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my city ISSN 1982-9922

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Diante da eminente desativação do Minhocão para o tráfego de veículos, Vera Luz critica sua conversão em Parque e defende a desmontagem do elevado e a reconstituição da malha urbana histórica.

how to quote

LUZ, Vera. Desmonte do Minhocão. Restauração como medida de futuro. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.06, Vitruvius, jun. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6079>.



O Elevado Costa e Silva, Minhocão, é uma aberração urbana desde a origem, exemplarmente autoritária, que prestigia o sistema viário de passagem acima de todas as outras e mais importantes questões urbanas, desde logo a qualidade de vida de milhares de pessoas ao seu redor.

Áreas históricas se constroem coletivamente através do tempo e são sujeitas a intervenções de apropriação pelo presente, quando novos pactos são constituídos.

O tecido central de São Paulo, expandido em fins do século 19 e princípios do 20, consolida a conformação do Centro Novo, pela transposição em pontes do Vale do Anhangabaú e uma precisa, porém delicada transição em solo da Avenida São João, em forma de ladeiras, tão caras à articulação viária e à geomorfologia desta cidade. Este eixo remonta, em sua memória ancestral, ao sistema hídrico de fontes e cursos d’água soçobrados durante as várias camadas de urbanização indiferente. Contemplar imagens de Debret, Landseer ou Militão nos faz meditar sobre a responsabilidade de agir em tecidos históricos e enfrentar a pulsação de um presente que possa fazer sentido. Por vezes é preciso dar alguns passos para trás para avançar em novas direções.

Obras do elevado Presidente Arthur da Costa e Silva, 1970
Foto Ivo Justino [Acervo Fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo / PMSP]

A atual Avenida São João contém o rastro pregresso do caminho a Jundiaí e alcança sua completude como boulevard alargado de tradição afrancesada durante os anos 1920 a 1930 – eixo cuja culminância tem, a sudeste, a praça Antonio Prado e o edifício Altino Arantes de 1947, atual Banespa e, a noroeste, articulações viárias até o vale do Tietê e, mais remotamente, a vista longínqua dos finais da cidade vislumbráveis pelo perfil da Serra da Cantareira – anúncios resistentes, da base de natureza à espera de laços urbanos que a contemplem com novos paradigmas urgentemente necessários.

Centro é uma representação insubstituível do ponto de vista simbólico que deve ser confirmado pelo uso includente e participativo de sociabilidades máximas, vigorosas e mesmo conflitantes. Isto se dá em seu conjunto de espaços públicos, no sistema de calçadas, praças e parques que ancoram a vida urbana cotidiana e momentos de excepcionalidade, preferivelmente a céu aberto. O território urbanizado tem complexidade sistêmica e técnica em sua competência de articular diversas infraestruturas e conjuntos edificados de vários usos. Ao privilegiar um subsistema em detrimento dos demais esse organismo padece e se desvincula de seus princípios fundamentais. Em um centro histórico isto se torna muito grave.

O absurdo do Minhocão, ao privilegiar os carros por meio de uma estrutura suspensa que descaracteriza e estigmatiza o tecido urbano envoltório, depauperando os conjuntos edificados e seus usos predominantes residenciais e comerciais. Descaracteriza o sistema de espaços públicos, prejudica a qualidade de vida por tamponamento de seus baixos e é importuno, por sua excessiva proximidade, às áreas residenciais. O Plano Diretor recém-aprovado deu um passo importante preconizando sua desativação viária. Estudos da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET afirmam que o trânsito não será inviabilizado por esta medida. Soma-se a isto a evidente necessidade de alívio da utilização do transporte automotivo pelo incremento de sistemas coletivos e alternativos e há a possibilidade de reurbanização conveniente da calha ferroviária próxima como apontou projeto realizado em coautoria em 2006, pelos arquitetos Anne Marie Sumner, Flavio Marcondes, Hector Vigliecca e Tito Lívio Frascino e eu, no Escritório Experimental de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com consultoria técnica da Sistran, Renato Zuccolo e Irineu Idoeta, denominado Ligação Leste-Oeste. O Ministério Público recentemente decidiu pela inadequação do uso da carcaça do Elevado como parque ou área de lazer pelos motivos expostos de incomodidade e segurança. Do ponto de vista técnico-orçamentário, o desmonte e remoção são perfeitamente exequíveis, sem transtornos aos habitantes, orçado em R$ 28 milhões e, com reaproveitamento dos materiais será uma operação de lucro.

Convite publicado pela Prefeitura de São Paulo convidando a população para a inauguração do Elevado Costa e Silva, no dia 24 de janeiro de 1971
Imagem divulgação

Já o High Line de Nova York, um parque elevado numa linha de trem desativada, custou U$ 240 milhões (cerca de R$ 820 milhões). Certas anomalias devem ser extirpadas, pois são um erro histórico, felizmente, neste caso, restaurável. É uma inadequação in totum.

A área central é única e não merece adaptar, por costume, camadas equivocadas em sua constituição. Não se trata somente da utilização viária, mas de morfologia urbana nociva que não deve ser naturalizada nem confundida com modelos de parque suspenso que têm articulação urbana totalmente diversa.

Aqui no Brasil, a opção pelo parque seria um grande equívoco. Além de onerosa restauração estrutural, haveria necessidade de grandes investimentos em elementos de segurança, acessos e rotas de fuga, manutenção e refeitura de impermeabilização periódica.

Os pavimentos superiores dos edifícios estão próximos em calha estreita e confinada, o que geraria uma relação promíscua e conflitiva dos moradores dos prédios com o público do parque.

Toda a extensão de 3,4 km embaixo do Minhocão, mesmo com paliativos recortes para focos de luz natural e ar, seria condenada a um sub-urbanismo desqualificado para os térreos dos edifícios e demais espaços públicos centrais.

Praça Marechal Deodoro antes da construção do Elevado Costa e Silva, 1942
Foto Benedito Junqueira Duarte [Acervo Fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo / PMSP]

nota

NE1 – Publicação original do artigo, com outro título e algumas modificações feitas pela editoria do jornal: LUZ, Vera. Transformar Minhocão em parque permanente é a melhor opção para São Paulo? Não. Opinião na Coluna Tendências/Debates. Folha de S. Paulo, São Paulo, 18 jun. 2016, p. A3.

NE2 – O portal Vitruvius publicou diversos artigos e matérias sobre o Minhocão que expressam opiniões diferentes sobre o destino da infraestrutura: BARBOSA, Eliana Rosa de Queiroz. Minhocão e suas múltiplas interpretações. Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 147.03, Vitruvius, ago. 2012 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.147/4455>; COMOLATTI, Athos; SENA, Jaqueline; VON POSER, Paulo; LEVY, Wilson. O Parque Minhocão e a alma da cidade. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 166.01, Vitruvius, maio 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.166/5154>; FELDMAN, Sarah. Aprendendo com o Elevado Presidente Costa e Silva, o Minhocão. Resenhas Online, São Paulo, ano 08, n. 091.04, Vitruvius, jul. 2009 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/08.091/3029>; GORSKI, Michel. Abaixo o elevado. O desmonte do Elevado Costa e Silva e o efeito catalisador para a revitalização do Centro. Minha Cidade, São Paulo, ano 06, n. 061.02, Vitruvius, ago. 2005 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/06.061/1970>; LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Que o “Minhocão” não faça falta. Minha Cidade, São Paulo, ano 10, n. 120.05, Vitruvius, jul. 2010 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/10.120/3507>; LEVY, Wilson. Esfera pública, interesse público e o Parque Minhocão. Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 165.06, Vitruvius, fev. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.165/5086>; LEVY, Wilson. Parque Minhocão. Cidade e democracia: novas perspectivas. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 175.04, Vitruvius, fev. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.175/5431>; PORTAL VITRUVIUS. A marquise do Minhocão. Projetos, São Paulo, ano 16, n. 183.04, Vitruvius, mar. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/16.183/5971>; PORTAL VITRUVIUS. Prêmio Prestes Maia de Urbanismo / 2006. Projetos, São Paulo, ano 06, n. 067.02, Vitruvius, jul. 2006 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/06.067/2689>.

sobre a autora

Vera Luz é arquiteta (FAU Mackenzie, 1978), doutora (FAU USP, 2004), e professora titular da FAU PUC-Campinas. É professora convidada da Fundação Vanzolini em Sustentabilidade na Arquitetura e no Urbanismo, conselheira do CAU/SP e coordenadora adjunta da Comissão Permanente de Ensino e Formação do CAU/SP (atual gestão). Colaborou em projetos urbanos como Caraíba e Barcarena (Joaquim Guedes e Associados) e Eixo Tamanduateí em Santo André (Urbe / Cândido Malta Campos Filho). Realiza projetos certificados pelo selo AQUA-HQE, em coautoria com a arquiteta Mirtes Luciani, em três dos quais foram obtidas as pontuações máximas até hoje no Brasil nas Fases Programa e Concepção. É autora do livro Ordem e origem em Lina Bo Bardi (Giostri, 2014).

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