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Organizada por Clara D'Alambert, a comemoração dos 90 anos do arquiteto, professor, artista plástico, crítico e ativista cultural Carlos Lemos aconteceu no Museu da Casa Brasileira, em 2 de junho de 2015. Coube a Hugo Segawa tratar do Lemos arquiteto.

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SEGAWA, Hugo. Sobre a arquitetura de Carlos Lemos. Projetos, São Paulo, ano 15, n. 179.02, Vitruvius, nov. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/15.179/5823>.


Já se foi o tempo que um jovem arquiteto poderia começar a vida profissional projetando um condomínio vertical. Muito menos um ainda estudante, com seus 24 anos, projetar, junto desse conjunto de prédios, um teatro. É certo que a confluência da Avenida 9 de Julho e Rua Paim ainda não fosse em 1949 um confuso desaguadouro de fluídos e carros. Naquela esquina o Teatro Maria Della Costa tornou-se palco de parte da história do teatro paulistano. Deve ser um edifício importante: a Wikipédia (1), no verbete dedicado ao Teatro Maria Della Costa, atribui a arquitetura daquele espaço a Oscar Niemeyer e Lúcio Costa (sic). Insondável mistério que oblitera a autoria verdadeira do estudante Carlos Lemos. Aliás, foi um morador daquele condomínio, também arquiteto, que me comentou sobre a autoria, em 1980: era o filho do arquiteto Eliziário Bahiana. Defronte uma obra do velho Bahiana – a Secretaria da Fazenda na Avenida Rangel Pestana – o recém-formado Carlos Lemos projetou outro edifício.

Mas como se sentiria um jovem arquiteto hoje, se de repente, aos 27 anos, fosse convidado para dirigir a filial do escritório de um arquiteto do jet set mundial? Pois em 1952 Oscar Niemeyer já era um best-seller internacional com o livro de Stamo Papadaki sobre suas obra pré-Brasília (2). Cinco anos de trabalhos saborosamente relatados em 24 páginas de suas memórias em Viagem pela carne (3).

Tão próximo ao mestre, com carinho, tão distante da sua arquitetura. Ao mirar sua obra solo, nem parece que Carlos Lemos esteve à frente do desenvolvimento do Copan, do Montreal, da Gastroclínica, ou que tivesse participado da equipe do Parque Ibirapuera. O que seria natural com essa proximidade é o discípulo emular o mestre. São Paulo ostenta alguns epígonos de Niemeyer. Carlos Lemos está distante desses. Tampouco se evidencia outra experiência de seus anos formativos: o estágio no escritório de Oswaldo Bratke.

A obra solo de Carlos Lemos é de uma incrível discrição. Talvez uma boa parte dos arquitetos paulistas tenha ouvido falar da Praia Vermelha em Ubatuba, conhecida como a “praia dos arquitetos”. Mas decerto poucos sabem que o projeto de urbanização é de Carlos Lemos.

Quando de minha passagem pela revista Projeto, publicamos vários textos de Carlos Lemos. Mas conseguimos publicar apenas uma obra, a Residência Minelli (4). Pareceu-nos um fato tão inédito que convidamos para o registro de imagens um jovem fotógrafo que surgiu na redação e parecia promissor, chamado Nelson Kon. A Residência Minelli, como o Ateliê Aldemir Martins (5), e a mais anterior Residência Luiz Eduardo Magalhães Gouveia, seriam típicas obras de caráter dito brutalista. Mas vocês veem nas fotos que sucedem na tela a Casa em Ibiúna e outros projetos residenciais que, se as imagens fossem mais estáticas, permitiram perceber que são composições a partir de materiais novos combinados com elementos reciclados de demolição (6). São projetos dos anos 1960 em diante que rompem com o cânone vigente, dito brutalista.

Em 1982 o departamento carioca do IAB realizou o II Inquérito Nacional de Arquitetura, colhendo depoimentos de vários arquitetos reconhecidos na época. Na resposta à pergunta “qual a sua opinião quanto aos rumos que a arquitetura brasileira tomou nesses últimos anos?”, o pernambucano Acácio Gil Borsói (perfeito contemporâneo de Lemos) registrou:

“No centro-sul, duas correntes se destacam: uma brutalista, verdadeiros ‘bunkers’ de concreto, e outra saudosista de um pré-colonial iniciado com o emprego de materiais de demolição” (7).

No mesmo inquérito, o carioca Alfredo Britto advertia:

“Reações ingênuas e perigosas começaram a surgir em diversos pontos do país, principalmente em edificações de pequeno porte (residências unifamiliares, clubes, etc.). Uma arquitetura de citações e vínculos emotivos com a herança portuguesa do período colonial, apoiada no reaproveitamento de materiais, corriqueiros de demolição (telhas cerâmicas, pisos e esquadrias e, sobretudo, madeiras para diversos fins)” (8).

Precisa Carlos Lemos vestir a carapuça?

Ao longo dos anos 1980 publiquei na revista Projeto todas as casas projetadas por Lúcio Costa naquela década: a Casa Helena e Luiz Fernando (9), as casas para Thiago de Mello (10) e a Casa Edgard Duvivier & Olívia Byington (11). Todas elas no espírito do que Britto chamou com “vínculos com a herança portuguesa do período colonial”. Nos anos 1990, Acácio Gil Borsói projetou o novo ateliê de Burle Marx no Sítio Santo Antônio da Bica (12), um patchwork de estrutura metálica combinado com material de demolição. Uma prática que o paisagista já adotava em seu jardim, comprando restos de granito lavrado das destruições de imóveis do século 19 e começo do século 20 no Rio de Janeiro.

Carlos Lemos, Lúcio Costa, Burle Marx e Acácio Gil Borsói contribuem para uma vertente pouco examinada na arquitetura brasileira. Aquilo que em um ensaio meu sobre a casa de Lúcio Costa para a filha (13) suscitou a seguinte citação do filósofo Sérgio Paulo Rouanet:

“Nada mais historicista que a modernidade... Essa tendência de ‘citar’ o passado não é pós-moderna, como corresponde ao que a modernidade tem de mais inalienavelmente seu” (14).

É o lugar que a obra arquitetônica de Carlos Lemos precisa ser situada.

Residência Raphael R. Minelli, São Paulo. Arquiteto Carlos Lemos
Foto divulgação

notas

NA – este texto foi lido na noite de homenagem a Carlos A. C. Lemos, ocorrida no Museu da Casa Brasileira, São Paulo, no dia 2 de junho de 2015.

1
Teatro Maria Della Costa. Wikipedia. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_Maria_Della_Costa>. Acesso em: 2 jun. 2015.

2
PAPADAKI, Stamo. The work of Oscar Niemeyer. New York, Reinhold, 1950.

3
LEMOS, Carlos A. C. Viagem pela carne. São Paulo, Edusp, 2005, p. 144-161.

4
Casa no Ibirapuera [Residência Minelli, São Paulo, SP]. Projeto Carlos A. C. Lemos. Projeto, São Paulo, n. 134, ago. 1990, p. 49-51.

5
LEMOS, Carlo A. C. Viagem pela carne, p. 183-184.

6
Conferir posições do arquiteto em: LEMOS, Carlos A. C. Viagem pela carne, p. 162-165, 169-185.

7
II INQUÉRITO Nacional de Arquitetura/Depoimentos. São Paulo, Projeto/Instituto de Arquitetos do Brasil/Departamento Rio de Janeiro, 1982, p. 11.

8
Idem, p. 19

9
SEGAWA, Hugo. Uma casa de Lúcio Costa [Rio de Janeiro, RJ]. Projeto Lúcio Costa e Maria Elisa Costa. Projeto, São Paulo, n. 104, out. 1987, p. 115-120.

10
SEGAWA, Hugo. Lucio Costa: três casas para Thiago de Mello [Barreirinha, AM]. Projeto, São Paulo, n. 125, set. 1989, p. 78-85.

11
CASA na Gávea [Casa Duvivier/Byington, Rio de Janeiro, RJ], projeto Lúcio Costa. Projeto, São Paulo, n. 134, p. 46-48, ago. 1990.

12
Atelier Burle Marx. In: BORSOI, Acacio Gil. Arquitetura como manifesto. Recife, s./ed., 2006, p. 56-57.

13
SEGAWA, Hugo. Uma casa de Lúcio Costa (op. cit.), p. 117.

14
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1987.

sobre o autor

Hugo Segawa é arquiteto, crítico de arquitetura e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

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179.02 homenagem
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179

179.01 muntifuncional

Conjunto bar/piscina/galeria

179.03 habitação

Casa na Ponta do Pulso, Ubatuba SP

179.04 residência unifamiliar

Residência Sousas 2

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