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GUERRA, Abilio. A esfinge silenciosa. Resenhas Online, São Paulo, ano 01, n. 001.14, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.001/3265>.


Um pequeno livro, lançado no ano passado, passou quase desapercebido. Com um título provocativo – Por uma história não moderna da arquitetura brasileira – e uma escrita afiada, busca abrir espaço para uma futura história do Ecletismo nacional. A inexistência de bons estudos sobre o tema é atribuída à hegemonia da história do modernismo, constituída à sombra do ideário de Lúcio Costa. Segundo Puppi, autor do livro, ao esquematizar a evolução histórica de nossa arquitetura na antinomia nacional (positivo) versus internacional (negativo), Lúcio Costa considerou o ecletismo um estrangeirismo desqualificado. O autor critica (com inteira razão) tal modelo interpretativo, onde "verdades" são advogadas sem o amparo dos "fatos". Todos os autores subsequentes esbarrariam, direta ou indiretamente, nesse interdito original, consolidando com o tempo a "vilanização" do ecletismo.

Puppi manipula com grande controle os textos selecionados, demonstrando as filiações, adulterações, falseamentos, deslizamentos conceituais, montagens e desmontagens de esquemas e periodizações. O leitor fecha o livro com a satisfação de ter verificado os mecanismos de engendramento de visões sobre nós mesmos que de tão corriqueiras poderiam passar por naturais. Contudo, convivendo com essa qualidade, dois problemas prejudicam o equilíbrio geral do livro.

Em primeiro lugar, afora referências genéricas, inexiste uma preocupação sistemática com o profundo enraizamento do pensamento de Lúcio Costa em nosso universo cultural, em especial na ampla discussão das vicissitudes da cultura nacional que monopolizou por décadas – antes e depois – nosso debate intelectual. A montagem dos lugares-comuns da história da arquitetura brasileira ultrapassam em muito os textos de Lúcio Costa e o enfoque personalizado de Puppi só colabora na mistificação de seu protagonismo e na corroboração de uma história feita por gênios e heróis.

O segundo ponto de incômodo é mais dissimulado. Ao reivindicar um lugar de honra para o ecletismo, Puppi provoca uma grande curiosidade: quais seriam as qualidades nunca vistas do ecletismo? Esboçada, uma vaga resposta surge no final do livro e é surpreendente: teria escapado aos estudiosos a dimensão positiva do ecletismo – sua relação com o pensamento racionalista francês e, em decorrência, seu papel progressista nas três primeiras décadas deste século.

Sem qualquer pesquisa factual, Puppi coloca o ecletismo na genealogia do moderno. Surpreende não apenas o fato em si, mas também a percepção de que todo o esforço crítico se esfumaça na atitude conformista de incluir o estilo eclético na história do vencedor, ou seja, avaliar "em que medida a modernidade do passado [do eclético, no caso] está presente na arquitetura moderna carioca" (p 180). Ao priorizar a continuidade, Puppi retira do modernismo talvez sua bandeira mais cara: a da ruptura com o passado!

O livro de Marcelo Puppi nos abre uma perspectiva interessante para avaliar um outro lançamento de peso, o esperado Arquiteturas no Brasil, 1900-1990, de Hugo Segawa. Esperado não só devido às grandes qualidades de seu livro anterior sobre Oswaldo Bratke, mas principalmente pelo desafio que aceitou: tirar do francês Yves Bruand o privilégio da autoria do único manual sobre a arquitetura brasileira do século XX. Interessante notar que Segawa e Puppi compartilham o mesmo juízo crítico sobre a arquitetura contemporânea brasileira: suas diversas qualidades esbarram na abordagem laudatória e apologética do modernismo feita pela historiografia existente.

O plural do título não é suficiente para dar ao ecletismo uma posição de destaque na evolução arquitetônica brasileira deste século, mesmo que Segawa crie essa expectativa ao afirmar que Bruand "assimilou todos os preconceitos modernistas contra a arquitetura do ecletismo" (p 15). As arquiteturas de Segawa derivam de uma avaliação prévia – "não há definição unívoca de modernidade" (p 16). O nódulo comum, que permite às múltiplas "modernidades" compartilharem o mesmo rótulo genérico, é a participação na modernização do país. Tal perspectiva permitiria, caso fosse desejo do autor, a entrada do ecletismo comprometido com o progresso no quadro geral das "arquiteturas brasileiras". Estaria assim realizado o sonho de Marcelo Puppi!

A semântica adotada por Hugo Segawa – "a busca de alguma modernidade", "modernidade pragmática", "modernidade corrente", "episódios de um Brasil grande e moderno" – confirma a prevalência de uma visão de história apoiada nos vetores gerais da evolução social. Consequentemente, onde a narrativa segue à risca tal estrutura, ganha mais peso e densidade. É o caso, por exemplo, dos projetos das grandes hidroelétricas, vistos como materializações do ideário desenvolvimentista, ou dos projetos seriados para os órgãos públicos (Correios e Telégrafos, Escolas), em total sintonia com a racionalização da administração proposta pelo Governo centralizador de Vargas.

A periodização de Hugo Segawa tem como critério básico o modo como cada momento se relaciona com o processo de modernização tecnológica e social do país. Nosso primeiro modernismo (Warchavchik e Flávio de Carvalho), tributário do funcionalismo vanguardista europeu, é chamado de "modernismo programático". À margem desse modernismo engajado, temos a "modernidade pragmática", um sem número de experiências construtivas dos mais diversos extratos (industrialismo de Roberto Simonsen, moderno a la Perret, arranha-céu Art Déco), cujo ponto comum é a modernização da construção civil.

Ao processamento histórico resultante do encontro entre Le Corbusier e o grupo de Lúcio Costa, Segawa chama de "modernidade corrente", adjetivação indicativa da supremacia desta em relação às outras modernidades. Contudo, seu método se mostra esquemático e ineficaz ao tratar da síntese primitivismo-modernização e os resultados que obtém na compreensão das razões da hegemonia ficam aquém dos conquistados por Puppi.

Ao priorizar a coordenada externa da evolução sócio-econômica, Segawa acaba por esvaziar – tal como Puppi o fizera por caminhos totalmente diversos – a faceta transgressora e engajada do modernismo. O decalque quase absoluto às idéias modernistas presente nas páginas de Bruand é substituído pelo relativismo, onde cada modernidade dá sua contribuição específica no caminho do progresso. E nunca é demais denunciar que o relativismo absoluto acaba por justificar toda e qualquer mazela. Como não sentir um frio na espinha diante da absolvição completa do arrivismo neo-liberal dos grandes escritórios, tendo como justificativa o compromisso destes com a "eficiência tecnológica"? (p 196)

Mesmo se constituindo em importantes colaborações para o estudo mais sistemático que começa a se consolidar em torno de nossa arquitetura, os dois livros deixam intacto o constructo ideológico chamado arquitetura moderna brasileira. As perguntas que nós, investigadores da arquitetura, estamos fazendo devem estar equivocadas. Afinal, a esfinge permanece silenciosa.

nota

Texto originalmente publicado no Jornal de Resenhas, Discurso Editorial / Usp / Unesp / Folha de São Paulo, nº 51, 12 junho, São Paulo SP, p 2.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor da FAU PUC-Campinas e editor de www.vitruvius.com.br

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