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minha cidade ISSN 1982-9922

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português
Análises e reflexões sobre a Praça Nereu Ramos e o seu entorno (Criciúma SC), compreendendo também as praças como espaços fundamentais para a vida urbana, para relações e trocas sociais, para demarcação de território e para apropriação de identidades.

english
Analysis and reflections on the Nereu Ramos Square and its surround (Criciuma SC), comprising squares as key spaces for urban life, social relations and exchanges, to the demarcation of territory and identities of ownership.

español
Análisis y reflexiones a cerca de la Plaza Nereu Ramos y su entorno (Criciúma SC), que comprende también las plazas como espacios fundamentales para la vida urbana, para las relaciones y cambios sociales y para apropriación de las identidades.

como citar

FELTRIN, Rodrigo Fabre. Praça Nereu Ramos. O desenvolvimento do núcleo inicial da cidade de Criciúma SC. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 211.02, Vitruvius, fev. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.211/6879>.



Esse estudo apresenta análises e reflexões sobre a Praça Nereu Ramos, situada no núcleo inicial da cidade de Criciúma, Santa Catarina, compreendendo as praças como espaços fundamentais para a vida urbana, para relações e trocas sociais e para demarcação de território.

Para com por o corpus do trabalho na proposta desse estudo, utilizei também a pesquisa documental e pesquisa bibliográfica. Os documentos investigados serão fotografias antigas que estão no Arquivo Histórico da cidade e o material bibliográfico diz respeito a obras e textos que foram publicados acerca da especificidade.

Memórias e identidades tem sido tema de muitos trabalhos acadêmicos que refletem acerca dos patrimônios culturais. Meu olhar para esse tema parte dos conceitos de “lugar” e de “espaço” através do meu conhecimento como arquiteto e urbanista e associo à Praça Nereu Ramos por ser habitante de Criciúma. Sendo assim, este artigo tem o objetivo de compreender o núcleo inicial da cidade de Criciúma – Praça Nereu Ramos e suas edificações do entorno – como lugares de memórias e de identidades.

Falar sobre a identidade, ou sobre as crises que ela passa, é assunto bastante delicado e que sempre está em voga nas cidades contemporâneas. Tanto no globo quanto no Brasil, a busca pelo novo e os avanços da globalização influenciam diretamente no consumo. Esses fatores interferem nas várias sociedades atuais e também no indivíduo (1).

É, geralmente, no núcleo inicial de uma cidade que se identifica o lugar mais dinâmico da vida urbana, e também é onde geralmente encontram-se os espaços públicos de maior relevância, os edifícios mais antigos, as referências de identidade, instituições públicas, religiosas e culturais, entre outros equipamentos urbanos com potencial de preservação (2).

O marco inicial da cidade de Criciúma é onde se encontra a atual Praça Nereu Ramos, espaço de extrema importância para a cidade quanto identidade do município. A praça originou-se a partir do cruzamento da estrada geral que ia da cidade de Urussanga até a cidade de Araranguá, o que acabou se tornando atrativo para comerciantes da região que ali locaram os seus estabelecimentos, demarcando o espaço do que viria a se tornar praça (3).

Hoje, considerando as dinâmicas existentes, a Praça Nereu Ramos vai além de um traçado delimitado. Ela é o epicentro do centro urbano, possui a maior representação do comércio, de serviços, da cultura, da política e da sociedade (4). Seu traçado permanece igual desde a sua fundação, mas é nos edifícios do entorno que se refletem as consequências da imposição do contemporâneo, que descaracteriza a memória coletiva e a identidade do centro, desrespeitando os aspectos patrimoniais que o espaço e as edificações possuem.

No caso dos centros urbanos históricos que se desenvolvem de maneira desordenada e que sofrem da apropriação comercial e da mídia, é de extrema importância que se considere não só uma edificação ou um espaço isolado, mas todo o contexto em que o centro urbano se encontra, como no caso desse estudo, a Praça Nereu Ramos em Criciúma.

A praça e a cidade

O território em que se desenvolveu a cidade de Criciúma era local de uma das maiores concentrações de carvão mineral do Brasil, o que fez com que a cidade se tornasse um centro de mineração e a principal economia da cidade era a produção carbonífera. A ferrovia, que atravessava a cidade no sentido leste-oeste, era o meio de transporte que se utilizava para fazer o transporte da mercadoria. Em 1923, a ferrovia também dividiu os trilhos com o transporte de pessoas, mas o principal sempre foi o carvão.

O marco inicial da cidade de Criciúma é onde se encontra a atual Praça Nereu Ramos, espaço de extrema importância para a cidade tanto como estrutura fundiária quanto identidade do município. Originou-se a partir do a partir do cruzamento entre a estrada geral que ia da cidade de Urussanga até a cidade de Araranguá com a linha férrea. A primeira edificação a se instalar no local foi um estabelecimento comercial que servia como ponto de parada para os tropeiros que passavam. Esse fator acabou se tornando atrativo para outros comerciantes da região que ali locaram os seus estabelecimentos e moradias, demarcando o espaço do núcleo inicial da cidade que viria a se tornar praça. Mas, antes disso, o espaço deu lugar a um campo de futebol que deixou de existir mais tarde.

Croqui da Praça Nereu Ramos e seu entorno imediato em 1900
Desenho do autor

Em 1895, ergueu-se uma capela de frente para o campo de futebol e, posteriormente, em função disso e da construção de novas casas, em 1917 o campo deu lugar a uma praça. Inicialmente o espaço da praça era de propriedade particular e só mais tarde passa a ser de uso público. A partir dessa abertura ao público, a área passa a se chamar Praça Etelvina Luz. Vinte anos depois, em 1937, é que a praça é batizada como Praça Nereu Ramos, nome que é conhecida até hoje (5).

A praça é um dos espaços públicos de grande importância para a cidade de Criciúma/SC. Foi palco de diversos eventos significativos do município, além de ser endereço de órgãos importantes como a primeira prefeitura e a administração da Fundação Educacional de Criciúma – Fucri.

Inicialmente o entorno da praça era basicamente residencial, mas, em 1930, as casas foram substituídas por prédios de dois e três pavimentos ou então tiveram suas fachadas adaptadas para alcançar o movimento arquitetônico da época, o Art Deco, que caracterizou o centro da cidade. Nessa mesma época, o desenho da praça foi delimitado pelo ajardinamento e em 1966 o espaço recebeu calçamento.

Croqui da Praça Nereu Ramos e seu entorno imediato em 1950
Desenho do autor

No início dos anos 1980, em comemoração ao centenário da cidade, o entorno da praça Nereu Ramos foi totalmente (re)pavimentado, impedindo a circulação de veículos, dando origem a um grande calçadão, que permite a integração, convívio, lazer e entretenimento das pessoas, servindo também como espaço de manifestações culturais, políticas, eventos efêmeros, feiras e estimula a apropriação e as relações sociais.

Croqui da Praça Nereu Ramos e seu entorno imediato em 1980
Desenho do autor

Atualmente, a praça passou por uma série de reformas e obras necessárias para melhoria da infra-estrutura, mas sempre se manteve presente nas lembranças da sociedade que tem uma imagem da praça como o local onde tudo existe e pode ser desfrutado. Dessa forma, podemos perceber como os moradores da cidade já possuem forte relação com o caráter comercial que o entorno da Praça Nereu Ramos tomou, além de automaticamente associar todo o espaço como sendo o centro da cidade.

Edifício Filhinho na década de 1950
Foto divulgação [Arquivo Histórico Pedro Milanez, Criciúma SC]

As edificações privadas do entorno da Praça Nereu Ramos fizeram parte processo de consolidação do espaço desde a sua fundação e tiveram a sua conexão reforçada com a implantação do grande calçadão. Além delas, outras edificações como a atual Casa da Cultura e a Catedral São José também reforçam a característica de centro urbano.

Calçadão da Praça Nereu Ramos
Foto divulgação [Arquivo Histórico Pedro Milanez, Criciúma SC]

Os sobrados Art Deco possuíam uma característica especial quando construídos em esquinas: elas eram chanfradas de modo que a esquina ficasse marcada através da arquitetura e se tornasse ponto de referência na cidade. Em meio aos edifícios que tiveram essa tipologia, destacam-se dois deles: o edifício Filhinho e o edifício São Joaquim, que tinham no térreo os principais cafés da cidade, Café São Paulo e Café Rio, respectivamente.

Interior do Café São Paulo
Foto divulgação

O edifício Filhinho foi construído em 1946, e é um dos exemplares originais da época que mais preservam a sua característica original e que já virou referência na cidade. Ele está localizado na esquina das ruas 6 de janeiro e Conselheiro João Zanette, ambas totalmente calçadas. Antes da construção do edifício, o Café São Paulo já existia desde a década de 1920 em uma casa que ficava no mesmo local. A propriedade era de Henrique Lodetti e este a vendeu para Abílio Paulo, que então decidiu pela demolição da casa e construção do edifício Filhinho. O Café São Paulo se manteve no local, ocupando o andar térreo em melhores condições que a anterior.

Rua João Zanette. Na direita o Edifiício Filhinho na década de 1960
Foto divulgação [Arquivo Histórico Pedro Milanez, Criciúma SC]

Em um dos andares superiores, em agosto de 1947 foi instalada uma central com 50 aparelhos para a obtenção da primeira rede de telefones em Criciúma. No outro andar, logo após o término da construção, nasceu a Rádio Eldorado. As atividades da rádio acontecem nos altos do Café São Paulo até o ano de 1955, quando foi adquirida por Diomício Freitas e transferida para o edifício São Joaquim.

Início das obras do calçadão em frente a Igreja Matriz
Foto divulgação [Arquivo Histórico Pedro Milanez, Criciúma SC]

O edifício São Joaquim é datado de 1941 e atualmente é de propriedade da Diocese de Criciúma. Está localizado na esquina da rua João Pessoa (parte calçadão) e da Praça Nereu Ramos. Antes do edifício, havia um sobrado onde funcionava a farmácia São José. Logo depois de pronto em 1942, no andar térreo, é fundado o Café Rio uso que se mantem até os dias atuais. O atual proprietário adquiriu o bar em 1975. Originalmente, o Café Rio ocupava o pavimento térreo em toda a sua extensão. Porém, por volta de 1952, o andar foi re-dividido e se criou uma nova sala comercial, onde funcionou por algum a loja Lanatex e atualmente funciona a Relojoaria e Ótica Luz.

Nos andares superiores, atualmente funciona parte da sede administrativa da diocese de Criciúma, mas no ano de 1951, o edifício São Joaquim passou a ser sede da Rádio Eldorado. Depois da mudança da rádio para os altos do morro Cechinel, as salas do edifício (que eram de caráter exclusivamente comercial) ficaram alugadas até serem ocupadas pela diocese em 1999.

Edifício São Joaquim na esquina, com dois pavimentos, e calçadão na sua inauguração em 1980
Foto divulgação [Arquivo Histórico Pedro Milanez, Criciúma SC]

Segundo Luiz Fernando Balthazar, os cafés São Paulo e Rio eram locais de encontro diário dos trabalhadores, comerciantes, juízes e recém-chegados à cidade (6). Era ali que as noticias e informações se espalhavam. Era ali, na Praça Nereu Ramos e nas edificações do entorno que todo o processo de expansão, de articulação de apropriação e de identificação aconteceu.

A partir do resultado desta pesquisa, pode-se reforçar a importância da compreensão do núcleo inicial de uma cidade e o seu processo de expansão e desenvolvimento. Uma cidade tem no centro a sua primeira área urbana, e é através dele que surgem os primeiros manifestos sociais, culturais, tecnológicos e espaciais, assim como atividades de lazer, espaços de contemplação, espaços de encontro e também aspectos de poder, tanto políticos quanto ideológicos.

No caso da Praça Nereu Ramos, a vida urbana está diretamente conectada com as edificações do entorno sendo transformadas, junto da praça e pela própria população, em protagonistas do núcleo central. A preservação dessas edificações histórias e das dinâmicas atuais é fundamental para que a memória e a identidade de uma cidade se mantenham acesas.

Preservar as construções representativas da herança urbana também é de extrema necessidade para que seja possível o reconhecimento do lugar. Edifícios são referencias dentro da cidade, e essas referencias são fundamentais para que a população se identifique com o espaço, evocando memórias, conferindo uma imagem nítida da cidade e dando sentido de lugar.

notas

NE –  artigo baseado na seguinte publicação: FELTRIN, Rodrigo Fabre. Praça Nereu Ramos: núcleo inicial da cidade como lugar de memória. In: Anais do Simpósio Científico 2017 – Icomos Brasil. Anais... Belo Horizonte, Instituto Metodista Izabela Hendrix, 2017 <https://even3storage.blob.core.windows.net/anais/60333.pdf>.

1
NASCIMENTO, Dorval do. Faces da Urbe: Processo identitário e Transformações urbanas em Criciúma/SC (1945-1980). São Luís/Criciúma, Café & Lápis/Ediunesc, 2012; HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 5a edição. Rio de Janeiro, DP&A, 2001.

2
VARGAS, Heliana Comin; CASTILHO, Ana Luisa Howard de (Org.). Intervenções em centros urbanos: objetivos, estratégias e resultados. 2a edição. Barueri, Manole, 2009.

3
BALTHAZAR, Luiz Fernando. Criciúma – memória e vida urbana. Dissertação de mestrado. Florianópolis, Geografia UFSC, 2001.

4
Idem, ibidem.

5
Idem, ibidem.

6
Idem, ibidem.

sobre o autor

Rodrigo Fabre Feltrin é arquiteto e urbanista. Professor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Escola Superior de Criciúma – Esucri. Especialista em História e Cidade: Patrimônio Cultural e Ambiental. Mestrando em Educação no PPGE – Unesc. Idealizador e membro do blog História e Cidade.

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