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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
O artigo toma o Parque Anhembi como documento material relevante para além do campo disciplinar da arquitetura mas trazer a sua relação com outras transformações, da cultura, da vida social e econômica, dentro da nova condição metropolitana da cidade.

english
The text explore the Parque Anhembi as a relevant material document beyond the disciplinary field of architecture but to bring its relation with other transformations: culture, social and economic life, within the new metropolitan condition of the city.

how to quote

OLIVEIRA, Raíssa. Afinal, qual a importância histórica do Parque Anhembi para a metrópole? Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 213.04, Vitruvius, abr. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.213/6949>.



Nestes últimos dois anos o Parque Anhembi vem sendo foco de discussões e disputas na cidade de São Paulo. Caberia discutir estes embates, principalmente, o andamento do processo de aprovação da sua privatização pela prefeitura de São Paulo cuja fórmula segue coerente com a agenda política da atual gestão demonstrando a parcial intenção em tornar a cidade mais atraente para o setor imobiliário. Caberia sim discutir os instrumentos silenciadores das opiniões divergentes ao interesse especulativo, e cabe dizer, interesses conflitantes que deveriam existir e que até então eram passível de diálogo mas que agora não são. Caberia discutir então o preço político da representação e da democracia nesse caminho, sim. Caberia discutir o preço desses acontecimentos para o futuro da gestão da cidade, e principalmente, para o nosso serviço de preservação cujo valor está sendo bastante alto. Porém este artigo pretende simplesmente esclarecer sobre a importância do Parque Anhembi para a metrópole paulista.

O que se percebe até o momento é que tanto as publicações sobre o Parque Anhembi como o conteúdo da sua defesa partem das edificações do complexo separadamente. Pode-se citar como exemplo, o projeto e a construção da estrutura metálica do Pavilhão de Exposições, calculada pelo matemático canadense Cedric Marsh (1924-2013) a partir de um conhecimento técnico do cálculo estrutural complexo das treliças espaciais ou da aplicabilidade do alumínio na engenharia civil ainda muito restrito no mundo; o projeto dessa estrutura executado pelo engenheiro mecânico Jairo Lisboa (1924) cujo trabalho foi traduzir os cálculos de Marsh para o desenho de cada peça da estrutura, criar um sistema de produção de elementos na indústria do alumínio ainda restrita no Brasil e imaginar o desenho do canteiro de obras para a montagem dessa treliça quadrada de 270 metros de lado levantada de uma só vez.

Outro exemplo muito citado é a “cúpula” do Auditório Celso Furtado do Palácio das Convenções, desenhada dentro de uma forte colaboração entre arquitetura e engenharia, entre forma e cálculo, caracterizando inclusive um método de trabalho particular dentro do cenário da prática profissional neste momento da década de 1960-70 na arquitetura paulista e que se destacaria no cenário nacional. Nesse caso particular da definição da estrutura em concreto protagonizou o engenheiro calculista de concreto armado Mario Franco (1929) e sua relação com o arquiteto urbanista Jorge Wilheim (1928-2014).

Pode-se afirmar que esse processo de definição formal ora evidenciado pelo memorial de cálculo executado à mão por Mario Franco e executado no Parque Anhembi ainda escondem pormenores da arquitetura desse período comparável com a relevância do trabalho realizado pela dupla Oscar Niemeyer e Joaquim Cardoso na década de 1950 ou em Brasília por exemplo. Porém há muitos fatores que fizeram com que esse nosso legado artístico/arquitetônico fosse valorizado de forma desproporcional em um e em outro projeto. Seria possível citar uma séries deles, mas o mais obvio é a evidencia mundial sobre a arquitetura brasileira durante um período anterior à construção da capital brasileira.

Analisar com mais profundidade cada edificação do Parque Anhembi aqui demonstrado rapidamente já seria suficiente para entender que ali se concentra uma série de relevâncias que evidenciam um valor cultural inestimável não apenas para a cidade paulista mas também no âmbito nacional. Porém é importante ressaltar que essas análises fragmentam a idealização do Parque Anhembi como um conjunto, com toda a sua pretensão urbana e territorial muito evidente e ainda pouco reconhecida. Que fique claro que não se pretende afirmar que suas edificações não são importantes, até porque respostas inéditas não se encerram por aqui, porém, cabe destacar outras características ainda pouco exploradas e que merecem ser conhecidas. Certamente, entre a proposta do complexo destinado ao turismo de negócios e sua concretização existem diversos conflitos de interesses, definição de normas, criação de leis, implementação de infraestrutura local, enfim, aspectos que podem enriquecer a nossa visão da história da arquitetura ou do projeto arquitetônico, fazendo dele parte de um processo urbano irredutível a mero contexto.

Em primeiro lugar, é preciso entender a demanda do promotor de feiras Caio de Alcântara Machado (1926-2003) em 1963: um pavilhão quatro vezes maior que o Pavilhão das Indústrias do Parque Ibirapuera de forma a encampar as feiras de negócios que cresciam rapidamente na capital paulista. E a resposta do arquiteto urbanista Jorge Wilhem: um complexo ligado ao turismo de negócios composto pela tríade Pavilhão de Exposições, Palácio das Convenções e Hotel.

O enriquecimento do programa não é acaso, significa um enfrentamento da questão metropolitana e o entendimento de uma situação particular de concentração da riqueza nacional e consolidação do capital no território, em que pese, o seu rápido crescimento econômico e os grandes saltos demográficos assistidos por políticas urbanas ineficientes - o que motivou pelo menos duas décadas de investigação sobre o “objeto metrópole” em vários campos investigativos. Não apenas o tema do planejamento regional emergiu predominantemente no período de 1950 à 1970, mas também um novo perfil profissional que passa a atuar na elaboração de propostas mais articuladas, inclusive na própria configuração de uma legislação de zoneamento urbano na cidade.

A construção desse empreendimento respondia então à necessidade setorial da indústria em expansão em São Paulo naquele momento de estruturação de uma cidade metrópole e produzia consequências relevantes no espaço construído da cidade, principalmente, na ocupação da Zona Norte e da várzea do rio Tietê, uma vez que essa área ainda seria uma possibilidade, conforme se vê no mapa abaixo.

Mapa da explosão urbana em São Paulo (comparativo de 1881-1954) com intervenção da autora da tese: 1) ferrovia; 2) centro antigo; 3) área do Parque Anhembi; 4) Rio Tietê [WILHEIM, Jorge. São Paulo metrópole 65. São Paulo, Difel, 1965]

Por outro lado, o empreendimento possibilitaria a realização de grandes eventos na cidade, criando uma dinâmica econômica que só fazia sentido em um contexto de consumo massificado e de produção simbólica de uma imagem da cidade como polo de modernidade e desenvolvimento. Dava ainda condições de criação de um novo centro, não mais aos moldes das intervenções baseadas num único centro, monopólico e polifuncional, porém, coerentes com dinâmicas históricas de ocupação lineares que já se desenhavam no território paulista desde a sua constituição, contribuindo então com a fragmentação das funções da centralidade urbana, e assim, afirmando outra forma de se relacionar com o espaço.

A proposta apoiava-se assim em uma visão mais ampla das dinâmicas econômicas na cidade, e consequentemente, nas carências técnicas disponíveis em seu território para abranger essas novas demandas, como por exemplo, a rede de circulação e transporte, à oferta de hotéis, restaurantes, espaços para eventos etc. Respondia-se também ao crescimento de um setor que então já se estabelecia fortemente na cidade, como centros de compras varejistas (25 de março, Brás) ou negócios (Avenida Paulista).

A escala urbana é manifesta não apenas pelo gigantismo dos principais edifícios do complexo ou sua localização estratégica, mas pelo ajuste deste programa sobre a forma de um centro cívico. Fica claro no projeto a vontade de se estabelecer um local de encontro e convivialidade às margens do Rio Tietê. Jorge Wilheim e sua equipe propõem assim conjugar a criação desse equipamento economicamente estratégico para o setor privado (dos empresariais e comerciais) dentro de um espaço público.

A praça ganha então uma função de articulação, de definição de limites entre essas esferas, de possibilidade de ocupação da várzea através de outras atividades que pudessem atrair os cidadãos de São Paulo os quais pouco ou nenhum interesse tivessem nos eventos ocorridos tanto no pavilhão como nas convenções: um grande espelho d´água, playground, restaurante, uma tribuna, um museu, um circo aquático.

Parque Anhembi, maquete, arquitetos Jorge Wilheim, Miguel Juliano e Massimo Fiocchi, São Paulo, 1963-1972. Área verde: Praça em nível; 1) marco museu; 2) restaurante; 3) tribuna; 4) administração
Foto com interferências da autora [Instituto Moreira Sales, s/data]

A complexidade que o programa adquire demanda uma preocupação com as transições entre público e privado solucionadas através de vários instrumentos, como, a forma de implantação dos volumes e recursos paisagísticos. A partir de alguns recursos da arquitetura, especialmente do partido adotado na implantação do Palácio das Convenções, semienterrado e ladeado por taludes configurando uma grande plataforma de ligação entre praça-convenção-hotel, ou mesmo o recurso do espelho d’água que limitaria a entrada do visitante sem a utilização de muros ou grades. Recursos estes adotados em outros concursos da época, principalmente nas elaborações dos centros cívicos ou administrativos da década de 1960. A preocupação com a escala urbana do projeto e sua defesa através da praça como estruturadora de todo o complexo pode ser percebida em outros níveis, através dos termos estabelecidos pela lei de concessão de uso do terreno (os quais foram completamente esquecidos por aqueles que exploraram o seu potencial econômico por quase 40 anos).

Questão à parte, ainda há que destacar a escala urbana do projeto na presença de alguns projetos complementares que acompanharam a idealização do Parque Anhembi, desenvolvidos já na década de 1970 por equipes especializadas. Jorge Wilheim gerenciou uma equipe interdisciplinar consciente de uma produção com objetivo maior que não apenas uma encomenda privada. Seria a evidência de uma modificação da prática profissional, do trabalho em equipe frente um problema coletivo e que se tornava imperativo neste período.

A considerar, o projeto paisagístico encomendado a Roberto Burle Marx (1909-1994) o qual não deixa de pautar o princípio urbano em afirmar particularidades paisagísticas da cidade e sua qualidade ambiental através do equilíbrio forma-função; o projeto de sinalização, comunicação visual e equipamento urbano elaborado pelo escritório Cauduro Martino Arquitetos Associados cujo raciocínio seria a criação de um "sistema" até então implementado em outros projetos, como o do Metrô de São Paulo (1967) e, mais adiante, em outros projetos ligados ao Estado; além de outros, como o projeto de iluminação executado por Lívio Edmonto Levi (1933-1973), a proposta do nome “Parque Anhembi” elaborada por Décio Pignatari ou mesmo a adoção das poltronas projetadas por Sergio Rodrigues (1927-2014). Essa última, apesar de não pertencer ao projeto específico do Parque Anhembi, viria afirmar a preocupação em estabelecer contatos diretos com o design industrial nacional como parte complementar do projeto arquitetônico e dentro de uma nova ótica e realidade que se pretendia promover.

Por fim, e não menos importante, a visão do conjunto permite analisar três níveis de produção no canteiro de obras naquele período, a “industrialização” da estrutura metálica do Pavilhão de Exposições, a pré-fabricação do concreto nos edifícios internos do Pavilhão de Exposições e o concreto armado executado in loco do Palácio das Convenções, os quais são frequentemente verificados pela historiografia da arquitetura de forma independente mas que aqui superpostos permite uma verificação importante sobre as condições reais da modernização na metrópole e no país.

Parque Anhembi, contexto urbano, arquitetos Jorge Wilheim, Miguel Juliano e Massimo Fiocchi, São Paulo, 1963-1972
Foto Nelson Kon

sobre a autora

Raíssa Pereira Cintra de Oliveira é arquiteta (PUC-Campinas, 2002), mestre e doutora em História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo (FAU USP, 2008 e 2016). É professora no curso de arquitetura do Centro Universitário Adventista de São Paulo – Unasp e atua profissionalmente na área de projetos arquitetônicos e gerenciamento de obras.

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