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ARANTES, Otília. Encontro visível, desencontro tangível. Resenhas Online, São Paulo, ano 01, n. 002.05, Vitruvius, fev. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/01.002/3249>.


Uma regra bem conhecida da vida acadêmica proíbe – aliás com razão – a argüição do orientador, mas não só autoriza como até estimula o Prefácio da tese que virou livro. Não fugirei à regra, com a ressalva de que aproveitarei a ocasião para relembrar que fui menos orientadora – a rigor quase nada – do que uma interlocutora a um tempo privilegiada e recalcitrante. Explico-me: durante os anos de elaboração deste trabalho Hygina e eu divergimos cordialmente. Havia porém método em nosso desencontro, pois ele se dava sobre o fundo de uma concordância tácita quanto à centralidade das categorias históricas cujo sentido estava em disputa. Nestas circunstâncias, acho que um retrato desse desencontro convergente poderá inclusive ressaltar ainda mais a originalidade deste livro, sob vários aspectos notável: do impressionante aparato teórico e histórico mobilizado à não menos desenvolta incursão nos domínios mais traiçoeiros da especulação filosófica acerca do atual estado das coisas arquitetônicas.

Assim sendo, peço licença para começar por uma recapitulação pessoal, mais exatamente, pelo resumo do argumento que acabara de desenvolver quando nossos caminhos se cruzaram – se não fui a primeira leitora do livro de Hygina sobre Baudrillard, publicado em 1988, devo ter sido uma das pessoas que mais se sentiu concernida por aquela apresentação pioneira do autor da economia política da simulação; et pour cause, como logo se verá. É que um ano antes, num dos encontros da Funarte – daquela vez, sobre o Olhar – ao fazer um mapa da terra de ninguém ideológica em que se transformara a arquitetura depois dos Modernos, eu havia atinado, por minha própria conta e risco, com o dispositivo  na origem daquela verdadeira ruptura de época, a que chamei, variando livremente um esquema de Walter Benjamin, de “disciplina tátil do olhar”, só que agora, numa sociedade inteiramente midiática, exercida no entanto, tal “disciplina”, com o sinal trocado. Meu ponto consistia então em deixar claro que a matriz desse novo regime da imagem numa sociedade comandada pelo derradeiro estágio da forma-mercadoria, quando a realidade passa a funcionar como o seu próprio marketing, devia ser procurada justamente na arquitetura, a cujo caráter originário de arte de massa se deveria atribuir aquela dominância tátil, que entretanto se apresentava como um novo inconsciente ótico. Ou seja, o que eu estava tentando dizer, e logo depois escrevi, é que, ao parecer consagrar o triunfo da pura visibilidade, a tão celebrada (para bem e para mal, mais para mal do que para bem, no caso de Baudrillard) onipresença do simulacro, poderia muito bem ser, por sua vez, uma miragem: de fato, nada mais nada menos, do que o arremate de uma escravização progressiva do olhar à hiperrealidade – como se dizia então –, sem dúvida imagética, porém de caráter eminentemente tátil, marca registrada de uma cultura de massa, da qual, no fundo, o paradigma era menos a óbvia televisão do que uma máquina arquitetônica de simulação.

Como disse, meu ponto de partida era uma breve passagem do famoso escrito de Walter Benjamin sobre “a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, na qual a entrada em cena das massas, ao mesmo tempo em que cancelava a pré-história contemplativa da arte autônoma, revelava retrospectivamente a implicação primordial da arquitetura na corrosão coletiva do valor de culto das imagens, uma vez que a forma de sua recepção – ao contrário, por exemplo, da pintura e do romance, âmbitos artísticos de individuação máxima, e que por isso mesmo não se prestam à apreensão imediata do grande público – só se dá pela “distração”. E com isso Benjamin queria dizer que, no caso dessa mais antiga arte de massa, a observação visual do observador solitário, que se absorve na contemplação da obra, cede o passo à apreensão tátil da “massa distraída, que faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absorve-a em seu fluxo”. Recepção coletiva que fora outrora o caso da poesia épica e acreditava estar se repetindo com o cinema em escala industrial. Desnecessário lembrar que, àquela altura, Benjamin pensava estar testemunhando uma reviravolta histórica, carregada de virtualidades emancipatórias em pleno curso. Assim, a atenção distraída, pragmática e fluída, descontínua e difusa, própria de uma tal apreensão coletiva, mas em que as reações, por isso mesmo, se controlam mutuamente (na intenção da qual não por acaso Brecht também concebera o seu teatro épico), deveria concorrer para algo como uma liberação da percepção para outras tarefas, abrindo caminho para uma arte antiburguesa e, quem sabe, revolucionária. Em resumo, esta predominância do tátil até mesmo no domínio visual mais ostensivo como o cinema – cujo efeito de choque requeria o mesmo distanciamento na percepção coletiva – permitia redescobrir no impulso anti-aurático da Arquitetura Moderna não só a herança reconquistada da primeira arte de massa, como a matriz construtiva de toda relação estética na era da reprodução técnica.

Era no entanto óbvio que, passados cinqüenta anos, já não era mais possível manter a mesma ilusão quanto às promessas de emancipação ligadas à irrupção do coletivo “tátil” na atmosfera atomizada da contemplação visual. De resto, o caráter regressivo da indústria cultural nascente fora assinalado pelo próprio Benjamin, confrontado com a espetacularização fascista da política: naquela estetização aterrorizante das massas em movimento e oferecidas a si mesmas em espetáculo sacrificial seria possível dizer que a dominância do tátil já era completa. Como hoje voltou a ser com o novo triunfo do capitalismo de imagens. Esse contraponto reversível entre o tátil e o ótico, na acepção materialista que lhes deu Benjamin, está também, a meu ver, na fórmula de Guy Débord para designar este último degrau da alienação: a “sociedade do espetáculo” – aliás a fórmula mesma da “lógica cultural” do capitalismo vindouro, como lembraria mais tarde Fredric Jameson, instruído, sem dúvida, pela leitura de Baudrillard (a quem cita). De sorte que a observação de Benjamin acabou sendo reposta em circulação para melhor reforçar um diagnóstico sombrio, mas agora, é claro, com a arquitetura de volta ao centro estratégico do novo campo de forças, a saber, o mundo devassado pelo “efeito televisão”, como costumava dizer o Baudrillard daquela década de 80, onde tudo se torna absolutamente próximo, mas cuja promiscuidade não é mais do domínio exclusivo do olhar, ou melhor, a devoração do olhar é enquadrada pelo disciplinamento “tátil” da recepção de massa. O mesmo Baudrillard – que de resto  não menciona obviamente essa invasão extemporânea da tatilidade – arremata o raciocínio observando que um tal olhar assim colado ao mundo das imagens hiperreais beira a cegueira: nada pode ser visto onde não há profundidade, onde não há sentido a ser desentranhado como se arranca um segredo que a realidade ao fim confessa, como no antigo cenário burguês da ideologia da transcendência. Daí a “obscenidade” do mundo contemporâneo: simplesmente não há mais nada em cena. Obscenidade da exposição plena, que cega, ao invés de seduzir, na extroversão do consumo ostensivamente explícito – da imagem de marca à guerra espetáculo eletrônico. Seria preciso insistir ainda na fantasmagoria tátil dessa nova obscenidade? Pois sendo assim a obscenidade o reino chapado da superfície numa sociedade em que a mercadoria assumiu de vez a forma publicitária – ou alguém ainda acha que a Nike vende tênis e o McDonald’s, hamburguer? –, a arquitetura, reduzida ela também ao consumo imagético, estaria por certo fadada (e ela antes de tudo) à pura extroversão fachadista ou cenarística, a exemplo da arquitetura representada na mostra Strada Novissima da Bienal de Veneza de 1980, e que me serviria de mote na conferência que estou evocando; para não falar nos casos estudados nos ensaios imediatamente posteriores, como o “efeito Beaubourg” ou o novo formalismo da “desconstrução” segundo Peter Eisenman.

Pois assim estavam mais ou menos arrumadas as coisas em minha cabeça quando Hygina e eu nos cruzamos. Com alguma presunção, creio que das idas e vindas de nossos argumentos simetricamente contrapostos, a inteligência e as leituras enciclopédicas de Hygina souberam extrair o livro que se vai ler – com certeza, a primeira obra brasileira de filosofia da arquitetura. E uma obra, por sua vez, comandada igualmente pela obsessão do tato, só que em todas as suas múltiplas variantes históricas, e não apenas na sua acepção materialista estrita em que o tomei (nele mesmo e em suas metamorfoses), conforme a civilização capitalista ia desautorizando suas promessas de liberação. Foco tão metodicamente perseguido a ponto de remontar até às considerações de Berkeley e Diderot sobre os desmentidos que reciprocamente se infligem os sentidos do tato e da visão. Não preciso adiantar que Hygina toma o partido da cegueira que no entanto permitiria ao fim “ver”, como ao cego filósofo de Diderot. Daí sua idéia divertida de substituir a Carta de Atenas por uma “Carta sobre uma arquitetura cega para o uso dos que vêem” – e nada enxergam. Uma arquitetura certamente restaurada com muito tato... Assim, num mundo dominado pela pura visibilidade e a tagarelice que a acompanha – juízo no qual os filósofos já poderão ir reconhecendo a desqualificação heideggeriana do homem cartesiano sem qualidades e a conversa oca da vida que não se deixa viver – será preciso encontrar o sentido perdido da experiência que só se dá pelo tato e, por isso mesmo, não faz abstração da mediação decisiva do corpo próprio. Transposto esse programa – se é que se pode falar assim – para o âmbito, agora ontologicamente fundamental, da arquitetura, ele se traduziria por algo como uma redescoberta da “tectonicidade” mesma da archi-tektura, bem como da sua origem (arché) como “lugar”. Esse, segundo Hygina, o contra-veneno a antepor à maré cenarística da simulação arquitetônica contemporânea, cuja transparência obscena – nos termos que se viu – desenraiza e faz o tempo evaporar. Em suma, poderia resumir o propósito do livro parafraseando ao pé da letra o título do meu: Hygina também está interessada em encontrar “o lugar da arquitetura depois dos Modernos”, lugar que considera pós-utópico, já que o Movimento Moderno arrastou consigo o que restava das utopias, por definição necessariamente arquitetônicas e urbanas. Ou então, nos termos mesmos da Autora: mostrar que somente uma arquitetura modestamente recentrada na apreensão tátil do mundo poderá resistir, e quem sabe suplantar, ao “vazio” arquitetônico atual, reinstaurando-a como “lugar” – aliás, seu sentido original.

Dito isto, não estou querendo afirmar que Hygina produziu uma confirmação erudita do meu argumento. Seria muita pretensão, mesmo se fosse verdade. Mas ocorre que infelizmente não é. Mesmo assim não teria nada a acrescentar ao seu capítulo inicial, ou à conclusão, acerca dos últimos avatares da arquitetura dita pós-moderna. Acho até que Baudrillard está coberto de razão ao afirmar que “fora o deserto nada mais é arquitetura”  –  ainda que suas razões não sejam exatamente as minhas. Como também talvez empregasse outras palavras para acompanhar Hygina em juízos como os seguintes: “o nominalismo da cultura contemporânea, a aniquilação topológica do ciberespaço das tecnologias em tempo real, a simulação e sua tautologia, no universo da comunicação de massas”; o consumo, como “prática idealista total”, que desmaterializa, irrealiza – e tudo o mais que na cultura do dinheiro conspira para tornar a realidade irreal – obviamente ameaça de morte uma arte como a arquitetura “marcada pela recepção tátil, pela solidez e indispensável materialidade do suporte”. E por que não haveria de acompanhar Hygina quando relembra mais uma vez que são precisamente tais características que habilitariam, como que por definição, a arquitetura a ocupar um papel estratégico na resistência ao programa suicida da civilização do não-lugar? Pois não se pode deixar de reconhecer que a mais elementar necessidade de habitar se dirige ao tato e às relações que instaura entre exterior e interior, medida e escala, limite, etc., todas elas relações características da arquitetura como lugar e por isso mesmo irredutíveis ao olho.

Reconhecendo porém esse terreno comum da resistência possível, seria preciso dar um outro passo, pondo desta vez em perspectiva a trincheira cavada por Hygina e todos os principais antagonistas da utopia moderna, alinhada com os imperativos sistêmicos da racionalização capitalista. Como de minha parte procurei dar esse passo – não sei se à frente ou de lado –, começa por aqui nosso desencontro. Mas aqui novamente divergência sobre o fundo de um acordo inicial. É que eu também, ao final daquele ensaio-conferência de 1987, “Arquitetura simulada”, contrapunha à colonização tátil do olhar a alternativa de um regionalismo renovado pela crítica, mais ou menos na linha de Rossi e Frampton. Não posso agora recapitular por extenso o modo pelo qual fui aos poucos reconstituindo a progressiva metamorfose do contextualismo anti-sistêmico num reforço “cultural” da fabricação de “lugares” pelo novo establishment urbanístico-arquitetônico. O fato é que em pouco tempo vi frustradas as minhas expectativas em relação a uma volta à cidade cuja estetização crescente mal encobria a estratégia empresarial em curso, baseada na promoção da aura obviamente bastarda dos lugares-isca, convertidos em penhor da “autenticidade” do enraizamento arquitetônico local, da conviviabilidade inclusiva, como se alega, ao mais predador city marketing. Não é preciso dizer que Hygina sabe muito bem disto tudo, e que a resistência tectônica que invoca ao longo do livro é justamente resistência a esse estado falso do mundo (como diriam os frankfurtianos). Embora desnecessário, assim mesmo aconselho o leitor em dúvida que se reporte às páginas em que enfaticamente inflete seu raciocínio acerca da arquitetura da cidade na direção, por exemplo, do espaço público em extinção. Não está evidentemente aqui o foco mais tangível do nosso desencontro, mas numa outra reversão do esquema de Benjamin – para abreviar um tanto abruptamente, com o auxílio de um nome eminente, o ponto cego em torno do qual ambas nos debatemos.

Não terá escapado ao leitor que, nas mãos de Hygina, aquelas características que definiriam a arquitetura como arte de massa – na acepção benjaminiana do termo – readquirem um surpreendente sentido positivo, não se trata mais de uma marca regressiva da moderna sociedade de consumo, recuperando algo como um não menos intrigante estatuto metafísico radical. Tudo se passa como se a própria arquitetura, em seu decurso histórico, cumprisse uma espécie de roteiro ontológico que paradoxalmente a devolveria ao seu enraizamento grego de origem. Pois é isso mesmo: Hygina redescobre nas noções aristotélicas de apeiron (indiferenciado), horos (borda) (“que permite separar o substrato de uma entidade, ousia, ou  seja, diferenciar o interior do exterior”) etc, o quadro ontológico que lhe permitirá definir a arquitetura-como-lugar, para além do espaço como abstração geométrica e do mero suporte físico, o resultado de uma operação tangível de delimitação na origem de um lugar-relacional, como queria Aristóteles, corrigindo antecipadamente Heidegger de “Construir, habitar, ser”, no qual se apoiaria Hygina no limiar de sua travessia filosófica. No meio do caminho assinalo de passagem a forte presença de Merleau-Ponty, cuja fenomenologia da percepção e do corpo próprio, além de neutralizar a falsa evidência da visualidade pura, também resiste com sucesso à avalanche da racionalidade instrumental do capitalismo de imagens.

Como acabei de observar, pois, ao reativar em clave metafísica as esperanças emancipatórias que Benjamin depositara nas virtualidades materialistas do sentimento tátil do mundo, Hygina simplesmente inverte o raciocínio original – eminentemente histórico –, bem como as conseqüências que eu mesma extraí, por minha conta, do esgotamento também datado daquele esquema. Posso é claro estar enganada. De todo modo, me revejo de ponta cabeça no espelho de Hygina. Mas vou logo esclarecendo que não se trata de preconceito contra o pensamento de sobrevôo. Ao contrário, em tempos de autonomização fetichista da economia de simulação – do capitalismo cassino, da moeda sem substância aos espaços empresariais inundados de uma falsa luminescência –, a transcendência exigida pelo impulso metafísico de ultrapassagem pode bem ter se tornado um exercício político de sóbrio realismo, comparado à imanência fantasmagórica da irrealidade contemporânea. No fundo Hygina e eu estamos de acordo, na medida em que o termo metafísica comparece em nossos respectivos argumentos ora como pensamento, ora como híbrido monolítico de realidade ofuscante e total intransparência. Vale no caso mais uma vez um argumento velho de meio século (para voltarmos aos mestres da escola de Frankfurt), adaptado para conforto de uma orientadora que afinal sempre se soube muito bem entendida: no momento mesmo em que o capitalismo globalizado se converteu na verdadeira cortina metafísica atrás da qual se concentra a desgraça real, a estúpida liquidação da metafísica pelo sucesso positivo do grande capital corporativo acabou revelando ao fim o princípio de esperança que ela ainda abrigava.

nota

O presente texto é datado de fevereiro de 2001 e foi publicado originalmente como “prefácio” do livro de Hygina Moreira Bruzzi, “Do visível ao tangível, em busca de um lugar pós-utópico”, BH, C/Arte, 2001. Republicação em Vitruvius autorizada pela autora.

sobre o autor

Otília Beatriz Fiori Arantes é professora de Estética no Departamento de Filosofia da FFLCH da USP.

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resenha do livro

Do visível ao tangível

Do visível ao tangível

Em busca de um lugar pós-utópico

Hygina Moreira Bruzzi

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