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my city ISSN 1982-9922

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Ponta Negra, pequena comunidade caiçara pertencente ao município de Paraty, viveu até hoje sem luz elétrica, mas a infraestrutura começou a ser instalada, sem as devidas precauções em mitigar o impacto ambiental e paisagístico.

how to quote

PRATA, Didiana. Promessa de futuro. Ponta Negra A.L. (Antes da Luz). Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 208.02, Vitruvius, nov. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.208/6773>.



Ponta Negra é uma comunidade caiçara pertencente ao município de Paraty RJ. Fica tão perto de um dos maiores centros históricos e turísticos brasileiros e muito longe da intelectualidade, da historicidade e do luxo paratiense. Nesse vilarejo sem energia elétrica vivem 200 moradores (escrevo esse relato em julho de 2017). A mata atlântica, para o bem ou para o mal, impede o acesso de veículos até esse pedaço de continente, encrustado entre a Ponta da Joatinga e a Praia de Trindade. Chega-se de barco ou a pé, por trilha, restringindo o número de visitantes a este pequeno paraíso. A praia é pequena e ainda guarda características de uma vila pesqueira. Na areia, vê-se redes do cerco (tipo de pesca cada vez mais rara nesse litoral), choupanas, barcos, canoas e dois barzinhos locais, pertencentes as duas famílias mais antigas da vila. A chegada de voadeira também é bastante peculiar, aterrissa-se diretamente na areia – aproveitando a inclinação da praia de tombo.

Frequento esse refúgio desde 1989. E não me canso de colecionar imagens desta paisagem paradisíaca espremida entre um paredão de montanhas e o mar aberto. As pedras no meio do mar, as cachoeiras, as trilhas entre as moradias, a Igrejinha, minha casinha na roça, o charme, o romantismo e o mistério ao cair da noite, quando ficamos a mercê do céu estrelado, da luz de velas, do fogo e da água.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Nesse inverno, a paisagem mudou. Ao desembarcar em Ponta Negra, me deparei com um monolito logo na entrada principal, na subidinha da praia para a trilha que leva à comunidade. A promessa da luz elétrica para esta última comunidade A.L. (antes da luz) deverá ser finalmente cumprida pelo programa federal “Luz para todos” até dezembro deste ano. A empreitada das instalações exige um planejamento e tanto: lanchinhas (as voadeiras) transportam os postes até pontos estratégicos. O desembarque exige traquitanas dignas de carregamento de pedras do século 18; um pedaço de pau com tramelas na horizontal, apoiadas nos ombros de meia dúzia de homens por poste. A cena é surreal. Tipo Fitzcarraldo em plena mata atlântica.

Os postes são cinzas, de pvc, e ainda estão reluzentes. Representam a promessa do futuro e farão, sem sombra de dúvida, uma baita diferença no desenvolvimento educacional e social dos moradores da vila. Os postes também são os ícones de um imaginário cotidiano e urbano e do sonho do acesso à televisão, geladeira, máquina de lavar, internet, ventilador, da motoserra, do compressor da cadeira do dentista, do funk carioca, da rede social.

Realizei o trajeto desde a praia dos Antigos, o local do desembarque dos postes, até a praia de Ponta Negra. São 2 km de sobe e desce a serem vencidos no meio da floresta, entre praias desertas e rios e montanhas – dentro de uma reserva intocável de Mata Atlântica, no Parque Estadual da Joatinga. Essa deriva, já praticada tantas vezes, a fim de fotografar a exuberância da mata, da flora e do mar, ganhou outro objetivo: registrar os postes dispostos ao longo do trajeto, os novos menires do nômade contemporâneo na floresta.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

A execução dessa obra de infraestrutura urbana – realizada em pleno século 21, entre as duas maiores cidades brasileiras (Rio de Janeiro e São Paulo) – evidencia falhas de um planejamento urbanístico e ambiental para um projeto desse porte. A energia solar, já usada como fonte de energia de muitas moradias da vila, além do enorme potencial de captação e produção de energia hidráulica, me parecem soluções mais coerentes. Passar fios à céu aberto e postes por uma reserva intocável de mata atlântica é no mínimo um ato questionável, visualmente chocante, e parece seguir às práticas do “sempre foi assim” e a lógica do “menor custo”. Será que a sociedade civil, as associações ambientais e sociais, não governamentais ou governamentais, responsáveis e envolvidas na preservação dessa reserva, não poderiam ter ido um pouco além? Teria sido uma oportunidade ímpar para um projeto interdisciplinar e colaborativo.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Os postes – na sua forma esbelta, plástica e artificial – marcam a paisagem, invadem a floresta, mimetizam com troncos de palmeiras, são os ícones dos tempos modernos e vislumbram uma promessa de uma vida mais confortável para a população local. No meio da mata, essas “coisas urbanas” ladeiam a estreita trilha de pedestres, seguindo o modelo de fiação e postes ao longo de vias. As condições locais dessa instalação “civilizatória” é cercada por árvores nativas e os cipós fatalmente invadirão os fios, numa luta inglória entre a mata e os fios elétricos. A manutenção será contínua – e a longo prazo, provavelmente bem mais cara do que o investimento em instalações subterrâneas, ou uso de outras fontes de energia. Mas vou deixar essa análise da infraestrutura para os especialistas e focar no viés paisagístico e estético dessa história.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Na vila, a localização dos postes remetem à esculturas urbanas, como os obeliscos Mausoléu aos Heróis de 32, conhecido como Obelisco do Ibirapuera, o Obelisco de Buenos Aires, na Praça da República – erguido em comemoração ao quarto centenário da fundação da cidade. E a icônica Coluna Infinita, de Brâncusi, em Târgu Jiu, Romênia.

Esses marcos urbanos, dispostos propositalmente no meio da paisagem, parecem ter uma função visual e simbólica de marco. Essas esfinges ferem o visual dos pontos de fuga e a imagem da paisagem bucólica das casas, da pracinha, da igrejinha, da escola. Estes postes, enunciam uma promessa de futuro para os moradores locais. E marcam uma mudança fundamental na vida dessas pessoas que estão a apenas 30 minutos de Paraty e ainda vivem sem energia.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

Imagino que aos olhos dos moradores locais, os postes representam a domesticação dessa natureza indomável por tantos anos. Na chave deste ato civilizatório, associo também outros elementos que compõem esse novo  imaginário caiçara, como o calçamento de pedras sobre as trilhas de terra e a construção das pontes pênsil de madeira sobre as cachoeiras, além da chegada da "vendinha", três benfeitorias ocorridas nos últimos dez anos.

É justamente na chave do consumo – de coisas da cidade, produtos industrializados – que vemos as representações mais emblemáticas dessa domesticação. É muito interessante observar o hábito das crianças locais de jogarem papéis de balas multicoloridas (nos tons rosas e verde-limão chocantes), além de saquinhos de salgadinho (de alumínio brilhante) no chão, no meio da trilha. Nesse gesto inconsciente de demarcação de território, elas deixam seus rastros. Esses resíduos coloridos, fluorescentes ou espelhados são íconicos e um dão um recado para nós (paulistas, cariocas, estrangeiros e ambientalistas) de que os nativos também tem acesso aos bens de consumo e produtos “da civilização”.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

A monumentalização desses postes-menires segue a lógica do “estive aqui”, do “chegamos”. Os fios ainda não foram passados. A NET, a Vivo e a Claro ainda não atacaram esse novo mercado. A igrejinha ainda não está “amarrada” visualmente pelos fios que estão por vir. Cabe a nós, arquitetos e pesquisadores, apontar para as questões de percepção estética da paisagem. Ao documentar essas transformações, não tenho pretensões de mudanças urbanísticas ou ambientais. Mas quem sabe contribuo à educação do olhar, da apreensão estética do lugar, do ver lento.

Meu próximo ensaio será D.L. (depois da luz). E a promessa dessa paisagem futura, aos olhos desta paulistana, não é nada promissora.

Ponta Negra, Paraty RJ, implantação de energia elétrica
Foto Didiana Prata

sobre a autora

Didiana Prata é arquiteta e designer gráfica, mestre pela FAU USP. Pesquisa o design e a estética das narrativas visuais em diferentes interfaces.

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