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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Inserido no campo da Arquitetura Efêmera, o artigo registra as observações de um ambiente instalado intermitentemente no espaço público, identificar seus componentes, bem como transformações e relações que estabelece com espaço que lhe serve de suporte.

english
In the Ephemeral Architecture discipline, this article attempts to investigate an intermittently deployed environment placed at the public space, aims to identify its components, as well as the transformations and relations with space that supports it.

español
Dentro de la disciplina Arquitectura Efímera, el artículo interpreta un entorno implementado periódicamente en el espacio público, de identificar sus componentes, así como las transformaciones y relaciones que se establecen con el espacio que lo apoya.

how to quote

COSTA, Vitor Mesquita Bríngel da. Terça-Feira, a praça vira feira. O espaço ressignificado por um ambiente efêmero. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 182.06, Vitruvius, set. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.182/5705>.



Os estudos sobre “Arquitetura Efêmera” tem configurado um saber sobre conceber objetos arquitetônicos que utilizam técnicas que permitem restabelecer os usos e preservar as características materiais do espaço onde estão transitoriamente implantados. Neste sentido, é válida a observação de um ambiente implantado intermitentemente em um sistema de configuração espacial aberto e fluido no espaço público paulistano, a Feira da Praça Charles Miller em São Paulo/SP, que serve aqui para observação do surgimento de um ambiente efêmero.

Numa linha cronológica de ressignificação deste espaço, um primeiro momento é percebido: O impedimento das atividades cotidianas que se utilizam daquele substrato físico o libertam de seu uso habitual e deixam vir à tona diversas possibilidades potenciais de uso daquele espaço, que se torna livre para uma múltipla gama de desempenhos, incluindo-se nesta gama a possível implantação de uma Feira. O que configura um certo estado de latência (1), em que várias possibilidades de uso do espaço coexistem sem se manifestar.

Todo conteúdo material que é impossível de ser retirado daquele espaço torna-se imediatamente condicionante que influencia na disposição espacial da Feira. Por isso entende-se o motivo pelo qual a Feira assume aquela disposição espacial e não qualquer outra, não é uma necessidade essencial, pois em outro espaço, possivelmente adotaria configuração espacial diferente sem prejuízo para o desempenho de suas atividades.

Mapa de localização; 02. Praça Charles Miller; 03. Veículos impedidos de acessar; suspensão dos usos habituais do espaço; estado de latência; configuração permanente sugere configuração espacial da feira; 04. Feira implantada em disposição linear [Google Maps]

Avançando na linha cronológica do aparecimento deste ambiente efêmero, vê-se que o processo de desvanecimento da Praça progride à medida que os elementos que compõem a Feira vão sendo implantados. Por tratar-se de um assentamento transitório, recorre-se então a objetos arquitetônicos que obedecem à contingência espacial preexistente do lugar e aos paradigmas de transitoriedade temporal. Por consequência, esta lógica de atendimento à efemeridade é reproduzida na materialidade dos objetos componentes da Feira, que se utilizam de técnicas de montagem e desmontagem atendendo à demanda pela curta permanência no espaço e sua posterior remontagem no tempo devido.

O eficaz processo de desmontagem desta Feira parece seguir uma lógica “fractálica” (2), no sentido de que o rápido, coordenado, sincronizado e consciente movimento de retirada do ambiente efêmero (o todo) se repete no movimento de desmontagem das barracas (as partes) e dos elementos que as compõem. Portanto, observar o processo de desmonte de uma das barracas é por consequência observar o próprio processo de retirada da Feira em menor escala.

Processo de desmontagem de uma barraca: a barraca montada em sua completude
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: suspensão de suas atividades comerciais e retirada de vedação da mesa, feita em material lavável e reutilizável
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: compactação do material de vedação da mesa e estrutura da mesa exposta
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: retirada da cobertura que é desacoplada das pontas das terças da estrutura da cobertura
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: retirada da cobertura que é desacoplada das pontas das terças da estrutura da cobertura
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: estrutura do telhado exposta, feita por “cumeeira” e “terças” em madeira, note-se que sem a cobertura, a estrutura entra em desalinhamento
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: compactação da cobertura feita em material plástico e reutilizável
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: retirada da estrutura do telhado, terças e cumeeiras, que são compactadas na carroceria do caminhão
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: “tampo” da mesa, seccionado transversalmente em 4 partes, cada parte é dobrada e compactada no caminhão
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: mesmo os elementos mais sólidos como os cavaletes que sustentam a mesa são perfeitamente adaptados à função da barraca, que é de expor os alimentos, por isso as pernas dos cavaletes apresentam leve diferença de dime
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: espaço que antes fora ocupado pela barraca – Estado de latência
Foto Vitor Bríngel

Processo de desmontagem de uma barraca: espaço original reestabelecido
Foto Vitor Bríngel

A partir da observação da desmontagem de uma barraca (figura 2) vê-se que suas peças componentes se utilizam de sobreposições e encaixes que possibilitam futura remontagem (que, neste caso, resulta sempre no mesmo objeto pois não preveem variação de componibilidade ou expansibilidade). Após a desmontagem, procede-se com a compactação das partes, neste momento, o objeto arquitetônico perde progressivamente seu sentido à medida que deixa de ser espaço construído e é reduzido a várias partes fragmentadas e compactadas dentro de um meio de transporte. Concomitantemente, o movimento que deu início à implantação do ambiente efêmero volta a acontecer: o espaço original volta a se constituir. Um ciclo se completa.

Além disso, um contexto sensorial característico da atividade desenvolvida no local formado por uma série de experimentações através dos sentidos a partir dos quais, também influenciado pela materialidade do espaço, o sujeito, quando inserido neste contexto, forma imagens, adquire orientações de sentido, segue direções, delineia trajetos, ângulos, noção de espacialidade etc.  De fato, a atividade de compra e venda deste local pressupõe um quiproquó sonoro característico e presente em qualquer Feira: odores característicos como de fruta aberta, de peixe à mostra, da fritura do alimento; fluxos confusos e lentos de pessoas, um “para-anda” no caminhar e pressupõe eminentemente as relações que ali são estabelecidas que são como “teias de aranha de relações intrincadas à procura de uma forma” (3).

Mais que seu suporte físico e a somatória de suas barracas, esta Feira é uma microrregião amalgamada por tudo aquilo que é inerente à sua atividade. É um sistema aberto cuja espacialidade é estabelecida tanto por sua arquitetura efêmera quanto pelos locais onde as atividades comerciais são desenvolvidas mesmo que prescindam de arquitetura construída. Em síntese: este é um ambiente que transborda suas pretensas barreiras físicas, que não sobrevive somente no espaço construído e se estabelece como espaço de comércio (4).

Uma vez plenamente instalado no espaço, este ambiente efêmero estabelece uma relação com o Espaço Público Urbano num inverso de uma relação “parasitária”, configura uma espécie de relação do tipo “inquilinista”, no sentido de que, ele se beneficia temporariamente do substrato físico sem causar prejuízos. Muito embora a implantação da Feira suspenda as atividades da Praça, esta “competição” pelo território não resulta em desvantagem para nenhum dos participantes desta relação urbana (5), nem para o espaço físico permanente que se mantém intacto, nem para o usuário que se beneficia de uma atividade diversa da atividade costumeira.

A partir da observação da Feira, é possível dizer que este ambiente efêmero é assim denominado tanto em virtude da observação do resultado de suas práticas de constituição como também de suas causas. Ambas com a premissa de transformação física e sensorial do espaço, bem como a transitoriedade neste. Assim, é gerada uma espécie de espaço qualificado considerando seus usos possíveis e é estabelecida uma relação harmônica com o espaço público urbano.

notas

1
A escolha do termo “Estado de Latência” faz alusão aos estudos sobre sonhos e consciência de Freud o conteúdo latente e conteúdo manifesto. FREUD, Sigmund. Sobre os sonhos. In: FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro, Imago, 1988, p. 571-611.

2
O termo faz alusão à geometria fractal, geometria de origem não-euclidiana lembrada grosso modo pela máxima “o todo forma a parte e a parte forma o todo.”

3
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. 2. ed. São Paulo, Cia. das Letras, 2004, p. 33.

4
A escolha do termo é em virtude da observação de que um tecido ou plástico estendido no chão para venda de frutas não é arquitetura construída, mas constitui e está contido no espaço de comércio da Feira que extrapola seus limites físicos.

5
O termo “Relações Urbanas” (bem como os termos “competição”, “inquilinista” e “parasitária”) faz alusão ao termo comumente usado na Biologia “Relações Ecológicas”, que busca entender e classificar os vários tipos de relações entre os seres vivos e entre estes com o meio-ambiente num ecossistema.

sobre o autor

Vitor Mesquita Bríngel da Costa é Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade Federal do Pará, cursa Mestrado em Arquitetura e Urbanismo no Programa de Pós-Graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil.

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