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my city ISSN 1982-9922

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Luiz Leite de Oliveira comenta as transformações ocorridas na Praça Jônathas Pedrosa em Porto Velho, e também em outros espaços urbanos históricos existentes no centro da Capital do Estado de Rondônia.

how to quote

OLIVEIRA, Luiz Leite de. Praça Jônathas Pedrosa. A marca da destruição. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 204.02, Vitruvius, jul. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.204/6606>.



Ela inspirava cultura, requinte e a contemplação. Arrancaram portes, luminárias de inspiração francesa, pisos desenhados de pedras portuguesas, jardins suspensos, tradução da bela época. Aos poucos a Praça Jônathas Pedrosa passou a ser saqueada e brutalizada, como se representasse algo nela que induzisse, libertasse, ou como se incomodasse a história deste lugar e de sua gente.

É como se os administradores de Porto Velho engendrassem um plano e quisessem apagá-la, fazendo-nos sentir vergonha dela. Algo concebido a partir da segunda metade dos anos de 1990 por prefeitos e vereadores, principalmente, e por setores de planejamento e obras – planos que desafiam a nossa inteligência.

Não é de hoje que as mais tenebrosas marcas da destruição de um patrimônio público vêm sendo aplicadas contra os nossos mais belos espaços urbanos históricos existentes no centro da Capital do Estado de Rondônia.

Primeiro Projeto de Reconstituição e Restauração no etilo art decó, 1995
Foto Luiz Leite de Oliveira

Alguns desses são verdadeiras raridades que retratam o nosso passado, a tradição cosmopolita e a elegante forma de falar. Mas o presente é simplesmente tenebroso e o que se vê são as praças de Porto Velho totalmente tomadas por ambulantes sem destino certo, uma cínica herança deixada pelos derradeiros prefeitos. Esses espaços públicos foram ou estão sendo destruídos e brutalizados. Percebe-se a desconstrução da identidade dos porto-velhenses.

Anteriormente, as praças Rondon e Aluízio Ferreira vergaram-se ao abandono e recentemente desmontaram a Praça Getúlio Vargas, inteirando-se com isso o rosário de espaços públicos transfigurados, desfigurados.

Invertem-se valores, e o que assombra é a indução das pessoas a não mais acreditar neles.

Praça Rondon em 1940, feita para a chegada de Getúlio Vargas
Foto Pereirinha

Nossas praças merecem ser reconstituídas, mas…

Cadê a fonte, os jardins suspensos, os degraus, os traços elegantes do centro da cidade?

As praças Rondon, Jônathas Pedrosa, Aluízio Ferreira, dos Engraxates, e outras mais estão entregues a ambulantes, e estes, acossados por traficantes travestidos de artesãos. Há quem diga que “pragas estão todos esses lugares”.

“A fonte secou /Quero dizer que entre nós tudo acabou!”

Assim diz o samba de Ataulfo Alves lançado em 1954 e que tocava nos arrasta-pés maravilhosos nos pequenos clubes nas proximidades do Triângulo, nosso bairro caribenho, de onde ainda se vislumbra uma das mais belas paisagens no lado côncavo de Porto Velho.

É claro que me sinto tentado a dizer que todo o Triângulo foi destruído, como dizem os políticos, devido ao fenômeno da natureza. Tal agressão ocorreu após o funcionamento da hidrelétrica de Santo Antônio, obra que lançou um dilúvio na direção da parte baixa perto do centro de Porto Velho.

Veio o salve-se quem puder e todos silenciam. É claro que incomoda, mas essa é nossa cultura do silêncio, do ostracismo. Mas por quê?

Sim, acabou. Por causa do cinismo de prefeitos e vereadores que lá estão em suas cadeiras, graças ao voto popular.

No centro da Rondon, passarela e jardins suspensos, um palco para eventos populares e retretas, e orquestras ao lado do Cine Teatro Resky. No fundo, o Fórum Rui Barbosa. Tudo destruído.
Foto Pereirinha

A Praça Jônathas Pedrosa e o centro de Porto Velho, ambos tiveram uma trajetória espontânea de canteiros e jardins com ramas de bouganvilleas numa quadra construída a partir da segunda década, nos primeiros 15 anos do século passado.

Mas essa praça só foi construída algum tempo depois. Inicialmente, naquele lugar foram abertos canteiros, conforme constatei depois de pesquisar bastante.

A praça que temos foi apenas trazida pelo Foto Pereira? Talvez não. Possivelmente tenha sido construída nos anos de 1930. Porque não nos anos de 1940, com a feição definitiva, inspirada na Praça Rondon.

Talvez fizessem alguns canteiros, porém, ela não estava pronta para as festividades da instalação do Município de Porto Velho em 1915.

Acredito que seja inseguro afirmar sobre a obra de praça, sem projeto e opinar na base do “ouvir dizer.” Permito-me dizer isso, após pesquisa feita para salvaguardar meu trabalho de reconstituição da Jônathas Pedrosa em 1995, depois de vencer uma licitação para a sua reforma.

Não localizei qualquer documento ou projeto dessa praça, apenas uma foto. E essa é a única imagem que localizei, captada pela lente mágica de Pereirinha, nos anos 1950.

Tudo é possível nesta “terra sem limite onde tudo se admite.”

Esquina das avenidas Presidente Dutra e Sete de Setembro. Correios, Padaria do Raposo, Mercado Central; No alto, o Palácio Rosado e a Praça Getúlio Vargas. Avenida com paralelepípedos e postes de trilhos da Madeira-Mamoré, centro de Porto Velho, 1950
Foto Pereirinha

Talvez não existisse uma só praça, por ocasião da instalação do Município de Porto Velho que não tinha porto. E como se chegava à sede do Município? O porto, aliás, os portos, da cidade, pertenciam ao Consórcio ferroviário da Madeira-Mamoré, e foram construídos a partir de 1912. Autoridades do Amazonas vindas para a instalação do Município, em 1915, tiveram a permissão para desembarcar à altura da sede da Estação Ferroviária Madeira-Mamoré (EFMM), atravessarem e ultrapassarem a Avenida Divisória, atual Presidente Dutra.

Assim fez Jônathas Pedrosa, então governador do Amazonas. Em outubro de 1940, já na administração brasileira da EFMM, o presidente Getúlio Vargas também o fazia, duas décadas e meia depois da instalação do município.

Uma coisa é certa: A Praça Jônathas Pedrosa, cuja autoria alguns atribuem ao português construtor José Ribeiro de Souza, no mínimo não teria as feições captadas nos anos de 1950 na foto de Pereirinha. Inspirava-se na Praça Rondon, desfigurada.

Seu terreno era irregular e aos poucos foi adaptado aos moldes de uma quadra. Esse processo que demorou anos foi diametralmente cortado, ou seja, sua planta fora adaptada aos triângulos separados pela rua hipotenusa, ou seja, via Ladeira Comendador Centeno e limitada pela Rua Barão Rio Branco a norte e Avenida 7 de Setembro ao sul. Esses eram os seus limites originais.

Praça Getúlio Vargas, fonte luminosa e marco de 1922, nos anos 1960
Foto Pereirinha

A praça foi se formando, melhorando por longos anos com diversas adaptações, praticamente sem projeto. Restaurada em 1995, foi novamente fotografada, não mais pelo saudoso Pereirinha, porém, por todos os que por ela se encantavam e dela tiveram piedade humana.

Na administração de José Guedes, tive a oportunidade de reconstituí-la nos moldes de 1940 e, após vencer a licitação, propus à prefeitura não apenas uma simples reforma, mas a restauração que incluiu elementos da arquitetura e urbanismo da conhecida belle époque, de inspiração francesa e muito usada no Rio de Janeiro.

É possível que a Praça Jônathas Pedrosa não tenha mesmo sido projetada.

Prevaleceram, portanto, a imagem fotográfica e os conhecimentos da cultura da belle époque, eu acredito, remexendo o baú de minhas lembranças. Ou seja, lembrança de um estilo pré modernista, do jardim suspenso com rosas vermelhas e bouganvilleas.

E o importante foi reconstituí-la, valorizá-la, tendo sempre por base o respeito ao povo de Porto Velho. Importante foi, como profissional da arquitetura e intelectual, em 1995, devolvê-la linda, contemplativa, extremamente atraente, elegante, de inspiração francesa como o protótipo original. Devolvê-la com muitas árvores, jardins suspensos, por que não flores, mureta ondulada, pedra portuguesa desenhada no piso, luminárias de inspiração francesa, reconstituí-a com essas ideias, vencendo um simples desafio da criação em art decó, Belle époque!

A nova praça

Entre a Barão e a 7, ao lado do antigo Buraco da Dadá, do grande carnavalesco Chicão. Pois é, a Jônathas, no pé da Ladeira Comendador Centeno, ficava ao lado de uma fonte, que  após a desativação das históricas caixas-d’água, sem serviço de abastecimento prejudicado, possibilitou a dona Dadá oferecer água da sua fonte, pura, mineral, na base da lata d’água na cabeça.

“Ah! Na rodilha, na subida, escorregava-se no pedregulho. Eram dois passos pra frente e dois pra trás, do jeito do bolero brasileiro. Sobe dois, escorrega um (no pedregulho), uma farra…”

E a bicicleta sem freio descendo a ladeira? Foi salvo pela hipotenusa, senão estrebucharia na praça.

Da mesma maneira que qualquer pessoa, no meu tempo de criança éramos apenas felizes, tínhamos tudo, fomos donos de nossa cidade. Quando cruzávamos a Jônathas Pedrosa, subíamos ou descíamos a ladeira encascalhada que ligava essa parte do centro da cidade à majestosa Catedral do Sagrado Coração de Jesus, ali no alto, sofisticada e imponente, guardando lá dentro a impressionante imagem do Cristo de braços abertos.

Naquele tempo, era um dos mais belos do Brasil, espécie de uma Capela Sistina, só que, no lugar das obras de Leonardo Da Vinci, do Vaticano, aqui a arte impressionante era de Ângelo Cerri. Infelizmente, hoje seu legado está em parte destruído.

Tudo, porém, era indescritível. No urbanismo, a Jônathas Pedrosa era uma espécie de tapete, um pedestal. Essa foi a minha inspiração. Ela ficou linda.

Por sorte, e assim tive umas das poucas oportunidades, de contribuir como arquiteto na minha terra e de trazer de volta, reconstituir a e restaurar.

Não demorou muito que os prefeitos de Porto Velho, em geral corruptos, com a anuência dos vereadores eleitos a partir da segunda metade dos anos de 1980. A exceção foi José Guedes, os demais pecaram por fazer a mesma burrice, a mesma coisa: reformas, construções sobre praças, ou praças sobre praças.

Tudo isso num modo sem escrúpulo de agir, no que resultou facilmente o atual camelódromo vergonhoso, favelizado.

O porto-velhense sente-se desafiado em sua inteligência, entretanto, quase sempre fica indiferente a esse processo de destruição das nossas referências, da nossa honra.

E acintosa e cinicamente a Prefeitura ainda coloca a bandeira do município no pátio ferroviário da EFMM, tombado em razão de o espaço ser considerado de excepcional valor cultural brasileiro. E o Iphan?

Mesmo que se a Praça Jônatas Pedrosa fosse tombada, esses errantes que estiveram na administração da Prefeitura a desrespeitariam.

Chega de humilhação!

notas

NE
OLIVEIRA, Luiz Leite de. Praça Jônathas Pedrosa. A marca da destruição. Rondônia, n.163452, Portal Gente de Opinião, fev. 2017 <www.gentedeopiniao.com.br/noticia/praca-jonathas-pedrosa-a-marca-da-destruicao-por-luiz-leite/163452>

sobre o autor

Luiz Leite de Oliveira é arquiteto, urbanista, estudou na UNB, trabalha na iniciativa privada. É autor do Projeto de Restauração e Elementos de Integração do Complexo Ferroviário da EFMM e Orla do rio Madeira. Autor da proposta de tombamento da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (2005). Autor do filme premiado O Delírio – Trilhos e Sonhos – Dreams and Tracks. Pesquisador do Patrimônio Histórico.

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