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Membro mais novo de uma dinastia de arquitetos – é neto de Zenon e filho de Vitor –, Tomaz Lotufo reúne em projeto para sua casa seus conhecimentos teórico sobre arquitetura alternativa e prático no seu cotidiano envolto com a permacultura.

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CARRANZA, Edite Galote. A casa com cheiro de floresta. Projetos, São Paulo, ano 18, n. 205.02, Vitruvius, jan. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/18.205/6852>.


“Na fábula, o beija flor leva no bico a gota que salvará a floresta do incêndio. Sensibilizados por tamanha bravura, os demais animais se unem e vencem as chamas”
Lenda do beija-flor (1)

Tomaz Amaral Lotufo leva com desenvoltura o bastão arquitetônico familiar. Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 2000, ele representa a terceira geração de uma família de arquitetos: o avô Zenon Lotufo (1911-1985), formado na primeira turma de engenheiros-arquitetos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1936 (2); e o pai Vitor Amaral Lotufo (1945–), arquiteto-construtor, formado pela Faculdade de Arquitetura Mackenzie em 1967. Ainda que o legado familiar seja inevitável, Tomaz abre suas próprias picadas nos caminhos alternativos para a produção e ensino da arquitetura do século 21 (3).

Na residência que construiu para sua família, no bairro do Butantã, em 2012, Tomaz Lotufo materializa suas ideias e ideais, que aliam arquitetura e permacultura. Neste projeto, o grande desafio para o arquiteto e sua colaboradora Danuta Chmielewska, foi construir uma casa com máxima economia de meios, dentro do espírito cradle to cradle (4).

Casa do arquiteto, edificação original, Butantã, São Paulo, 2012. Arquiteto Tomaz Lotufo
Foto divulgação

O projeto partiu de uma casa térrea com edícula no fundo e garagem com telhas de fibrocimento no recuo frontal, típica dos bairros paulistanos periféricos. Implantada num lote urbano convencional, a casa foi construída de alvenaria autoportante de tijolos e argamassa de saibro, telhado de armação de madeira e telhas cerâmicas francesas, esquadrias de madeira, caixilhos de aço e vidro, e pisos de tacos de madeira ou cerâmica vermelha – o tradicional “caquinho”.

Para adequar a casa ao novo programa de necessidades, destinado a um casal jovem com dois filhos, o partido previu a construção do pavimento superior, criteriosa reforma do térreo, desmonte da garagem e demolição da edícula. Para integrar os pequenos cômodos do térreo, paredes foram parcialmente demolidas para dar lugar a arcos de tijolos que também estruturam a laje mista do piso do pavimento superior. Área do recuo lateral foi incorporada na cozinha-sala, mediante um grande arco de abertura na parede e instalação da uma claraboia de vidro sobre a bancada de pia. A cozinha-sala é um espaço amplo e iluminado separado apenas pelo fogão-lareira, que só utiliza madeira de demolição. A cozinha-sala abre para o quintal do fundo do lote, que foi criado após a demolição da edícula. O quintal tem piso permeável, horta com verduras e ervas comestíveis, churrasqueira e forno de pizza feitos com tijolos da demolição, além do tanque-aquário com peixes que armazena a água purificada vinda do jardim-drenante.

Casa do arquiteto, tratamento biológico, Butantã, São Paulo, 2012. Arquiteto Tomaz Lotufo
Foto divulgação

Localizado na varanda dos dormitórios, o jardim-drenante é um engenhoso sistema de filtragem e purificação biológica da água cinza do chuveiro e lavatório, mediante um percurso que passa por caixas com plantas como papiros, taioba e lírio de brejo. A garagem original no recuo frontal, deu lugar a outro quintal com piso permeável, onde foram cultivadas bananeiras e cogumelos comestíveis, que crescem nos dormentes de madeira velha. O pavimento superior, com dois dormitórios banheiro e varanda, foi parcialmente construído com cobertura de telhado e vedos de madeira ipê reciclada de assoalho de piso. Neste pavimento, a porção central do banheiro e hall-lavandeira, possui laje de concreto e paredes de alvenaria. Para a circulação vertical, foi construída uma escada helicoidal de tijolos, autoportante e sem estrutura auxiliar – cuja técnica foi consagrada em projetos de Vitor Lotufo. A casa também conta com placas solares para sistema de aquecimento de água e cisterna.

Casa do arquiteto, corte esquemático do reuso da água, Butantã, São Paulo, 2012. Arquiteto Tomaz Lotufo
Imagem divulgação

Neste projeto, Tomaz pôs em prática os conceitos de sua pesquisa de mestrado. Esta, que no dizer do arquiteto, discute as “questões relativas à prática construtiva em comunidades no processo de ensino-aprendizagem” e cuja proposta seria contribuir “para uma necessária renovação do ensino de arquitetura no Brasil, aproximando a teoria da prática construtiva e a Universidade da Comunidade” (5). Também é possível notar tanto o legado da arquitetura alternativa de seu pai (6), sobretudo no que se refere ao domínio das técnicas e economia de meios, quanto ecos do trabalho intelectual do avô, especialmente em “O espaço psicológico da arquitetura” (7). Dessa forma, a casa de Tomaz materializa uma tese: construir, habitar, cultivar e pensar o porvir.

Segundo Martin Heidegger – que adota o método genealógico criado por Friedrich Nietzsche para analisar o significado de construir – a palavra Buan em alto-alemão é a mesmo para habitar. Em português, construir e habitar são termos independentes – construir: lat. constrŭo,is,ūxi,ūctum,ĕre 'amontoar, acumular, empilhar, levantar, construir, edificar'; e habitar: lat.habĭto,as,āvi,ātum,āre 'habitar, morar, residir'; e que também possui os significados de habitação e hábitat, promovendo a proximidade entre natureza e ambiente construído. Portanto, poderíamos entender a Casa de Tomaz Lotufo na perspectiva de “construir o habitat” que resguarda a “Quadratura” segundo Heidegger:

“Salvando a terra, acolhendo o céu, aguardando os deuses, conduzindo os mortais, é assim que acontece propriamente um habitar. Acontece enquanto um resguardo de quatro faces da quadratura [...]. As coisas construídas preservam a quadratura. [...] salvar a terra acolher o céu, aguardar os divinos, acompanhar os mortais, esse resguardo de quatro faces é a essência simples do habitar. As coisas construídas com autenticidade marcam a essência dando moradia a essa essência” (8).

Ao visitar a casa, foi possível entender o sentido da “Quadratura” de Heidegger, na descrição da cabana da Floresta Negra. A essência do projeto pode ser sentida ao cruzar a soleira do portão de entrada, quando temos a nítida impressão de ter ultrapassado não o limite entre o público e o privado e sim um possível não limite entre cidade e natureza. Os dormentes de madeira velha, sobre a terra batida repleta de folhas, exalam um frescor que aguça nossa percepção trazendo o cheiro da floresta. Naquela tarde, apreciamos a arquitetura alternativa de Tomaz, naquela cozinha-sala iluminada, aquecida pelo fogão-lareira caipira, onde fomos recebidos para um dedinho de prosa e comer a colheradas geleia de fruta sem agrotóxico.

Ao construir a casa, habitar a casa, cultivar a casa e pensar o porvir, o arquiteto Tomaz Lotufo, como o beija-flor da fábula, está “salvando” a Terra, preservando o cheiro da floresta na cidade do século 21.

notas

NE – publicação original do artigo: CARRANZA, Edite Galote. A casa com cheiro de floresta. 5% arquitetura+arte, São Paulo, 13 jan. 2018 <www.arquitetonica.com/revista5/aat/a-casa-com-cheiro-de-floresta>.

1
Livre adaptação lenda do Beija flor, de domínio público.

2
Zenon Lotufo foi o único engenheiro-arquiteto formado pela Escola Politécnica de São Paulo na turma de 1936, participou de projetos significativos na Cidade de São Paulo, como o Edifício Sede do IAB-SP, 1947, com Abelardo de Souza e Hélio Duarte; o Clube Atlético Paulistano, 1949, com Gregori Warchavchik e Henrique Verona Cristofani; e do Conjunto do Parque Ibirapuera, 1951 como membro da equipe de Oscar Niemeyer. Zenon Lotufo foi, também, professor universitário e sua tese O espaço psicológico da arquitetura, publicada em 1956, foi premiada pelo Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura. Textos de interesse sobre o assunto: LOTUFO, Zenon. Arte ou artifício. Tese provimento de cátedra. São Paulo, Escola Politécnica USP, 1966. LOTUFO, Zenon. Tendências da arquitetura. Revista Arquitetura Brasileira, n. 8, 1976, p. 16-17; FISCHER, Silvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo. São Paulo, Edusp, 2005; MANZANO, Eduardo. Documento Zenon Lotufo. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, n. 76, fev./mar. 1998, p. 96-102.

3
Sobre Tomaz Lotufo, ver: SESC TV. Tomaz Lotufo. Escolha um habitat/habitar <http://habitarhabitat.com.br/tomaz-lotufo>; Casa Viva. São Paulo, Blog Sem Muros – arquitetura integrada <https://www.semmuros.com/casa-viva>; MEKARI, Danilo. Arquiteto transforma seu lar em uma casa sustentável. São Paulo, Portal Aprendiz. Seção Criar na Cidade. 20 mar. 2015 <http://portal.aprendiz.uol.com.br/2015/03/20/arquiteto-transforma-seu-lar-em-uma-casa-sustentavel>; Casa Sustentável – Tomaz Lotufo. Campinas, Blog Carandau – empreendimentos sustentáveis, 2013 <http://carandau.com.br/casa-sustentavel-tomaz-lotufo>.

4
O conceito Cradle to cradle (do berço ao berço) foi cunhado por Mcdonough e Braungart  e refere-se a uma nova abordagem de projeto, que visa a utilização de materiais e recursos de maneira cíclica e sem desperdício. Cf. MCDONOUGH, William; BRAUNGART, Michel. Dos princípios às práticas: criando uma arquitetura sustentável para o século XXI. In. SYKES, A. Krista. O campo ampliado da arquitetura: antologia teórica 1993-2009. São Paulo, Cosac Naify, 2013, p. 166-187.

5
LOTUFO, Tomaz Amaral. Um novo ensino para outra prática: Rural Studio e Canteiro Experimental, contribuições para o ensino de arquitetura no Brasil. Dissertação de mestrado. Orientador Nabil Bonduki. São Paulo, FAU USP, 2014

6
Cf. CARRANZA, Edite Galote Rodrigues. Arquitetura alternativa: 1956-1979. Tese de doutorado. Orientadora Monica Junqueira de Camargo. São Paulo, FAU USP, 2013; CARRANZA, Edite Galote Rodrigues; CARRANZA, Ricardo. Geometrias e estruturas de Vitor Amaral Lotufo. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, n. 194, 2010, p. 71-74; CARRANZA, Edite Galote R.; CARRANZA, Ricardo. Alvenaria alternativa. A obra do arquiteto Vitor Lotufo. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 126.01, Vitruvius, nov. 2010 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.126/3659>.

7
LOTUFO. Zenon. O espaço psicológico da arquitetura. São Paulo, Mercúrio, 1956. Republicação: LOTUFO, Zenon. Conquista do espaço psicológico. Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, n. 76, 1998, p. 96-112.

8
HEIDEGGER, Martin (1951). Construir, habitar, pensar. Tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback Conferência pronunciada por ocasião da "Segunda Reunião de Darmastad", publicada em Vortäge und Aufsätze, G. Neske, Pfullingen, 1954, p. e 9. Disponível em <www.fau.usp.br/wp-content/uploads/2016/12/heidegger_construir_habitar_pensar.pdf>.

sobre a autora

Edite Galote Carranza é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004, doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo USP em 2013, diretora da G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura+arte e professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

ficha técnica do projeto

projeto
Casa Viva

localização
Butantã, São Paulo SP Brasil

cliente
Tomaz e Danuta

ano
2012

arquiteto
Tomaz Lotufo

colaboradora
Danuta Chmielewska

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