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Terceiro classificado do 4º Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake Akzonobel, Subsolanus é assim definido por Marta Bogéa: Anna, Enk, Gustavo, Marina, fazem da arquitetura território de pura imaginação configurada pela mais árdua construção.

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BOGÉA, Marta. Subsolanus. Projetos, São Paulo, ano 18, n. 204.02, Vitruvius, dez. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/18.204/6810>.


Cata-vento

Marta Bogéa

“Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo filosofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – "Redemunho!" – o Caçanje falou, esconjurando. – "Vento que enviesa, que vinga da banda do mar...” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d'Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho... Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos”.
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas (1956)

“Talvez não funcione…” foi uma das tantas frases ditas ao sabor do vento que acompanhou nossas conversas. Mas “funcionar” exatamente o quê? Entre tentativas de compreensão do que os movia – afinal é de vento que se trata, e vento põe coisas em movimento como tão bem devem saber os mexicanos (1) – e explicações do mecanismo em construção, fui me deixando levar.

O que desde o início me intrigou foi o desejo de construir uma traquitana para insuflar o ar que vinha dos ventos dominantes no terraço trazendo-o para a pequena sala de exposição. Atravessá-la com os ventos que sopram mais livre no topo do prédio. A sala, mantida vazia, estará “cheia” de ar em movimento.

Mas, para tocar o intangível do mundo, nesse caso a variação do vento, é preciso saber moldar o tangível. Daí vem um dos traços que muito me interessa no fazer em geral da arquitetura: ao lidar com os materiais lidamos com paisagens humanas e fenômenos naturais. Não para determinar usos ou nos proteger dos fenômenos como abrigos apenas, mas também para usufruir da variedade com que pessoas e fenômenos animam nossa experiência. Vai que o vento muda... tão bem sabem os marinheiros, para o bem, quando insuflam velas e os tiram do marasmo, para o mal, quando agitam o mar em fortes tempestades.

Subsolanus, diagrama de velocidades dos ventos, Cidade do México, 2015-2016. Arquitetos Anna Juni, Enk te Winkel e Gustavo Delonero (Vão Arquitetura) + Marina Canhadas
Imagem divulgação

Subsolanus, diagrama estudo de predominância dos ventos, Cidade do México, 2015-2016. Arquitetos Anna Juni, Enk te Winkel e Gustavo Delonero (Vão Arquitetura) + Marina Canhadas
Imagem divulgação

Nossos encontros foram também embalados pela revelação de gráficos que permitem reconhecer ventos predominantes e determinar a melhor posição da boca de captação; por relatos das reuniões técnicas e o desafio de vencer verticalmente o vão do piso à base da cobertura com dois únicos pontos de apoio possíveis; pela pesquisa sobre o material mais adequado para constituir o “tubo” em membrana, assuntos da arquitetura nos termos com que entendemos o ofício de todo-dia. Afinal para construir é necessário técnica, engenhosa técnica. E engenhosidade aqui não falta.

Quanto mais envolvidos em decifrar a torre que conduzirá a massa de ar e concentrados com o mecanismo da traquinagem, mais os arquitetos me pareceram dispostos a brincar com(o) Saci (2), moleque engenhoso e travesso que anda dentro dos redemoinhos e guarda a sabedoria da floresta. Atentos à construção que permite realizar com precisão a pretensa travessura o fazem com humor, para que ao final, o esforço da construção se liberte da simples utilidade.

Agem no espírito dos bons velejadores que preferem navegar os mares no ritmo e na sabedoria de quem sabe captar os bons ventos e usufruir territórios como parte deles. Se mantêm afastados da afobação daqueles que preferem sobrepor motores aos ventos e marés, e estranhos a gente afeita à ilusão de certezas. Não se escondem atrás de simulações eficientes, aqui preferem atuar a partir do delicado equilíbrio entre a eficiência possível e a poesia incerta de quem pretende uma rigorosa construção para reinventar um lugar. A instalação fará com que na sala cada dia seja um dia, uma vez que transformará o abrigo estável numa inquieta paisagem.

Anna, Enk, Gustavo, Marina, fazem da arquitetura território de pura imaginação configurada pela mais árdua construção. Realizam a desejável articulação entre conhecimento e desejo que permite fazer da técnica uma poética. A imensa torre membrana externa não é um fim em si mesmo, é artefato condutor da variedade e dos humores dos ventos: um dia a brisa fresca que renova tudo, outro ventos que brigam rodopiando, rememorando fortes ventanias, grandes tornados. E que os ventos venham, rodopiados!

notas

NE – Este é o texto conceitual que apresentou o projeto dos arquitetos Anna Juni, Enk te Winkel, Gustavo Delonero [Vão] + Marina Canhadas no concurso público organizado pela Liga – Espacio para Arquitectura, Cidade do México. Projeto ganhador, foi construído para a abertura da exposição Liga 21 Subsolanus.

1
Fica aqui, no pretexto deste texto, o desejo de conhecer melhor Ehecatl, que dizem, pôs em movimento sol e lua. Qualquer dia alguém me conta melhor essa história...

2
O Saci Pererê é um personagem de lenda brasileira, espírito festivo e alegre, afeito a travessuras e que controla e guarda os segredos da floresta A lenda diz que ele anda nos redemoinhos do vento podendo ser capturado quando se joga uma peneira sobre ele. Quem deseja atravessar a floresta deve pedir permissão a ele.

sobre a autora

Marta Bogéa é arquiteta-urbanista, professora no Departamento de Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Autora de Cidade Errante: arquitetura e movimento (editora Senac, 2009), do Projeto de adequação dos espaços para o Arte/Cidade III: a cidade e suas histórias (1997), da expografia para 29aBienal de Arte de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar (2010).

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204.02 prêmio tomie ohtake akzonobel
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Vão Arquitetura
São Paulo SP Brasil

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