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abstracts

português
O Museu de Arte Kimbell, de Louis Kahn e o Aulário 3, obra de Javier Garcia-Solera, revelam diferentes soluções a partir de uma mesma composição, reforçando assim que há certas constantes na arquitetura que independem de tempo e lugar.

english
The Kimbell Art Museum, by Louis Kahn and The Aulário 3, by Javier Garcia-Solera, reveal different solutions from the same composition, thus reinforcing that there are certain constants in architecture that are independent of time and place.

español
El Museo de Arte Kimbell, de Louis Kahn y el Aulário 3, obra de Javier García-Solera, revelan diferentes soluciones a partir de una misma composición, reforzando así que hay ciertas constantes en la arquitectura que independen de tiempo y lugar.

how to quote

MAHFUZ, Edson. Retângulos paralelos – uma estratégia fértil. Museu de Arte Kimbell e Aulário 3, unidade de Alicante. Projetos, São Paulo, ano 19, n. 219.02, Vitruvius, mar. 2019 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/19.219/7292>.


Apesar de que muitos desenvolvimentos recentes apontem para uma desvalorização do papel da história no ensino e na prática da arquitetura, muitos arquitetos relevantes continuam acreditando que “a arquitetura sai da própria arquitetura” (1) e que é impossível projetar responsavelmente sem conhecer a história e extrair dela os materiais com os quais se trabalha.

A discordância em relação a isso às vezes se deve a uma visão equivocada do papel do arquiteto, que vê na arquitetura um meio de se expressar, outras vezes ao medo de ver sua criatividade tolhida ao iniciar um projeto a partir de estratégias e elementos conhecidos. No entanto, “copiar é um ato impossível, já que nunca o lugar, a matéria, o cliente ou os meios construtivos da arquitetura são idênticos, e toda cópia acaba modificada por repetição, seriação ou seus similares, e torna-se uma estratégia de transformação ou combinação” (2). Ou seja, qualquer esquema de organização disponível no repertório histórico admite que se crie inúmeros projetos diferentes a partir dele, sendo sua generalidade e abstração transcendida no momento em que adquire historicidade (isto é, passa a ser influenciado pelo seu contexto físico, social, cultural e econômico).

Museu de Arte Kimbell, acesso inferior, Fort Worth, Texas, EUA, 1972. Arquiteto Louis I. Kahn
Modelo tridimensional Miguel Bernardi / Imagem Edson Mahfuz

Aulário 3 (unidade de Alicante), vista externa, San Vicente del Raspeig, Alicante, Espanha, 2000. Arquiteto Javier Garcia-Solera
Modelo tridimensional e imagem Edson Mahfuz

A análise comparativa de dois projetos pode ajudar a deixar isso mais claro. São eles o Museu de Arte Kimbell, construído em Fort Worth, Texas, EUA (1966-72), de autoria de Louis Kahn, e o Aulário 3 da Universidade de Alicante, Espanha (1998-2000), cujo autor é Javier Garcia-Solera. Ambos empregam uma estratégia projetual que dispõe faixas ou retângulos paralelamente para atender a programas diferentes. Descrita sinteticamente essa estratégia poderá ser confundida com que foi empregada por Le Corbusier nas casas Jaoul e Sarabhai, já analisadas nesta série (3). Naquele caso estávamos diante de organizações em que as naves paralelas são equivalentes tanto hierarquicamente como dimensionalmente. No caso presente há uma alternância de faixas de tamanho e natureza diferentes.

A escolha destes dois exemplos se deve ao fato de representarem soluções diferentes que partem de uma mesma estratégia compositiva. O fato de que não há qualquer relação de influência do primeiro para o segundo ajuda a reforçar a noção de que há certas constantes na arquitetura que independem de tempo e lugar. A origem desse esquema de blocos paralelos é difícil de localizar – e talvez nem seja importante fazer isso – mas ele já aparece no ensino de Jean-Nicolas-Louis Durand quando se refere às combinações de cinco e sete intervalos entre colunas.

Museu de Arte Kimbell, vista aérea, Fort Worth, Texas, EUA, 1972. Arquiteto Louis I. Kahn
Modelo tridimensional Miguel Bernardi / Imagem Edson Mahfuz

Aulário 3 (unidade de Alicante), vista externa, San Vicente del Raspeig, Alicante, Espanha, 2000. Arquiteto Javier Garcia-Solera
Modelo tridimensional e imagem Edson Mahfuz

A organização do Museu Kimbell pode ser entendida de um modo abstrato, como a disposição de 16 espaços retangulares de aproximadamente 30x6m – sendo três deles pórticos exteriores no lado oeste –, com faixas de serviço de 1,80m entre elas, ou, por meio de um olhar mais histórico, como a disposição regular e simétrica de três blocos, sendo o bloco central menor do que os laterais e aquele em que estão situados os acessos e as circulações verticais, sendo os outros dedicados a exposições.

Essa segunda interpretação é perfeitamente aceitável se tratando de Kahn, cuja formação se deu em uma escola que seguia os princípios da Belas Artes francesa, a tal ponto que a distinção estabelecida por Julien Guadet no início do século 20 entre espaços servidos e espaços serventes é algo que fica aparente na maioria dos projetos da fase mais importante da sua arquitetura, iniciada com a ampliação da Galeria de Arte de Yale. Aqui também se pode identificar claramente esses dois tipos de espaços: as naves abobadadas sendo servidas pelas faixas estreitas e de menor altura que lhes são adjacentes. É nessas faixas menores que estão localizadas escadas principais, depósitos e nichos que recebem os painéis que permitem subdividir o espaço; além disso as instalações correm horizontalmente pelo espaço entre a laje e o seu forro rebaixado. Segundo Kahn, essas faixas menores são “uma disponibilidade não planejada. Uma planta só é boa quando muitas coisas podem acontecer sem destruí-la”.

Museu de Arte Kimbell, vista externa, Fort Worth, Texas, EUA, 1972. Arquiteto Louis I. Kahn
Modelo tridimensional Miguel Bernardi / Imagem Edson Mahfuz

O mesmo olhar histórico não deixará de relacionar a organização deste edifício – especialmente quando visto desde o leste – com a superposição de base e piano nobile tão comum na arquitetura pré-moderna.

Em termos programáticos, a planta baixa do museu abriga um lobby/galeria, escritórios, laboratório de conservação de obras de arte, estúdio fotográfico, oficinas, depósitos e doca para acesso de caminhões. Na planta alta fica o museu propriamente dito: galerias, restaurante, loja, auditório, pátio e biblioteca.

A unidade espacial básica do Kimbell é uma sala de 30x6m coberta por uma abóbada ciclóide e apoiada em quatro pilares, dois em cada extremo. O conjunto das 16 salas juxtapostas forma um todo que atende não apenas aos objetivos de Kahn – obter uma grandeza romana por meio de técnicas modernas – mas também os do museu, que eram dotar o novo museu de flexibilidade, luz natural abundante, simplicidade harmoniosa, sensação de acolhimento, intimidade e uma certa elegância.

Museu de Arte Kimbell, vista interna, Fort Worth, Texas, EUA, 1972. Arquiteto Louis I. Kahn
Modelo tridimensional Miguel Bernardi / Imagem Edson Mahfuz

A luz natural aparece como protagonista do espaço, não apenas nas abóbadas, caracterizadas pelas aberturas lineares no seu ponto mais alto e seu sistema de difusão da luz, mas também por meio dos pátios que Kahn inseriu na planta e que modificam para melhor o espaço total em grande medida. Um desses pátios vai até a planta baixa, qualificando os espaços de trabalho mais privados.

Um aspecto recorrente da obra madura de Kahn é aqui muito evidente: o ponto de partida, o esquema de organização inicial é, na maioria dos casos, simétrico e regular. Com a adequação ao programa e ao lugar, essa rigidez inicial vai sendo suavizada e a distribuição interna de partes que do exterior parecem iguais é bastante modificada. Isso é muito claro na planta principal do Kimbell: enquanto de um lado há o auditório, um elevador de carga, uma escada e o maior dos pátios, do otro há dois pátios bem menores e duas escadas que dão acesso ao nível inferior.

Museu de Arte Kimbell, vista interna, Fort Worth, Texas, EUA, 1972. Arquiteto Louis I. Kahn
Modelo tridimensional Miguel Bernardi / Imagem Edson Mahfuz

O tema da circulação reforça a observação anterior. Embora o acesso desde o exterior se dê por portas localizadas sobre o eixo de simetria da organização tripartida, no interior do edifício a circulação é raramente determinada pelo sistema de faixas paralelas – isso só acontece quando se sobe ou desce as escadas públicas que unem os dois níveis – acontecendo na maioria dos casos diagonalmente.

Um assunto quase nunca discutido em relação ao Kimbell é o do acesso de visitantes. Kahn claramente imaginou que sua aproximação se daria de modo transversal ao eixo principal, com os visitantes chegando das ruas laterais, passando pelos dois pórticos alinhados aos acessos para só então girar 90 graus e atingir a porta principal recuada sob o terceiro pórtico, voltado para o oeste. No entanto, Kahn parece não ter entendido que no Texas a maioria das pessoas se desloca em automóveis particulares e, não sendo possível estacionar nas ruas laterais, só resta o próprio estacionamento do museu, no lado leste, muito mais próximo da entrada inferior. Portanto, na prática, a entrada principal do museu hoje é a que existe na planta baixa, afortunadamente bem resolvida e que leva ao mesmo ponto que a entrada superior.

Museu de Arte Kimbell, vista interna, Fort Worth, Texas, EUA, 1972. Arquiteto Louis I. Kahn
Modelo tridimensional Miguel Bernardi / Imagem Edson Mahfuz

Imagine tomar uma das alas laterais do Kimbell e realizar uma operação conceitual: as faixas intersticiais, mais estreitas, se tornam espaços exteriores, e todos os módulos maiores passam a ser espaços interiores. Some-se a isso um módulo mais de cada tipo e temos o Aulário 3 da Universidade de Alicante! (até mesmo o pátio que abre uma das faixas mais largas está presente).

Como já havia sido mencionado no início, fazer uma leitura das estratégias da arquitetura sem levar em conta sua historicidade é reduzir o processo de projeto a um esquematismo sem conteúdo. Vimos como o esquema usado por Kahn ganha corpo a partir do programa e das pretensões dos clientes. Em Alicante, um número de condicionantes influi decisivamente no resultado final do projeto: a posição periférica do terreno, cercado de estacionamentos, sua destinação inicial para grandes depósitos e o fato decisivo de que as estacas de fundação já estavam executadas, formando uma trama de 5x10m com pouca capacidade portante. Além disso, o projeto deveria estar pronto em 45 dias e a obra em seis meses.

Aulário 3 (unidade de Alicante), vista área, San Vicente del Raspeig, Alicante, Espanha, 2000. Arquiteto Javier Garcia-Solera
Modelo tridimensional e imagem Edson Mahfuz

A posição e a capacidade daquelas fundações levou a uma organização seriada composta por sete blocos de mesma dimensão em planta (43,6x13,15m) e seção variável (a altura interna é sempre 3m), separados por pátios lineares (de 2,5m e 4,3m) mas unidos por pontes metálicas leves que possibilitam a circulação contínua longitudinal através de todo o aulário. Os dois blocos mais a norte (mais próximos do centro do campus) são diferentes das demais, abrigando salas menores, escritórios, uma pequena cafeteria e um pátio que resolve o problema de falta de hierarquia de toda organização serial, criando um espaço de centralidade. Nas demais cinco peças há sempre duas salas de aula maiores e um bloco de sanitários ao lado da circulação principal.

Cada um dos sete blocos é composto por uma estrutura de paredes e lajes de concreto capazes de se apoiar nas fundações existentes e ter balanços em qualquer direção. Os lados menores são totalmente opacos (outra decorrência do entorno hostil) sendo os maiores abertos para os pátios e protegidos por quebra-sóis verticais de alumínio. Os acabamentos são compatíveis com os prazos curtos e o orçamento limitado; mesmo assim, em termos construtivos estamos diante de uma obra de muita qualidade.

Aulário 3 (unidade de Alicante), vista externa, San Vicente del Raspeig, Alicante, Espanha, 2000. Arquiteto Javier Garcia-Solera
Modelo tridimensional e imagem Edson Mahfuz

É interessante constatar como dois projetos que partem de um mesmo esquema têm como resultado edifícios tão diferentes em quase todos os aspectos. No Kimbell as faixas paralelas se combinam para formar espaços interiores de extensão considerável, distinguindo-se entre si pelo papel que desempenham: ou servem ou são servidas. No Aulário, as faixas são, por natureza, diferentes: as mais largas abrigam o programa de necessidades, as mais estreitas se encarregam de proporcionar iluminação e ventilação. Parece claro que, se há originalidade nestes projetos, ela não está na estratégia adotada, mas sim como foi desenvolvida.

Não parece sensato praticar uma profissão sem utilizar o conhecimento acumulado ao longo de muitos séculos. Quem recorre a esse repertório quase infinito evita reinventar aquilo que já existe e foi testado muitas vezes, assim como garante uma continuidade histórica que é essencial a qualquer um. Inovação será importante sempre que surgirem problemas para os quais não há precedentes; tentar inovar sem que haja necessidade disso é abrir as portas para a arbitrariedade.

Aulário 3 (unidade de Alicante), vista externa, San Vicente del Raspeig, Alicante, Espanha, 2000. Arquiteto Javier Garcia-Solera
Modelo tridimensional e imagem Edson Mahfuz

notas

NE – Texto originalmente publicado em Summa+, n. 154, Buenos Aires, dez. 2016.

NA – Os modelos de onde foram extraídas as ilustrações deste artigo podem ser baixados do site Arquiteturas Exemplares.

1
Frase de Helio Piñón, durante conferência em Porto Alegre.

2
MOLINA, Santiago de. Las estrategias de la arquitectura, en dos palavras. Múltiples estrategias de arquitectura, 20 abr. 2015 <https://bit.ly/2J9hQ3l>.

3
Ver MAHFUZ, Edson. Le Corbusier e a atualização das abóbadas. Casas Jaoul (1951-56) e Casa Sarabhai (1952-55). Projetos, São Paulo, ano 19, n. 217.05, Vitruvius, jan. 2019 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/19.217/7248>.

sobre o autor

Edson da Cunha Mahfuz é arquiteto e professor de projetos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

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