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SEGAWA, Hugo. Casas Vetustas. Resenhas Online, São Paulo, ano 01, n. 001.19, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.001/3260>.


Volta e meia, a imprensa estampa ou transmite matéria denunciando o estado de conservação de coloniais conjuntos arquitetônicos ou velhos casarões (como o imaginário popular batiza qualquer construção vetusta), ameaçando ruir – lugares e edificações que comporiam a memória arquitetônica e cultural de São Paulo. Notícias recentes dão conta dos esforços quixotescos de gente de Iguape, ou São Luiz do Paraitinga, ocupada em enfrentar o implacável rigor do tempo e a ausência de uma política consistente e duradoura dos organismos que deveriam promover a preservação desses lugares. Na prática, essas manchetes nem são tão recentes, porquanto o problema é recorrente: as notícias de hoje se parecem com as de ontem, e se confundirão com as de amanhã.

Velhas construções, respeitadas pela pátina dos anos, desprezadas pela exaustão de um esplendor ou de uma utilidade passados, obstáculos do “progresso” das cidades, ou feito castelos abandonados no campo: que consideração elas têm merecido, quando não vislumbradas apenas como resquícios para evocações fabulosas, regressões saudosistas para passados sem volta, referências perdidas na dinâmica urbana, ou imóveis valiosos para bem engendradas iniciativas imobiliárias?

Casa Paulista, do arquiteto Carlos A. C. Lemos, constitui um raro (em muitos sentidos) registro de um olhar sensível sobre o morar e seus espaços em terras de Piratininga. O autor, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é uma referência obrigatória aos que se dedicam à teoria e história da arquitetura brasileira, com uma consolidada trajetória de pesquisador e historiador de nossas realizações construídas. Em seu 14° livro, a arquitetura é protagonista, mas, além da materialidade inerente à construção – e esta é a base primeira de suas reflexões –, o autor indaga sobre a vida daqueles que percorreram os corredores, alcovas e quintais desses misteriosos casarões. Vida de gente que, desaparecida há muito, deixou rastros, evidências que o investigador foi buscar na memória de viajantes e escritores, na iconografia antiga, em maços de cartórios, em inventários e testamentos – descrições que, além de frios registros dos bens deixados por extintos, são a revelação da cultura material do cotidiano de tempos passados, dos quais a casa e seus apetrechos acabam se constituindo nos últimos misteriosos remanescentes das formas ancestrais de existência.

O autor desenvolveu sua narrativa tendo como mote a “história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café”. Isto significou debruçar-se sobre construções, artefatos e costumes dos séculos 16 ao 19, cadenciando sua análise por ciclos econômicos (açúcar, mineração, café), regiões culturais (litoral, planalto, bacias hidrográficas), os programas de necessidades, as técnicas construtivas, os partidos arquitetônicos – temas em permanente interação na leitura de Carlos Lemos. Algumas vezes amparada em esclarecimentos feitos fora da própria obra, remetendo a publicações anteriores do autor, como Cozinhas etc., Arquitetura Brasileira, O que é Arquitetura, ou Alvenaria Burguesa, que, se não é de todo mau enquanto alargamento de horizontes sobre a temática, obriga o leitor em iniciação a mais um sobrepasso para o domínio da matéria, deixando de usufruir de imediato as sutilezas presentes em Casa Paulista. Até porque este livro é também uma condensação do muito que se especulou sobre o passado das casas paulistas e uma atualização do pouco que se pesquisou a respeito em tempos recentes.

Os trabalhos de Carlos Lemos têm uma ascendência direta nas inquietações que rondaram a estirpe fundadora do que hoje se chama Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, cujas bases foram lançadas em 1936 no anteprojeto de criação do Serviço do Patrimônio Artístico Nacional, elaborado por Mário de Andrade. Como se sabe, intelectuais modernistas paulistas como Mário, Paulo Duarte e Sergio Milliet estavam na origem das preocupações sobre a preservação da nossa memória cultural nos anos 1930, na qual modernidade e tradição não constituíram propriamente um dualismo. A dita casa bandeirista esteve em litígio tanto pelos defensores da mitificação dos heróis bandeirantes promovida pelos institutos históricos (que Mário chamava de “passadistas”), como pela vertente modernista derivada dos agitadores da Semana de 22. A casa colonial foi uma inspiração para os nossos arquitetos modernos: Lúcio Costa (o urbanista de Brasília, também o pensador maior das visões sobre o nosso passado arquitetônico), ao projetar em 1940 o hoje clássico conjunto de prédios residenciais no Parque Guinle, Rio de Janeiro, evocava a tradição da moradia paulista para propor um reagenciamento dos espaços de vivência. A atitude de Costa teria desdobramentos significativos nos modos eruditos de projetar na arquitetura doméstica de São Paulo nos anos 1960.

Casa tradicional colonial que encontrou seu pioneiro hermeneuta e ideólogo num discípulo de Mário de Andrade: Luís Saia – diretor do escritório de São Paulo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de 1937 até sua morte, em 1975, e que teve seus escritos reunidos em 1972 no livro Morada Paulista. Saia, instaurador de uma interpretação da habitação paulista, não teve em Carlos Lemos (de uma geração seguinte) um discípulo propriamente, mas em alguns casos, um contrário. Sem negar a contribuição de Luís Saia, Lemos vai desenvolver suas apreciações abeberando-se diretamente nas fontes: Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Lúcio Costa, e tendo como interlocutores pesquisadores não-arquitetos como Ernani Silva Bruno, Maria Ruth Amaral Sampaio, Aracy Amaral, entre outros.

Entre Morada Paulista e Casa Paulista há uma distância, e devemos respeitar os significados de cada obra em seus devidos tempos, apesar do parentesco nos títulos. Luís Saia, como dito, foi um precursor, um intelectual filiado numa causa moderna e que se valeu sobretudo da obstinação e da intuição para formular interpretações engajadas e pioneiras a partir dos anos 1940. Seus escritos resistem como clássicos de uma época de afirmação modernista. Carlos Lemos, com a serenidade de quem se valeu de pacientes pesquisas documentais e de campo por quase 50 anos, alargou o espectro sobre a morada paulista, valendo-se também de estudos realizados no curso de pós-graduação da FAU-USP e outras instituições para encorpar e atualizar o conhecimento sobre um passado – apesar de tudo – ainda nebuloso. No entanto, essa vertente de estudos do cotidiano e da história doméstica pelo viés da arquitetura vem tendo cada vez menos praticantes em tempos recentes. E vale ressaltar: se algo se fez em São Paulo, pouco se aprofundou contemplando as demais regiões do País. Nesse sentido, Casa Paulista corre o risco de ser o último grande e abrangente escrito sobre os modos de morar do passado na Colônia e no Império, sob a óptica da arquitetura e de seus espaços, num diapasão distinto dos enfoques mais recentes contemplando estudos de gênero ou da “vida privada”, que geralmente passam ao largo do exame de vestígios materiais para suas elaborações teóricas – muitos dos quais deixaram de existir, nestas últimas décadas. Longe de termos clareza ou domínio pleno sobre o nosso passado, Casa Paulista é também um registro melancólico do quanto perdemos de testemunhos arquitetônicos nestas últimas décadas, que remanescem apenas nas fotos, desenhos e nos depoimentos de Carlos Lemos.

Claro que não podemos, por último, esquecer dos múltiplos sentidos que a casa pode assumir. Os sentidos da casa transcendem as impressões mais imediatistas. A casa pode ser uma construção poética a respeito do campo, da cidade, dos modos de morar, das relações entre as pessoas, enfim, metáforas que cada um de nós pode construir. Carlos Lemos também constrói a sua casa – em especial, a casa paulista, uma fascinante construção.

[texto originalmente publicado no Jornal da Tarde com o título "Um olhar sobre a arquitetura de morar paulista", Caderno de Sábado, Sábado, 05 de junho de 1999. Reprodução proibida sem autorização do autor]

leia também"Um olhar arquitetônico", de Carlos Antônio Leite Brandão, sobre o livro de Carlos Lemos 

sobre o autorHugo Segawa é arquiteto, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de SãoPaulo.

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resenha do livro

Casa paulista

Casa paulista

História das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café

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1999

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