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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Em crônicas escritas durante andanças pela cidade, Abilio Guerra comenta aspectos diversos da vida urbana e social – política pública, política cultural, urbanidade, manifestações etc. –, sempre buscando algum ensinamento.

how to quote

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.



Da carta aberta pública a Michel Temer

O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural encaminhou ao Presidente da República Interino (leia-se “golpista interino”) mensagem manifestando preocupação e estranheza diante do “acréscimo de uma sétima secretaria, a Secretaria Especial do Património Histórico e Artístico Nacional, na MP 728, de 23/05/2016, que recriou o MinC, sem que da Exposição de Motivos constasse qualquer justificativa para a inovação ou que o corpo do ato legislativo esboçasse os objetivos do órgão”. Como já comentei na postagem anterior dessa série, trata-se de contrabando – a reboque de uma medida aparentemente correta, de reversão da extinção do MinC – de uma nova agência que pode estar a serviço do desmonte da proteção do patrimônio (venhamos e convenhamos, que outro motivo justificaria uma nova secretaria em momento que se fala tanto em “enxugamento da máquina pública”?). Precisamos reforçar todas as formas de pressão para barrar medidas escandalosamente a serviço dos grupos que patrocinaram o golpe de Estado em curso. E, mais do que tudo, antes de tudo, precisamos criar as condições políticas para o restabelecimento da ordem democrática com o retorno do governo eleito democraticamente por mais de 54 milhões de votos. Já é possível ver luz no final do túnel.

[05 de junho de 2016]

Do contrabando na recriação do MinC

Igreja de Santa Luzia, com Palácio Capanema – antigo Ministério da Educação e Saúde e sede original do Iphan – ao fundo
Foto Abilio Guerra

No recuo do governo golpista de Michel Temer e recriação do extinto Ministério da Cultura, foi criada totalmente na moita uma sétima secretaria, a Secretaria Especial Nacional de Patrimônio Cultural, cuja finalidade parece ser a revisão da legislação de licenciamento em áreas protegidas pelas agências de patrimônio, em especial o Iphan. Depois de notícias temerárias sobre a revogação de leis de proteção ao meio ambiente e aos índios, e da frota pornográfica que levou propostas de ensino não ideológico ao Ministério da Educação — quero ver se alguém consegue dar aula com esse tipo de resolução, ridícula e aparentemente absurda, não fosse sua aprovação em Alagoas —, temos mais essa novidade hiper-preocupante e diretamente relacionada ao meio arquitetônico. A pressa dessa gente em reverter direitos conquistados a duras penas parece estar ligada às possibilidades de reversão do afastamento da presidente Dilma Rousseff ou da convocatória de novas eleições, onde as chances deles ganharem é nula. Atender os interesses dos promotores do golpe torna-se então urgente. E nós, arquitetos, vamos continuar quietos? Precisamos nos dar conta que boizinhos dóceis dentro do curral em algum momento são levados para o matadouro... Ou podemos continuar a cantar como papagaios globais, seguindo alguns amigos facebookianos: "não temos golpe, mas impeachment, currupaco paco paco..."

[27 de maio de 2016]

Da cultura

Mulheres fantasiadas na Avenida Paulista
Foto Abilio Guerra

O governo temerário demonstrou grande inteligência ao extinguir o Ministério da Cultura. Em primeiro lugar, o ato desviou a atenção da caixa de maldades que destampou, que implica em última instância no desmonte dos benefícios conquistados às duras penas nos últimos anos pela sociedade civil, em especial pelos movimentos sociais. Em segundo lugar, estancou o desmoronamento de sua base social, que vinha se erodindo de forma surpreendente desde o famigerado dia por Deus, família, propriedade e bala, quando a Câmara aprovou o andamento do impedimento de nossa presidente. Causa um enorme mal-estar observar a repercussão da medida na rede social, pois há um amplo e consistente apoio ao novo governo, agora não mais mudo, mas ruidoso, barulhento, estrondoso. As palavras de ordem se munem de frases como “os artistas não vão mais mamar nas tetas do governo”, “vão buscar emprego no Ministério do Trabalho seus preguiçosos”, “fim do enriquecimento da corja de esquerdistas caviar”, ou então de qualificativos como “canalhas”, “indolentes”, “inúteis” e outros adjetivos infames. No pano de fundo, o que se esboça é um aplauso (ou panelaço) entusiasmado diante da extinção das leis de incentivo cultural. São, provavelmente, muitos os motivos que explicam tal sentimento de satisfação, mas vou arriscar uma observação rápida sobre um deles. Basta uma rápida pesquisa sobre a origem dessas mensagens para identificar como os mais enfurecidos um segmento da classe média formada por profissionais liberais e executivos de funções intermediárias. Trata-se, portanto, do mesmíssimo extrato social da maioria dos intelectuais e artistas que atacam. Ao invés de estabelecer com estes uma relação de simpatia, empatia ou solidariedade, preferem deles se apartar e se aproximar do que identificam como valores nobres das elites que admiram – o sacrifício do trabalho e a determinação na busca do sucesso econômico (não seria exagerado lembrar o desdobramento na forma de inveja pelo consumo desenfreado de bens materiais de todo tipo). Encontra-se aqui, quem sabe, um segredo para se entender o enigma que estamos tratando: tal contingente prefere a servidão voluntária diante dos milionários que os exploram e que os desprezam – o mesmo desprezo que manifestam pelas camadas mais baixas, hoje acunhada de “mortadela” – a se identificar com artistas e intelectuais, seus iguais em termos de classe social, cuja ação inventiva, insubmissa e irreverente diante da ideologia vigente acaba involuntariamente se convertendo em espelho cruel, onde a classe média raivosa só poderá observar a banalidade da própria existência.

[18 de maio de 2016]

Da aglomeração na Fiesp

Fachada da sede da Fiesp
Foto Abilio Guerra

Na foto tirada há alguns minutos se observa a multidão de manifestantes anticorrupção cantando palavras de ordem contra os membros do novo governo que estão na lista da lava-jato. Aumentou também de forma significativa o número de barracas, apontando para uma tendência de ampliação geométrica – quem sabe exponencial – dos que se dispõem a abandonar seus afazeres em prol do bom destino do país. Não deixa de ser emocionante o fervor com que essas pessoas honram a palavra empenhada.

[12 de maio de 2016]

Meu avô era baiano

Manifestação pró Dilma Rousseff no Vale do Anhangabaú
Foto Abilio Guerra

Com amigo e familiares, fui ontem ao Vale do Anhangabaú na manifestação contra o impedimento da presidente Dilma Rousseff. Muita gente, gente de todo tipo, de toda cor, mas não de todas as classes. Era possível com alguma paciência encontrar pessoas da classe média, mas era um contingente minúsculo, parcela ínfima da multidão. Ao contrário da manifestação da Avenida Paulista no dia 18 de março, quando encontrei muita gente conhecida, ontem foram raríssimos os conhecidos – um médico, um fotógrafo, um arquiteto, que ficam aqui sem nome para que não sofram bullying... Nas postagens pelo facebook constatei a presença de mais dois ou três amigos, dentre eles um cineasta, uma professora da Unicamp, um professor da USP São Carlos. Creio que a classe média democrática transformou o fato histórico em show televisivo. Não é uma acusação, pois quase fiz o mesmo e só decidi ir à manifestação na hora do almoço. Teremos que avaliar melhor nosso comportamento. Voltando ao Vale, o ponto alto foi a chegada de parte da bateria da Gaviões da Fiel, toda de preto, uma presença magnética, eletrizante, emocionante. Meu amigo, ponte-pretano da gema, cogitou virar a casaca. Banho de esperança, mas também constatação da realidade perigosa que estamos vivendo – e dos riscos que, naquele momento, corríamos enquanto projeto de país. Chegando em casa, o balde de água fria. Para cada Jean Wyllys, três hipócritas. Para cada Silvio Costa, cinco vendidos. Para cada Jandira Feghali, sete bandidos. Para cada Weverton Rocha, quarenta traidores, dois de seu próprio partido. Para cada Luiza Erundina, três assumidos defensores da tortura durante o governo militar, Bolsonaros e outro cretino que nem me lembro o nome. Uma corja de bandidos e cafajestes fazendo fila para dedicar sua falta de caráter à mãe, ao pai, aos filhos, aos netos, ao vizinho, às crianças pobres, aos lavradores abandonados, ao Teotônio Vilela, que deve estar se revirando no túmulo, e ao campeoníssimo líder de audiência, Deus. Três justiças precisam ser aqui registradas. A primeira, não vi ninguém dedicar seu voto sujo à sogra ou à amante, grande sinal de respeito. A segunda, o show de horrores sem precedentes na história do Congresso Nacional – por sinal, tão cheio de momentos tenebrosos – calou uma pequena parte dos defensores do impedimento nas redes sociais; estão com vergonha incomensurável, pois descobriram na transmissão ao vivo o equívoco absurdo que cometeram ao seguir a Globo, Veja, Folha e demais grandes empresas mídio-familiar-golpistas. A terceira, por fim, a presença marcante da bancada baiana, que nos devolveu a esperança quando tudo já estava decidido. Não vou citar nomes para evitar injustiças, mas foi contundente ao ponto de me ocorrer o quanto foi decisivo para o resultado final o insosso julgamento do STF, que aceitou a manipulação de Eduardo Cunha para forjar uma maioria ampla no início, que levasse de roldão indecisos e oportunistas. Tudo deu certinho para os conspiradores, parecia até um relógio suíço (em termos de conspiração, somos do primeiro mundo). Contudo, tivessem os deputados baianos falado e votado no início, o resultado provavelmente seria outro. Como quase todos os deputados dos quais discordo desfilaram seus parentes e agregados, devolvo aqui minha vingança pessoal: meu avô era baiano, de Caetité.

[18 de abril de 2016]

Dos fios

Fio desencapado em rua do Bixiga
Foto Abilio Guerra

Os fios e seus derivados – cabos, linhas, cordas, pavios, barbantes, cadarços, arames... – são corriqueiros na linguagem cotidiana cheia de alegorias e metáforas. Algumas, desagastadas ou apuradas pelo uso, tornam-se lugares comum ou pérolas do saber popular. Dizer que um sujeito é um fio desencapado ou tem o pavio curto dispensa complementos pois antes disso já surgiu aos nossos olhos a carranca do mal-humorado. Afirmações como “João está com a corda no pescoço” ou “Maria e José travam um cabo de guerra perpétuo” são autoexplicativas. O moralista de plantão exige que esposa, filhos, agregados e a própria humanidade andem na linha, mas mal sabe ele que a metáfora é falha, afinal são muitas e complexas as formas de uma linha; os maníaco-depressivos se enxergam na curva senoide, os suicidas sonham com a elipse e alguns confusos e sem fuso são como enrosco na curva do rio. Tão rica é a semântica do fio que Paul Veyne, notável historiador francês, se socorreu na metáfora da trama para explicar seu conceito de história do cotidiano. A série de fios que se entrelaçam e formam um destino comum é uma imagem sedutora, mas ela sempre me pareceu um tanto redutora, pois os panos tecidos são lógicos e bidimensionais. As pelotas de barbantes de mil cores emaranhados que encontrávamos quando meninos nos galpões desertos da estrada de ferro me parecem hoje mais apropriadas como símile da vida humana. Sem o saber, agíamos como pequenos historiadores positivistas ao passarmos horas desatando os infinitos nós, resgatando os cordéis originais para fabricar as redes para as traves de futebol caixão. Ou então nos portávamos ingenuamente como historiadores estetizantes ao usá-las como maravilhosas pelotas coloridas para chutar dentro de casa, sem o risco de apanhar por quebrar um vaso preferido da mãe. Não me recordo de ter olhado uma vez sequer para a bola felpuda como um símile da minha vida ou da história comum, algo que guarda em si encontros e desencontros, proximidades e distâncias, revelações e escondimentos, ajustes e desajustes, situações antagônicas suscitadas pelos caminhos anárquicos que cada fio isoladamente faz na maçaroca, onde sua trajetória condiciona e é condicionada pelas demais. Talvez a história do cotidiano não seja coisa para criança.

[25 de fevereiro de 2016]

Dos crimes reais e imaginários

Fachada de casa no Bixiga
Foto Abilio Guerra

São muito curiosas, às vezes estranhas, as conexões mentais que fazemos ao andar pela cidade. Hoje, pela enésima vez, observei na fachada da casa vizinha o baixo relevo de Nossa Senhora acalentando o menino Jesus. Mais uma vez, convoquei a cena prototípica do jovem casal contratando o artesão para instalar a imagem que protegeria a casa de roubos e assaltos. Hoje a cena foi borrada pela dúvida. A casa tem quase um século, é do tempo que não se fechava a porta com chave ao sair e ao retornar se encontrava a vizinha na cozinha passando café no coador... Me ocorreu que a Madonna foi colocada na fachada para olhar o pequeno deus no colo e os guris endemoninhados na rua naqueles tempos onde as crianças tinham hora marcada para sair mas não para voltar. Em algum momento os medos real e imaginário colocaram trancas, correntes e cadeados no portão e as crianças se refugiaram em brincadeiras lúdicas e solitárias nos quartos e recantos esquecidos da casa. Os reinos da televisão e, mais recentemente, do videogame estavam de antemão garantidos, afinal os jovens súditos já tinham as asas cortadas pelos pais e as bundas calejadas pelo sofá. E nos filmes e nos jogos puderam dar vazão às pulsões violentas, como mocinhos e como bandidos, matando e morrendo de mentirinha todo santo dia, e sem a proteção de Nossa Senhora, e diante dos olhos confortados da família, afinal o perigo está lá fora. Que sinapses esquisitas nesta crônica improvisada, não é mesmo?

[18 de fevereiro de 2016]

Do motorista de táxi

Táxi em rua do Bixiga
Foto Abilio Guerra

Pedestre convicto, ando pela cidade fundamentalmente a pé, com o apoio de metrô, ônibus, carona e táxi. Como há anos pego três ou quatro táxis por semana, sinto-me um especialista em taxistas. Assim, enquanto ando em destino à universidade, sinto-me compelido a traçar aqui uma rápida taxonomia borgeana do profissional taxista: a) os orgulhosos pelos filhos que se formaram na universidade; b) os mudos que não sorriem; c) os que dirigem aos soluços para encontrar mais semáforos fechados; d) os pilotos de fórmula 1 disfarçados; e) os narradores de histórias estranhas, fantásticas e maravilhosas; f) os animais políticos à espera de oportunidade; g) os animais; h) os religiosos (que, por sua vez, se dividem em gentis bondosos e raivosos coléricos); i) o bêbado do ponto da praça do Rotary; j) todos os outros não relacionados. Ontem o taxista que nos levou para casa não se intrometeu em nossa conversa, devolveu o troco completo, inclusive moedas, e sem eu pedir, sorriu para mim e para minha mulher, e nos desejou boa noite. Um taxista inclassificável.

[12 de fevereiro de 2016]

nota

NA – Oitavo artigo da série “Crônicas de andarilho”, com coletânea de pequenos textos originalmente publicados no Facebook de forma isolada. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>. 

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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