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O autor traça um paralelo entre as obras de Oscar Niemeyer e obras representativas da história da arquitetura mundial, estabelecendo um elemento de crítica de seus projetos.

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LAUANDE, Francisco. Oscar Niemeyer: erudição e sensibilidade. Projetos, São Paulo, ano 13, n. 147.02, Vitruvius, mar. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/13.145/4668>.


 “Penso sobretudo em Delacroix, parente muito próximo de Wagner (...) todos tendo um talento muito além de seu gênio; impregnados de virtuosismo até a medula dos ossos (...) todos inimigos natos da lógica e das linhas retas, sedentos do estranho e do exótico”
Nietzsche

A genialidade de Oscar Niemeyer é a qualidade mais enaltecida tanto pelos arquitetos quanto pelo público em geral. Entretanto, os que compreendem o valor do seu legado esquecem muitas vezes de enfatizar que o seu talento nato teve como primeiro aliado o conhecimento sobre arquitetura. As obras arquitetônicas primordiais para os palácios e monumentos em Brasília registram, sobretudo, a cultura arquitetônica que Niemeyer demonstrou dominar, e que potencializou sua capacidade criativa. Ele era, antes de tudo, um homem erudito e de sensibilidade inconteste. Sua genialidade foi, com efeito, um meio para o uso de tais faculdades, que independem da qualidade de gênio.

De acordo com que afirma Gilbert Duran, a arquitetura como arte demanda talento, que é resultado da aplicação do conhecimento. Deve-se aferir, portanto, das palavras do pensador francês, ser possível forjar o talento por meio da justa aplicação do saber fazer. Outrossim, a formação de um grande arquiteto depende em grande parte da dimensão de sua sensibilidade, como o único meio para se alcançar o entendimento do real sentido do fazer artístico e assim, produzir arquitetura em sua plenitude.

As obras feitas para Brasília demonstram o quanto Niemeyer entendia a finalidade da arquitetura como expressão artística formal capaz de representar de maneira fiel a dimensão simbólica da vida em sociedade. Os projetos para os palácios de Brasília trazem em si a expressão do significado do que representava a construção da nova capital: um sonho histórico – mesmo que fantasioso – de um futuro para o país a partir da integração territorial promovida por uma ação institucionalizada e coletiva – pelo Estado. Brasília foi pensada como a baliza da história do país, dividindo o tempo entre o passado de atrasos e a modernidade definitiva sustentada pelo desenvolvimento da indústria.

Os palácios de Niemeyer em Brasília sob a ótica da arquitetura como simbologia representam um país que ainda está por surgir: mais justo socialmente, como ele mesmo desejava e pregava. Suas obras estavam e estão a frente do tempo.

Juscelino Kubitschek percebendo a importância do momento histórico, à maneira de Péricles, sabia que as obras arquitetônicas perpetuariam sua marca como estadista; e que Niemeyer era o único nome capaz de interpretar isso, traduzindo o feito político em arquitetura. Voltando-se para as palavras do engenheiro Joaquim Cardozo:

“Na arquitetura estão inscritas as vontades mais puras do coração humano, mais puras e duradouras; a história da cultura e da sociedade repousa, em grande parte, na sua maior parte talvez, nas formas arquitetônicas, onde a vontade de um povo se manifesta na forma dos templos, dos palácios dos seus reis” (1)

Lembrando as palavras históricas de JK:

"Deste planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino (2).

Nos monumentos e palácios de Brasília, Niemeyer, como erudito, lançou mão de referências extraídas das arquiteturas secular e milenar. Ele interpretou tipos de edifícios criados pelas civilizações antigas de acordo com cada um dos temas tratados.

No conjunto para o Congresso Nacional, a cúpula – arquétipo criado no Período Romano (Imagem 1) e que foi incorporado em períodos subsequentes da história – estava nas insinuações de formas deixadas por Lucio Costa nos desenhos para o Plano-Piloto (imagem 2). No volume correspondente ao plenário, a cúpula imaginada que serviria como coroamento, na interpretação de Niemeyer, foi, de maneira inusitada, desmembrada, acentuando as instâncias do poder legislativo: a Câmara e o Senado. Brasília passou, portanto, a contar com duas cúpulas – uma delas desafiando as leis da física (imagem 3). Niemeyer reinventou a cúpula.

1.Corte representando o Panteão Romano
Desenho: Otto Lueger [Wikimedia Commons]

2.Desenho sobre croqui de Lucio Costa para o Congresso Nacional
Desenho: Francisco Lauande

3.Uma das cúpulas do Congresso
Foto: Xenia Antunes [Wikimedia Commons]

O Palácio da Alvorada, em sua segunda versão, Niemeyer, atendendo as críticas de Juscelino Kubitschek, que entendia que o resultado formal para a primeira ideia estava abaixo do que se espera de um palácio, buscou na casa da fazenda a referência definitiva. A colunata – da quarta ordem arquitetônica não-replicável criada – contém o generoso alpendre da solução vernácula. Postada ao lado, fica a capela, de uso familiar. A casa brasileira colonial está lá representada (Imagem 4).

4. A casa da Fazenda Columbandê, São Gonçalo, Rio de Janeiro
Desenho: Francisco Lauande

O Palácio dos Arcos ou Itamaraty, como passou a ser chamada – outra maneira de casa colonial – segue as referências de nosso passado representado pela arcada. Os arcos impõem uma visão para o exterior, distinta de qualquer outro monumento da cidade. Em ritmo quase uniforme – em quase cadência – a arcada forma um plano permeável, assumindo o papel simbólico de fronteira entre o velho e o novo. Por meio dela, vislumbra-se a cidade e o horizonte à frente, como simbologia do futuro (imagem 5).

5.Vista interna do Itamaraty
Foto: Casteliane [Wikimedia Commons]

Considerando o conjunto – palácio e anexo – percebe-se a relação compositiva que existe entre eles: o anexo cumpre a função de pano de fundo para o palácio (Imagem 6). Niemeyer, recorrendo à cultura do Egito Antigo, lançou mão do mesmo artifício (figura-fundo) utilizado no templo construído para a faraó Hatshepsut construído a frente das falésias (imagem 7).

6.Palácio do Itamaraty e anexo
Foto: Milton Ramos [Acervo Milton Ramos]

7.Templo de Hatshepsut
Foto: Nowic [Wikimedia Commons]

No projeto para Palácio do Planalto, acontece mais uma interpretação das insinuações formais registradas por Lucio Costa. Delas, Niemeyer apropria-se da ideia para a rampa e o parlatório.

Tanto o Palácio do Planalto como o do Poder Judiciário – o Supremo Tribunal Federal – seguem a filiação greco-romana, como denuncia a postura clássica de seus volumes. Niemeyer sintetizou – apropriando-se dos elementos plástico-funcionais – o templo grego, e assim, aproximou a identidade formal da arquitetura moderna da linguagem clássica, alcançando o imaginário modernista em seu objetivo de ser compreendido como um novo clássico. Niemeyer conseguiu o que, talvez, nenhum outro preclaro da arquitetura moderna tenha atingido, nem mesmo quando consideradas as interpretações de Mies van der Rohe.

No palácio do STF, as colunas, compondo as fachadas laterais, estão ligadas pelos planos superior da cobertura e o inferior correspondente ao piso, que assume o papel do estilóbata dos templos gregos – transformada em uma linha grácil que imprime leveza ao volume. A percepção inicial diz que todo o edifício é sustentado pelas colunas. Entretanto, em algum ponto mais distante no plano da praça, percebe-se a existência de uma base abaixo do volume, resultante de parte do subsolo que aflora (imagem 8).

8.Supremo Tribunal Federal
Foto: Alex Pereira [Wikimedia Commons]

A planta de organização centralizada representa outro elemento dos templos gregos: a naos (Imagem 9), que na versão de Niemeyer é cercada por um períptero incompleto, formando um generoso alpendre.

9. Planta de um templo grego
Desenho: Francisco Lauande

O Palácio do Planalto e o STF relacionam-se com um grande espaço retangular aberto – a praça seca do período da Idade Média, como o caso de Veneza – a Praça de São Marcos (Imagem 10) – que tinha grande espaço na memória de Niemeyer.

10. Praça São Marcos
Foto: Janmad [Wikimedia Commons]

Mesmo com a existência da via a frente do Palácio do Planalto e outra de acesso ao STF – resultante do rebaixamento do piso – a percepção que se tem é de que o plano aberto da praça segue sem interrupção de um edifício ao outro (imagem 11).

11.Praça dos Três Poderes
Foto: Tetraktys [Wikimedia Commons]

O Teatro Nacional (imagem 12) segue, a sua maneira, a forma piramidal representativa das construções do Egito Antigo, Oriente Próximo, e América Central (Imagem 13). O volume do teatro, contudo, é menos hermético. Tanto a fachada frontal como a posterior apresenta permeabilidade por meio de painéis em vidro colocados de forma escalonada, seguindo a inclinação do volume. Essas fachadas permitem a continuidade entre os espaços interno e externo e integração – da obra com a cidade.

12.Teatro Nacional Claudio Santoro
Foto: Luis Dantas [Wikimedia Commons]

13.Pirâmide de Teotihuacan, México
Foto: Pacheco Diaz [Wikimedia Commons]

Nas fachadas está a contribuição da arte com a assinatura de Athos Bulcão. Os planos inclinados recebem uma composição em relevo de cubos e paralelepípedos que imprimem um jogo de luz e sombra, amenizando o efeito da fachada sem aberturas. Essas saliências remetem às texturas promovidas pelos tijolos ou pedras das construções piramidais.

Para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (imagem 14), a Igrejinha, como é conhecida, Niemeyer mais uma vez busca inspiração no passado de nossa história – a sensualidade do barroco de Aleijadinho. O volume é uma composição de triângulos, em forma específica, que imprime perfeita unidade ao conjunto. A agressividade da forma triangular é amenizada pelas curvas incorporadas a uma parte do perímetro de cada triângulo.

14.Igreja Nossa Senhora de Fátima
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom [Wikimedia Commons]

Como resultado formal a igrejinha é um volume horizontal cuja cobertura aponta para o horizonte no sentido leste (imagem 15). Enquanto a arquitetura de Aleijadinho relaciona-se com o antagonismo das montanhas de Minas, com acentuou Euclides da Cunha em “Os Sertões”, a Igrejinha dialoga com a paisagem franca e desnuda do planalto central. Apesar de suas pequenas dimensões, o volume parece expandir-se por meio dos vértices do triângulo da cobertura – um volume em curvatura, onde a parte mais elevada contribui na marcação da entrada.

15.Igreja Nossa Senhora de Fátima
Foto: M. M. Fontenelle [Acervo Iphan DF]

A produção inicial de Niemeyer em Brasília estendeu-se à contribuição para a construção da Universidade de Brasília. O edifício projetado para o Instituto Central de Ciências (ICC), ou Minhocão, como popularmente é conhecido, mimetiza um dos eixos primordiais da proposta de Lucio Costa para o desenho do Plano-Piloto – o eixo no sentido norte-sul. O partido arquitetônico é um retorno à forma mais elementar da construção. À maneira primitiva de Stone Henge, Niemeyer recorreu ao sistema trilítico de construção criado no Neolítico: dois pilares e uma viga, mas que segue o aspecto formal da arquitetura clássica na terminação das colunas em cadência. O volume, portanto, resulta da estrutura aparente, tanto no exterior como no interior, onde marca de maneira ritmada o percurso fluido de uma ala a outra (imagem 16).

16.ICC, Unb
Foto: Guillermo Arévalo Aucahuasi [Wikimedia Commons]

O Quartel General do Exército (imagem 17), no Setor Militar Urbano, o “Forte Apache” – como passou a ser chamado pelos militares – é uma obra tardia. O conjunto, grandioso e austero, numa sequência de edifícios em paralelo, remete às fortificações das primeiras civilizações da antiguidade, com suas muralhas erguidas para a proteção de palácios e templos (imagem 18).

17.Quartel General do Exército em Brasília
Foto: Lucas de Melo [Wikimedia Commons]

18.Templo de Luxor, Egito Antigo
Foto: Marc Ryckaert [Wikimedia Commons]

Entre o quartel e a rua a frente, estão: uma grande cobertura em concreto tendendo a uma forma elíptica que recebe um palanque; e um obelisco – uma releitura dos obeliscos egípcios que eram incorporados aos templos em suas entradas.

Na obra para o Memorial JK (imagem 19), um mausoléu, Niemeyer recorre mais uma vez à cultura do Egito Antigo: a tipologia das mastabas (imagem 20). Construído no Eixo Monumental, o monumento é um edifício linear que ocupa em grande parte o espaço entre as duas vias. Como a mastaba, o volume, em forma de tronco de pirâmide, é hermético que conta com uma única abertura colocada para a entrada.

19.Memorial JK
Foto: Daderot [Wikimedia Commons]

20.Mastaba
Foto: Jon Bodsworth [Wikimedia Commons]

A frente do edifício foi erguida uma coluna de terminação em uma forma circular que serve como pedestal para a estátua que representa JK em gesto de aceno como se estivesse dirigindo-se ao povo (imagem 21). A obra faz referência à postura comum a algumas das esculturas romanas como a do imperador Augusto: “Augusto de Prima Porta” (imagem 22).

21.Memorial JK
Foto: Daderot [Wikimedia Commons]

22.Escultura romana
Foto: Till Niermann [Wikimedia Commons]

Na obra da Catedral (imagem 23), fora da composição da praça tradicional, mais uma vez Niemeyer lança mão da curva. A estrutura em arcos com terminação em pontas é, talvez, uma referência ao gótico – as torres de terminações agudas como a Catedral de Milão (imagem 24).

23.Catedral de Brasília
Foto: Ugkoeln [Wikimedia Commons]

24.Catedral de Milão
Foto: Jiuguang Wang [Wikimedia Commons]

No Panteão Romano, a planta circular de forte apelo simbólico ao reproduzir a cúpula no chão, tem em sua periferia dispostas, de maneira radial, estátuas de divindades corroborando o domínio de Roma pelo mundo, mimetizado pelo círculo. Assim como no caso romano a planta da Catedral segue a forma circular. Os elementos estruturais impõem um caráter simbólico semelhante ao do Panteão: tomando a força centrífuga do círculo, a disposição em raios da estrutura insinua direções que relacionam a obra às demais regiões do país. Assumiu-se assim, a crença na religião católica como a mais popular.

À guisa de conclusão

Niemeyer deixa o exemplo de um artista que soube seguir suas virtudes, intuição e sensibilidade. Extraiu da própria vida e do conhecimento a principal matéria-prima que alimentou sua capacidade criadora. “Li muito”, disse ele certa vez.

Ele reinventou formas que resultaram em arquitetura de entendimento universal e livres de padrões impostos por um conhecimento determinante.

As obras de Niemeyer em Brasília guardam mais do que a afirmação dos apelos formais que caracterizam sua linguagem. Sua preferência em atuar em empreendimentos públicos, como atitude política, permitiu-no criar por meio da arquitetura símbolos que expressam a importância dos valores comuns na formação da identidade de um povo.

No Brasil, a arte sempre dependeu da importação de inovações. Nunca fomos vanguarda. Niemeyer foi. Ele impôs, por meio de formas sinuosas, sentimento à postura canônica do formalismo modernista – uma atitude que remete de alguma maneira à evolução da arte grega na evolução da postura mais formal das estátuas dos primeiros períodos até a expressividade dramática alcançada no Período Helenístico.

Niemeyer deu impulso, junto com Lucio Costa, a uma capacidade criadora de toda uma geração, que levou a arquitetura brasileira a uma personalidade própria e ímpar, reconhecida em todo o mundo.

notas

1
CARDOZO, Joaquim. Apud MATOSO MACEDO, Danilo; ARCADIO SOBREIRA, José Fabiano (Org.). Forma Estática – Forma Estética, Ensaios sobre Arquitetura e Engenharia. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2009, p.178

2
Palavras proferidas por JK registradas na fachada do museu construído na Praça dos Três Poderes.

sobre o autor

Francisco Lauande Jr é formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília. Mestre em Teoria, História e Crítica pela Universidade de Brasília. Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Brasília.

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