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my city ISSN 1982-9922

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Nesse momento onde impera a violência e o terror, é necessário se solidarizar não só às vítimas dos atentados, mas a todos os que estão sendo privados do mínimo necessário à sobrevivência e ao acesso dos bens de consumo mínimos.

how to quote

JANOT, Luiz Fernando. Desconstruindo valores culturais. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 184.06, Vitruvius, nov. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.184/5827>.



O que dizer diante dos trágicos acontecimentos de Paris e das suas consequências para a vida nas cidades europeias? Pelo visto, os atos de terrorismo não se esgotarão com esse caso recente. O mundo vive atualmente um clima de absoluta incerteza e insegurança. Está difícil conviver com às ações belicistas e com a violência urbana que ceifam, diariamente, um número inacreditável de vidas humanas.

Protegidos por um distanciamento geográfico confortável, a população ocidental assiste pelos meios de comunicação as violentas imagens dos bombardeios em cidades do Oriente Médio, sem, contudo, compreender claramente os motivos que levaram a tais decisões. Simultaneamente, observa com extrema perplexidade a ação dos fanáticos religiosos destruindo valiosos monumentos históricos de culturas ancestrais.

Essa triste realidade nos remete a uma tendência atual de menosprezar a História e consolidar uma cultura genérica ditada exclusivamente pelos valores do mercado globalizado. A aceitação inconteste desta postura fará com que, em pouco tempo, nenhuma manifestação cultural sobreviva sem estar devidamente afinada com esse princípio.

Atualmente, o valor da produção cultural deixou de se basear no valor intrínseco da manifestação artística para assumir novas referências estabelecidas pela dinâmica do mercado internacional. As milionárias transações envolvendo obras de arte comprovam essa afirmação. Não é a toa que a lavagem de dinheiro escuso se tornou um expressivo componente alimentador dessa lógica de transação comercial.

Cultura de mercado significa dizer que os aspectos mercadológicos predominam na produção cultural acima de qualquer outro valor. Não faltam estratégias de marketing destinadas a justificar e incentivar essa forma de produção. Quando o valor de mercado adquire o papel de protagonista da produção cultural, não há dúvida de que o resultado alcançado irá refletir as condições impostas pelos interesses comerciais. Com isso as expressões culturais se tornaram, de uma maneira geral, menos consistentes e mais superficiais.

A crescente exploração do entretenimento como forma de manifestação artística contemporânea vem despertando grande preocupação em certos meios intelectuais. A voracidade financeira com que as grandes corporações expandiram os seus tentáculos sobre a produção artística mundial fez com que uma nova perspectiva cultural, muitas vezes desprovida de significado e de conteúdo, sobressaia sobre as demais.

Uma cultura baseada exclusivamente nos aspectos imediatistas do consumo dificilmente deixará um legado valioso para a posteridade. Pode parecer estranho, mas chegará o dia em que alguns museus irão agregar a cada obra de arte o seu valor de mercado. Parece ironia, mas nesse dia as obras expostas serão admiradas mais em função desses valores do que propriamente pela sua qualidade.

Justificar esse processo de transformação cultural pelo viés determinista do mercado globalizado é reduzir a dimensão da economia política a um imediatismo pueril que ignora as suas implicações e desdobramentos sociais. Não podemos esquecer que a tão propalada cultura de mercado também pode destruir culturas estratificadas ao logo da história. As cidades, obviamente, também serão envolvidas por esse processo.

Não há como ficar indiferente diante do desprezo pela história e do quadro de violência que hoje extrapola os guetos de pobreza em qualquer grande cidade. É fundamental, neste momento, que manifestemos a nossa solidariedade não apenas às vítimas dos atentados recentes, mas a todos aqueles que estão sendo privados do mínimo necessário para garantir a sua sobrevivência e ter acesso aos mais singelos bens de consumo.

Estejam certos de que tanto o terrorismo quanto a violência urbana jamais serão derrotados por intervenções exclusivamente de caráter militar. Há que se planejar as cidades para torna-las mais humanas e livres de qualquer espécie de exclusão social e racial. Propiciar o acesso aos novos meios tecnológicos e aos investimentos produtivos parece ser um dos meios para garantir um futuro digno para as camadas mais pobres e desassistidas da população. Demonstrar o papel relevante da cultura para o desenvolvimento pessoal de cada indivíduo e da própria sociedade é tarefa indispensável para enfrentar os atuais radicalismos que permeiam a vida cotidiana em nossas cidades.

nota

NE Publicação original: JANOT, Luiz Fernando. Desconstruindo valores culturais. O Globo, Rio de Janeiro, 21 nov. 2015.

sobre o autor

Luiz Fernando Janot, arquiteto urbanista, professor da FAU UFRJ.

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