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minha cidade ISSN 1982-9922

sinopses

português
Para ajudar a moldar o desenvolvimento de políticas urbanas, este artigo analisa o conceito geral de urbanidade e o decompõe no seguinte conjunto de parâmetros: diversidade, densidade, compacidade, segurança e qualidade do espaço.

english
To help shaping the development of urban policies, this paper analyzes the general concept of urbanity and breaks it down to the following set of parameters: diversity, density, compactness, security, and space quality.

español
Para ayudar a dar forma al desarrollo de políticas urbanas, este trabajo analiza el concepto general de urbanidad y lo divide en los siguientes parámetros: diversidad, densidad, compacidad, seguridad y calidad del espacio.

como citar

CHAKUR, Pablo. Urbanidade: conceito e parâmetros. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 214., Vitruvius, maio 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.214/6983>.



Há inúmeras razões para se recuperar e promover os espaços públicos de uso coletivo com qualidade. A formação da identidade da cidade é uma delas, porque, nesses espaços, acontecem a diversidade de hábitos cotidianos casuais e individuais, a exteriorização da vida privada e a exposição do indivíduo a experiências da pluralidade humana (1). É nesses espaços que experiências de interesses coletivos acontecem.

Conceituando a urbanidade

A urbanidade, caracterizadora da vida urbana, tem sido objeto de estudo de diferentes especialidades, como a filosofia, as ciências sociais e, particularmente, a arquitetura e urbanismo. Contudo, como adverte Vinicius Netto, trata-se de um conceito “difuso e pouco sistemático” (2).

Diante dessa imprecisão, e seguindo a estratégia de Douglas Aguiar (3), tomo, como uma primeira aproximação, esta definição lexicográfica:

“Urbanidade substantivo feminino: 1. qualidade ou condição de ser urbano (no sentido de ‘civilizado, cortês’); 1.1 fig. Conjunto de formalidades e procedimentos que demonstram boas maneiras e respeito entre os cidadãos; afabilidade, civilidade, cortesia” (4).

Observe-se que a definição destaca atributos da urbanidade que caracterizam o habitante da cidade (o indivíduo urbano): ‘ser urbano’, ‘ser civilizado’, ‘ser cortês’ e ‘ser afável’. Mas, por outro lado, a urbanidade qualifica também a cidade (espaço urbano).

A partir das considerações de Aguiar, é possível extrair qualidades opostas que separam os espaços com urbanidade (espaços hospitaleiros, coletivos, extrovertidos e de diversidade) dos espaços sem ou com baixa urbanidade (espaços inóspitos, individuais, introvertidos e de padronização).

Bairro modelo sem vida urbana: Programa Minha Casa Minha Vida, Rio de Janeiro
Desenho do autor [baseado em foto da Prefeitura do Rio, publicada pelo G1]

São oposições como essas – e considerar a extensão de vida urbana entre vida a morte como o faz Jane Jacobs (5) em seu livro Morte e vida de grandes cidades – que sugerem a existência de um gradiente de urbanidade, posto que a maximização do grau de urbanidade maximiza as qualidades caracterizadoras dos espaços com urbanidade.

As considerações até este ponto permitem resumir que a urbanidade é uma característica que se aplica a dois tipos de elementos, ‘indivíduos’ e ‘espaços’, e designa um tipo particular de relação que qualifica e instaura, de modo recíproco e indissociável, os espaços e os indivíduos que dela participam: os espaços urbanos e os cidadãos que neles habitam.

A urbanidade é uma característica mensurável (ver exemplos em atributos opostos e atributos entre limites) dos indivíduos urbanos (a civilidade dos indivíduos é construída e estimulada pela vida urbana) e dos espaços urbanos (ver exemplos em tipos de escalas de espaços urbanos) e temporalmente sensível (por ex,: a percepção da aceleração do tempo nas grandes cidades e a sucessão cíclica de eventos em um mesmo espaço urbano). Define-se por atributos qualitativos (por ex.: [+urbano], [+civilizado], [+cortês] e [+afável]) e atributos quantitativos (por ex.: [quantidade x], [intensidade x], [extensão x] e [densidade x]. Ao se postularem atributos opostos (por ex.: [-urbano], [-civilizado], [-cortês] e [-afável]) ou atributos entre limites (por ex.: [quantidade entre x e y], [intensidade entre x e y], [extensão entre x e y] e [densidade entre x e y], postulam-se também graus em um gradiente de aferição de urbanidade. A aferição pode ser verificada em diferentes escalas de espaços urbanos (por ex. global, local, cidade, bairro, rua, prédio, esquina, calçada etc.) e em diferentes tipos de espaços urbanos (por ex.: espaços urbanos públicos de uso coletivo, espaços urbanos privados de uso coletivo, espaços urbanos públicos de uso restrito etc.).

Roda de capoeira na Avenida Paulista, São Paulo
Desenho do autor [baseado em foto de Dario Oliveira, publicada pelo Estadão]

Como síntese, faço assim a seguinte conceptualização do conceito: a urbanidade, sinônimo de civilidade nas relações interpessoais sob qualquer condição de ser urbano, é condicionada quantitativamente e qualitativamente por parâmetros que modificam seu gradiente de intensidade. As relações interpessoais no espaço público de uso coletivo dão significado ao indivíduo e ao espaço urbano e marcam a Urbanidade ao longo do tempo.

Após concluir esta parte, onde foram destilados os ingredientes que compõem o conceito de urbanidade, abre-se o caminho para sua parametrização logo a seguir.

Parametrizando o conceito de urbanidade

Define-se ‘parâmetro’ como uma característica diferencial que é passível de ser medida direta ou indiretamente. Trata-se de um elemento de apreciação necessário para se julgar a urbanidade e recebe a denominação de parâmetro de urbanidade. Sua seleção e descrição serão fundamentadas nos estudos de Vinicius Netto (6), Jane Jacobs, Edward Glaeser (7), Jan Gehl (8), Vishaan Chakrabarti (9) e Richard Rogers (10). Especificamente, considerando os atributos qualitativos e quantitativos do conceito de urbanidade levantados na seção anterior e as discussões sobre esses e outros atributos na literatura cuja quantidade ou qualidade afetam a urbanidade, selecionei estes cinco parâmetros para articular o conceito: diversidade, densidade, compacidade, segurança e qualidade física do espaço.

a) parâmetro diversidade

A noção de diversidade, que define o parâmetro, reúne propriedades que denotam multiplicidade, variedade, diferença e pluralidade e a literatura enfatiza que é condição fundamental para o convívio entre os diferentes (pessoas de culturas e níveis sociais diferentes) e representa a possibilidade da civilidade do convívio. Em outras palavras, a diversidade associa-se à experiência entre os diferentes na formação da identidade do indivíduo. Nesse sentido, o convívio entre pessoas de classes sociais, culturas, etnias e faixas etárias diferentes é indispensável para o aumento da urbanidade.

O espaço urbano diversificado defendido por estudiosos, como Jan Gehl, surge como resposta às heranças perversas deixadas pelo planejamento urbano moderno, através do qual as funções se distribuem de maneira segregada. Além disso, destaco também as afirmações de caráter físico-espacial ressaltadas por Gehl que interferem na diversidade. Para ele, a condição para se evitar o declínio dos espaços públicos de uso coletivo é fomentar a diversidade de usos distribuída de forma integrada e não segregada. Atividades diversas dispostas nos espaços de transição, ou seja, os espaços de confluência urbana entre interior e exterior das edificações, são atrativos para inúmeras experiências humanas.

Diversidade de atividades no limite entre o público e o privado em Nova York
Desenho do autor [baseado em foto publicada por Jan Gehl]

Pode-se afirmar, em resumo, que o parâmetro diversidade define, como positivo, a mescla de pessoas de classes sociais diferentes ocupando um espaço urbano de uso coletivo e diversificado, composto por usos integrados e diferentes e morfologicamente distintos.

b) parâmetro densidade

Do ponto de vista quantitativo, a seleção da densidade como parâmetro decorre do pressuposto de que a probabilidade da civilidade do convívio seja maior onde há concentração de pessoas em um determinado território. Maiores aglomerações aumentam a comunicação pelo contato pessoal e pela troca de informações. Densidade veicula o sentido de maior integração das atividades diárias no âmbito do espaço físico e de aumento da vitalidade desse espaço.

Jane Jacobs, Jan Gehl, Edward Glaeser e Vishaan Chakrabarti fornecem evidências que mostram que a densidade é caracterizadora da urbanidade, porém há divergências. Os dois primeiros defendem a densidade moderada e são contrários a grandes verticalizações das edificações; os dois últimos são favoráveis a altas densidades e grandes verticalizações.

O parâmetro Densidade define, em resumo, a probabilidade do encontro e a variação do número de pessoas ocupando o espaço urbano público de uso coletivo.

c) parâmetro compacidade

A seleção da compacidade como parâmetro de Urbanidade baseia-se no fato de vários autores apontá-la como oposição ao espraiamento das cidades, prejudicial à vitalidade urbana. Glaeser critica o urbanismo norte-americano e a ocupação de áreas distantes dos centros urbanos com baixa densidade, tendo como resultado um alto consumo energético, causado pelo maior deslocamento de automóveis.

Os parâmetros Diversidade e Compacidade unem-se na observação de que o uso misto (parâmetro Diversidade) permite a compactação (parâmetro Compacidade) das atividades de uma cidade. O inverso também é verdadeiro quando consideramos a compactação das atividades da cidade como o uso de vários tipos diversos de atividades próximas. Em suma, para que as atividades cotidianas sejam supridas em um menor raio de distância possível, é fundamental o uso misto distribuído de forma compacta, ou seja, uma forma de compactação da diversidade.

Em suma, o parâmetro Compacidade define o grau de proximidade entre pessoas e atividades de uma cidade.

d) parâmetro qualidade física do espaço

Como visto, a urbanidade é fruto da relação entre indivíduos e entre eles e o espaço de uso coletivo da cidade. Baseado no critério qualitativo, justifico a associação dos atributos físicos urbanos a um parâmetro da urbanidade devido a materialização dessas relações ocorrerem no âmbito físico e, a alteração da qualidade físico-espacial implica alteração correspondente na urbanidade.

As qualidades físicas podem induzir as pessoas a usarem os espaços urbanos coletivamente. Quão maior for o bem-estar proporcionado por um espaço, maior será probabilidade de ele contribuir para a urbanidade.

Gordon Cullen (11) explora a forma da cidade de modo semelhante aos princípios defendidos por Gehl e Jacobs do ponto de vista do pedestre. De acordo com o autor, para que a experiência de caminhar provoque maiores reações emocionais ao usuário, ele sugere que a paisagem seja composta por elementos que evitem a leitura uniforme e linear dos espaços. Nesse sentido, variações de recuos frontais e laterais, gabaritos das edificações e variações de tipologias contribuem para uma leitura do espaço não uniforme, repleto de surpresas, diversidade, ritmos e contrastes.

Em suma, o parâmetro físico define o grau de atratividade dos espaços públicos de uso coletivos.

A figura abaixo sintetiza a parametrização de urbanidade discutida nesse artigo.

Os parâmetros de urbanidade
Gráfico do autor

notas

1
MONGIN, Olivier. A condição urbana: a cidade na era da globalização. São Paulo, Estação Liberdade, 2009.

2
NETTO, Vinicius M. Cidade e sociedade: as tramas da prática e seus espaços. Porto Alegre, Meridional, 2014, p. 190.

3
AGUIAR, Douglas. Urbanidade e a qualidade na cidade. In AGUIAR, Douglas; NETTO, Vinicius M. (org.) Urbanidades. Rio de Janeiro, Folio Digital/Letra e Imagem, 2012, p. 61-79.

4
HOUAISS, Antonio; VILAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva Ltda, 2001.

5
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2014.

6
NETTO, Vinicius M. Cidade e Sociedade: as tramas da prática e seus espaços. Porto Alegre: Meridional, 2014.

7
GLAESER, Edward. Os centros urbanos: a maior invenção da humanidade: como as cidades nos tornaram mais ricos, inteligentes, saudáveis e felizes. Rio de Janeiro, Elsevier, 2011.

8
GEHL, Jan. Cidade para pessoas. São Paulo, Perspectiva, 2015.

9
CHAKRABARTI, Vishaan. A Country of Cities. New York, Metropolis Books, 2013.

10
ROGERS, Richard. Cidades para um pequeno planeta. Barcelona, Gustavo Gili, 2001.

11
CULLEN, Gordon. Paisagem urbana. Lisboa, Edições 70, 2008.

sobre o autor

Pablo Basílio de Sá Leite Chakur é Mestrando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie, onde também se graduou em 2001. É titular do escritório Ópera Quatro Arquitetura e possui 17 premiações em concursos públicos nacionais de Arquitetura, dentre elas a 1ª colocação nos concursos para o Teatro Municipal de Londrina e para o Edifício Sede da FATMA/FAPESC.

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