: “o mal é que assumimos as responsabilidades de curar as feridas sangrentas dos nossos meios urbanos”(10)

Dez anos depois, as feridas da capital paulista mostraram-se infeccionadas. Artigas parecia desacreditado diante da magnitude dos problemas urbanos constituídos e da forma como foram conduzidos. Uma descrença que podia ser estendida a toda uma classe profissional que nos vinte anos anteriores tiveram que absorver a significativa restrição do seu raio de atuação, pelo menos da forma como tinha sido delineado até então.

detalhe da maquete da solução proposta [A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974]

Notas

NE
O texto é um fragmento revisado da tese de doutorado do autor cujos orientadores foram Fernando Alvarez Prozorovich e Abilio Guerra: COTRIM, Marcio. Construir a casa paulista: o discurso e a obra de Artigas entre 1967-1985. Tese (Doutorado), Departamento de Composició Arquitectònica, Escola Tècnica Superior d´Arquitectura de Barcelona, Universitat Politècnica de Catalunya, 2008, p.554.  

1
ARTIGAS, Vilanova. Um lugar à utopia (1975). In: FERRAZ, Marcelo Carvalho (org.). Vilanova Artigas. São Paulo, Instituto Lina Bo e P.M. Bardi/Fundação Vilanova Artigas, 1997, p. 199.

2
Entrevista concediada por Vilanova Artigas. A Construção, São Paulo, n. 1809, out. 1982, p. 76.

3
Idem, ibidem.

4
Segundo a matéria da revista A Construção São Paulo, n. 1376, de junho de 1974, a equipe foi formada por Abrahão Sanovicz, Marlene Yurgel, Harue Yamashita, Eduardo Rodrigues e Fernando Gonsalvez, e o estudo, solicitado pela Coordenadoria Geral de Planejamento e pela Empresa Municipal de Urbanização da prefeitura paulista.

5
ARTIGAS, Vilanova. O Anhangabaú e a cidade conforme Artigas. A Construção São Paulo, n. 1376, jun. 1974, p. 22-28.

6
Referimo-nos aos conceitos de Core e Cluster, derivados do Team X, que estiveram presentes na cultura arquitetônica brasileira a partir dos anos de 1960. Este tema é abordado em: BASTOS, Maria Alice Bastos. Dos anos 50 aos 70: como se completou o projeto moderno. Tese de Doutoramento. São Paulo, FAU USP, 2004.

7
ARTIGAS, Vilanova. O Anhangabaú e a cidade conforme Artigas (op. cit.).

8
Entrevista concediada por Vilanova Artigas. Op. cit.

9
Idem, ibidem. 

10
Idem, ibidem. 

sobre o autor

Marcio Cotrim é arquiteto, professor adjunto II da graduação e da pós-graduação em AU da UFPB, membro pesquisador do Laboratório de pesquisa Projeto e Memória (www.lppm.com.br) e um dos editores da sessão espanhola do portal Vitruvius.

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