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minha cidade ISSN 1982-9922

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português
Um dos mitos que sobrevive sem base na realidade é a de que o táxi tira automóveis da rua. Um pouco de bom senso é suficiente para colocar por terra a crença, o que torna um privilégio sem sentido a presença de táxis em faixas exclusivas de ônibus.

como citar

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.04, Vitruvius, maio 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.



Em outra ocasião, nessa mesma série de crônicas, fiz uma classificação borgeana dos taxistas, muito ampliada pelos meus parcos leitores (1). Hoje, me detenho no veículo e poupo o condutor. Começo afirmando ser um usuário cotidiano de táxis (nunca usei o Uber, pois entendo o sistema como predatório), então é do ponto de vista confortável de quem senta no banco de trás que eu faço minhas considerações sobre o mito que o táxi melhora o trânsito ao permitir que diversos automóveis fiquem nas garagens das casas e apartamentos dos condutores.

É uma ideia que não resiste a uma simples verificação. Um táxi conduz apenas um carregamento por vez, que corresponde ao que estaria embarcado em um automóvel privado. Pode-se imaginar sem esforço que o táxi apenas substitui um automóvel: faz exatamente o mesmo percurso, ocupa o mesmo espaço na malha viária e durante o mesmo tempo (tal constatação justifica minha idiossincrasia de sempre preferir o táxi vazio trafegando ao que está parado, pois ao menos livro a cidade de um táxi vazio ocupando espaço indevido).

As duas únicas diferenças a anotar são a redução dos conflitos gerados nas calçadas na saída e entrada dos automóveis na origem e destino (mesmo supondo que os táxis têm que parar ao menos duas vezes para embarque e desembarque, implicando em algum distúrbio junto à calçada) e a diminuição de automóveis parados na rua (implicando em decréscimo de arrecadação na zona azul). Ou seja, a substituição do automóvel privado por um táxi não causa melhoria no trânsito urbano.

Assim, é um evidente privilégio de classe a presença de táxis em faixas exclusivas de ônibus, o que justifica que, baseados em dados técnicos da engenharia de tráfego, algumas administrações a proíbam total ou parcialmente. Foi o caso do ex-prefeito Fernando Haddad, que em 2014 aprovou a medida de restrição nas horas de pico, norma posteriormente revogada por conta da “opinião pública” defendida pelos taxistas, usuários de táxi e grande mídia.

Em pé de igualdade com o salão de beleza, o interior de um táxi é um espaço de sociabilidade imediato, onde motorista e passageiro se veem obrigados a trocar ao menos uma frase. Se o passageiro não emudecer mergulhado no universo virtual do celular tão logo indique seu destino, depois de se estimar se vai ou não chover (creio ser uma conversa universal), comenta-se o trânsito ruim, a presença indecorosa dos moradores de rua, os assaltos nas marginais devido a diminuição da velocidade e logo se chega à incapacidade do prefeito em entregar uma cidade decente para quem paga impostos.

Cada taxista é (me desculpem, não vou cumprir a promessa inicial de não falar dos gajos) uma espécie de muro pichado ambulante, que circula pela cidade reverberando frases de ódio de seus passageiros, fundadas na inconsciência da vida coletiva democrática. Ao contrário das pichações de muros e edifícios, em geral voz da periferia revoltada com as mazelas sociais e a ausência de serviços públicos, o muro pichado ambulante reitera palavras de ordem das camadas privilegiadas, que entendem a governança da cidade como um serviço particular para pessoas de bem.

Prefeito algum – nem mesmo o corajoso Haddad – consegue bater de cara com esses caras. Em sua postura mimética de refletir a opinião hegemônica de seus clientes, o taxista garante boas gorjetas, a sobrevivência da profissão, e – vamos voltar ao objetivo desse texto – a presença do seu bólido nas ruas da cidade. Por fim, observo que temos algumas situações onde o táxi aumenta o tráfego: em percursos pequenos, para duas ou três pessoas é igual ou mais barato o custo do táxi do que o de ônibus ou metrô, o que beneficia a nós que moramos e vivemos em um raio curto de poucos quilômetros em uma metrópole de quase duas dezenas de milhões de habitantes; e, caso mais raro, um grupo de cinco pessoas, que poderia ser transportado por um único veículo privado, ao se decidir pelo táxi vai colocar dois veículos na rua. Estatisticamente desprezível, mas de um simbolismo danado se considerada a vantagem que se amplia com o uso privado das faixas “exclusivas” do transporte coletivo.

Bem, preciso terminar a crônica, pois preciso pegar um táxi.

[06 de março de 2017]

notas

NA – Décima terceira publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

1
GUERRA, Abilio. Do motorista de táxi. In GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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