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FONSECA, Maurício A.. Le Corbusier e a conquista da América. Resenhas Online, São Paulo, ano 01, n. 001.08, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.001/3271>.


“Tentei a conquista da América movido por uma razão implacável e pela grande ternura que voto às coisas e às pessoas. Compreendi, entre esses irmãos apartados de nós pelo silêncio de um oceano, os escrúpulos, as dúvidas, as hesitações e os motivos que explicam a condição atual de suas manifestações. Confiei no amanhã. Sob uma luz como esta, a arquitetura há de nascer.” (Le Corbusier. Précisions)

O arquiteto franco-suíço Le Corbusier é tido como um dos maiores arquitetos do século XX e pioneiro da arquitetura moderna mundial.

Após ter estabelecido, através de vários projetos e estudos, uma arquitetura tecnicamente fundamentada e capaz de atender aos reclamos físicos do homem, começou a ocupar-se da dimensão social e psicológica do ser humano tornando-se um idealista em demanda de um mundo mais harmônico.

Le Corbusier – Riscos Brasileiros de Elizabeth D. Harris, esclarece através de farta documentação como este mestre influenciou a arquitetura brasileira a romper com o neoclassicismo dominante nos anos 20 para produzir uma arquitetura de vanguarda e tornar-se líder no universo da arquitetura moderna.

O livro narra as viagens de Le Corbusier ao Brasil, seus projetos e colaborações com arquitetos brasileiros, sobretudo o projeto para a sede do Ministério da Educação e Saúde (Rio de Janeiro, 1929) edifício que deixou perplexos arquitetos do mundo inteiro e foi considerado pela imprensa mundial como o mais belo edifício oficial do ocidente.

Desenvolvimento

Le Corbusier viajou o mundo inteiro ao longo de sua carreira. Seu profundo interesse pelo planejamento urbano e consciência social fez com que se voltasse para os países em desenvolvimento. Foi graças ao trabalho executado nestes países que suas idéias mais avançadas, referentes à adaptabilidade da arquitetura ao clima e a necessidade de casas populares, puderam frutificar e ser mais prontamente absorvidas.

Foi o Brasil que provocou nele o impacto mais duradouro e constituiu o terreno mais fértil para a implantação de suas idéias. O responsável pela "apresentação" do Brasil a Lê Corbusier foi seu amigo e conterrâneo, o poeta Blaise Cendrars, figura importante nos círculos artísticos locais ao lado de nomes como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Cendrars colocou o arquiteto em contato com a intelectualidade brasileira da época que se fez presente em suas conferências sobre urbanismo em 1929. Nesta primeira visita elaborou um plano urbanístico para o Rio de Janeiro que incluía um dos primeiros projetos de alojamentos para as classes populares do século XX. Este primeiro contato marcou profundamente o arquiteto:

"Tentei a conquista da América movido por uma razão implacável e pela grande ternura que voto às coisas e às pessoas. Compreendi, entre esses irmãos apartados de nós pelo silêncio de um oceano, os escrúpulos, as dúvidas, as hesitações e os motivos que explicam a condição atual de suas manifestações. Confiei no amanhã. Sob uma luz como esta, a arquitetura há de nascer." (Le Corbusier. Précisions)

O próprio Le Corbusier fez tal visão materializar-se quando regressou ao Brasil e traçou o esboço original para o Ministério da Educação e Saúde em 1936.

O desenvolvimento da arquitetura moderna no Brasil teve seu ponto de partida na Semana de Arte Moderna de 1922, paralelamente ao que ocorria em outros países da América Latina; entretanto, o Brasil destacou-se, nos primórdios do século, por um grupo inovador de engenheiros que aprimorou a tecnologia do concreto armado, e de arquitetos e engenheiros que atualizaram o currículo da Escola Nacional de Belas-Artes, incitados por Lúcio Costa que fora nomeado seu diretor. Essas realizações prepararam o Brasil para a visita de Le Corbusier em 1936 e a implantação de suas teorias.

Em 1934, sob o governo de Getúlio Vargas, é criado o Ministério da Educação e Saúde e nomeado o Ministro Gustavo Capanema que fez da construção da sede do Ministério uma prioridade.

Em 23 de março de 1935 é publicada em Diário Oficial a convocação para o Concurso Público para escolha do projeto. O concurso provou que o Brasil adentrara numa nova era, acolhendo arquitetos tanto tradicionais quanto progressistas. O vencedor deste concurso foi Archimedes Memória, porém o resultado final não agradou ao Ministro que após submete-lo a apreciação de engenheiros e consultores do governo julgou-o inadequado ao seu objetivo de fazer do edifício uma notável obra de arquitetura, digna de nossa cultura.

Após consultar várias organizações de engenheiros e arquitetos, Capanema solicitou a Lúcio Costa um novo projeto para o Ministério. A honra prestada a Lúcio Costa não foi percebida como uma oportunidade pessoal, mas como uma vitória de toda uma geração de arquitetos batalhadores, desta forma foram convocados por ele vários colegas para trabalharem neste projeto: Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcelos e o então pouco conhecido Oscar Niemeyer.

O projeto de Lúcio Costa e seu grupo esforçou-se por incorporar os preceitos racionais de Le Corbusier, com o uso de pilotis definindo a estrutura de apoio e liberando o térreo para tratamento paisagístico de integração dos espaços internos e internos, uso de quebra-sóis nas fachadas mais ensolaradas, cortinas de vidro, planta livre, jardins na cobertura e uso de ventilação e iluminação naturais.

Para demonstrar a integridade estrutural do projeto, Capanema solicitou uma revisão crítica a oito autoridades imparciais. O resultado foi um empate e grandes criticas a adaptação do projeto aos princípios de Le Corbusier considerados de futuro duvidoso.

Com tantas criticas e pressão por parte de engenheiros e arquitetos, Capanema compreendeu que se quisesse insistir num projeto progressista tinha que assegurar a qualidade final do produto. Se todos os aspectos do projeto eram inspirados nos princípios de Le Corbusier, somente o próprio poderia garantir a excelência do desenho. Resolveu-se convidar Le Corbusier para ministrar um curso de dois ou três meses na Escola de Belas-Artes e dar consultoria para o projeto do Ministério.

Durante sua estada de cinco semanas, o arquiteto proferiu seis conferencias, desenvolveu, orientando os arquitetos brasileiros, duas series de planos para a sede do ministério e produziu um plano intrincado para a cidade universitária do Rio de Janeiro.

Le Corbusier reformou inteiramente a abordagem do desenho arquitetônico no Brasil graças a sua maneira informal de ensinar em grupo, rejeitando o papel de docente e trabalhando como simples membro do grupo. Ele valia-se da técnica do trabalho em grupo por considerar que "nas escolas se aprende a contar e a escrever, mas só se inventa alguma coisa em trabalho de grupo. A porta do trabalho em equipe se abre para a vida" (Le Corbusier, Aircraft).

Le Corbusier considerou o projeto da equipe de brasileiros muito bom, porém rejeitou o terreno escolhido para a instalação do edifício, elegendo uma outra área, pertencente à municipalidade, mais próxima do mar e aberta às paisagens que tanto o impressionavam.

No geral, o plano de Le Corbusier foi concebido e elaborado com base nas suas idéias mais relevantes, já contidas no projeto da equipe de Lucio Costa e apenas corrigidas por ele, no entanto, as nuances sutis e a sofisticação dos esboços deram ao projeto vida nova. Acrescentou esculturas, afrescos, pinturas e mobiliários, sublinhando a importância de uma obra de arte completa, incorporando todos os aspectos das artes plásticas. Este cuidado com o acabamento impressionou muito os jovens brasileiros. Os desenhos das perspectivas internas e externas exemplificavam seu enfoque, realçando a tridimensionalidade do edifício em contraste com o traçado acadêmico da equipe.

Devido à dificuldade em se obter a liberação por parte do município da área escolhida por Le Corbusier, foi solicitado pelo Ministro um segundo projeto, a ser implantado na área original. Este projeto, devido à falta de tempo, não foi totalmente elaborado. Em dois dias só foi possível elaborar uns poucos esboços. Após sua partida, Le Corbusier continuou a participar do projeto através de cartas e dessa forma foi informado que, mesmo contra sua vontade, o terreno original fora escolhido para a implantação.

Após esta decisão a equipe de arquitetos brasileiros voltou a trabalhar em seu primeiro projeto, apenas corrigindo-o baseado-se nas criticas de Le Corbusier, desta forma sua visita parecera não ter causado grande impressão. No entanto, um arquiteto em particular sofrera profunda transformação: Oscar Niemeyer acolhera de coração as idéias do mestre. Durante o dia trabalhava nas alterações do projeto chamado pela equipe de "múmia" devido a sua rigidez, mas à noite passava horas desenhando um novo projeto, onde entravam os pontos essenciais dos projetos de Le Corbusier. Uma manhã, em dezembro de 1936, ele levou seus novos projetos para o estúdio e mostrou-os a Carlos Leão. Leão ficou profundamente impressionado com o notável design baseado nos esboços do mestre e a assimilação dos ensinamentos de Le Corbusier pelo jovem arquiteto. Quando Lucio Costa chegou, Niemeyer pegou seus planos e jogou-os pela janela, temeroso de que aquele o considerasse insolente por trabalhar sozinho num novo projeto. Leão falou a Lúcio sobre o impressionante conjunto de projetos elaborados por Niemeyer e insistiu com este para apanhá-los imediatamente.

A 5 de janeiro de 1937 os planos de Niemeyer foram apresentados oficialmente a Capanema à maneira profissional que Le Corbusier mostrara aos arquitetos brasileiros, incluindo um desenho em perspectiva com palmeiras imperiais, pessoas, carros e a sempre presente escultura O Homem Brasileiro, com dez metros de altura, de Celso Antônio.

Em 1942, a sede do Ministério da Educação e Saúde achava-se concluída. A força critica do Estado Novo condenou o projeto por seu elevado custo e construção demorada, a ele se referindo como o "Palácio do Luxo" e uma "preocupação megalomaníaca". Pouco depois um súbito silencio se abateu sobre a imprensa brasileira, quando arquitetos de Nova Iorque e Londres começaram a visitar o país e a relatar a excelência da arquitetura praticada no Brasil. Quando Philip Goodwin, arquiteto do Museum of Modern Art, visitou o Brasil em 1942 e afirmou considerar o Ministério como "o mais avançado edifício das Américas", os jornais brasileiros deram uma guinada e passaram a chamar o edifício de "uma obra notável da moderna arte brasileira".

Tão impressionado ficara Goodwin com a sede do Ministério, assim como com os demais edifícios inspirados por ela, que planejou uma grande exposição da arquitetura brasileira. A mostra foi inaugurada a 13 de janeiro de 1943, com todo o primeiro andar do Museum of Modern Art dedicado à exposição, depois viajou para vários museus e galerias universitárias fazendo sua ultima aparição em Londres, em abril de 1944.

Após a viagem de 1936, Le Corbusier seria convidado para trabalhar com arquitetos brasileiros em numerosos projetos, dentre eles o projeto das Nações Unidas (1947) que voltou a reuni-lo a Oscar Niemeyer, convidado para representar o Brasil na numerosa equipe de arquitetos. A reputação de Niemeyer fora grandemente favorecida com o projeto do Ministério. Em 1947 ele dispunha de seu próprio escritório e já estava empenhado na execução de outro projeto governamental, o da Pampulha. Nestes projetos para o edifício sede das Nações Unidas foram observadas muitas semelhanças com o projeto para o Ministério.

Le Corbusier chegou a ser consultado sobre uma possível participação na construção da nova capital do Brasil e respondeu dizendo que o projeto deveria ser criação brasileira, mas que gostaria muito de colaborar na construção da cidade. Corbusier foi impedido de concretizar esta ambição pela Ordem dos Arquitetos Franceses, por não ser membro desta instituição, que desprezava.

Apesar de Le Corbusier não poder participar pessoalmente na elaboração e construção de Brasília, Lucio Costa e Niemeyer esboçaram um plano urbanístico e projetaram edifícios que muito deviam as idéias de Le Corbusier.

O Brasil também causou profunda impressão pessoal em Le Corbusier, manifestada em sua constante amizade com os brasileiros e no brasileiríssimo estilo de vida que levava em sua casa de verão em Cap Martin, onde ele nadava todas as manhãs e tinha uma janela de onde se tinha uma imensa vista do oceano, vida tão semelhante à que ele levara no Rio de Janeiro como visitante.

Em 1962, Le Corbusier fez sua derradeira viagem ao Brasil. Desde a viagem de 1936, entusiasmara-se com a idéia de construir no país uma Casa Franco-Brasileira. Com Brasília ainda em construção, a Embaixada Francesa surge como uma oportunidade para Le Corbusier realizar seu sonho. Em dezembro de 1962 examina o local antes de preparar um plano. A viagem foi auspiciosa, porque reuniu todos os arquitetos e demais pessoas que participaram do projeto do Ministério da Educação e Saúde e deu-lhe a oportunidade de ver a estrutura acabada do edifício e a nova capital do Brasil.

A resposta de Le Corbusier ao que ele viu no Brasil em 1962 foi resumida numa carta que prefaciava a edição final de Ouevre Complète:

"Brasília esta construída. Eu vi a nova cidade. É grandiosa em sua invenção, coragem e otimismo; ela nos fala desde o coração. É obra de dois grandes amigos e, através dos anos, companheiros de luta: Lucio Costa e Oscar Niemeyer. No mundo moderno Brasília é única. No Rio há o Ministério da Educação e Saúde Pública (1936-1945). Há as obras de Reidy. Há o monumento aos que tombaram na grande guerra. Há muitos outros testemunhos. Minha voz é a de quem viaja através do mundo e da vida. Permitam-me amigos do Brasil, dizer-lhes muito obrigado!" (Le Corbusier, Ouevre Complète).

Conclusão

Usando uma linguagem predominantemente jornalística, a autora descreveu com riqueza de detalhes a relação mantida entre uma geração de arquitetos brasileiros e o mestre Le Corbusier. Fica claro através da leitura do livro o quanto nossa arquitetura moderna e a carreira desses arquitetos em particular foi influenciada pelas suas visitas.

Elementos e soluções arquitetônicas que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia, inovações que trouxeram, nas primeiras décadas do século XX, o futuro da construção civil para o Brasil. Sobretudo o esforço desta geração de arquitetos, engenheiros e autoridades que lutaram por fazer da arquitetura brasileira algo grandioso, belo e significativo, mostrando ao mundo todo o quanto o Brasil tinha e tem a dizer nesse ramo.

Lúcio Costa faleceu em 1998 depois de mais de setenta anos de carreira, Oscar Niemeyer continua ativo aos noventa e quatro anos de idade. Este livro nos mostra a aurora de suas carreiras, sem dúvida uma ótima referência, uma reflexão sobre os grandes feitos realizados no século que a partir de agora teremos que nos acostumar a chamar de "século passado".

sobre o autor

Maurício A. Fonseca é arquiteto formado pela UNIDERP Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal em 1996, e reside em Campo Grande MS

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